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Os exumadores do Qorpo

 

 

José Carlos Zamboni

 

Exemplo de entusiasmo apriorístico por um autor — o contrário do “não li e não gostei” oswaldiano —, foi o que aconteceu com o crítico Prudente de Moraes, neto, nome importante do não tão importante modernismo paulista, em relação ao comediógrafo Qorpo Santo, tido como precursor do teatro de vanguarda.

Prudente certa vez revelou, em artigo para O Estado de São Paulo (de 03 de janeiro de 1969), que o escritor gaúcho lhe tinha sido, desde cedo, um nome bastante familiar. Descendente de gaúchos pelo lado materno, o neto do nosso “presidente Prudente” já na infância ouvia o bisavô pampeano falar com frequência de um poeta maluco, a quem conhecera pessoalmente:

 

(...) reportava alguns feitos, gestos e ditos, no mesmo espírito zombeteiro e ridicularizante que tinha sido, à época das doideiras do poeta, a reação unânime dos seus contemporâneos. Assim Qorpo Santo, algumas décadas depois da morte, ainda era, mesmo à distância, apenas o grotesco e o tresloucado, o clown que apanha, cai e se arrebenta, provocando gargalhadas em que não é difícil identificar a contribuição do sadismo coletivo.

 

Nada foi mais século XX do que isso: as vanguardas buscarem nos loucos e nas crianças os modelos da criação artística. Em plena militância modernista, no início dos anos vinte, pareceu a Prudente que as doideiras que o homem escrevia, embora só conhecidas por ouvir dizer, se encaixariam perfeitamente no ambiente estético do movimento vanguardista que ajudava a construir. Foi tomado por “premente necessidade” de pesquisar e conhecer os textos publicados, na esperança de lhes encontar “algo mais”:

 

Alguma coisa, uma espécie de mistério e misterioso pressentimento parecia indicar que deveria haver substância de outra natureza, de envolta naquela propalada maluquice (...) a vaga expectativa de que se viesse a encontrar, um dia, sob as manifestações de loucura de Qorpo Santo, a súbita revelação de algum precioso veio de poesia autêntica.

 

A pesquisa, porém, não teve sucesso, e o modernismo perdeu a oportunidade de antecipar-se, em quatro ou cinco décadas, à descoberta de Qorpo Santo como precursor da mais ardente modernidade.

É lugar-comum em certos ambientes acadêmicos dizer-se que a infra-estrutura marxista ou inconsciente freudiano se valeriam do aparato mental dos escritores, sobretudo dos mais intuitivos, para exprimir realidades mais profundas: justamente por não funcionarem normalmente (e aqui está o elo que os vincula aos loucos), estariam menos controlados pela mentalidade burguesa e portanto mais aptos a servir de ferramenta expressiva. Para Marx, só haveria no fundo um escritor, o Sr. Infra-Estrutura, assim como para Freud o Sr. Id. O crítico acadêmico pode escolher, de acordo com suas inclinações. Um escritor, mesmo não tematizando diretamente certa configuração social, poderia, caso tenha boa “antena”, de preferência da marca Pound, exprimi-la em seus princípios fugitivamente estruturadores. É uma maneira de admitir a realidade pela porta dos fundos do conhecimento, e o escritor como uma espécie de serviçal das ciências humanas.

Foi o que fizeram os exumadores de Qorpo Santo, autor de textos notoriamente mal escritos porém milagrosamente “videntes”... É certo que a publicação do autor gaúcho, nos anos sessenta, acrescentou algo à nossa pobre literatura teatral, sobretudo a oitocentista. Há passagens bastante divertidas em suas esquetes, algumas vezes com saborosa mistura de linguagem solene e vulgar, como a do rei que volta da batalha para trocar a roupa toda ensanguentada, e depois retorna novo em folha; ou família que, com a ajuda do criado, se vinga do patriarca arrancando as partes de uma cópia do seu corpo.

O leitor do século XX ou XXI, antes de dar rédea solta ao impulso genealógico e tentar ver em Qorpo Santo um genial precursor da modernidade, deve no entanto considerar a possibilidade de suas extragavâncias estilísticas serem produto da doença mental de que sofria, e que não se perderam, entre outras prováveis experiências do tipo, pelo fato do autor as ter podido editar.

Onde termina o elemento patológico e começa o estético em Qorpo Santo? Quando ele ainda vivia, não era levado a sério. Para o leitor da Porto Alegre oitocentista, a literatura que fazia e publicava por conta própria, numa espécie de revista que batizou de Ensiqlopèdia, era tolerada como excentricidade de louco manso, enquanto para os intelectuais da província e os médicos que o interditaram não passaria de documento psiquiátrico. De qualquer modo, o que não se admitia era que aquela materialização literária das suas obsessões pudesse ter valor artístico.

Na avaliação do comediógrafo, estou mais inclinado a concordar com o julgamento dos seus contemporâneos do que com os leitores da minha época. Lendo as páginas da sua “ensiclopèdia”, escritas para a leitura imediata e jornalística, publicada pelo próprio autor, nota-se como Qorpo Santo nada tinha, do ponto de vista moral, com o libertarismo surrealista ou o nihilismo destrutivo dos quais seus exumadores pretendem fazê-lo antecipador. Sua moral ainda era a burguesa. O final de peças como As relações naturais ou Mateus e Mateusa ilustra-o bem. Peças? Para definir melhor o gênero que praticou o autor, seria preferível falar em esquete, peça curta geralmente humorística.

É necessário considerar a obra de QS em sua relação com o teatro do período e com a doença mental do autor. Esta segunda perspectiva é fundamental para evitar a alucinação crítica — como enxergar no maluco de Porto Alegre o precursor do surrealismo ou do teatro do absurdo. Depois dos delírios interpretativos dos últimos cinquenta anos, é preciso voltar aos textos de Qorpo Santo e enfrentá-lo com as únicas armas que não nos acertarão pela culatra: a perspectiva da tradição literária ocidental. Se ainda se praticasse, na universidade, a análise estilística, seria fácil mostrar como a escrita de Qorpo Santo é frouxa. Ao lê-lo com um mínimo de expectativa estética, jamais o botaríamos ao lado dos nossos melhores autores do período: Gonçalves Dias, José de Alencar ou Machado de Assis.