Voltar à página inicial

 

   

 

NOTAS PARA UM DIÁRIO -  75

 

 

27/09/2011. Para o jesuíta espanhol Manuel Carreira, das três modalidades de conhecimento que temos à disposição — o raciocínio, a experiência e a crença no que ouvimos — 99,9 % de tudo o que sabemos provêm desta última. Com o diz-que-diz eletrônico das últimas duas décadas de internet, o volume de material oferecido acrença humana aumentou gigantescamente, e não é difícil concluir que estamos, cada vez mais, condenados à credulidade, sem a menor chance de averiguar além de uma pequena parte do que chega até nós.

É preciso aprender a acreditar corretamente...

 

 

26/09/2011. As brincadeiras do Tempo.

O velho Tempo está brincando

Com as árvores do quintal.

Disfarça-se de vento brando,

Mas logo empunha o vendaval

E ceifa a rosa com sua foice,

Gratuitamente, sem razão.

Quéde a rosa? Transfigurou-se

Em quinze pétalas no chão.

 

 

25/09/2011. Se a ciência é uma operação que visa o aspecto mensurável das coisas, há coisas na literatura que podem ser quantificadas — o aspecto mais propriamente linguístico das obras — e outras que não. Como entre essas últimas é que se encontra o mais importante, digamos a “alma” dos textos, então é forçoso admitir que nada de científico é possível afirmar sobre o que realmente vale a pena, a respeito das grandes obras literárias.

O que é que determina o nosso gosto literário? Em que medida o gosto influi no julgamento, ou as ideias são condicionadas pelo gosto? Quais os fatores que influenciam nossas escolhas literárias e artísticas? Os signos do Zodíaco? Os deuses do Olimpo? Ser rico ou pobre, empregado ou patrão? As relações infantis do leitor com sua mãe ou com seu pai?

Uma região importante do país da filosofia — a estética — tem-se preocupado com essas perguntas, além da psicologia e da sociologia. Enquanto essa gente teimosa tenta organizar respostas válidas ou inválidas à questão, continuaremos a mudar nosso gosto, nossa opinião, nosso julgamento, espantando-nos muito mais, no entanto, com as alterações no comportamento estético dos outros do que em nós mesmos.

Depois das últimas décadas, com o surgimento de metodologias críticas destinadas a expulsar o palpite do julgamento literário, sobretudo as apoiadas nas ciências da linguagem (como se para a criação literária bastassem palavras), o estudioso de literatura não tem mais o direito de opinar livremente sobre as obras e os autores, de equivocar-se no juízo estético, de quebrar amanhã o ídolo de ontem. O crítico formado na universidade transformou-se, definitivamente, naquele chato-boy a que se referia Oswald de Andrade, pensando em Antônio Cândido e congêneres.

 

 

24/09/2011. Versos homofóbicos.

Em qualquer hora do tempo,

Em qualquer ponto do chão,

Pode reiniciar-se a festa

Divina da criação:

Basta um corpo

Em terno abraço

Outro corpo

Convidar

Para com ele ocupar

O mesmo lugar no espaço.

Conditio sine qua non,

Não são dois corpos quaisquer:

O mais forte será um homem;

E o mais perfeito, mulher.

 

 

23/09/2011. Era uma vez, há muito tempo, quando a maioria das pessoas era religiosa e ia à missa, deixei de frequentá-la. Era aquela irresistível sedução adolescente, no fim dos anos sessenta, de pertencer a minorias. Depois, passados tantos anos, vi que a maioria religiosa tinha razão e decidi, outra vez, fazer parte dela: subi a escadaria da fé e voltei à Igreja, mas, para minha surpresa, a capela estava quase deserta — a velha maioria tornara-se religiosamente indiferente. E então, mas agora contra a minha vontade, continuei fazendo parte da minoria...

 

 

22/09/2011. Nos setent’anos do último jesuíta

(Ao prof. Carlos Fantinati)

Não vou falar da dívida, aqui,

Nos últimos trinta anos contraída

(Débito não de letras, mas de vida,

Que, nas horas mais francas, contraí).

Quero falar de crédito e de fé,

Das mãos abertas para tanta gente,

Recebendo-me generosamente,

E eu vindo de tão longe... um -mané...

Quero falar é da afeição imensa

Que você teve, sempre, pela diferença,

Na contramão dos falsos pedagogos.

Quero falar de ler, dessa franqueza

Que respeitava a nossa natureza

No que ela tinha de mais nobre: o logos.

 

 

18/09/2011. A esquerda só é dialética até chegar ao poder. Depois é ferozmente monológica.

 

 

17/09/2011. O Globo Repórter de ontem foi sobre as “experiências de quase morte”, EQM para os mais chegados. São todos brasileiros os entrevistados, vítimas de “quase morte” reanimadas nas UTI ou que, de algum modo, retornaram ao nosso mundo de aquém túmulo.

Segundo estudos do psiquiatra americano Raymond Moody (que, também professor de filosofia grega, andou depois interessado em metempsicose) e da psiquiatra suíça Elizabeth Kubler-Ross, a maioria dos que retornaram, entre os que se lembravam da viagem, voltou com boa impressão do lado de Lá; só um pequeno número não foi bem recebido, certamente os que logo iriam ajudar a cantar a famosa peça coral para choro e ranger de dentes. O documentário global respeitou, portanto, essa proporção no número das entrevistas mostradas.

Surpreendentemente, no momento de exibir o ponto de vista dos cientistas, foi dado pouco destaque para os céticos, para os quais aquelas visões não passam de delírios. Faltou, mas já seria pedir demais à Globo, lembrar um pouco daquilo que, há dois mil anos, a religião católica vem dizendo sobre o assunto, antecipando com o velho testemunho da fé a atual estatística científica das EQM, muito mais digna de crédito para o homem moderno.

A verdade é que o assunto, lentamente, vai ganhando o espaço acadêmico. Dr. Raymond Moody e Dra. Elizabeth Kubler-Ross ensinaram em respeitadas universidades americanas; os estudos da famosa médica suíça sobre as cinco etapas pelas quais passam as vítimas de tragédias (doentes terminais e parentes), o chamado modelo Kubler-Ross, são respeitados em faculdades de medicina. Um dos cientistas entrevistados pela Globo, Dr. Sam Parnia, hoje ensina em Nova York e é formado pela Universidade de Southampton, na Inglaterra, onde fundou o HumanConsciousness Project, grupo de pesquisa multidisciplinar, com cientistas de vários países, empenhados no estudo da natureza da consciência em sua relação — de dependência ou independência? — com o cérebro humano. É a primeira tentativa mais ousada, em escala mundial, de envolver a universidade mainstream em assunto desse tipo, o qual, desde o Iluminismo francês, sempre esteve associado à Idade das Trevas.

Um dos componentes do grupo é o jovem neurocientista canadense MarioBeauregard, da Universidade de Montreal, autor da recente obra O cérebro espiritual, onde revela os resultados da sua pesquisa doutoral com monjas carmelitas, submetidas a eletroencefalogramas durante experiências místicas. Interessante documentário sobre essas experiências podem ser vistas aqui, no site do ONF, Office National du Film du Canada, no qual também é entrevistado um dos mais famosos ateístas contemporâneos, o Daniel Dennet, cofiando a sua venerável barba cética.

E são a esses últimos, cientistas ou não, a quem temos todo o direito de perguntar: por que também pessoas sem imaginário religioso enxergam e experimentam, nas EQM, as mesmas coisas que os crentes — desligamento inicial da consciência e do cérebro, sucção por um túnel com luz ao fundo, retrospecto da vida passada, encontro com “seres de luz”? Por que cegos de nascença relatam, depois da rápida e emocionante viagem, detalhes visuais do ambiente da “quase morte”, que jamais poderiam ver com os olhos mixurucas da carne?

 

 

13/09/2011. Associações que defendem vítimas da pedofilia querem que o Tribunal de Aia condene o Papa Bento XVI, crítico implacável do relativismo moderno, como responsável pelas sacanagens individuais dos padres e o descuido das dioceses.

É a manipulação de dados e informações a serviço do “pânico moral”, como explicou com clareza o sociólogo das religiões Massimo Introvigne (v. blog daGaveta). Segundo o pesquisador italiano, que se baseou em estudos feitos nos EUA, “comparando a Igreja Católica dos Estados Unidos com as principais denominações protestantes, a presença de pedófilos é, dependendo das denominações, duas a dez vezes superior entre os pastores protestantes. A questão é relevante, porque mostra que o problema não é o celibato, dado que, na sua maioria, os pastores protestantes são casados. No mesmo período em que uma centena de sacerdotes católicos eram condenados por abusos sexuais de menores, o número de professores de educação física e de treinadores de equipas desportivas jovens, também quase todos casados, considerados culpados do mesmo delito nos tribunais americanos atingia os seis mil. Os exemplos podem multiplicar-se, e não só nos Estados Unidos. E o principal dado a ter em conta, de acordo com os relatórios periódicos do governo americano, é o de que dois terços dos abusos sexuais a menores não são feitos por estranhos, ou por educadores – incluindo os sacerdotes católicos e os pastores protestantes –, mas por membros da família: padrastos, tios, primos, irmãos e pelos próprios pais. E existem dados semelhantes relativamente a muitos outros países.

 

 

12/09/2011. No terceiro salmo bíblico, atribuído a Davi, diz lá o salmista, referindo-se a Deus: “...golpeias no queixo todos os meus inimigos/ e quebras os dentes dos ímpios.” Os ímpios que aguardem a fúria do Pai. Salvando-se em tempo, ainda assim lavarão as privadas mais fétidas do Purgatório.

E quem é que não pode salvar-se? Mesmo o monstruoso Stalin, com seus sessenta milhões de assassinatos nas costas, quem garante que não se salvou, arrependendo-se verdadeiramente no último minuto? Em caso positivo — o que, cá entre nós, eu acho bem difícil, embora a nossa maior dificuldade seja a coisa mais simples para Deus —, o líder comunista deve estar hoje, com o queixo e todos os dentes quebrados, lavando a pior merda do Purgatório, na mesma e exata proporção dos males que causou.

 

 

11/09/2011. Publiquei, algum tempo atrás, o romance Consagro-vos a minha língua. Se for uma porcaria literária, o que é bem possível, lamento pelas pessoas que o compraram, pelo tempo que perderam (até onde a paciência os levou na leitura) e pelo editor que nele investiu. Também lamento, obviamente, não poder fazer algo melhor. Mas questões editoriais e literárias à parte, esse livro, que pode não significar nada para a literatura brasileira, foi a minha obra-prima existencial: com ela me reaproximei de Deus, através da nossa Advogada, depois de longa temporada do deserto. Fui mais um exilado filho de Eva bradando para os deuses errados, no pior vale de lágrimas que pode haver no mundo: o Brasil.

 

 

10/09/2011. Não há desrespeito maior a um gênio do que incensá-lo, numa atitude deificatória indigna de seres humanos para com outros seres humanos, mesmo superiores. Imagino uma coleção de livros, da mais urgente necessidade, só com obras dos detratores e antipatizantes de Machado de Assis: Sílvio Romero, Cruz e Souza, Hemetério dos Santos, Octavio Brandão, João Gaspar Simões, Agripino Grieco, para só citar os mais conhecidos. A unanimidade do mestre carioca é recente e burra, como toda unanimidade (e isso vale também para o próprio Nelson Rodrigues). Uma pesquisa, nos periódicos das últimas décadas do século XIX e primeiras do século passado, revelariam certamente apreciações interessantes, justas ou injustas, dos entusiastas de José de Alencar, Coelho Neto, Euclides da Cunha, escritores que dividiam com Machado os favores do público.

 

 

09/09/2011. Mãe e filha falam-se de igual para igual. São velhas amigas de infância.

 

 

08/09/2011. A fita métrica de Oswald de Andrade era pequena demais para medir a grandeza de Bernanos ou Carpeaux, sobre os quais disse várias asneiras. Espantosamente, soube no fim da vida reconhecer o valor de Gustavo Corção, cuja prosa equiparou à de Machado de Assis. Os inimigos do Corção diriam que o autor das Memórias sentimentais de João Miramar já estaria gagá, àquela altura da vida; e os inimigos do Oswald, que ele não era tão idiota como parecia.

 

 

07/09/2011. Um colega referiu-se, há alguns dias, a certa Funalfa. Gostei do nome e fui conferir na internet. Para minha decepção, descobri tratar-se de uma fundação cultural de Juiz de Fora. Era uma sigla, santo Dio! E eu que julgava fosse nome de gente, de gente feminina, de preferência velha e solteirona: dona Funalfa.

Se eu fosse contista, faria um conto ambientado em Minas, na primeira metade do século XX, sobre uma velhinha fofoqueira e banguela chamada donaFunalfa.

 

 

06/09/2011. O romantismo oitocentista não criou só a estética daautopiedade, mas também a política da autopiedade: o socialismo.

 

 

05/09/2011. O direito e a moral nem sempre caminham na mesma direção. Há pessoas nas quais confiamos até prova em contrário; e, até prova em contrário, há outras das quais somos obrigados a prudentemente desconfiar.

 

 

04/09/2011. São diferentes as concepções que têm da família os dois poetasmais famosos do Brasil: Bandeira e Drummond. Para o primeiro, que não se casou nem teve filhos, família era uma coisa boa de recordar, para sempre perdida na infância pernambucana. Já o poeta mineiro, que se casou e teve uma única filha, jamais conseguiu se livrar de uma coisa má chamada família, que estava morta e enterrada na Minas que não havia mais, mas cujo incômodo fantasma transportou por toda a vida.

Se estava convencido da inutilidade e do anacronismo da instituição familiar, Drummond devia ter criado a sua própria segundo os novos moldes do comunismo, a que serviu fielmente nos anos 30 e 40. E até que tentou. Na verdade, foi um híbrido mal composto de senhor medieval e revolucionário dos anos 60. Mais ou menos como o pai do poema narrativo “Caso do vestido”, o poeta durante trinta anos deixou a esposa em casa, para encontrar-se com a amante bibliotecária. Nisso, foi um mineiro exemplar, e não tem por que ser condenado. Com a filha, porém, tentou aproximar-se do modelo revolucionário, segundo testemunho de seu genro Octavio Mello Alvarenga, que foi casado com Maria Julieta Drummond e disse coisas horríveis do Carlos Drummond pai, no livro Rosário de Minas (Lidador, 2003): Drummond teria com a filha um relacionamento quase incestuoso, mais de namorado ciumento do que de pai mineiro.

 

 

03/09/2011. Timor mortis.

Na fuga do carpe diem,

Entre o mulherio salgado

E taças de vinho azedo,

Os anacreontes riem

O risinho amarelado

Do medo.

 

 

02/09/2011. O romantismo oitocentista criou a estética da autopiedade.

 

 

01/09/2011. Lembro-me, nas missas da infância, de certos indivíduos que voltavam da comunhão mais com a barriga, do que com a alma cheia de Deus. Pelas laterais da igreja, vinham quase arrotando o divino, como se viessem de um churrasco qualquer.