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AMIGOS E INIMIGOS DO CARPEAUX

 

 

José Carlos Zamboni

 

Apesar de não saber alemão, sempre fiquei curioso a respeito dos cinco livros que Carpeaux publicou na Áustria e depois renegou, exceto um, que acredito ser A missão européia da Áustria, escrito em holandês e mostrando o fim da Áustria pela invasão nazista, conforme entrevista a Renard Perez.

Na entrevista que deu à revista José, em julho de 1976, quando perguntado sobre sua formação européia, cortou enfático: "Já começa com a biografia! Eu não lhe dizia que não quero dar entrevistas biográficas?" Depois acabou revelando que o que "fazia era igual à atividade que desenvolvi aqui. No fundo, uma atividade jornalística. E o resto, mais ou menos enciclopédico, no mau sentido da palavra: um pouco disso e um pouco daquilo."

Temos o direito de duvidar dessa autocrítica. Se tantos bons artigos seus ficaram de fora das coletâneas por ele próprio organizadas, por que o mesmo não aconteceria com sua obra européia?

 

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Separando, ontem, jornais velhos para recortar e guardar, reli algumas matérias do “Mais”, na Folha, sobre os cem anos de nascimento do Carpeaux. Boa crônica do Cony, com Carpeaux molhando a própria camisa, no regato mais próximo de uma estrada — estavam a caminho de Ouro Preto —, para umedecer a bomba d’água do Simca estragado do cronista.

 

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Dos jornais velhos, passei aos Ensaios reunidos de Carpeaux, livraço organizado por Olavo de Carvalho. Levei-o ao quintal. Estiquei a rede entre o jambolão e a aroeira. Esses ensaios nunca ficam velhos, mesmo quando não podemos concordar com o autor. É o melhor lançamento editorial brasileiro, prata da casa, dessa virada de século. Virada de milênio, no caso de Carpeaux.

 

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Certa vez, já faz um bocado de tempo, abrindo a porta de vidro de uma estante da Biblioteca Municipal de minha cidade (a estante dos livros doados pelo editor José Olympio, que nasceu em Batatais), fiquei subitamente diante de um grosso catatau de quase mil páginas: eram dois volumes, num só, da História da literatura ocidental, numa bela encadernação em papel westpost e capa verde musgo. Foram dias e dias de leitura, acompanhando a trajetória da literatura ocidental dos gregos até o renascimento. Não larguei mais o livro e o autor.

Tem razão o poeta Antônio Machado quando diz não existir autodidatismo. Na falta de bons professores de carne e osso, recorremos às aulas particulares dos livros. Na adolescência, sem necessidade de exame vestibular, entrei para a Universidade Carpeaux, a única que cursei com prazer e me ajudou, de certa forma, a organizar as leituras desordenadas. Os ensaios de Otto Maria Carpeaux, a História da literatura ocidental e Uma nova história da música foram guias seguros nas primeiras aventuras com as idéias.

 

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Creio ter pago uma pequena parcela da dívida com o escritor, ao desenterrar quase quarenta ensaios que ele publicou no jornal Diário de São Paulo, na década de cinqüenta. Organizei os textos para edição com o título provisório de A arte de traduzir e outros ensaios (quem foi Carpeaux senão um infatigável tradutor cultural?) e escrevi um pequeno prefácio.

Pensava em mandar o livro à editora da universidade em que trabalho, mas ao saber do projeto da editora Top-Books de reeditar a obra do escritor, achei que devia consultá-los antes. Entrei em contato com Olavo de Carvalho, que organizaria a edição. Resultado: os ensaios devem aparecer nalgum volume dos Ensaios reunidos de Carpeaux.

 

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Em agosto de 1999, fazia sessenta anos que o austríaco Otto Maria Carpeaux, então com trinta e nove e fugindo das unhas de Hitler, apeava no Brasil — para ser estoicamente brasileiro como nós e morrer brasileiro em fevereiro de 1978, numa sexta-feira de barulhento carnaval carioca.

Por ocasião do importante aniversário, quem acabou sendo presenteado foi o Brasil: o filósofo Olavo de Carvalho ofereceu de volta ao país boa parte dos ensaios de Otto Maria Carpeaux, agora juntos em Ensaios reunidos, pela editora Topbooks e Faculdade da Cidade (com organização, notas e introdução do próprio Olavo). Como diria o Paulo Francis, é para exigir dos livreiros.

Esforço que continuará no empreendimento do ensaísta Olavo de Carvalho que, com a colaboração da Faculdade da Cidade do Rio de Janeiro e da editora Topbooks, pretende avançar ainda mais: sairão, brevemente, mais dois volumes de Ensaios reunidos (de um total de três) com cerca de duas mil páginas, contendo parte significativa dos ensaios de Carpeaux esquecidos em velhos jornais e revistas.

Era de volta, finalmente, aquelas seis coletâneas que Carpeaux publicou no Brasil, nas décadas de quarenta e cinqüenta: Cinzas no purgatório, Origens e fins, Retratos e leituras, Presenças, Perguntas e respostas, Livros na mesa.

O resultado do esforço de Olavo de Carvalho foi um bonito tijolo de novecentas e trinta páginas, graficamente bem cuidado, a começar da capa. Trabalho de primeiro mundo, digno da Viena do Sr. Otto Karpfen, como aliás o autor da História da literatura ocidental já andava merecendo.

 

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Mais que belo tijolão tipográfico, esse livro é pedra fundamental que, junto com os outros volumes que virão pela mesma editora e pelas mãos do mesmo Olavo de Carvalho, vai permitir ao jovem leitor inteligente — que ainda existe, embora cada vez mais submerso no lixo mental das editoras, da universidade, da mídia — escolher com maior liberdade a sua convicção. "Não cabe à Universidade formar crentes nem sequer sugerir convicções, mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção", diz o próprio Carpeaux no ainda atual ensaio "A idéia da universidade e as idéias das classes médias".

Devemos ser sempre gratos ao editor desses Ensaios reunidos que, hoje em dia, é quem melhor escreve no Brasil contra certos moinhos de vento transformados em falsos gigantes, embora Olavo de Carvalho seja também um Quixote: nada há de mais quixotesco, no Brasil de hoje, do que tentar demonstrar, com lógica aristotélica, que moinhos de vento não são gigantes.

Não importa o que dirão os resenhistas e os professores. Carpeaux retornou para ficar — e com um livro que, física e espiritualmente, fica de pé na estante.

 

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A obra de Carpeaux, editada em livro no Brasil, compreende, além desses seis volumes de ensaios, publicados entre 1942 e 1960, dois volumes de ensaios políticos — A batalha da América Latina e O Brasil no espelho do mundo —, ambos de 1965; três histórias da literatura — a Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, de 1949, a grande História da literatura ocidental, em oito volumes, publicada de 1959 a 1966, A literatura alemã, de 1964; e Uma nova história da música, de 1958; e um ensaio sobre Alceu de Amoroso Lima.

É pouco, diante do que escreveu.

Olavo de Carvalho e a editora Topbooks prometiam continuar na rinha e trazer de volta parte significativa dos ensaios que Carpeaux não quis publicar em livro, soterrados sob montes de velhos jornais e revistas. O próprio Carpeaux calculava em torno de 1300 o número desses artigos sobre literatura & adjacências, sem contar os inúmeros prefácios escritos para obras de contemporâneos brasileiros e clássicos em geral.

Se não estou enganado, o primeiro esforço para começar a salvar esse material foi feito pelo professor Alfredo Bosi, em 1992, quando editou com uma orientanda de mestrado quase metade da centena de ensaios publicados no suplemento literário “Letras e artes”, do velho “Correio da manhã”, e ainda inéditos em livro.

 

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Carpeaux tinha como parceiro freqüente o tipógrafo do jornal, que nem sempre era fiel ao que ele escrevia. Imagino o trabalho dos editores nos próximos dois volumes, tendo que, na medida do possível, e sem ter em mãos os originais, desfazer na medida do possível essa notável parceria, tão promissora para o ensaísmo brasileiro.

 

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A longa "Introdução a um exame de consciência", de Olavo de Carvalho, com mais de cinqüenta páginas em corpo pequeno,  está muito boa e, por isso mesmo, pode irritar muita gente na imprensa e na universidade. Cheia de finas observações sobre o método e as idéias de Carpeaux (eu destacaria aqui a fundamental diferença entre o Carpeaux circunstancial, pressionado pelo momento em que viveu, e o outro, atento a questões  mais permanentes do homem), é, sem dúvida, o que de melhor se escreveu sobre o escritor austro-brasileiro, ao lado dos ensaios de Franklin de Oliveira, hoje infelizmente fora de circulação.

 

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Logo que chegou ao Brasil e começou a publicar ensaios na imprensa, Carpeaux despertou ciúmes em alguns intelectuais brasileiros da esquerda, da direita e do centro. Os comunistas o chamavam de fascista; os fascistas, de comunista; e os liberais, de ambas as coisas, alternadamente.

Sobre os primeiros inimigos de Carpeaux nos trópicos, e a tempestade que ameaçou desabar sobre sua cabeça, assim que chegou ao Brasil, escreve Olavo de Carvalho: 

“Insuflado por um grupo de comunistas de Minas Gerais, que lhe passaram informações falsas sobre Carpeaux (falsas ao ponto de fazer do exilado um suspeito de simpatias nazistas), o romancista francês Georges Bernanos, homem honesto mas de temperamento arrebatado e colérico como aliás o próprio Carpeaux, embarcou na conversa e publicou um artigo furioso contra o crítico recém-naturalizado. O episódio está documentado em artigos que serão reproduzidos no volume de Escritos Políticos. Houve também uma "campanha sórdida liderada por Oswald de Andrade" (Franklin de Oliveira, A Semana de Arte Moderna na Contramão da História e Outros Ensaios, Rio, Topbooks, 1993, p. 146) e uma intriga armada pelo semanário Diretrizes, que explico mais adiante. — Tudo isto, naturalmemente, sem contar as puras incompreensões sem malícia, como a de Eduardo Portella, que acusou Carpeaux de não entender os "caracteres específicos" da literatura brasileira (besteira pura, como explico na p. 266 de O Imbecil Coletivo, 5a. ed.), ou a de Paulo Hecker Filho, que reduziu o crítico à estatura de "um grande jornalista" (título de um artigo conservado, sem data nem nome da publicação, entre os papéis de Carpeaux nos Arquivos da Fundação Casa de Rui Barbosa).” 

 

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Oswald de Andrade, militante do Partido Comunista, foi um dos primeiros a escoicear contra Carpeaux (que, segundo ele, era um perigoso fascista). Antes que começasse a seduzir o leitor brasileiro com seu canto de sereia, era preciso intimidá-lo. Para tanto, arregimentou toda a sua tropa de choque e partiu para a ofensiva.

 

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Outro que não gostou nada do novo escritor, foi o “liberal” Mário de Andrade, cujo descontentamento aparece em algumas cartas dirigidas a amigos. Fez a cabeça de um deles, Guilherme Figueiredo, irmão do general e presidente Figueiredo, que publicou em jornal carioca dois violentos artigos contra o escritor austríaco recém chegado.

Figueiredo indignou-se com o encantamento do público brasileiro diante da “vigarice intelectual de Otto Maria Carpeaux, judeu tornado  católico, católico tornado fascista impossibilitado de ser ariano, exilado chegado ao Brasil com um escambo especial para os nossos tupiniquins: uma bagagem literária de citações plurilíngües.” (Cobras e lagartos, p. 31)

Era o velho nacionalismo brasileiro em ação. Se a Europa já se curvara diante do Brasil (não sabemos bem quando...), por que dobraríamos os joelhos diante de um suposto judeu austríaco convertido ao catolicismo?

 

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O escritor carioca Marques Rebelo, em seu diário-romanceado O espelho partido, que era também um romance-de-chave, criou um personagem chamado Jacobo di Giorgio, um escritor recém chegado da Europa, fugindo da fúria nazista.

Quem era esse Jacobo di Giorgio, que aparece logo no primeiro tomo do romance e vira amigo do narrador? Assim Rebelo o apresenta:

“...o simiesco Jacobo de Giorgio, professor de estética e autêntico polígrafo, que em três meses de Brasil já dominava o idioma a ponto de começar a escrevê-lo sem muito auxílio de Saulo Pontes, de quem se tornara amigo inseparável. Antenor Palmeiro, que nutre o mais acendrado amor pela incultura, olha-o arrevesado, como a um perturbador intruso, um demolidor de glórias e reputações.”

Saulo Pontes é um personagem baseado no historiador Otávio Tarquínio de Souza, e Antenor Palmeiro é a transfiguração ficcional de Jorge Amado. Jacobo por sua vez, e segundo todas as evidências, inclusive o aspecto “simiesco” de seu biótipo, era baseado em Otto Maria Carpeaux (com algumas pitadas do húngaro Paulo Rónai).

Chegando ao Brasil, o escritor Luís Cruz (que na obra de Rebelo é pseudônimo de Gastão Cruls) franqueou-lhe a biblioteca particular, que Jacobo passou a devorar, pois lia até “entre uma garfada e outra”.

Rebelo testemunha: “Fiquei admirado da facilidade com que já se expressava em português.—O senhor já conhecia o português? — perguntei-lhe”. “Como conheço apreciavelmente o francês, o italiano, o espanhol e o latim, conseguia entender um pouco o que lia. Assim soletrei alguns autores portugueses. Brasileiros, só o Euclides de “Os sertões”, e por acaso, e que me impressionou, e também por acaso o Taunay de “Inocência”, que não me impressionou nada — riu. Quando me decidi pelo Brasil, um mês antes de vir, e durante a viagem, me  atraquei a uma gramática portuguesa, a única que encontrei à venda em Roma. Cheguei falando um pouco à lisboeta — riu. Agora penso que já estou quase curado...”

Nas páginas de “O espelho partido”, já aparece Carpeaux em dois de seus principais aspectos: a inteligência aguda e, por isso mesmo, a capacidade de fazer inimigos. Quando começou a publicar na imprensa brasileira, não teve acolhida generosa, com foguetes ou banda de música, apesar das muitas amizades que também soube fazer.

 

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Se o estilo é o homem, e por ele se conhece o autor, a escrita enxuta de Carpeaux, admiravelmente limpa de retórica, não poderia ser opção de um homem moralmente desqualificado: há outras alternativas estilísticas para esse tipo de gente.

João Ribeiro, grande escritor e não menor caráter, afirmava que “o verdadeiro estilo, o estilo do homem de gênio, em certa maneira é falho e pobre de beleza e de outros agrados; porque no estilo é cousa muito principal o caráter e é raro que um homem de caráter seja de trato amável. Assim o estilo. Cícero escrevia excelentemente, mas não há estilo seu, porque é fora de dúvida que foi um mau caráter e um bandoleiro político. Tácito, ao contrário, não tem a pompa de Cícero, os seus períodos são breves e atalhados como que de cólera: mas deixou um estilo e era ao mesmo tempo grande homem de caráter.” (Páginas de estética)

 

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Apesar de Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Guilherme de Figueiredo, Eduardo Portela, Osman Lins, entre outros, que em épocas e por razões diferentes o atacaram, Carpeaux é pedra fundamental na edificação da filial brasileira da "igreja invisível" do espírito. Por isso, Carpeaux também teve amigos, aquelas inúmeras pessoas que se viram beneficiadas com sua presença entre nós.

A lista é enorme e inclui nomes como Manuel Bandeira, Drummond, Álvaro Lins, Carlos Heitor Cony, entre outros.

Pessoas que viam em Carpeaux uma espécie de tradutor da cultura intelectual do Ocidente para a periferia brasileira, um jornalista de idéias da mesma família de um Ortega y Gasset, o filósofo espanhol que usou o jornal para pensar e induzir o leitor a fazer o mesmo. Felizmente impossibilitado, pela gagueira, de assumir uma cátedra universitária, Carpeaux transformou o jornal em privilegiada sala de aula. Todos ganhamos com o mal.

Alguns paradoxos marcariam sua vida: formado em Física, Química e Matemática pela Universidade de Viena, mudaria logo de endereço para as ciências humanas e as artes, sobretudo a literatura. Apaixonado por música (aprendeu violino com pai e casou-se com cantora lírica), preferia ler partituras a ouvir discos. Dotado de talento narrativo e lírico, nunca fez poemas nem romances.

Não foi só crítico literário, aquele sujeito que deve estar atento ao lançamento de livros para julgá-los. Era mais um ensaísta: usava uma obra, fosse ela recente ou da Grécia antiga, para a partir daí mergulhar em próprio mundo que, longe de restringir-se a seus problemas particulares, era também o nosso mundo. Os seus escritos tinham sempre um fio condutor, algumas idéias alinhavantes que voltavam sempre. Por exemplo, a preocupação com o nazismo e a guerra enquanto manifestação do Mal em nosso século. Foi um tema sobre o qual voltaria bastante, depois que se mudou para o Brasil.

Como era exageradamente gago, não pôde ser professor universitário: foi, para o nosso bem, sempre jornalista. Escrevia sem parar. Publicava artigos em jornais e revistas de todo o país para sobreviver, embora tivesse como parceiro freqüente o tipógrafo, que devia decifrar sua letra quase ilegível.

Assim como um dos principais romancistas da Inglaterra não era inglês, mas polaco — Joseph Conrad, que só viria a aprender essa língua aos vinte anos—, o talvez principal ensaísta brasileiro não era brasileiro, mas o austríaco, naturalizado brasileiro, Otto Maria Karpfen (depois Carpeaux). Um austríaco que não se realizou literariamente em sua língua e em sua terra natal, mas na pobre língua em que escrevo essa resenha.

 

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Carpeaux entendia as manifestações literárias nacionais como participantes de algo que, baseado em Goethe, chamava de Literatura Universal. Seriam afluentes e ao mesmo tempo beneficiárias desse grande rio supranacional que começava na Grécia, passava pela Roma antiga e a Idade Média, alcançando o Renascimento e a época contemporânea.

Não era outra a razão de ser de sua monumental História da literatura ocidental, em oito volumes, em que ele pretendia justamente mostrar isso—que as literaturas nacionais lutavam para ter seus representantes no grande time da Literatura Universal (também aqui, muitos eram chamados e poucos escolhidos).

A muitos críticos, isso parecia um empreendimento arriscado: uma só pessoa dar conta dos oito mil autores que foram nomeados e estudados nessa obra de Carpeaux. Não entendiam que era uma obra mais memorialística (e por isso mais próxima da ficção) do que propriamente historiográfica: foi uma oportunidade do ensaísta austrobrasileiro mergulhar naqueles autores que tinha lido em sua formação européia, antes de fugir para o Brasil. Alguma coisa parecida com um acerto de contas, ou um balanço.

Foi Carlos Heitor Cony, amigo de Carpeaux, quem chamou a atenção para esse aspecto da História da literatura ocidental: sua semelhança com um romance, no caso um grande romance cíclico, em que todas as épocas, todos os autores e todas as obras passavam pelo filtro das inquietações particulares de Carpeaux. Isso não ocorreria se a obra tivesse autoria coletiva.

Mas era isso que queria Eduardo Portella, o mais severo e ao  mesmo tempo ingênuo resenhista dessa obra. Esse crítico espantava-se com a “ousadia” de Carpeaux. Como é que um único sujeito podia pretender, “enciclopedicamente”, dar conta de toda a história literária? Parece que Portella, mais tarde, se retratou e virou amigo do “inimigo”.

A resposta já estava na própria introdução da obra, quando Carpeaux menciona De Sanctis, o principal historiador da literatura italiana, que foi censurado por Carducci justamente por isso: era sintético demais. As obras, segundo Carducci, deveriam passar por longos estudos monográficos antes de virar objetos de sínteses. O curioso é que, diz Carpeaux, as intuições geniais de De Sanctis só foram confirmadas pelos estudos minuciosos dos críticos posteriores... Uma cabeça que pensa vale por um batalhão esforçado — eis uma verdade que, em tempos de interatividade e imbecilidade coletiva, tende a ser esquecida.

 

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O capítulo das amizades de Carpeaux ficaria incompleto se, ao lado de seus novos amigos brasileiros e dos velhos amigos europeus, não se abrissem alguns parágrafos sobre os colegas de infortúnio com quem partilhou as experiências iniciais do exílio. Num dos seus primeiros ensaios publicados no Brasil, "Última canção, vasto mundo", Otto Maria Carpeaux refere-se a um ilustre amigo austríaco, o barão de Andrian, que também vivia entre nós.

Tratava-se do barão austríaco Leopold Andrian (1875-1951), neto do compositor Meyerbeer. Amigo de Hofmannsthal e contemporâneo de Franz Kafka, Karl Kraus, Musil, Wittgenstein, Rilke, Hofmannsthal, Mahler, Freud, Schönberg, Klimt, fez uma incursão rápida pela literatura, em 1895, com um pequeno romance: O jardim do conhecimento. Pertenceu a um grupo chamado Jovem Viena, com o próprio Hofmannsthal e Arthur Schnitzler.