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HÁ CINQÜENTA ANOS PARTIA-SE O ESPELHO

 

 

José Carlos Zamboni

 

Comemora-se, em 2009, os cinqüenta anos de lançamento do primeiro tomo de O espelho partido, de Marques Rebelo. Romance-rio, à clef, O espelho partido está organizado na forma de diário, abrangendo os anos de 1936 a 1945, mantido por escritor carioca da primeira geração pós-modernista — muito parecido com Rebelo. O ambiente é o Rio de Janeiro estado-novista, com rápidas incursões mineiras. Somam perto de mil e setecentas páginas, agrupadas em três volumes: O Trapicheiro (1959), A mudança (1963) e A guerra está em nós (1969).

Previsto inicialmente para sete tomos, O espelho partido não passou do terceiro. Foi uma monumental catástrofe, segundo o crítico Wilson Martins, que aliás gostava do romancista. A crítica, basicamente jornalística, diverge na sua avaliação. Mas o escritor Rebelo, incansável “arqueólogo noturno”, amador de nuanças, lento artesão da palavra, está completo e inteiro em cada fragmento dessa obra — obra narrativa concebida e realizada com o rigor, a sobriedade, a disciplina formal de que só foram capazes alguns poetas na literatura brasileira contemporânea.

Fico imaginado as inúmeras antologias, reais ou imaginárias, que se fariam dessa obra — antologias curtas, mais adequadas ao espírito desse miniaturista perdido na vastidão do painel —, desentranhando o que ficou escondido nos escombros: cenas da vida literária, notas de crítica, crônicas do cotidiano, episódios da história nacional e internacional, poemas em prosa, pequenos contos, aforismos. Será uma das formas pela qual o futuro poderá salvar O espelho partido, uma obra que é muito maior que sua própria e inegável derrota.

Capítulo importante na história de uma obra literária é a maneira pela qual foi recebida pela época. Esse artigo, pequena homenagem aos cinqüenta anos de O espelho partido, mostra algumas reações da crítica diante do romance então recém lançado.

Em geral, os críticos gostaram. Escreveram sobre ela nomes como Otto Maria Carpeaux, Tristão de Athayde, Cavalcanti Proença, Wilson Martins, Francisco de Assis Barbosa, Mário da Silva Brito, Willy Lewin, Guilhermino César, Luís Martins, Antonio Houaiss, Fernando Góis, Paulo Francis, Menotti del Picchia — paleta crítica de todos os matizes. Alguns colegas de ofício juntaram-se ao coro: Lúcio Cardoso, Otávio de Faria, Raquel de Queirós, José Cândido de Carvalho, Adonias Filho, Josué Montello, Eneida; os poetas Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo, Augusto Frederico Schmidt, Ledo Ivo, João Cabral. Enfim, parte significativa da nossa “inteligência”.

Foi, no entanto, um acontecimento mais literário do que editorial: vendeu pouco. Rebelo não criava para consumo imediato, embora fosse o contrário do escritor torre de marfim: sua prosa bem cuidada, combinando humor e algum sentimentalismo, passava longe da arrogância vanguardeira.

Quem primeiro escreveu sobre O espelho partido, porque teve acesso à obra antes da publicação, foi Antônio Houaiss, em 1957, nos cinqüenta anos de nascimento do romancista. Produto de maturidade literária, momento em que sua expressão se consolidava, o estilo rebeliano aqui aparece — dizia Houaiss, bem à sua maneira — com “claridade meridiana, de exatidão sem rebuços nem ambages, de concisão lapidar pois tanto há que dizer...”. “Enorme diário íntimo em cuja intimidade está filtrado, pela vivência mental múltipla, todo um ciclo de nossa história, que vai do fim do império até os nossos dias”, abriga uma variedade muito grande de personagens, de todas as classes sociais, de todos os matizes ideológicos, “sambistas e pintores, malandros e escritores, escultores e poetas, prostitutas de todas as cores e comerciantes de todos os lucros, com atrizes e jornalistas, com diplomatas e roceiros, com aproveitadores e coronéis, com macrôs e idealistas, com revolucionários e arrivistas”, algumas vezes misturando personagens reais com inventados. Ziguezagueando entre o plano do indivíduo e o social, “sem trair nem um nem outro”, O espelho partido teria brotado

 

da experiência vivida e da experiência transmitida, de ação coletiva ascendente e de íntima configuração individual, de documentação de um real além do imediatismo e de desgarrada transfiguração emocional, de convivência com o passado e o presente (e o futuro), mas de vivência instantânea, de crítica iconoclasta e de amor construtivo. (ANTONIO HOUAISS, 1960, p. 96-100)

 

O poeta Ledo Ivo é dos primeiros a escrever sobre o primeiro tomo de O espelho partido, O Trapicheiro, quando apareceu em 1959. Começa com algumas considerações sobre o valor simbólico do título — Trapicheiro é um pequeno rio carioca, que acompanha a vida do narrador da infância à idade adulta. Destaca a quebra da linearidade narrativa que caracterizava a obra anterior do ficcionista; o aspecto transgenérico, misturando ficção, autobiografia, crítica de costumes, poemas em prosa; influência de Jules Renard no contraponto de dois planos: o objetivo e o subjetivo, e na criação do personagem Pinga-Fogo, que lembraria o protagonista do Poil de carotte, de Renard, “um dos mais castigados e martirizados personagens do elenco de humilhados e ofendidos criados por Marques Rebelo”. Escritor que recusa as modas literárias, admirado pelos happy few, tem uma concepção quase monástica, flaubertiana, da arte literária, na sua procura de um “caminho escolhido por bem raros, silenciosos viajantes, um caminho que não atrapalha ninguém e que nos conduza a todas as partes” (citando o próprio Rebelo). Refere-se ao “estilo chispante de poesia, contido na altura que reclama o rigor, derramado no sítio que se habilita à deslumbrada licença e à irreprimível efusão”. Enfim, Rebelo seria dono de um dos melhores estilos da ficção brasileira contemporânea. Ledo Ivo não é tão certeiro quando, face à forte presença da infância no livro, insinua ser a visão rebeliana da meninice “pura, fagueira, diáfana”, em contraste com a “maturidade projetada num clima de competição e ferocidade, zombaria e ceticismo, rendição e amargura, apesar das aberturas de maravilhamento que pauseiam a narrativa”. (LEDO IVO, 1960, p. 2)

Otto Maria Carpeaux, no mesmo ano, lê e comenta O Trapicheiro. Nega influência de John dos Passos, com suas montagens: em O espelho partido, os fatos são registrados “no mesmo plano”, anotações que são de um “diário de escritor”. E nem vê marca de Proust nesse rebeliano “mergulho no passado”: “Nem todo mergulho no passado é proustiano (...) Nada de psicologia analítica”, à maneira do autor de A la recherche du temps perdu. Nem proustiano é o estilo contido e elíptico do escritor carioca. É um livro “deliciosamente escrito”, por escritor que “insiste pouco”, “afirma pouco e não conclui”, resolvendo-se num estilo que “revela atitude especificamente estética em face da vida”. Sabe ir do “humorismo malicioso”, da “sátira mais cruel”, até o “lirismo comovido”, a “emoção profunda”, tornando a obra “imensamente divertida e profundamente comovida”. Refletindo sobre a pouca penetração do escritor em certos setores da crítica, atribui-a a um motivo de todo externo: a maledicência de Rebelo, que sempre soube fazer inimigos à esquerda e à direita. Termina o artigo “jurando que O Trapicheiro é uma obra de valor extraordinário”. (OTTO MARIA CARPEAUX, 1960, p. 262-266)

Manuel Bandeira, que desentranhou um terceto decassilábico da prosa de O Trapicheiro, salienta as virtudes líricas da obra que, pela forma de diário em que está escrita, “propiciou que a poesia aparecesse não mais apenas subentendida ou diluída na prosa de análise, como nos livros anteriores do escritor, mas sim formulada de maneira autônoma, ainda que em íntima ligação com o texto”. (MANUEL BANDEIRA, 1975, p. 210-211)

Com Bandeira faz coro Cassiano Ricardo, acentuando “aquela extraordinária lucidez poética que caracteriza as anteriores criações de Marques Rebelo e que, ainda agora, me parece um recurso a mais em sua técnica de captação do real”. Considera O Trapicheiro, “tanto pelo que ele é como pelo ciclo que anuncia, um autêntico marco na evolução do romance brasileiro”. (CASSIANO RICARDO, 1975, p. 212)

Josué Montello chama a atenção para o “talento do miniaturista” e a adequação da forma do diário com aquela predisposição estilística (JOSUÉ MONTELLO, 1975, p. 212). Miniaturista capaz de compor as partes de sua obra com a mesma delicadeza de um Paul Klee, ainda que a estrutura geral de O espelho partido lembre a objetividade de um Bruegel — diz o escritor Gastão de Holanda (GASTÃO DE HOLANDA, 1975, p. 184).

A crítica de O Trapicheiro é em geral apologética, venha de amigos ou até de alguns inimigos literários. Raquel de Queirós, do grupo dos romancistas do Nordeste (tão atacado por Rebelo), foi de grande isenção: “Panorama de uma época, retrato estilizado, terno ou cruel de uma sociedade e seus principais figurantes, O Trapicheiro representa realmente o que tínhamos o direito de esperar do grande escritor que é Marques Rebelo”. (RAQUEL DE QUEIRÓS, 1963)

Do outro lado dos “socialistas” nordestinos, o carioca Tristão de Athayde — que foi vítima do autor em O espelho partido, onde aparece pintado com “traços terrivelmente caricaturais”—, não hesita em chamá-lo de “grande mestre”, “um dos maiores estilistas de nossa letra”, sendo uma das “grandes honras” de sua vida ter sido personagem de O espelho partido, “obra maior desse escritor que reunia em si “duas personagens de Shakespeare, Caliban e Ariel. Portanto, ele era ao mesmo tempo um criador de personagens próprias e um animador de personagens alheias”. (TRISTÃO DE ATHAYDE, 1975, p. 242-243)

Outro escritor que aparece sob forma pouco lisonjeira em O espelho partido é Lúcio Cardoso que, sem rancor, escrevendo sobre O Trapicheiro em 1960, afirma que as obras do autor são “marcos na história das minhas leituras, e alguns contos de Marques Rebelo, especialmente, têm o mais amplo e profundo significado para a minha sensibilidade de escritor”(10).

Claramente desfavoráveis são os críticos Assis Brasil e Renato Jobim, embora julgando a partir de posições diferentes. O primeiro, adepto das concepções vanguardistas dos anos cinqüenta — entre elas, o nouveau roman e o concretismo —, condena a linguagem historicista de O Trapicheiro, que envereda pelo documento, pelo registro de fatos históricos que perturbariam a obra. Censura a mistura de ficção e realidade (um dos eixos básicos de O espelho partido), e se espanta diante da indefinição do gênero: “...acaba não sendo diário, nem memória, nem depoimento, nem ficção”. Cita uma passagem do livro que não estaria bem escrita, ensinando depois a fazê-lo corretamente. (ASSIS BRASIL, 1982, p. 61-63)

Renato Jobim, também resenhando O Trapicheiro em 1960, é mais conservador. Negando qualidade de romance à obra, prefere vê-lo como esboço: tem “tratamento híbrido, confuso, diletante, superficial”. Uma das falhas principais estaria no propósito de focalizar “a vida brasileira, nos seus aspectos políticos, sociais, econômicos, culturais”, ficando na verdade longe de “refletir a multifária vida nacional”. Condena com veemência o “diarista” pela sua preocupação com o cotidiano: “tudo insignificâncias que não permitem às idéias do diário atingirem um nível superior e condigno”. Como arremate a um artigo predominantemente de malhação, termina por elogiar a inteligência do autor e o estilo, responsável por “páginas verdadeiramente insuperáveis”. (RENATO JOBIM, 1960, p. 97-99)

O crítico que mais escreveu sobre O espelho partido, resenhando os três tomos quando de seu aparecimento, foi Wilson Martins, na sua coluna do “Suplemento literário” de O Estado de São Paulo. Lendo O Trapicheiro em 1960, alguns meses depois de lançado, já tocava nalguns fatores responsáveis pelo limbo crítico em que mergulharia a obra após a morte do autor. Livro de espírito cético, sem parti-pris ideológico, teria contra si toda uma corrente da opinião literária resistente diante “dessa história sem ilusões e não deixará de lamentar a indiferença do Sr. Marques Rebelo para com os deuses, quaisquer que eles sejam.”

A vida literária, “rica de grotesco”, “pródiga de ridículo”, encontrava enfim o seu crítico perfeito, o pícaro indicado para registrar a aventura picaresca do carreirismo literário, num painel em que a história da vida intelectual do país em determinado período se misturava à história de um escritor, visto na sua dimensão humana, ao contrário do “ser descarnado que geralmente encontramos em livros dessa natureza”.

Wilson Martins foi atento à estrutura da obra. Romance de chave, na linhagem proustiana e com influências de Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis e Jules Renard,

 

jamais um título correspondeu tão bem a uma visão do mundo e a uma singularidade técnica (...) é realmente um espelho partido, reconstituído pelo leitor sem grandes concessões do romancista, livro confuso e complexo como a vida, pouco discursivo, nada didático, cheio de enigmas e de alusões obscuras, onde se penetra, como na vida, sem qualquer preparação prévia, sem o auxílio da cronologia e dos retratos, e cuja totalidade refaz-se pouco a pouco, recria-se inteiramente na proporção mesma das dificuldades, ainda que, segundo se pode presumir, ela só se venha a completar com o conhecimento do último volume.

 

A arquitetura narrativa de O Trapicheiro se compõe de uma “história de amor”, cercada de outros “pedaços de espelho”, refletindo os demais aspectos da vida de um escritor, “da banalidade cotidiana para a criação literária, das discussões de café para os acontecimentos internacionais”, inaugurando-se na literatura brasileira “a ficção não municipal, vencendo os limites afinal restritos das existências dos personagens para incluí-las num circuito universal, para integrá-las nas suas dimensões próprias (ainda que inconscientes)”.

O autor da História da inteligência brasileira toca num ponto fundamental: a concepção rebeliana da literatura e especificamente do romance, fundada “na vida do homem em sociedade e representada por um texto em que o estilo encarna o primeiro valor estético”.

Esse o grande trunfo de O espelho partido: o estilo. Reaparece em O Trapicheiro o romancista urbano da primeira fase (dos contos e romances dos anos trinta) e, bem mais refinado, o “técnico da literatura”, o “construtor de romances”, “obra amadurecida de um escritor na plena posse de todo o seu talento (...) uma obra marcante (...) Da vida literária para a literatura, a biografia do Sr. Marques Rebelo terá sido uma história admirável de escritor. O espelho partido ficará como o seu documento privilegiado”. (WILSON MARTINS, 1960, p. 3)

Sobre A mudança, segundo tomo do ciclo publicado em 1963, reafirma alguns pontos já levantados a propósito da obra anterior: trata-se de um “romance de intelectual”, produto do amadurecimento da inteligência brasileira. Deslinda os três principais planos da estrutura narrativa: o romance da existência pessoal do narrador, o romance da vida literária, o romance de uma época. Destaca a forte presença da cidade do autor — o Rio — “num romance em que são, afinal de contas, quase inexistentes as notações urbanas.” Insistindo nas “virtudes estilísticas” da obra, fala em renovação do romance brasileiro de trinta e quarenta, “inventando uma técnica de possibilidades praticamente infinitas e de grande força sugestiva”. Arremata o crítico: com O espelho partido, entra decisiva e definitivamente o Sr. Marques Rebelo nos domínios raramente acessíveis da grandeza artística”, acrescentando ao “romance brasileiro uma obra que não somente o reintegra nas grandes correntes universais, mas, ainda, sustenta, sem desvantagem, o cotejo inevitável com os títulos mais conhecidos da literatura romanesca”. (WILSON MARTINS, 1963, p. 3)

A propósito do terceiro tomo de O espelho partido, A guerra está em nós (lançado em 1968), Wilson Martins afirma que com essa obra estaria Rebelo expandindo “de forma incontestável o território do romance brasileiro”. Mas enquanto romance para romancistas ou críticos, correria o risco de se confinar na “prateleira nobre e pouco freqüentada” em que se situam essas obras. Desinteressante para o leitor tradicional do gênero, utiliza uma técnica que “sacrifica desde logo e de maneira irrecorrível um dos elementos fundamentais do romance que é a intriga (e a ação, seu anverso necessário)”. Se a substituição da onisciência clássica pelo conhecimento fragmentário e incompleto afasta o leitor comum, atrai o degustador experiente para quem “o interesse aumenta e não se desfaz diante das dificuldades de leitura que resultam do processo”. (WILSON MARTINS, 1969, p. 3)

Mário da Silva Brito, também escrevendo sobre A guerra está em nós, volta a insistir no escritor miniaturista que, paradoxalmente, tinha vocação para o mural, o largo painel. Lembra que antes de Rebelo já Oswald de Andrade tentara o romance fragmentário e cíclico, com ambições de painel social, falhando contudo. O escritor carioca retoma o gênero, dá-lhe a “consistência, organicidade e coerência interna” que falta a Marco Zero, estilhaçado

 

em miríades de cenas por multidão de personagens, cenas e personagens que não se entrosam, raro se comunicam, quase sempre se perdem na urbe do romance, que perturbam como se fossem alumbrantes flashes a ferir a vista no seu incessante relampejar, a prejudicar a nítida visão do todo, a percepção global da narrativa.

 

Se Mario da Silva Brito invertesse tudo isto, estaria próximo de uma síntese perfeita da trama de O espelho partido. Muito mais que em Marco Zero, há ali “consistência, organicidade e coerência” (que faltam ao romance oswaldiano e se manifestam, sobretudo, em O Trapicheiro), ordenando os estilhaços do espelho quebrado. Os personagens e cenas se entrosam, apesar do aparente estilhaçamento espaço-temporal. Tudo, ou quase tudo, se comunica e se encontra na urbe romanesca. Alguns flagrantes, aparentemente descosidos, não perturbam a vista, antes se impõem dentro da grande estrutura.

Para o autor de História do modernismo brasileiro, as origens brasileiras do romance fragmentário O espelho partido estão no Memorial de Aires, de Machado de Assis, sem esquecer a dívida para com o Journal, de Jules Renard, com quem se aparenta. (MÁRIO DA SILVA BRITO, , 1970, p. 86-90)

Coesão de conjunto, independência das partes — é assim que Haroldo Maranhão, nas “orelhas” da 1ª edição de A guerra está em nós (1968), enxerga os três volumes já publicados do ciclo. Dividindo a obra rebeliana em duas fases, antes e após O espelho partido, e depois de concordar com Mário da Silva Brito, Gastão de Holanda e Josué Montello a respeito do miniaturista e muralista que coexistiam no escritor carioca (“...elaborando o pontilhismo e disciplinadamente inserindo-o em larguíssimo painel”), Maranhão argumenta a favor da independência dos três tomos do incompleto roman-fleuve:

Ainda que porventura não viesse a concluí-la o seu autor, teriam as letras nacionais, ainda assim, três romances significativos, definitivos, que, eles somente, respondem pela presença e permanência de Marques Rebelo na literatura de língua portuguesa. (HAROLDO MARANHÃO, 1968)

Alguns meses depois da morte de Marques Rebelo, em 1973, Wilson Martins voltaria a se ocupar do escritor carioca, destacando a figura que sempre permanecera “à margem dos movimentos coletivos, das modas estéticas e dos grupos de combate”. Embora reconhecido como escritor de primeiro plano, não teve a presença que muitos outros, “incomparavelmente menos dotados, conquistaram de um golpe e, ao que parece, sem maiores dificuldades”. Manteve-se sempre independente esse “grande escritor de língua portuguesa” cujo esquecimento será fenômeno transitório: quando se apagar a figura do escritor irreverente, “sua obra será verdadeiramente lida e situada entre a dos escritores significativos do nosso tempo”. Sobre O espelho partido, lamenta que nem mesmo sua “grande e intrigante empresa” tenha conseguido “galvanizar-lhe o prestígio e restituí-lo ao palco iluminado dos debates, discussões e interpretações eruditas ('de acordo com os Formalistas Russos!...')”. (WILSON MARTINS, 1974, p. 3)

Seis anos depois, Wilson Martins mudaria de opinião. Num capítulo do vol. VII de sua História de inteligência brasileira, intitulado justamente “O espelho de mil faces”, depois de frisar a “estrutura complexa e ambiciosa” do romance cíclico rebeliano, com seus “vários planos interseccionados”, observa que O espelho partido, “pela técnica e pela temática, fazia promessas excitantes que, na verdade, tampouco se cumpriram”. Via-o como triunfo imediato já contendo “o germe do malogro a longo prazo”, com a interrupção da carreira do escritor pela doença e depois pela morte. O último livro do autor de A estrela sobre, “que devia coroar uma carreira extraordinária de ficcionista, resolveu-se, afinal de contas, numa daquelas memoráveis catástrofes de que falava Virgínia Woolf”. Contrariamente aos artigos anteriores, condena o não desaparecimento gradativo das obscuridades e alusões enigmáticas da obra — aliás, nem tão freqüentes —, e que antes via como fator de certo fascínio da obra. O aborto dos quatro volumes dificultaria a plena compreensão da parte já publicada:

 

“...o romance se recusou a ser escrito concorrendo com os problemas de saúde para impedir o autor de concluí-lo”; enfim, “no jogo de perde-ganha da ficção com realidade, esta última acabou sacrificando a primeira (...) frustrando com isso o grande romance que idealmente poderia ter sido”. Mistura de ficção com realidade que, nos primeiros artigos, foi vista como virtude... (WILSON MARTINS, 1979, p. 407-408)

 

Mesmo mudando de opinião a respeito de O espelho partido, Wilson Martins continua favorável ao escritor: não é pouco dizer de Rebelo que teve uma “carreira extraordinária de ficcionista”.

Sobre esse aspecto de O espelho partido — seu caráter de obra inconclusa — o escritor Antonio Bulhões, primeiro na “orelha” de O Trapicheiro e depois em nota à 2ª edição de A guerra está em nós, tem posição distinta de Wilson Martins. Na introdução de O Trapicheiro, diz que, embora cada volume pertença a um ciclo romanesco maior, “tem vida própria, e se por qualquer motivo superveniente o resto não for escrito, O Trapicheiro, em si, não sofrerá”. (ANTONIO BULHÕES, 1959) Em nota escrita para a 2ª edição de A guerra está em nós, afirma que “a unidade global de O espelho partido não impedia, como se verifica à leitura de O Trapicheiro, A mudança e A guerra está em nós, que cada um desses tomos fosse por sua vez peça íntegra e acabada, legível e assimilável de per si”. (ANTONIO BULHÕES, 1984, p. 573-575)

O próprio Rebelo parecia adivinhar e conformar-se com a possível inconclusão da obra, como aparece neste trecho de A guerra está em nós, em que revela o papel secundário que atribuía à literatura na sociedade contemporânea:

 

O espelho:

— Tenho o pressentimento de que nunca acabarás a tua obra prima...

— Consola-me o pressentimento de que o mundo não precisa mais de obras primas. (MARQUES REBELO, 1984, p. 42)

 

 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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REBELO, Marques. O espelho partido. A guerra está em nós. Rio: Nova Fronteira, 1984, p. 42.

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