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QUINTANA COMPLETO

 

 

 

 

José Carlos Zamboni

 

 

O século XX tupiniquim, na literatura e nas artes, presenciou dois famosos surtos vanguardistas, um no início, a partir da mais famosa que relevante semana modernista de 1922, e outro em meados da década de cinquenta, com o menos relevante que famoso concretismo. O primeiro significou uma entrada um tanto atrasada no espetáculo da dita “modernidade”; o segundo, antecipou em alguns anos a grande reviravolta contraultural dos anos sessenta.

Não deixa de ser curioso o fato do período mais rico da cultura e das artes brasileiras se situar exatamente entre esses dois polos de radicalização cultural e artística: os anos trinta e quarenta.

A poesia, que foi bastante extrovertida na época  anterior — de apologia patrioteira, crítica social ou descaradamente piadista — em Trinta se introverteu e passou a enxergar novamente a condição humana. Foi quando poetas que já vinham das décadas anteriores, como Manuel Bandeira, Jorge de Lima ou Ribeiro Couto, depuraram a linguagem lírica do sociologismo e do folclorismo que as atingiram nos anos vinte. E, sobretudo, foi quando chegaram à maturidade nomes como Murilo Mendes, Vinícius de Morais, Cecília Meirelles, Augusto F. Schmidt, Emílio Moura, Drummond, Cassiano Ricardo e o próprio Mário Quintana que, embora só conhecido nacionalmente nos anos cinquenta, produziu parte significativa de sua obra poética nas duas décadas anteriores. Algo parecido ocorreu com o grande poeta carioca Dante Milano, que já vinha de antes mas só estreou em quarenta, e com o mineiro Abgar Renault que, só publicando em livro depois de velho suas “poesias reunidas”, já as fazia circular entre amigos e periódicos desde a década de trinta.  

A diversidade era a marca poética do período, que permitia o purismo linguístico de Cecília Meirelles ou Emílio Moura; a miscigenação estilística de Bandeira ou Ribeiro Couto; o hermetismo quase surreal de Jorge de Lima ou Murilo Mendes; a denúncia sócio-existencial de Drummond ou Cassiano Ricardo. Essas categorias relativamente distintas, algumas das quais aparecendo num mesmo autor, fosse na sucessão de sua trajetória ou convivendo lado a lado, eram aceitas como “naturais”, e suas encarnações pessoais, os poetas, podiam sentar-se à mesma mesa sem que nenhum constrangimento ideológico se sobrepusesse ao denominador comum da substância lírica.

Essa convivência pacífica começou a se tornar mais difícil, na República das Letras, a partir da militância vanguardista dos concretos, nos anos cinquenta, ou da militância socialista na década seguinte. No final do século XX, marxistas e concretistas já davam as cartas nas letras acadêmicas e na mídia cultural, e esse poder se faria sentir, obviamente, tanto na criação como na divulgação das obras. Se ainda havia briga literária nos agonizantes suplementos de jornal, os protagonistas eram denuncistas com consciência de classe ou defensores da dimensão espacial da poesia (bom exemplo foi a polêmica entre Augusto de Campos e Roberto Schwarz). Uma coisa extremamente maniqueísta, sem lugar para o número três, apesar de todos se dizerem fervorosamente dialéticos. A consequência era que a situação da poesia brasileira, antes do novo milênio, era de extrema penúria, sem aquela saudável diversidade de estilos e idéias que caracterizou a discreta década de trinta.

Foi por essa época, em 1994, que os membros do CAL (Círculo dos Amigos da Literatura, clubinho informal assim batizado nos anos sessenta por um dos seus mais eminentes sócios, Otto Maria Carpeaux) foram tomados de surpresa por um barulho diferente, na pasmaceira cultural da década: um poeta “metafísico”, recém chegado da Europa, convidava os concretistas para a briga.

O poeta metafísico era Bruno Tolentino, e acabava de lançar As horas de Katharina. Acompanhei com interesse a polêmica de Tolentino com Augusto de Campos, que acabou apelando e chamou o adversário de “salta-pocinhas” internacional, jeito delicado de dizer que um homem era delicado. Na época, ainda não havia vigilantes da integridade gay caçando borboletas e homófobos. Que importância tinha, para os destinos da poesia nacional, saber se Bruno era ou não veado? A verdade é que os pedreiros concretistas foram reduzidos à sua verdadeira dimensão, que era o de amassar cimento com pedra britada e levantar intermináveis muros, verdadeiras muralhas da China, entre a atividade poética e o espírito humano, duas coisas que sempre estiveram muito unidas.

Daí para a frente, o católico Bruno Tolentino virou sinônimo de poesia séria no Brasil e, junto com o filósofo Olavo de Carvalho, ajudou a moldar uma geração literária, que anda hoje entre os trinta e os cinquenta anos, responsável por recolocar o bonde da nossa literatura nos trilhos da boa tradição ocidental, que inclui, entre outras coisas, as preocupações religiosas e metafísicas. (Religião, para militantes da modernidade, tem ranço de coisa medieval; e, se depender do seu poder acadêmico e midiático, toda manifestação da inteligência comprometida com a mentalidade pré-moderna deve permenecer na sombra).

Seria injusto dizer que Bruno Tolentino era o único praticante, no Brasil, de uma poesia menos epidérmica.  Hilda Hilst ainda estava muito ativa, mas sua vertente pornô era que chamava a atenção do pequeno público literário. Gerardo Mello Mourão continuava escrevendo e publicando os volumes de sua epolírica greco-cearense. O mesmo se pode dizer de Angelo Monteiro, Alberto da Costa e Silva, Alberto da Cunha Melo.

Essa religação do presente com a fértil década de Trinta teve excelente aliada na internet, e a diversidade começou a voltar ao mundo da cultura, que podia, novamente, aspirar à condição de alta cultura, repondo em circulação todos aqueles textos que os dois ou três últimos milênios vieram colecionando, mas que, com o sucesso da mentalidade vanguardista ou contracultural das décadas passadas, corria o risco de virar banquete de traças. Nas próximas décadas, isso tudo vai correr outro risco: de ser lido por alguns malucos sortudos, que vão poder botar a mão no que de melhor produziu o Ocidente e o Oriente, numa superconcentração espaçotemporal nunca antes imaginada. Vamos ter outro surto de humanismo, parecido com o furacão gutenberguiano de quinhentos anos atrás? Tomara que sim, sobretudo para fazer frente às futuras investidas de biólogos e nanotecnólogos sem escrúpulos, que prometem tornar um inferno a vida dos nossos netos e bisnetos.

 

Foi nesse ambiente de auspiciosa renascença lírica que a editora Nova Aguilar, aproveitando o centenário de nascimento de Mário Quintana, nascido em 1906, botava em circulação a poesia completa do esquivo poeta gaúcho.

Sempre me perguntava quando é que o Brasil iria merecer todo o Quintana, depois de só poder frequentá-lo, durante décadas, em magras antologias que não davam a exata dimensão do poeta. Outro esperança eu tinha: ver toda a sua prosa aforística reunida num só calhamaço, prosa que estava no mesmo nível dos poemas e que tinha um pouco de tudo, reflexões morais, notas de leitura, poética, muito humor. Sobretudo inteligência, que foi sua marca registrada em prosa ou verso.

A edição da Aguilar vinha para fazer justiça ao poeta. São mil e algumas páginas com a poesia e a prosa do autor, cronologia de vida e obra, iconografia, fortuna crítica — com ensaios de Paulo Rónai, Gustavo Corção, Augusto Meyer, Fausto Cunha, Paulo Mendes Campos —, homenagens poéticas de Drummond, Bandeira, Cecília Meirelles, e um prefácio sem os cacoetes do dialeto acadêmico vigente, perfeitamente legível, da professora gaúcha Tânia Franco Carvalhal, que também organizou a edição. Mas seria bom perguntar aos editores por que “poesia completa”, se também acompanha o livro as cinco obras aforísticas, ocupando quase quinhentas páginas do conjunto, perto da metade. Poesia e prosa completa é o que o felizardo leitor, na verdade, terá pela frente.

A biografia de Quintana pode ser resumida num parágrafo, pois quase nada aconteceu a esse homem simples, além do milagre da poesia. Certa vez, perguntado sobre sua idade, saiu-se com esta: “Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.” Nasceu em 30 de julho de 1906, em Alegrete, interior do Rio Grande do Sul (“nasci prematuramente”, disse o poeta, “o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto”) e morreu na última década do século XX, em cinco de maio de 1994, competindo deslealmente com um defunto bem mais famoso naquela semana, o piloto Ayrton Senna. E só podia mesmo ter morrido em Porto Alegre, cidade de adoção da qual pouco saiu, morando a vida toda, provisoriamente, em hotéis e pensões, como se fosse um exercício perene de desprendimento da vida.

Suas entrevistas eram sempre muito boas. Tinha uma delas em VHS, exibida pela TV Educativa do Rio. Um dia, o ladrão entrou em casa e a levou junto com outras fitas. Sempre que podia, eu a mostrava aos alunos de Letras, que nela aprendiam mais sobre poesia do que nos maçantes e inúteis manuais de teoria da literatura. “Não me perguntem qual é o assunto de um poema; um poema fala sempre de outra coisa.” Eis a resposta definitiva às quixotescas aventuras da crítica dita científica. Mas Quintana, em vez de dar entrevistas, preferia ser lido: “Sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”.

Como Brás Cubas, não se casou nem teve filhos. Viveu perto de noventa anos — e sua rotina foi sempre a mesma: lia, escrevia, traduzia. Suas traduções em prosa ainda são respeitadas, nelas associando para sempre seu nome ao de um Proust, Conrad, Voltaire, Grahann Greene, Virginia Woolf, para só mencionar alguns.

“Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz a ninguém.” Certa vez, recusou o convite de um prefeito de Alegrete, que queria um verso seu para gravar em bronze e fixar num monumento de praça. “Um engano em bronze é um engano eterno”, escreveu Quintana ao prefeito. Todos os seus leitores conhecem dezenas de versos do poeta que não desmereceriam o bronze mais duradouro do tempo. O prefeito, que não conseguiu o que desejava, gostou da frase — “Um engano em bronze é um engano eterno”  — e mandou botá-la no monumento de Alegrete, avisando em seguida, entre parêntesis: “Frase com que o poeta Mário Quintana se eximiu de escolher um verso seu para gravar em bronze”.

Se tem um público fiel junto às professoras mais sensíveis do ensino básico, aquelas que escaparam da lavagem cerebral executada pelos “cursos de reciclagem” das secretarias de educação, Mário Quintana ainda é vergonhosamente desprezado, pela universidade, como autor de uma poesia menor, fácil e sentimental, pouco expressiva de modernidades e pós-modernidades tão caras à academia. Além disso, ousou dizer, em temerosa heresia política, que nada entendia da questão social e que, simplesmente, fazia parte dela.

O fato de não ter tido pressa na publicação de seus livros, nem ter cortejado sistematicamente o eixo Rio-São Paulo, salvo nas duas tentativas frustradas de eleger-se para a Academia Brasileira de Letras, não nos autoriza a levar tão a sério o auto-desprendimento do autor, nem ver em Quintana um poeta sem ambição literária, como afirmou equivocadamente, certa vez, o crítico Wilson Martins. Ao contrário, os temas de que tratou e sua sofisticada expressão literária, plenamente elaborada já no primeiro livro, são suficientes para o leitor perceber que o vôo do poeta não era desses de começar em sua Alegrete natal, para logo adiante tombar cansado no rio Uruguai.

Difícil ver nesse sofisticado inventor da linguagem e cuidadoso pesquisador da alma humana um simples “uomo qualunque” da poesia, categoria na qual talvez ficassem bem os outros poetas — Adélia Prado, Manoel de Barros, Paulo Leminski, Orides Fontela, Cora Coralina, Ana Cristina César —, em cujo time de menores Wilson Martins incluía Quintana, caracterizados, entre outras coisas, pela quase completa ausência de alusões literárias e dos jogos esotéricos da técnica poética, além de prejudicados pela “aclamação popular”.

Obras carregadas de alusões literárias e autores extremamente técnicos dormem, hoje, na vala comum da literatura. O fato de serem celebrados por “aclamação popular” acaso diminuiu a estatura artística de um Cervantes, um Dante, um Homero, um Shakespeare, para só ficar nos maiores? Bandeira e Drummond também sofreram de “aclamação popular”, tiveram vasto público e continuam a gozar de prestígio crítico.

Dentre todos os poetas daquele time menor, escalado por Wilson Martins, “Quintana foi e é o de maior finura intelectual, o maior dos menores, o de leitura mais atraente, para o que concorre, sem dúvida, o espírito irônico sempre alerta.” Parece a crônica esportiva, ao dizer do vice-campeão que é apenas o primeiro dos últimos... Ora, o “maior dos menores”, pela lógica das proporções, teria direito a aspirar a uma vaga no time dos grandes, onde se habilitaria, no mínimo, à condição de o menor dos maiores, o que não seria pouca porcaria. No caso de Quintana, alguns dos nossos maiores, como Bandeira, Drummond e Cecília Meirelles, já trataram imediatamente de puxá-lo para cima, para o pavimento superior em que eles próprios habitavam. Quintana conseguiu o feito invejável, que só a poucos poetas foi concedido, de agradar aos gregos que praticavam o ofício poético e aos troianos que, para gostar ou desgostar de alguma coisa, dispensam nossa complicada hermenêutica.

 Esse grande poeta lírico, que frequentou o melhor do romantismo e do simbolismo europeu, foi também um grande humorista inglês, legítimo sucessor de Machado de Assis na arte do sorriso melancólico. Deve ter praticado muita auto-ironia, quando a popularidade o alcançou, da metade para o final da vida, e começou a deixar marcas na sua obra — ele que tinha a preguiça como método de trabalho e era solicitado a escrever mais do que gostaria, diluindo na última fase o que nos primeiros livros era mais denso e mais visceral.

Mas qual contemporâneo de Quintana escapa do acerto de contas com o tempo? Reli há pouco a “A máquina do mundo” e me decepcionei. Mais que os poemas, são alguns versos de Drummond que ficarão para sempre, aqueles que todo mundo conhece: “Itabira é só uma fotografia na parede, mas como dói”, “Havia uma pedra no meio do caminho”, “Minas não há mais”, “Mundo mundo vasto mundo”, “Perdi o bonde e a esperança”, “E agora, José?”, “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, “Eta vida besta, meu Deus!”, “A poesia é incomunicável. Fique torto no seu canto”, “Chegou um tempo em que não adianta morrer”, “Lutar com palavras é a luta mais vã”, “Minha mão está suja. Preciso cortá-la”, “Este é tempo de partido, tempo de homens partidos”.

De Bandeira, ficaram alguns poemas, entre os mais redondos que a língua portuguesa já produziu, apesar do tributo que pagou ao modernismo piadista e folclorizante, como bem atesta o livro Libertinagem, que tem o melhor e o pior do poeta. Não os chamaria de diamantes, porque sua luz é quase imperceptível: tem mais o brilho de fruta simples que de pedra preciosa, ou o verniz discreto que o carpinteiro aplica na peça que acabou de montar. Mais que ourives, Bandeira é mestre da carpintaria. Fernando P’ssoas é provavelmente mais profundo, porém menos artista que o nosso pernambucano.

Murilo Mendes foi inspirado, mas não era um bom artesão; apanhava das formas fixas e dos ritmos clássicos. Jorge de Lima teve tudo para ser o maior poeta da língua portuguesa: domínio técnico e “daimon”. Foi, no entanto, soterrado pelo excesso imagístico, que não conseguiu domesticar (excesso que também prejudicou o neo-romântico Augusto Frederico Schimidt que, segundo Bandeira, comunicava-se com Deus no Seu próprio dialeto). Cecília Meirelles tem a delicadeza da porcelana chinesa e, por isso mesmo, não serve para todas as circunstâncias inventadas pela modernidade, o que também é válido para o mineiro Emílio Moura. Vinícius foi sequestrado pelos “guerrilheiros” da MPB, desperdiçando em bonitas letras de música o talento prometido pelos primeiros versos, quando o futuro cachaceiro ainda era católico e Congregado Mariano.

Minha intimidade com a poesia de Mário Quintana foi algo tardia, depois dos trinta anos, quando já tinha lido todo o pessoal de Trinta: Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meirelles, Vinícius de Moraes, Emílio Moura, Dante Milano, e, obviamente, Drummond e Bandeira. Se estes dois últimos foram bastante úteis, nos anos setenta, para remediar as falsas doenças do jovem aprendiz de hipocondria, é Quintana quem me acompanha, hoje, nas visitas regulares aos médicos e laboratórios da pré-terceira-idade.