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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 9

 

 

1 de maio de 2006. Passei por dois acidentes de estrada. Agradeci ao deus do trânsito por não estar envolvido em nenhum deles e toquei em frente, pensando muito filosoficamente na transitoriedade dos carros e dos motoristas. Nada dá mais trabalho que um Dia do Trabalho, quando prolonga desnecessariamente o final de semana.

 

2 de maio de 2006. Quando a alma tem fios condutores, a dispersão e a indisciplina não atrapalham a leitura: o peixe fisgado vai logo para o fundo da rede. Nada mais contrário ao espírito da literatura que um romance ou livro de poemas riscados ou anotados na margem. Já deixei de comprar livro, nos sebos, porque estavam assim — obscenamente violados por esses porcos lambões da leitura.

 

3 de maio de 2006. Li num psiquiatra, certa vez, que o indivíduo depressivo nunca está onde devia estar: ou se encontra muito perto, ou demasiado longe do mundo. Ora é afetado demais pelas coisas, ora lida com elas com extrema indiferença.

O método do poeta tem algum parentesco com isso: está sempre batendo de frente com o mundo, mas só consegue escrever sobre a colisão letal quando recolhido na tranqüilidade wordsworthiana.

 

5 de maio de 2006. O país que já ficou mundialmente famoso por não ser sério teria de ter, mais cedo ou mais tarde, um Lula presidente. É a prova mais irrefutável daquela verdade.

 

6 de maio de 2006. Chico Buarque escreveu romances desnecessários para mostrar que não era só letrista, embora fosse dos bons, sobretudo antes de engajar-se no feminismo de Ipanema e virar operista da marginalidade. Está entre os bons cançonetistas de sua geração. Só não é o maior, como querem muitos. 

O público das canções comprou os romances do Chico e adorou. Fã gosta de tudo o que o ídolo faz — engarrafaria o peido do astro, se possível. Os romances venderam e continuam vendem muito, enchendo de inveja os romancistas de carreira.

Mas o ídolo Buarque será sempre um letrista que resolveu fazer romances, ao contrário de Vinícius de Moraes, um bom poeta do livro que fazia boas letras para os discos. E a impossibilidade de saltar da letra de música para o romance, da arte popular para a complexidade da literatura, é a prova mais viva do quanto o atual multiculturalismo erra o chute, ao jogar a tradição na lata de lixo e nivelar todas as criações “culturais” por baixo.

 

7 de maio de 2006. Os cadernos de variedades dizem que há um nova geração de contistas por aí. É a geração de 90... Os contistas nós vemos nos cadernos de variedades, e até em programas de TV, pensando e expressando-se mal. Coitada da dona língua portuguesa, quando sai pela boca dessa gente. Só não se sabe onde estão os contos.

 

8 de maio de 2006. A senadora Heloísa Helena, agora candidata à presidência da república, jura que vai conquistar as mentes e os corações do resto do Brasil para sua causa. No grito e no cuspe, evidentemente.

Os corações pode ser. As mentes que ainda pensam, não.

 

9 de maio de 2006. — Tira esta cara do rosto! — ordenou o marido à mulher melancólica, como se tristeza fosse máscara de teatro.

E não é que era mesmo? A mulher achou graça e sorriu.

 

10 de maio de 2006. Chato, por definição, é o sujeito que importuna e aborrece, sobretudo pela insistência. É o caso do professor de literatura que não quer deixar nada de fora da explicação da obra. Conseqüência: pelo acúmulo de informações quase sempre inúteis, construídas mais pelo método que adotou que sugerida pelo autor da obra, passa uma falsa idéia do livro e afugenta o leitor virtual, que justificadamente sai correndo daquele monstro de sete cabeças.

Tem mais chato que aquele outro professor de literatura que, depois de ouvir uma opinião qualquer, pede à pessoa que demonstre tudo, exemplifique com passagens da obra e das mil obras sobre a obra, citando fontes, número das páginas etc.? Rebaixa o método socrático a interrogatório policial, desconfiando mais do interlocutor que da própria eficiência. 

O crítico literário que quer demonstrar tudo lembra aquele sujeito da poesia “Mosca azul”, do Machado: não contente em possuir a mosca azul, que despertava nele, como se fossem mesmo reais, as visões mais fantásticas, quis dissecá-la para ver se encontrava a fonte do milagre nalgum ponto do pequeno corpo. De tanto escarafunchá-la, matou a mosca e ficou sem o milagre.

 

11 de maio de 2006. Deus dá o frio conforme a marca do cobertor. Já pensou se Jó lamentasse como Jeremias?

 

12 de maio de 2006. O que é vivo, para sobreviver, deve se adaptar ao próprio ambiente. Evidentemente, não vale para o homem, que pode adaptá-lo a si mesmo, mudar de ambiente ou, o que é mais razoável, piorá-lo.

Por exemplo: essas tais “instalações” artísticas. Compete com a fumaceira de Cubatão para emporcalhar o meio ambiente.

As melhores “instalações” não estão nos museus, mas em quintal de pobre.

 

13 de maio de 2006. Hoje, moro num bloquinho de três andares, condomínio mais ou menos fechado, e ainda dou risada. Era uma idéia que jamais freqüentaria minha cabeça, vinte anos atrás.

Quem mudou meu conceito de moradia? Os bandidos do Brasil, bem mais organizados que as pessoas de bem. Influíram mais rapidamente em minhas atitudes do que a literatura e a filosofia.

Nada como a ação direta de uma força bruta para uma idéia mudar de lugar na mente.

 

14 de maio de 2006. Na gangorra da história, cada época tem o idealismo que merece. Há quarenta anos, idealista era o indivíduo que falava em proibir a proibição, descia o pau na ordem estabelecida, na repressão burguesa, e se “engajava” na liberação geral. Hoje, idealista é aquele sonha com a proibição do proibido-proibir.

Quando acabarem com o impedimento, o futebol perde a graça. Que graça teria o futebol sem os erros do juiz? Liberdade tem mais a ver com conta-gotas que com ducha. Quando é demais, enjoa.

A moçada de hoje, que mal conhece repressão, não pode fazer arte que preste. Freud algumas vezes tinha razão: quando ligou arte e neurose, por exemplo, embora a velha objeção a essa tese continua válida: não basta ser neurótico para ser bom artista. É preciso, antes, ser bom artista...

Sem repressão e neurose não há humor inteligente, não há arte superior: só chalaça e rock.

 

15 de maio de 2006. Fazia absoluta questão de ser sádico com os alunos de letras: só mandava ler boa literatura.

 

16 de maio de 2006. Solução para o forrobodó brasileiro: entregar as chaves do palácio do Planalto ao PCC. Governados pelo vício radical (o PT levado às últimas conseqüências), logo vamos sentir saudades da virtude. Leia-se Machado, “A igreja do diabo”.

 

17 de maio de 2006. Diz a estatística que o Piauí, penúltimo estado da federação, tem o menor número de criminosos do país. Ou falta dinheiro para imprimir boletim de ocorrência?

 

18 de maio de 2006.O estado de São Paulo, eterno canteiro de obras, agora revela o que está escondido sob o ativo das empresas bem sucedidas: o progresso crescente dos presídios e a ordem unida do crime organizado.

 

19 de maio de 2006.  O negócio é continuar educando nossos filhos sem medo, completamente livres para o bem e para o mal. Eles crescerão sem culpa e sem ansiedade, bem diferentes de nós.

Um dia, passarão por cima de nós com as motos, salgarão nossa carne com cocaína e ainda vão chamar os amigos para o churrasquinho de pai&mãe.

Ao som de rap e rock, obviamente.

 

20 de maio de 2006. É idiota culpar um só homem pelos erros da história? Disse o poeta Heine que um filósofo, na quietude do seu gabinete, pode acabar com uma civilização. Há quem ache que tudo, no fundo, teria começado com um tímido e pretensioso professor de grego da universidade da Basiléia: Nietzsche, aquele do niilismo, do super-homem, da morte de Deus. Só Nietzsche?... Toda uma época. Nietzsche, mais que qualquer outra coisa, é o nome de uma época.

Era bom poeta, mas como filósofo não entendeu nada. Com o vassourão do bigode, quis varrer de uma vez só a educação careta dos nossos avós, o puxão de orelha da tia, a palmatória da professora feia, o decálogo de Moisés, enfim. Como se a civilização, coisa de homem — homem só, sem super nem sub —, pudesse viver sem mal-estar.

O diabo é que mal começou o carnaval. Há muito ainda que vingar por tantos séculos de penitência cristã.

 

21 de maio de 2006. Dizem que o Senhor já mandou as Dez Pragas da modernidade. Estão todas aí, solapando as bases do mundo civilizado. Da minha parte, já identifiquei três: o automóvel, o rock e o Programa do Faustão.

 

22 de maio de 2006. Pior que Freud e Nietzsche, são os sub-Nietzsche e os sub-Freud de plantão. Livrai-nos, ó Senhor, desse pessoal.

 

23 de maio de 2006. O último ateu:

— O negócio é ressuscitar Deus bem depressa. Na marra.

 

24 de maio de 2006. O que é, o que é?

 

É mais levinha que a brisa,

Mais sorridente que a lua

Achando graça da rua...

Ah só pode ser a Elisa!

 

(Pra minha neta, que ainda não aprendeu a ler, ou seja, ainda vive no Paraíso).

 

25 de maio de 2006. Bom divertimento para a velhice ressentida: procurar nas moças bonitas os defeitinhos que, num belo dia, serão deformados pelo tempo. O tempo é o inventor da caricatura; o dono da patente.

 

26 de maio de 2006. Tudo bem. Só uma pequena parte do corpo é indecente, mas, como na política, manda em todo o resto.

 

27 de maio de 2006. O poço de Diógenes

 

Com olhos fixos nas estradas,

Só preocupado em percorrê-las,

Jamais caiu dentro de um poço;

Mas perdeu todas as estrelas...

 

28 de maio de 2006. Conheço aquele sujeito. Sempre foi exibicionista. Ontem, pela manhã, parou a carro sob a janela do velho músico, doente e acamado, e botou uma valsa no toca-cd. Uma velha valsa, dessas que um velho músico sempre aprecia. O exibicionista abriu a porta do carro e ficou longamente usufruindo a própria filantropia.

 

29 de maio de 2006. Para não passar em branco em matéria de poesia, as futuras histórias da literatura vão dedicar, obrigatoriamente, alguns capítulos aos poetas venais, os extraviados do livro, os que abandonaram a página impressa pelas letras de música ou foram rodar a bolsinha nas agências de publicidade.

Será por isso que, atualmente, há mais literatura em prateleira de supermercado que nas livrarias? Aquela irônica água sanitária com o nome de Candura, por exemplo. Um paradoxo até razoável. Há algum poeta venal por trás disso, certamente.

 

30 de maio de 2006. Do mal e do bem

 

Mais fascinante, em moral,

Que discernir mal e bem,

É descobrir, muito além,

Os males que vêm pra bem

E os bens que só fazem mal.

 

31 de maio de 2006. — Desconfio que o tempo quer acabar comigo — disse o paranóico, virando a esquina e escondendo-se num bar.

 

 

 

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