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SOB A SOMBRA ILUMINADORA DE BORGES

 

 

 

...tua noite, Borges,

ilumina.

 

 

 

José Carlos Zamboni

 

O poeta Luiz Antônio de Figueiredo é paulista de Presidente Alves, pequena cidade entre Bauru e Marília. Foi nessa última, nos anos sessenta, que estudou Letras, na época em que por ali passaram o poeta concretista Décio Pignatari e o nouveau-romancista Osman Lins. Atraído inicialmente pelas vanguardas, em especial o concretismo, mudou-se para São Paulo, doutourando-se na PUC com a tese Poesia concreta: sob o signo da sintaxe radical.

Isso se deu entre o final de 1960 e a década seguinte. Nos anos oitenta, percebeu o equívoco dessa brincadeira literária de ordem-unida, e voltou a escrever sob o signo da sintaxe normal, ou seja, como indivíduo. Autor fundamental nessa transição foi o argentino Jorge Luis Borges — “o maior escritor vivo”, escreveria Luiz Antônio em sua tese de livre-docência, pouco antes de Borges morrer em Genebra — e que significou para o poeta brasileiro mais ou menos o que Virgílio foi para Dante: o “dolcissimo padre” que o ajudou a atravessar a selva selvaggia da vida e da literatura.

A sombra iluminadora de Borges já aparecia no livro publicado por Luiz Antônio em 1986, intitulado Dublagem, e que também podia ter “duplagem” como subtítulo ou título alternativo, conforme está discretamente sugerido na diagramação da capa. Nele, misturou vários gêneros (poema, conto, ensaio, colagem, tradução), mais ou menos como Machado de Assis, outro mestre de Luiz Antônio, já tinha feito em seus dois últimos livros de contos, Páginas recolhidas e Relíquias de casa velha, apoiando-se em Montaigne e na agradável idéia de salada.

O próprio poeta explicou a opção, em nota introdutória: “Diferentes entre si, as peças de Dublagem reverberam no título — e no esforço para a recriação do tempo simultâneo e universal em que se move a poesia.” Salada mais do ponto de vista dos gêneros que temático, saía em defesa de uma visão universalista da literatura, além das seitas e dos determinismos. Ali estava a presença virgiliana de Borges, em cujas palavras se apoiava para justificar esse conjunto heterogêneo, pedindo que lêssemos “brasileiro” onde o autor de Ficciones tinha escrito “argentino”:

 

Por eso repito que no debemos temer y que debemos pensar que nuestro patrimonio es el universo; ensayar todos los temas, y no podemos concretarnos a lo argentino para ser argentinos: porque o ser argentino es una fatalidad y en ese caso lo seremos de cualquier modo, o ser argentino es una mera afectación, una máscara. (“El escritor argentino y la tradición", em Discusión, 1932).

 

Este breve e preciso diagnóstico da miopía nacionalista faria bonito coro, “no tempo simultâneo e universal da poesia”, com o que Machado de Assis já tinha escrito sessenta anos antes, quando se referia a “certo sentimento íntimo” dos grandes escritores, que continuavam homens de sua época e de seu país, mesmo se tratassem de assuntos remotos no tempo e no espaço. Uma perfeita troca de passes entre Maradona e Pelé.

Não foi essa visão universal da literatura que levou Luiz Antônio de Figueiredo à tradução, por ele já praticada no período concretista, mas sem dúvida trouxe uma perspectiva mais platônica àquela atividade, que ele jamais reduziria à prática superficial do roupeiro, que só substitui o vestido das idéias. Não poderia agir assim quem entendia a literatura como “recriação do tempo simultâneo e universal em que se move a poesia”, e a própria vida como “ato voluntário de fé na poesia”.

No pequeno, mas substancioso ensaio “Borges e Dante”, inserido em Dublagem, diz de seu mestre argentino que era dos “raros poetas que conseguem mesclar a própria voz à voz dos poetas que ama”. É uma definição irretocável do grande tradutor, que recria para não trair.

E foi assim que Luiz Antônio recriou o belo poema “El sentinela”, do livro El oro de los tigres: cedendo sua voz pessoal ao espírito borgeano, num empréstimo parecido ao do médium, espécie de dublagem metempsicótica:

 

Entra a luz e me lembro; aí está.

Começa por dizer-me seu nome, que é (já se sabe) o meu.

Volto à escravidão que durou mais de sete vezes dez anos.

Me impõe sua memória.

Me impõe as misérias de cada dia, a condição humana.

Sou seu velho enfermeiro; me obriga a lavar-lhe os pés.

Me espreita nos espelhos, no mogno, nos cristais das lojas.

Uma ou outra mulher o repudiou e devo compartir sua angústia.

Me dita agora este poema, que não me agrada.

Me exige a nebulosa aprendizagem do férreo anglo-saxão.

Me converteu ao culto idolátrico dos militares mortos, com quem talvez não poderia trocar uma só palavra.

No último lance da escada sinto que está a meu lado.

Está em meus passos, em minha voz.

Minuciosamente o odeio.

Noto com prazer que ele quase não vê.

Estou numa cela circular e o infinito muro se estreita.

Nenhum dos dois engana o outro, mas os dois mentimos.

Nos conhecemos muito, irmão inseparável.

Bebes a água de meu copo e devoras meu pão.

A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam que na sombra ulterior do outro reino estarei eu, esperando-me.

 

É um bom exemplo de como o “espírito” de um poema pode baixar no “cavalo de santo” de outra língua, sem soar estranho. Isso só acontece quando o tradutor, chame-se ele Manuel Bandeira ou Luiz Antônio de Figueiredo, está mais preocupado em reverberar o conteúdo essencial da obra literária que se traduz.

Mais ou menos na mesma época em que publicou Dublagem, o poeta brasileiro traduziu outras peças do autor portenho, que reuniu no trabalho (anti)acadêmico de livre-docência Edgar Allan Poe e Jorge Luis Borges: o outro e o mesmo, uma antologia sui generis de poemas, contos e ensaios dos dois escritores, por ele mesmo traduzidos. Obra inovadora nos meios universitários e ainda inacreditavelmente inédita, seu centro temático é a idéia do duplo, abordada com finura nos estudos que abrem e fecham o trabalho, “As faces do duplo” e “O outro, o mesmo”.

De Poe,  Luiz Antônio de Figueiredo traduziu o conto “William Wilson” e dele desentranhou um poema, mais ou menos como fazia o poeta Manuel Bandeira. De Borges traduziu quinze escritos, incluindo “El centinela”: “El doble”, “El sur”, “El otro”, “Borges y yo”, “Un sueño”, “El despertar”, “Correr o ser”, “Eclesiastés, 1-9”, “Límites”, “Poema conjetural”, “Arte poética”, “Cambridge”, “El cómplice”, “Edgar Allan Poe”, “Alone” e “Los enigmas”.

Assim ficou em português, com voz e arranjo de Luiz Antônio, o soneto borgeano “El despertar”:

 

Entra a luz e me elevo torpemente

Dos sonhos para o sonho compartido,

E as coisas recuperam seu devido

E esperado lugar, e no presente

Converge abrumador e vasto o vago

Ontem: as seculares migrações

Do pássaro e do homem, legiões

Que o ferro destroçou, Roma e Cartago.

Volve também a cotidiana história:

Meu rosto, a voz, meu temor, minha sorte.

Ah quem me dera se a manhã da morte

Me deparasse um tempo sem memória

De meu nome e de todo meu momento!

Ah, poder despertar no esquecimento!

 

O último e poderoso verso do tradutor — Ah, poder despertar no esquecimento! — não reproduz literalmente o verso final do soneto de Borges — Ah, si en esa mañana hubiera olvido! —, mas, para usar uma palavra cara ao poeta brasileiro, com ele “dialoga”. Ou, em dialeto platônico, é por ele iluminado.

Um cotejo dos últimos quatro versos, no original e na tradução, evidencia a dublagem-duplagem do poeta brasileiro, que jamais perde o timbre pessoal ao emprestá-lo:

 

Ah, si aquel otro despertar, la muerte

(Ah quem me dera se a manhã da morte)

Me deparara un tiempo sin memória

(Me deparasse um tempo sem memória)

De mi nombre y de todo lo que he sido!

(De meu nome e de todo meu momento!)

Ah, si em esa mañana hubiera olvido!”

(Ah, poder despertar no esquecimento!)

 

Em 1995, Luiz Antônio de Figueiredo publicou o livro Poemas do tempo (Editora Arte & Cultura, 75 p.). É um conjunto de poemas interligados, de um modo ou de outro, pela sombra e pela luz do tempo. Poderia, acredito eu, chamar-se Poema do tempo, tão viva é a unidade por trás da variedade dos poemas.

Nesse novo trabalho, o “dolcissimo padre” argentino continua ao lado do poeta brasileiro, “sombra à sombra de Borges”. A epígrafe é deste, “Todo poema, con el tiempo, es una elegía”, e, como Borges, também ele se impôs “como todos, la secreta/ Obligación de definir la luna”, versos que entram como epígrafe de um soneto do poeta brasileiro sobre a lua indiferente, “livre para caber em qualquer verso”, mesmo depois do homem ter deixado nela suas efêmeras pegadas de astronauta.

Entre os vários substantivos próprios mencionados no livro de Luiz Antônio de Figueiredo, o de Borges é o que mais aparece, ao lado de outros companheiros de viagem no rio heracliteano: Homero, Dante, Schopenhauer, Fernando Pessoa, Cesário Verde, Drummond, Manuel Bandeira, Poe, frei Luis de León, Flaubert, Kafka, Proust, Omar Khayyam, e, além da literatura, Hitchcock, Orlando Silva, Jards Macalé.

Há três poemas dedicados a Jorge Luis Borges. Um deles, foi escrito para botar a cegueira do poeta em seu devido lugar. Termina com belo paradoxo:

 

Os grandes perdem, nós ganhamos: cego

para as páginas alheias,

tua noite, Borges,

ilumina.

 

É com essa luz que o poeta Luiz Antônio de Figueiredo tem atravessado a selva escura dos caminhos desta vida, não se recusando a compartilhá-la com outros que dela precisam. Foi o que fez em muitos anos de ensino superior (e aqui o adjetivo não mente), na universidade paulista. Não hesitou em beber na luminosa fonte borgeana — era o mesmo que beber na fonte da eterna juventude literária —, quando o primeiro caminho que escolheu, o concretismo, já não podia levá-lo a parte alguma.