NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 8
1 de abril de 2006. Shakespeareana nº 2.
Tudo, sem exceção, é barulho e fúria no mundo
contemporâneo: até o resto deixou de ser silencioso.
2 de abril de 2006. Pedrinhas: pequena cidade aqui
perto, entre Assis e Londrina, na divisa com o Paraná. Não deve ter cinco mil
habitantes. Fundada por imigrantes italianos, depois da Segunda Guerra, está no
meio de sítios e fazendas prósperas, cercada de milho, soja, trigo. Os italianos
enriquecidos mandaram construir casas enormes numa época em que esse tipo de
ostentação ainda não era perigoso. Um prédio de muitos andares foi abandonado no
meio do caminho.
Pedrinhas deve
arrecadar bem, a
prefeitura em estilo romano vai enchendo a praça de colunas romanas. Levantou
alguns prédios públicos romanos, botou na entrada da cidade um pórtico romano.
Nada mais brasileiro.
3 de abril de
Misantropia?
Em geral, não tenho grande simpatia pela espécie dos bípedes implumes,
pretensamente pensantes, mas nunca poderia odiar aquela parte da espécie que
veste saias e fala com estonteante doçura.
Mesmo que a gente tenha de aturar tudo o que Hamlet listou no famoso
monólogo, mesmo que no jogo da vida estejamos todos condenados à lanterninha,
não há prêmio maior que a existência — sobretudo por haver aquela parte da
espécie que veste saias e fala com estonteante doçura. Quem gosta de
mulheres pode falar mal do mundo, mas está proibido de falar mal da
vida.
Viver é bom,
apesar das doenças e dos políticos, mas acho que não devíamos ser tantos assim —
desde que a vida, é óbvio, me incluísse entre os tais
existentes tautologicamente premiados com o prêmio da existência.
4 de abril de 2006. Meu condomínio, afastado da cidade,
tem oito blocos em duas fileiras. Dezesseis apartamentos em cada um. Um amplo
pátio no meio, gramado, com algumas árvores e plantas. Dá uma impressão de ordem
— aquela ordem de armário embutido, com cada coisa em seu lugar, como diria o
poeta — que o resto da cidade já não tem. Mas é só impressão. Não é difícil
imaginar os eternos probleminhas humanos crepitando
nos apartamentos.
É
razoavelmente silencioso, exceto uma vez por mês, quando o servente factótum
empunha a máquina de cortar grama e avança. A rodovia Raposo Tavares passa a
poucos quilômetros, e à noite sempre dá para ouvir o ronco discreto dos
caminhões que nunca dormem. Não fosse isso, e não avistasse da minha janela o
grande e cinzento presídio, poderia jurar que moro na roça.
5 de abril de 2006. Meu verso preferido no condomínio:
"Vou-me embora pra Pedrinhas!"
Juro por Deus
que não é pelas colunas romanas.
6 de abril de 2006. Haverá lugar, no Brasil, onde se
possa estar a salvo do Brasil? Haverá lugar, no mundo, onde se possa estar a
salvo da condição humana? Se houvesse, quem me defenderia de mim mesmo? No
fundo, o problema não é o Brasil, mas essa droga de mundo.
O Brasil só
complica um pouco mais a condição humana.
7 de abril de 2006. Três prioridades do intelectual
brasileiro, segundo o poeta Bruno Tolentino: virar funcionário público, pagar
plano de saúde e morar
8 de abril de 2006. Sou um sorridente astronauta
brasileiro e estou na estação orbital russo-americana. Trouxe quinhentas canções
do Roberto Carlos em MP3. Olho o mundo lá longe, azul como os olhos da minha
finada mãe. Para aparecer na Globo, embrulho-me na
bandeira verde-amarela e boto chapéu de Santos Dumont, meu glorioso precursor.
Pego uma bola e tento uma embaixada à Ronaldo, mas a
bola não obedece. Não tem importância. Sorrio sempre. Um sorriso mais verde que
amarelo. Afinal, não sou eu quem está pagando a passagem.
9 de abril de
10 de abril de 2006.
Cavalo empinado é
exceção, e por isso, quando fica nesse estado, tem lá sua grandeza. O homem, que
vive naturalmente empinado, afrontando tudo, de vez em quando fica de quatro,
posição quase obrigatória para preservar a espécie empinada. É ridículo. Por
isso, faz no escuro e de porta fechada.
12 de abril de 2006.
Esse barco
provisório de Caronte, que a gente chama de sono, nem
sempre está no porto quando se chega para o embarque.
13 de abril de 2006.
Quem não sabe
desenhar, pintar nem esculpir, hoje faz instalações, dá aulas na universidade,
escreve teses ilegíveis sobre arte e ainda pode aparecer no programa Metrópolis, da TV Cultura.
14 de abril de 2006.
Para renovar minha
carteira de motorista, o Estado tirou cento e trinta reais do meu bolso e ainda
me obrigou a escutar doze horas de aula sobre trânsito, com prova no final
(prova que não reprova, progressão automática, para
quem pagar o curso).
O professor de
trânsito falava depressa demais. Não entendi nada. Merecia ser multado por
excesso de velocidade.
15 de abril de 2006.
Sábado de aleluia.
Malhação do Lula na revista Veja.
16 de abril de 2006. Numa época de superávit de ação, o
tempo é deficitário e insolvente.
17 de abril de 2006.
Apareceu, na TV,
certa miss universo. Era bela? Talvez não passasse de
um belo projeto feminino, bela maquete do majestoso edifício que poderia virar, não fosse a estética da magreza que toma conta da
pobre cabecinha, dominada por estilistas gays que morrem de inveja da inimitável
beleza feminina. # Bijuteria pode ser complemento da beleza, aumentar um ponto
ou dois na mulher, jamais compensação da feiúra. Mulher feia é menos feia sem
adereços e pinturas — como a prosa de Graciliano Ramos, ao mesmo tempo feia e de
uma estranha, inacreditável beleza.
18 de abril de 2006.
O casal global que
apresenta o Jornal Nacional terá a coragem de envelhecer em público, na telinha,
diante de todos nós que envelhecemos escondendo uns dos outros o supremo ultraje
das banhas e das rugas?
20 de abril de 2006.
O deputado petista
foi absolvido pela Câmara, para que a maioria dos deputados pudesse sumariamente
condenada por nós. É a condenação que vale.
21 de abril de 2006.
Alma e corpo
são, no fundo,
Uma planta
muito rara
Num vaso bem
vagabundo.
22 de abril de 2006.
Principal fato do
mundo, entre março e abril: o pé de laranja ilhoa.
Carregado de sóis. Dezenas de bolinhas amarelas competindo com o astro-rei,
quando aponta sobre os canaviais na manhã fétida e fuliginosa. Doces como só
elas conseguem ser, sem veneno, na medida exata para antídoto do
mundo.
23 de abril de 2006.
Para um “Samba sem
auto-piedade”:
Eu vivo, muito tempo faz,
Mais enrolado
que retrós,
Andando quase
só pra trás
Que nem um
caranguejo a sós.
Vou indo
devagar... Capaz
Que a
tartaruga é mais veloz...
Se canto, é com um fio de
voz,
Se danço, logo acaba o gás.
24 de abril de 2006.
Em vigor, no Rio,
lei ferroviária que separa gênero masculino e feminino por vagões. Perdem os
homens carentes, lucram as mulheres que querem escolher os bolinadores, mas pode
lucrar ainda mais a população gay dos dois vagões, já que continuarão
abarrotados como antes da lei.
25 de abril de 2006. Dalai
Lama visita o Brasil. É um papa mais light, sem
multidões maltrapilhas em volta — os fiéis da sofisticada religião são artistas,
intelectuais, gente-bem. Como o astronauta risadinha, também embrulhou-se na bandeira brasileira, que infelizmente não
combinou com a roupa vermelha do simpático buda pop.
Ser budista,
no Ocidente, é como andar a dez por hora numa pista expressa.
26 de abril de 2006.
Se os juristas
levassem Shakespeare mais a sério, a crença nas instituições humanas estaria
entre os crimes inafiançáveis.
27 de abril de 2006.
Esperar do homem
que dê a César o que é de César parece razoável, sobretudo quando há polícia por
perto e um tribunal virando a esquina. Mas transformar a solidariedade em
obrigação é pedir demais para a espécie dos bípedes empinados.
28 de abril de 2006.
Sem a ameaça de
eternidade, a vida não teria o menor sentido.
29 de abril de 2006.
Se aperfeiçoamento
moral dependesse do conhecimento da alma, os psiquiatras estariam na linha de
frente da sabedoria.
30 de abril de 2006. Há uma pontinha de sadismo no
carinho das mães: se os filhos não adoecessem de vez em quando, elas adoeceriam
até a morte pela frustração de não poder exercitar o cuidado materno.