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OCTAVIO DE FARIA

 

 

 

José Carlos Zamboni

 

Quem procurar, no romance brasileiro, alguma forma de denúncia das classes dominantes, não vai se decepcionar. O material é farto, facilmente encontrável em Aluísio de Azevedo, Raul Pompéia, Lima Barreto, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, Jorge Amado, etc., etc., etc. Já o contrário — escritores conservadores que escreveram sobre personagens revolucionários —, é mais difícil de achar. Começa a aparecer a partir dos anos trinta. Gastão Cruls fez uma boa caricatura do revolucionário gaúcho num personagem do seu último romance, De pai para filho. Ciro dos Anjos ridiculariza o socialista de boteco n’O amanuense Belmiro. Marques Rebelo zombou do integralismo no romance Marafa e dos comunistas em O espelho partido.

Nenhum desses pós-modernistas, porém, avançou mais na análise da mentalidade revolucionária do que Octavio de Faria. Foi um homem que nunca escondeu a simpatia pelo fascismo; no fim da vida, já se definia fascista pela cabeça, mas democrata pelo coração... Antes de fazer romances, escreveu alguns ensaios contra o liberalismo e o comunismo, adotando finalmente, ainda que sem ortodoxia, o ponto de vista da Igreja Católica, sobretudo pelo ângulo de León Bloy, o escritor que queria ser santo e que viu na vida burguesa o maior obstáculo a esse ideal (padre Luís, um dos principais personagens da Tragédia burguesa, parece inspirado no mestre francês de Octavio).

 

 

Há bons romances mal escritos, quando o mundo imaginado e pensado pelo romancista é superior à sua capacidade artesanal. Exemplo são alguns tomos da Tragédia burguesa, de Octávio de Faria. No início da publicação do ciclo, Álvaro Lins defendeu-o, apesar disto; pela mesma razão, Alfredo Bosi condenou-o, depois do roman-fleuve todo publicado.

Quando eu próprio lia o volume XI da Tragédia, O cavaleiro da virgem, ameacei desistir várias vezes, mas enredo e personagens exigiam a volta do leitor, mal acostumado com a elegância machadiana. Há mais mistérios entre o céu e a terra da ficção, do que pode supor nossa vã teoria literária.

Acredito que o mesmo não vale pro poeta: nesse exercício de superconcentração que é a poesia lírica, a menor desafinada é fatal.

 

 

O desleixo, em Octávio de Faria, parece coisa construída. Não se trata, aqui, da ingenuidade formal do romance popular, mas de um inacabado intencional, posição literária de escritor decididamente anti-flaubertiano.

Escreveu sobre a burguesia carioca — a mesma fauna machadiana — com deliberada deselegância. Estilo jornalístico no mais puro sentido... impuro. Ou, pensando no homem católico e de direita que ele foi, estilo franciscano, de pé do chão. 

Mas é um erro acreditar que esteja mais preocupado com a moral que com a estética: não escreveu ensaios e sim romances. Queria que funcionassem como tais. 

Para lê-lo, é preciso esquecer a lição (ou a neurose) de Flaubert. Nosso romancista circula noutra faixa, entre Balzac e Dostoievski.

 

 

Sem querer abusar da Antônia amásia, entre os bons escritores do país do futebol, o pior é, certamente, o autor da Tragédia burguesa. E, no entanto, é dos nossos maiores romancistas, com o que estão de acordo dois homens muito inteligentes, o fino psicólogo das Lições de abismo e o mestre do Jornal de crítica, ligados pela mesma religião e separados por posições políticas antagônicas. O primeiro tocou num ponto fundamental do fanático torcedor do Fluminense, a falta de sensibilidade plástica, enquanto o segundo preferia esquecer o mau escritor que havia no cunhado do dr. Alceu e só considerar o bem realizado criador de almas e de enredos do principal romance-rio da literatura brasileira.

 

 

A história de O indigno, penúltimo romance do ciclo Tragédia burguesa, de Octávio de Faria, se passa no início dos anos quarenta. Ambientado em pequena cidade mineira, Belavista, certamente não é a atual Bela Vista de Minas, a cento e poucos quilômetros de Belo Horizonte e município recente, mas cidade ficcional, vizinha da real Três Corações que, mais de uma vez, é mencionada no livro.

Como romance-panorâmico, tem um pouco de tudo: integralistas, comunistas, padres, senhoras católicas, jovens pecadores. Quem governa o país é Getúlio, mas quem manda em Belavista, pelo menos na Belavista aparente, é Jeremias Bertoldo, delegado de polícia, deixando a Belavista moral, “espiritual”, sob o comando involuntário de padre Luís, um santo homem mais preocupado com a alma dos fiéis do que com a mais-valia, o anti-Leonardo Boff, e que, para confortar os infelizes que o procuram, não hesita em desobedecer aos regulamentos da sua Ordem. Vive “exilado” num colégio interno da redondeza, o Patronato, depois de “expulso” do Colégio de São Luiz de Gonzaga, no Rio de Janeiro, onde suas desobediências já tinham passado da conta.  

Ele é o centro do romance, em torno do qual vivem e morrem os outros habitantes da obra. Cada intervenção sua na cidade — nas almas da cidade — provoca conseqüências desastrosas, deixando-o em posição cada vez mais solitária, com inimigos à esquerda e à direita.

A história começa com padre Luís seriamente adoecido: não resistiu ao diz-que-diz da cidade, que via nele o responsável pela desgraça da moça Reni, filha de fazendeiros, presumivelmente grávida do próprio padre e morta no parto prematuro. Enquanto o padre fica de cama, inconsciente, Belavista se prepara para seu julgamento e  linchamento moral.

Um desses juizes é o líder comunista Laudelino Troncoso.

O jornalista Laudelino Troncoso, um dos “principais” personagens secundários d’O indigno, de Octávio de Faria, é o esquerdista típico, para o qual vale tudo no presente — deslealdade, mentira, manipulação afetiva —, em nome da “inevitabilidade de uma aurora redentora”, garantida por “análises tão perfeitas que deixavam tão pouca margem a erro”. E tudo isso, das análises perfeitas à degradação moral, ele entendia como sacrifício em nome da espécie eleita.

Quando começou a circular o boato de que padre Luís, professor do Patronato, era o verdadeiro sedutor de Reni, adolescente morta no parto prematuro, não conseguiu pensar duas vezes: era o culpado, pois estava gravado em sua cabeça de militante do Partidão que qualquer padre tinha de ser obrigatoriamente culpado. Seu pecado original era a alienação. Não podia existir, para ele, o padre individual, mas só o clero enquanto classe exploradora de todas as outras classes, dos pobres aos ricos, fornecedores e traficantes do maldito ópio do povo.

A ambição secreta do marxismo não era tornar-se, também, uma espécie de ópio do povo, seduzindo as “massas” com o canto de sereia da barriga cheia/cabeça vazia, deixando as pessoas no ponto ideal para a manipulação totalitária?

 

 

Octavio de Faria não é, seguramente, um modelo de concisão literária. É o anti-Graciliano Ramos, com quem poderia formar a dupla gordo e magro, pelo menos em questões de estilo. Nenhuma obra, porém, é mais despojada do mundo exterior que a sua. Conseguiu fazer um retrato “essencial” da burguesia brasileira, quase sem concessão a conceitos sociológicos. Levou a idéia de burguês de volta à sua matriz eterna: o que sempre esteve por cima, de preferência auxiliado por Satã, o Senhor do Mundo.

 

 

Flaubert, o que reescrevia. Stendhal, o que não passava a limpo. Acaso o segundo é inferior ao primeiro?

 

 

Há algo de errado, quando o lado técnico do romance interessa mais que sua capacidade de revelar o desconcerto do mundo. Em quê o Ulysses é superior a Os irmãos Karamazov? O elemento estético é diferente no romance e na poesia.

 

 

O romance é um desfile furioso de paixões, com a derrota inevitável da razão. Neste sentido, vai ter sempre um aspecto elegíaco.

 

 

Bom romance é o que não dá folga pra reflexões sobre técnica literária.

 

 

Um dos principais personagens da Tragédia burguesa, de Octavio de Faria, é o Diabo.

 

 

O problema do engajamento literário não está no compromisso em si, mas nas idéias das quais o escritor é porta-voz. Os subterrâneos da liberdade, romance marxista de Jorge Amado, está morto e enterrado como a doutrina que defende. A Tragédia burguesa, romance católico de Octavio de Faria, nunca esteve tão bem de saúde, apesar da roupa desalinhada (sem “literariedade”...), que lhe dificulta o ingresso nos laboratórios de análise textual da universidade.

 

 

Além de não escrever “bem”, o grande romancista Octávio de Faria teve como adversário, em suas últimas obras, o serviço porco da editora Pallas. O que não acontecia com os romances da Tragédia burguesa que saíram pela José Olympio.

 

 

Octávio de Faria não acredita na História. Diz um dos personagens de O pássaro oculto, exprimindo seu próprio pensamento e explicando por que chamou de tragédia o conjunto de romances que escreveu: “Não há idades, períodos, séculos. Tudo se renova, mas tudo é sempre o mesmo, coisa idêntica e sangrenta. O triste pedaço de carne ultrajada que a Serpente deixou nas mãos de Eva”.