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PEQUENA INTRODUÇÃO A UM GRANDE ROMANCE

 

 

 

José Carlos Zamboni

 

Paul Valéry, que conhecia muito bem as cartas de Flaubert e era, ele próprio, ao mesmo tempo rigoroso engenheiro e operoso trabalhador braçal, dizia não haver obra mais admirável do que o drama da geração de uma obra. Cada obra teria uma obra por trás, que é a história geralmente não divulgada da sua criação. Sua famosa fórmula matemática do trabalho literário, com noventa e nove por cento de transpiração e só o restante para a inspiração, foi levada de tal modo a sério, que ajudou a provocar no século XX um surto de “literatura da linguagem”, para a qual bastariam boas ferramentas e o honesto suor do operário. Por isso, certamente, é que o adoravam os formalistas de todas as seitas e os fabricantes de teses acadêmicas, mais interessados na imanência técnica da produção que na transcendência poética do produto.

 Herberto Sales, construtor sério e artista inspirado, foi também pai zeloso de suas criaturas: em entrevistas e nos diários, deixou depoimentos interessantes sobre sua procriação romanesca. Deles certamente se beneficiarão os futuros leitores dos Dados biográficos do finado Marcelino, terceiro romance de Herberto Sales, publicado em 1965 pelas Edições O Cruzeiro, quando o próprio Herberto dirigia aquela editora.

Confessou o escritor que o ponto de partida deste romance era autobiográfico. Marcelino, o personagem, é transposição ficcional de Francisco Araújo, tio de Herberto por parte da mãe, homem rico e vaidoso, culto e requintado, assíduo freqüentador de cruzeiros marítimos, em cujo palacete o sobrinho morou durante algum tempo, na adolescência, quando foi estudar em Salvador. Quando o conheceu pessoalmente, nessa época, o homem já estava velho e doente. Numa circunstância como aquela, de filho sofrendo pela primeira vez a distância dos pais, o confronto cotidiano da figura decadente do tio — que tinha acabado de conhecer com os próprios olhos — e o tio glorioso da lenda familiar andaraiense, mexeu com a alma adolescente do futuro escritor: foi o ponto de partida de uma educação sentimental que não se completaria tão cedo.

Foi necessário, porém, uma segunda brincadeira do Tempo, para a máquina do romance começar a produzir-se. Foi quando Herberto, no início dos anos sessenta, passeando de carro pela capital baiana, deu de súbito com o palacete já totalmente arruinado e abandonado, antes de ser finalmente demolido. Foi a sua madeleine proustiana. 

A visão da morada em ruínas provocou-lhe (adjetivo do autor) “um impacto tremendo”, e, a partir daí, a pessoa real de Francisco Araújo começou lentamente a se impor na memória do sobrinho, nela se instalando de uma “forma poderosíssima” (superlativo do autor), de tal maneira que, mesmo alegando seu total alheamento das coisas espiritistas, não descartou a possibilidade de certa pressão sobrenatural impelindo-o para a escrita, tanto que, para começar a escrever o romance, sentiu necessidade da presença física da velha casa, conseguindo de um amigo, o conhecido produtor de cinema Luiz Carlos Barreto, que a fotografasse.

Sem dúvida que o tio Francisco foi modelo existencial de Herberto. Embora, da parte da mãe, descendesse de gente abastada, a família era pobre e sua vida foi a de um menino qualquer do interior mais distante. Ainda que tenha conseguido manter vivo o moleque sertanejo ao lado do adulto civilizado, a história do escritor que saiu de Andaraí, dirigiu o Instituto Nacional do Livro e foi adido cultural em Paris, foi muito parecida à daquele tio “saturado de civilização”, verdadeiro cidadão do mundo.

Evidentemente, trata-se de uma obra que, apesar de todos os vínculos com a realidade, deve ser julgada só como romance. O que não invalida uma abordagem comparatista entre o que sabemos da vida de Herberto e o que aparece no livro. O autor fez uso de sua vida real e de sua vida possível: enquanto o sobrinho de Francisco Araújo foi para o Rio e lá fez carreira como escritor, o sobrinho de Marcelino vivia obscuramente no interior da Bahia, uma vida que, como no verso do poeta, podia ter sido a de Herberto — tamanha foi sua resistência em deixar Andaraí — mas que felizmente, para ele e para nós, não foi.

O sobrinho de Marcelino nunca se interessou muito por livros, traço comum entre ele e o sobrinho de Francisco Araujo (Herberto Sales), pelo menos até os vinte anos. Este confessou, mais de uma vez, a casualidade com que a literatura entrou em sua vida, ao contrário de seu irmão Fernando, que desde a adolescência zelava pelo próprio projeto de virar poeta. Por ironia da vida, Herberto Sales entrou de fato para a história da literatura brasileira e Fernando Sales, talvez o principal responsável pela carreira do irmão mais velho, será lembrado como organizador de algumas edições de Herberto e autor de um importante ensaio sobre Cascalho.

Desse material é que foi feito o romance: vida real e vida possível. Material, de resto, de toda a literatura, embora a maioria dos autores não se preocupe em evidenciar os segredos dessa relação. Ao revelar, com certa insistência, tanto nas entrevistas como nos diários, os elementos autobiográficos presentes em Dados biográficos do finado Marcelino, Herberto Sales sem dúvida que pretendeu atritar aqueles dois pólos, o real e o possível, não para antecipar-se à crítica no desvendamento da mecânica romanesca, mas para fazer da própria vida uma continuação da sua obra literária, e vice-versa, numa interdependência que transforma os diários do final da carreira em partes dialeticamente integrantes da sua ficção.

A história do romance é muito simples: resume-se às poucas lembranças pessoais do sobrinho e, sobretudo, às conversas que manteve com os amigos mais próximos do tio Marcelino, colhendo dados para uma biografia que jamais seria feita, pois os dotes literários do pesquisador eram insuficientes para enfrentar um trabalho de tal peso.

Se o romance tem algo de proustiano na reconstituição do mundo requintado do tio Marcelino, pelos aspectos mais concretos do estilo passa ao largo da influência do escritor francês. No currículo herbertiano, Dados biográficos do finado Marcelino foi a terceira obra, ponto intermediário de uma evolução formal iniciada com a reescrita muito aplaudida de Cascalho e a prosa translúcida de Além dos marimbus — que tinha um admirador ilustre, Guimarães Rosa , tendo significado, para o escritor, a definitiva superação do regionalismo dos dois primeiros romances, revelando uma escrita madura, inspirada nos melhores modelos luso-brasileiros e sem precisar temer o confronto com Graciliano Ramos, Ciro dos Anjos, Gustavo Corção, Marques Rebelo, Josué Montello, para citar somente alguns nomes de sua família estilística. Foi seu admirável virtuosismo estilístico que lhe permitiria imitar, com felicidade, não só a linguagem oitocentista em Dados biográficos do finado Marcelino, como a escrita do século XVIII, em Os pareceres do tempo, e o jargão da tecnoburocracia em O fruto do vosso ventre e Einstein, o minigênio.

Há uma perfeita correspondência entre o estilo e o mundo representado na prosa do biógrafo, um tom deliberadamente antigo, algo oitocentista, como se o retrato de Marcelino, homem da belle époque, cético e culto como um Anatole France, soasse mais convincente com as meias-tintas machadianas, numa feliz imitação daquela “prosa caligráfica”, quase propriedade dos mineiros e dos baianos, aclarada com felicidade pelo crítico Antonio Candido em belo ensaio sobre o hoje esquecido Godofredo Rangel (ensaio, também ele, de elegante caligrafia formal, que deixaria horrorizados os companheiros políticos do ilustre professor).

O curioso é que o texto sóbrio de Dados biográficos do finado Marcelino, perfeito para exprimir o mundo sofisticado do tio, também podia ser roceiramente simples, de despojamento quase franciscano, de preferência quando o narrador se reportava à vida interiorana, numa flexibilidade de movimentos que só a concisão clássica é capaz de permitir.

Se o leitor tiver paciência com a parte inicial do romance, íngreme e preparatória, lá um tanto arrastada e envolta numa melancolia de coisas irreparavelmente perdidas, o restante do caminho será de pura satisfação: logo surge em pessoa o tio Marcelino, as falas do tio Marcelino e sobretudo de seus amigos (o método predominante na apresentação do empresário é o indireto, através dos outros), e a obra se transfigura de pronto, salva pela mescla bem temperada do humor e do patético, com sábia dosagem do suspense, nas últimas páginas, a propósito da morte do protagonista.

Marcelino foi o último gentleman da Bahia. Era da época em que empresários ainda não tinham desenvolvido suscetibilidade alérgica às coisas do espírito, nem reduzido suas ambições turísticas à Flórida. Sua biblioteca só foi feita à imagem e semelhança dos templos, porque livros eram objetos sagrados — e para ser lidos: o empresário, cuja escolaridade não ia além do quarto ano primário, dominava algumas línguas estrangeiras e foi um brilhante autodidata, sabendo apreciar os clássicos da literatura na mesma medida em que se interessava por botânica ou pela música de concerto (o amante de ópera exibia, em sua mesa de trabalho, um retrato autografado da soprano romena Alma Gluck, estrela da belle époque).

Como Brás Cubas, não se casou nem teve filhos, mas cercou-se de um grupo de amigos fiéis, que dele dependiam quase como crianças. Tinha o gênio da amizade: quando incentivo à cultura ainda não podia ser deduzido dos impostos, subvencionou durante anos a escola do Costa Pereira, sem nunca pedir o dinheiro de volta; financiou a olaria do Lemos; João Félix, amigo de infância no Andaraí, foi logo promovido a sócio do Trianon, grande loja de representações; aparelhou modernamente o consultório dentário do Vilela; e teria comprado uma fazenda ao Pessanha, funcionário público cujo principal desejo era voltar a viver no campo (“de peito ao vento, empurrando a charrua”, segundo o seu mote preferido), desejo porém que não resistiu à primeira proposta séria de Marcelino...

Esses amigos próximos de Marcelino desmoronaram, depois da sua morte, inclusive o único que também era rico, o empresário carioca Filhagosa, que logo adoeceu de tuberculose e foi morrer na Suíça (ele que, para quaisquer males, só sabia indicar um remédio: mulheres francesas). Paradoxalmente, no entanto, os relatos de suas derrotas pessoais ainda mais fortalecem a imagem solar e vitoriosa do finado comerciante, em torno do qual aqueles homens simples gravitavam, sempre beneficiários da sua generosidade. Desses amigos, nenhum foi mais devotado que João Félix, que por amizade a Marcelino se arruinou financeiramente: uma derrota, porém, com substância de sucesso moral.

Marcelino, seguramente, não foi criado, ou recriado, para integrar aquela “galeria pestilenta” a que se referiu Mário de Andrade, ao constatar a forte inclinação do romance brasileiro de trinta para criar heróis derrotados — categoria que o crítico Franklin de Oliveira, depois de mencionar os exemplos anteriores e universais da família, retomou e estendeu à literatura mais recente do Brasil, como se houvesse uma inconfessada tendência nacional para “curtir” a derrota. Antônio Carlos Jobim, bom frasista, resumiu-a com felicidade no conhecido aforismo: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”.

Dados biográficos do finado Marcelino é a história de um homem de sucesso, comerciante vitorioso que soube transformar uma pequena herança roceira em grande empresa baiana, cujas viagens de negócios ao exterior eram também excursões do espírito. Se a Bahia tivesse tido uma dúzia de homens como ele, seria ela a locomotiva da nação.

A intenção de Herberto Sales era fazer um romance psicológico, mas como nenhum retrato da alma pode prescindir totalmente da moldura social, das coisas episódicas que a cercam, Herberto acabou sem querer realizando o que a maioria da crítica nacional sempre espera de um escritor: que se conecte bravamente ao social, que não vire as costas à história. Dados biográficos do finado Marcelino é, por tabela, um “romance social”, e por ele viajamos não só pelos aspectos epidérmicos da Bahia turística, como também por certas mudanças mais estruturais da sociedade brasileira, à época da revolução de Trinta, com o poder político e econômico transferidos para as mãos de uma burguesia mais preocupada com números que com letras.

Desde o contato inicial do adolescente com o palacete, o quarto que lhe caberia e, mais tarde, o primeiro jantar em companhia da ex-fazendeira tia Edite e do tio “saturado de civilização” — vestindo camisa de linho e terno de palha de seda, gravata borboleta, sapatos polidos, face escanhoada recendendo a água-de-colônia —, o romance adquire o ritmo que acompanhará o leitor até o final do livro, num sistemático confronto, discretamente sociológico, entre os dois brasis da classificação euclidiana: o sertanejo e o litorâneo.

O Trianon, a grande loja de Marcelino, distribuída por quatro sólidos andares na central Rua dos Algibebes, já era um anúncio do mundo novo que estava chegando também na Bahia, com as primeiras novidades eletrônicas do Ocidente, sobretudo vitrolas. Entre aqueles lentos velhinhos que orbitavam em torno da lembrança de Marcelino, surge aqui e ali a presença destoante e sempre apressada do repórter Alcibíades, de máquina fotográfica sempre pendurada ao ombro. É o mais enfático representante dos novos tempos (o início do capítulo IX é um primor de imitação da pressa contemporânea).

Enquanto houver, no Brasil, uma biblioteca com nossos melhores romances, ali estará obrigatoriamente o livro dos dois sobrinhos: a obra real de Herberto Sales, que salvou o seu tio Francisco (disfarçado de Marcelino) da morte do esquecimento, e a incansável coleta de dados biográficos do sobrinho fictício, que pretendia fazer o mesmo com o personagem Marcelino, inspirado no comerciante baiano Francisco Araújo.

Entre os derrotados do romance, é preciso incluir o próprio personagem narrador, cuja infância e adolescência se desvendam no início da obra, rareando, depois, as informações sobre o adulto frustrado, representante comercial de um laboratório farmacêutico para quem os livros nunca significaram muita coisa.

Mas a biografia do sobrinho imaginário acabou, de certo modo, realizada, pois o demiurgo Herberto cedeu a narração da história à sua voz, e é por seu timbre exageradamente discreto que o leitor fica sabendo de tudo o que ocorre: o pequeno livro que pensou em escrever sobre Marcelino já estava milagrosamente escrito, antes do último ponto final da obra, como um prêmio pela pesquisa incansável sobre o tio bem sucedido — e que o redimiu, de algum modo, da condição de personagem vencido pelo destino.