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AS ÚLTIMAS CRÔNICAS DE OTTO LARA RESENDE

 

 

 

José Carlos Zamboni

 

Sabemos que, na crônica, o assunto é tão importante quanto a maneira de tratá-lo. O que a distingue do jornalismo puro é o estilo, que, segundo célebre aforismo, é o próprio homem. Pode até ser uma negação do jornalismo, na sua insistência pessoal, mais ou menos divagatória, em temas aparentemente sem importância, contra a necessária e objetiva ênfase que o primeiro dá ao acontecimento que pode fazer história.

Machado de Assis comparou o cronista, um tanto parnasianamente, ao beija-flor. Como ele, “salta, esvoaça, brinca, tremula, paira e espaneja-se sobre todos os caules suculentos, sobre todas as seivas vigorosas. Todo o mundo lhe pertence”. Todo o mundo — e ninguém, pois o cronista, antes de tudo, costuma ser um cético. Há uma sabedoria cética em todo grande cronista, que evita tomar partido, pois sabe que todas as vitórias deste mundo são relativas.

O fato, porém, da crônica ser um texto nascido em jornal, lhe impõe certos limites de berço e de estilo, que o poeta ou o contista, seus vizinhos, não precisam obedecer.

Não é, portanto, um gênero literário puro, mas irrevogavelmente vira-lata, como o memorialismo, o aforismo e certo tipo de ensaio, aos quais ele próprio sempre pede emprestada alguma coisa, do mesmo modo que, vampírico por natureza, vive também de sugar o sangue dos gêneros propriamente literários, como o conto e o poema em prosa. É, no fundo, uma estratégia de amenização, ou uma técnica de respiração literária, para evitar a asfixia e quebrar a monótona seriedade imposta por todas aquelas matérias, exageradamente presas à realidade, das quais está cercada no “ambiente” jornalístico e com quem nunca se entendeu muito bem. Continua sendo uma janela aberta para o mundo, mas delegando-se ao cronista o poder de escolher à vontade a forma e a cor do vidro.

O escritor, jornalista e mineiro Otto Lara Resende (1922-1992), autor de um romance e alguns livros de contos, era mais conhecido como subtítulo de uma peça famosa de seu amigo Nelson Rodrigues, Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende. Entre os amigos, era também famosa a sua habilidade como frasista, infelizmente mais oral que escrito. Uma de suas frases talvez explique aquela amizade com o dramaturgo carioca, exatamente o seu oposto: “Positivamente, não posso ser apresentado a Satanás: como André Gide, sofro a tentação de entender as razões do adversário.”

O pai era professor. Devia apreciar tanto o ambiente escolar que, em vez de prole, fundou com a esposa uma verdadeira turma de classe, na casa mineira de São João Del Rey: teve vinte filhos, dos quais Otto foi o quarto e mais bem sucedido episódio. Jornalista desde os dezoito anos, morreu jornalista aos setenta anos, depois de uma experiência inédita: foi contratado pela Folha de São Paulo para escrever a coluna diária “Rio de Janeiro”, na segunda página daquele diário paulistano. Sem dúvida, uma estratégia para recuperar parte dos leitores que Paulo Francis, ao deixar a Folha, tinha arrastado consigo para o rival O Estado de São Paulo. O convite veio no momento certo. Otto passava por prolongada crise depressiva, motivada sobretudo por sua demissão, em 1984, da Rede Globo, à qual esteve ligado desde a década de sessenta.

A segunda página da Folha era um espaço exclusivamente político, mas Otto teve carta branca para tratar dos assuntos que quisesse. Foi um desafio para o escritor que, sofrendo ao mesmo tempo da compulsão da escrita e da flaubertiana obsessão da reescrita, era obrigado a desovar diariamente uma crônica de trezentas a quatrocentas palavras.

Cronista dentro da boa tradição brasileira, Otto Lara Resende escreveu sobre tudo desde o primeiro dia de maio de 1991, data de sua estréia na Folha, até o dia 28 de dezembro de 1992, quando uma parada cardiorrespiratória o expulsou da coluna e da vida.

Entre as quinhentas e tantas crônicas que ali publicou, uma parte nada desprezível trata da vida literária. Seu sangue estava contaminado de letras: não conseguia fazer um comentário sem recorrer a um poeta, um romancista, uma obra literária. É rara a crônica sem alguma forma de menção a eles. É notável não só a cultura literária, mas humanística em geral do nossa cronista, que não poucas vezes se permitia um timbre mais ensaístico, mesmo sem sair do tom despretensioso da crônica.

Essas crônicas revelaram um escritor com admirável senso de improviso, que sabia arranjar assuntos quando não os tinha: abria uma janela do seu apartamento, no Rio, roubava algumas cores da rua e do céu, misturava com algum fato do dia, algumas recordações pessoais, e eis, pronta para a impressão, uma deliciosa crônica cheia de nada. Sabia misturar os assuntos, como num gratuito bate-papo; ou tomava um notícia da semana e tecia algumas voltas breves sobre o mote, sem medo de deixar ostensivo o seu ponto de vista. Não há crônica que se preze sem impressão pessoal do cronista, que é um animal mais ou menos irracional sem nenhum medo do equívoco.

Reunidas, suas crônicas podem ser lidas quase como capítulos de um romance de época, modernamente fragmentário, que a morte do autor, provavelmente assassinado por uma infecção hospitalar, finalizou antes do desenlace, mas que acabou por ter uma unidade inesperada: é, sobretudo, o “romance” da era Collor. Se o pano de fundo das crônicas era, no plano internacional, o governo Bush-pai e a eleição de Clinton (de cujo “reino” Paulo Francis, outro peso-pesado da crônica, mandava ao Estadão as notas do seu ácido Diário da corte), entre nós começava a desandar o governo “collorido”, sobretudo a partir de meados de 1992, quando começam a fervilhar denúncias de corrupção e lances de tragicomédia shakespeariana envolvendo a família do presidente — tudo acompanhado com espanto e ironia pelo sismógrafo atento de Otto Lara Resende. (O homem que as escreveu, do alto dos seus quase setenta anos e da longa experiência jornalística, conseguiria imaginar que, em 2005, uma década e pouco depois, a farsa se repetiria com o inflamado partido, então cheio de não-me-toques, que mais trabalhou pela queda do Collor?)

Como todo romance que se preze, não podia faltar um ou mais personagens de contraste. Em contraponto com os bufões da política, e mais ou menos na mesma época, entrou em cena o gato Zano, que sumiu da casa de Otto. Não há assunto mais interessante para provocar a compaixão do leitor do que morte ou sumiço de animal de estimação. Entre a palavra resignada e a esperança de encontrá-lo, passam-se muitos dias e várias crônicas. Até que, como um relâmpago, o cronista caiu brilhantemente em si: gato Zano, cansado de ser brasileiro naquela conjuntura, teria pedido asilo nalguma embaixada... 

Se, numa hipótese generosa, essas crônicas viessem a ser publicadas, na íntegra, quinze anos depois, num belo livro de quinhentas páginas, é provável que só fosse comprado por uma parte ínfima dos leitores que as freqüentaram na Folha de São Paulo. Aliás, logo após a morte do autor, uma editora paulista reuniu algumas dezenas delas e as publicou sob o título de Bom dia para nascer, nome da crônica de estréia naquele jornal. A mesma editora, aproveitando a maré de celebridade de Otto, republicou os seus livros anteriores de contos e o romance O braço direito, há muito tempo fora de circulação. O contista e o romancista estavam de volta na carona do cronista, ganhando uma relativa notoriedade que já se esvaiu pelo ralo do tempo. 

A propósito, entre suas muitas crônicas que tratam na vida literária, vale a pena dar um pouco de atenção a “E a defunta, como vai?”, de 22 de março de 1992, em que Otto Lara Resende comenta uma reportagem do início dos anos setenta sobre a possível morte da crônica. Alguns cronistas famosos foram convidados a opinar. Rachel de Queiroz falou do esgotamento do gênero pela repetição dos truques. Segundo Fernando Sabino, a crônica sempre foi uma coisa simples, amena, e como a época é de comunicação agressiva, o leitor se concentra menos em amenidades.

Trinta e cinco anos depois, é fácil constatar que a crônica continua viva. A crônica se revitalizou justamente pela incorporação de certos elementos do espírito da época, como a agressividade, que Fernando Sabino achava incompatíveis com o gênero. Um cronista atual de sucesso é Diogo Mainardi, da revista Veja, que faz da sátira e do sarcasmo a marca registrada de suas investidas. Paulo Francis, com quem Mainardi aprendeu muito, já era um cronista desse tipo, e que se realizou plenamente nos anos setenta e oitenta, como outro “professor de caratê” de Mainardi, Ivan Lessa, que continua afiadamente na ativa, como o grande Millor Fernandes e o “baixinho” Luiz Fernando Veríssimo. Bastam esse nomes, citados sem muito esforço de memória, para verificar que o gênero está bem vivo, ao contrário do romance e sobretudo da poesia.

O que aconteceu com Fernando Sabino é bem sintomático da situação dos gêneros nos últimos cinqüenta anos. Na mesma reportagem citada por Otto Lara Resende, o autor de O encontro marcado confessou que nunca tinha pensado em ser cronista, mas romancista. E se sentia “como o atleta que treinou para um recorde, e, quando chega o momento, a competição foi suspensa.” Voltaria a escrever romances, ou se daria ao quase luxo de escrevê-los, só trinta anos mais tarde — O grande mentecapto é de 1979 e O menino no espelho, de 1982 —, depois da carreira já realizada, com editor e público fiéis, mas feita principalmente de crônicas, com novelas e contos ocasionais. Quando teve de escolher, optou pelo gênero que mais vendia.

Voltando a Otto, ele também nunca quis ser cronista, mas como era, ao mesmo tempo, jornalista e homem de letras (conjunção que não é obrigatória por si mesma), um dia virou cronista, um tipo de escritor que, obrigatoriamente, depende daquela conjunção.

Foi esse cronista mais ou menos casual que, durante quase dois anos, renovou entre nós um gênero que parecia esgotado, senão quantitativamente, pelo menos em qualidade, e que, para ressuscitar, só depende de uma coisa: talento para “enrolar”.

Mas não deixa de ser lamentável — parece uma maldição de nossa época — que um talento tão admirável como foi o de Otto Lara Resende tivesse de gastar-se todo, ou quase todo, num gênero como a crônica: gênero paradoxal por natureza, condenado geneticamente a ter um destino parecido ao do pai, o jornal, que é envelhecer prematuramente, mas herdando da mãe, a literatura, uma vontade muito grande de sobreviver ao dia seguinte.

Algumas crônicas conseguem a proeza de contentar leitores nas três faixas do tempo: ontem, hoje e amanhã. São poucas. Por isso, talvez, o seu destino seja mesmo a antologia, especializada em separar o trigo do joio. Matias Suzuki, colega de Otto na Folha, fez uma antologia das crônicas do escritor, logo depois de sua morte. O livro até que vendeu bem. Mas, dessa antologia, é provável que só algumas entrarão para o céu da crônica.

E as quinhentas e tantas crônicas, que não merecerão essa graça? Antigamente, ficariam enterradas na vala comum dos museus, com sua ração regular de veneno contra fungos, ácaros, cupins e traças. Hoje, há um cemitério mais interessante para todo esse material: a internet.