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NOTAS PARA UM DIÁRIO -  74

 

 

31/08/2011. O homem de hoje, sem um centro ontológico fixo — Deus —, fica circulando pelo mundo e em volta de si mesmo como barata tonta: é o homo circulator de que falou Gusdorf. No lugar de valores morais permanentes, prefere a experiência do novo, como se essas novidades não fossem mais antigas do que andar para a frente, coisas já bem testadas e tantas vezes desaprovadas, que a sabedoria da espécie jogou no merecido lixão dos tempos.

 

 

29/08/2011. “Agnus Dei, clitóris pecata mundi”, cantava o monge herético no circunspecto coral beneditino.

 

 

28/08/2011. Solipsista não sou. O mundo só teria a perder se girasse em torno de mim, como também não ganharia nada se orbitasse ao redor das pessoas que me odeiam.

 

 

27/08/2011. Eu sempre me julgava inteligente

Por ter deixado a Igreja e a religião.

No fim das contas, como tanta gente,

Fui um cretino a mais dizendo Não.

 

 

26/08/2011. Eric Rohmer, em seu filme Percival, o galês (19780, conta a história inacabada do herói de Chretien des Troyes do momento em que é armado cavaleiro, na corte do Rei Artur, até a condenação de vagar pelas florestas, desmemoriado, como castigo pela indiferença com a sorte do Rei Pescador, que guardava o Santo Graal. O próprio diretor, que tinha boa formação literária e tentou ser romancista, traduziu para o francês moderno os octossílabos arcaicos, de rimas emparelhadas, da velha narrativa de Chretien, tido como precursor do gênero romanesco, apesar de ter escrito suas obras em versos.

E é justamente daqui que parte o último drama musical de Richard Wagner, o assombroso Parsifal, inspirado na obra de um contemporâneo alemão de Chretien, Wolfram von Eschenbach, que finalizou à sua maneira a obra do francês.

 

 

25/08/2011. O ilustrador de livros medievais dispunha de muito pouco espaço para desenhar e pintar suas cenas, fossem realistas ou alegóricas, sagradas ou profanas. Muitas delas não ultrapassam o minúsculo quadrado de uma letra capitular. Verdadeira lição de síntese e virtuosismo, é algo realmente notável a precisão e beleza desses trabalhos multicoloridos, que não têm a fama de que gozam os afrescos ou os vitrais, por exemplo. Foram brilhantes precursores da nanotecnologia atual...

 

 

24/08/2011. Deus falou, durante muito tempo, em algumas línguas antigas: hebraico, aramaico, grego. Depois longamente falou em latim. Parece que não simpatizou tanto com as línguas modernas, pois de repente emudeceu, o que levou bastante gente apressada a concluir que Ele estivesse morto.

 

 

23/08/2011. A cidade de Rimini, durante a maior parte do filme A primeira noite de tranquilidade (1972), de Valerio Zurlini, esteve sob névoas. Mas a tragédia final com o professore — um caminhão pegando em cheio o carro em que ia — foi mais produto da densa névoa moral que desnorteava todas as almas, do que consequência da rabugice climática.

Era o nevoeiro moral que dificultava o trânsito das pessoas pelo caminho dos valores, e elas seguiam às tontas, à deriva, mais ou menos como o barco que abre o filme, trazendo o velho casal de ingleses que chegava por acaso naquele porto do Adriático e não mais reapareceria na história: cena alegórica antecipando a completa casualidade e disponibilidade moral que o público veria até o fim da obra.

O diretor italiano captou bem o espírito dos anos sessenta, aquele niilismo sórdido aproximando as pessoas pelos vícios comuns e o tédio cor de névoa.

 

 

22/08/2011. Depois do deserto.

Porque a Casa é tão grande e sempre está

Alegremente aberta como um ninho,

Tenho a noção de ter chegado já

E de ainda estar no meio do caminho.

Em frente à mesa farta, o vinho, o pão,

Hesito em dizer Sim como um doente,

Que foi treinado permanentemente

Para dizer em várias línguas Não.

Com meu saco de pedras no ombro torto,

Com meus olhos fechados pela poeira,

Sinto-me indigno de sentir-me em Casa.

Mas eis que em Casa eu chego quase morto,

Sem um tostão no fundo da algibeira:

Descalço, mãos vazias, pés em brasa.

 

 

21/08/2011. Os historiadores são escravos das datas e das épocas, e disso eles não têm mesmo como escapar. Felizes somos nós, que não nascemos historiadores, mas vagabundos do tempo. Nos meus giros de cavaleiro errante pelas artes e a literatura ocidental, sempre tive a impressão de que a Idade Média não terminava com a queda de Bizâncio, mas seu poder se estendia ainda além, até a Querelle des Anciens et des Modernes, no século XVII. Sua presença no romantismo e no simbolismo já é decorativa, com material cenográfico de segunda mão, mas o barroco ainda me parece ser uma expressão genuinamente medieval das coisas e do homem, um homem já acuado pela modernidade; talvez seja o verdadeiro “outono da Idade Média”, para usar a expressão famosa de Huizinga. Tomo a liberdade de acrescentar mais duzentos anos ao já respeitável milênio da “dark ages”, que Ruy Nunes, o grande medievalista brasileiro, preferia chamar de Primeira Idade.

 

 

20/08/2011. Vidas secas.

Vem do centro do mundo, e para o chão

É que foi feita, quente e purpurina,

A luz da seca, luz luciferina

Fingindo-se de ciência e de razão

Por elas — essas torpes vidas secas

De tântalos já sem direito a fonte,

Sem água para encher tantas canecas

De sísifos no vai e vem do monte,

Pobres narcisos, de cegueira imensa,

Que perderam o melhor do grande show,

Junto com outros cegos de nascença

— Édipos — que o deserto não poupou,

Sem desconfiar da sombra e dos abismos

Que dormiam no fundo deles mesmos.

 

 

19/08/2011. Enquanto, para o bom entendedor, meia palavra basta para alcançar todo o sentido, o paranoico escolhe o sentido que deve haver em qualquer grupo de palavras. O desconstrucionismo é um bom exemplo de paranoia crítica, mas também o são o marxismo e a psicanálise, ou seja, todo aparelho crítico-teórico montado antes da obra literária particular a ser estudada.

Daí os delírios interpretativos que enchem 99% das teses acadêmicas. Também para a literatura recomendam-se as quatro virtudes cardiais: prudência, autocontrole, força de vontade e senso de justiça. Prudência de não confundir o eu que estuda e a obra a ser estudada, pois é injusto desrespeitar a individualidade da obra literária; temperança para sufocar o ego que tudo transforma em si mesmo, e haja fortaleza para isso!

Todo manual de teoria literária devia abrir-se com essas quatro virtudes morais. É o melhor começo para qualquer metodologia científica.

 

 

18/08/2011. Segundo a respeitada medievalista Régine Pernoud, redescobrimos a arte medieval “mais facilmente do que a literatura do mesmo tempo, porque podemos desfrutá-la diretamente; aprendemos a percorrer, pedra por pedra, nas nossas catedrais, nos nossos museus, os seus vestígios dispersos pela Europa. Os progressos da técnica fotográfica permitem-nos dar a conhecer as maravilhas das iluminuras inseridas nos manuscritos, que até aqui só alguns iniciados podiam apreciar; chega-se a restituir mesmo as suas cores, com uma rara fidelidade.

O verbete da Enciclopédia Mirador sobre a iluminura, hoje só acessível em sebos, é uma boa síntese da evolução dessa arte. O leitor pode lê-lo no blog d’A gaveta transparente. Se quiser, na própria internet, curtir milhares de iluminuras medievais, há bons sites europeus. Pode começar o giro pelo museu virtual da Biblioteca Nacional da Holanda ou pelo site do governo francês Enluminures.

A mágica luz das iluminuras é suficiente para arredar, definitivamente, as sombras da dark ages, que estão mais nas cabeças modernas do que nos mil anos do Medievo.

 

 

17/08/2011. É lamentável e patético que ainda sejamos excessivamente "literatos", e isso numa época em que a literatura já não conta mais. A "igreja invisível" da literatura foi uma coisa muito nociva que surgiu no Ocidente, aliás na decadência do Ocidente (que, para mim, é a Renascença e o Iluminismo), e resultou nas bobagens que conhecemos, do decadentismo oitocentista às vanguardas do século XX. Não penso em Dante, Petrarca e Bocaccio como homens de letras, mas cidadãos de Florença que faziam literatura da melhor qualidade.

 

 

16/08/2011. Fernando Pessoa é carne de peixe da qual não gosto, mas de cujo valor nutritivo não duvido.

 

 

15/08/2011. A saída do agnosticismo é muito lenta, cheia de tateios. Mas entra-se em Deus subitamente, como uma dessas escorregadelas inevitáveis. De repente, você já está ali e tudo parece fazer sentido. Caímos de Deus, no início; e com outra queda a ele voltamos. Será mesmo necessário grafar "ele" com maiúscula para demonstrar respeito? Entre o argumento usado anteriormente para justificar a condição de ateu — o universo é um produto de geração espontânea, auto-organizado — e o argumento usado para justificar a nova condição — se todo produto tem um produtor, por que só o maior dos produtos, o universo, não teria o seu? —, não há nenhuma transição "lógica".

Sem dialética! Por isso a Igreja, sabiamente, tratava de garfar logo no berço o fiel: batizava-o, crismava-o, catequizava-o. Se o trabalho fosse bem feito, o adolescente já estava apto para o exercício da vida moral. Se depois disso Deus lhe escapasse, podia vir a ser pelo menos um cidadão decente, respeitando os outros e as leis.

 Saltamos do Nada para Deus, como de dois botes vizinhos. O impulso para o salto não vem de um conceito abstrato, mas de uma intuição inexplicável. Também não é desprezível, embora me pareça por demais narcisística, a hipótese da Graça, que Deus enviou por mala direta e caiu jansenisticamente, em nossas cabeças teimosas, como uma enorme jaca madura...

 

 

14/08/2011. A imaginação é amiga do futuro, já disse Rivarol. Mas como os amigos do futuro, também conhecidos como revolucionários, abusam da imaginação! A “sagrada família” era o seu alvo principal, pois era o elo que soldava a tradição ao presente: o negócio era voltar à selva e às hordas. Fragmentada a família, com a banalização do divórcio, as pseudoliberdades feministas e o gaymônio, tudo ficaria mais fácil para a vitória da revolução anticristã. Muitos de nós representamos um papel patético em todo esse imbroglio contracultural: obediente aos poderosos chefões da modernidade, preferimos o sexo orgulhoso à primazia da família, a música popular à verdadeira arte de Bach e Wagner, a droga anestesiante ao mundo duramente real.

 

 

13/08/2011. O que fizemos nós, sobretudo depois do séc. XVIII, achando que pensávamos com as nossas próprias cabeças? Começamos a acreditar só em coisas menores. Instruídos por Nietzsche & Cia., jogamos Deus na latrina da história e apertamos acintosamente descarga, deixando em seu lugar o “senhor do mundo”, o campeão da soberba, Mr. Lúcifer — que acostumamos a ver só como personagem de Dante, Milton, Goethe, Anatole, Machado. Hábil manipulador de marionetes, comandou a rebelião estudantil dos anos 60 e condenou nossa geração à famosa e profaníssima trindade: sexo livre, droga para todos e rock como fundo musical do bordel. A soberba, que aprendemos muito bem com o gerente das trevas, nos impedia de admitir, por um só momento, a hipótese de sermos objetos da maior manipulação que já houve em toda história, para a qual foram arregimentadas a filosofia, a ciência, as artes elevadas e as menos elevadas (como a MPB), os três ciclos escolares, as mídias e a própria religião.

 

 

12/08/2011. Já zombei muito das quatro virtudes cardiais — prudência, temperança, fortaleza e justiça —, mesmo quando as praticava rigorosamente. Hoje sei que não são conceitos de velhinhas carolas ensináveis somente a crianças no início da vida. Valem para todos nós que, influenciados pelo pensamento pós-iluminista dominante em nossas instituições escolares, jogamos no lixo o que houve de bom nos mil anos de Idade (dita) Média pela retrógrada Renascença (que, apesar disso, também teve suas coisas boas), pretendendo reinstaurar aquela bobagem pagã já definitivamente superada pelo pensamento e a prática do Nazareno, que foi a única revolução ocorrida na história humana, avisando que todos os cidadãos e não-cidadãos do império romano era irmãos por parte de Deus. Durante mil anos, os principais pensadores e artistas do Ocidente acreditaram em Deus, ou seja, que havia um produtor por trás da maior de todas as produções — o universo —; confiaram, coisa de que não somos mais capazes após Descartes, naqueles judeus que tinham sido testemunhas oculares, como o velho Repórter Esso, da história da revelação cristã.

 

 

11/08/2011. A credulidade é uma necessidade da espécie. Acreditamos que Jorge Luís Borges foi de fato o autor dos livros atribuídos a Jorge Luís Borges. Mas estávamos lá para ver? Vimos Borges escrevendo-os ou enviando-os ao editor? Ou confiamos nisso tudo? Nem vimos Borges pessoalmente, mas temos certeza de sua existência. É difícil acreditar, porém, que o escritor argentino, depois da morte, recuperada a visão, abriu os olhos e viu que Deus de fato existia. Continuo acreditando nos intermediários que me separavam de Borges, um grande poeta, sem dúvida, mas que estava muito longe de ser um sábio. E passei a confiar nos quatro evangelhos, naquela gente simples que serviu de fonte aos cronistas da Revelação. A palavra é esta: confiança, aquém e além de todas as provas científicas.

 

 

10/08/2011. Borges no céu.

A obra de Jorge Luís Borges foi um milagre do espírito

Contra as humilhações do corpo:

Embora cego,

Exerceu na Terra a mais nobre das ocupações:

Cicerone de labirintos.

Entendia como ninguém de babéis, labirintos, becos-sem-saída

E outras limitações do tempespaço.

Mas deve ter levado um susto enorme quando,

Morto e já livre da cegueira,

Viu que Deus realmente existia,

Que a metafísica não era só literatura fantástica.

Um anjo, que tocaria uma serena milonga num alaúde medieval,

Deve ter ido mostrar-lhe o lugar em que mais tarde se sentaria,

Ao lado de Gautama e Chesterton,

À direita do Onisciente.

 

 

09/08/2011. Minha amiga P., gordinha, descobriu um excelente remédio para emagrecer: cristianismo... “Folheava” por acaso a Wikipédia, quando viu uma lista dos sete pecados capitais — ira, inveja, avareza, vaidade, luxúria, gula, preguiça —, quase ao lado das quatro virtudes cardiais: prudência, temperança, fortaleza e justiça.

E aí a ficha caiu. Pensou:

— Basta mandar a Temperança e a Fortaleza, com ordem de prisão, atrás da Gula e da Preguiça. A Gula é fácil de apanhar: basta deixar um tablete de chocolate ao lado do notebook. Ela vem correndo e, aí, pimba nela! A Preguiça a gente atrai com uma poltrona bem macia e a tevê ligada na Globo. Enquanto as duas virtudes ficam caçando os dois pecados, eu marco um encontro escondido e rapidinho com a Vaidade... — o rosto cheinho riu. — Também não sou santa, né...

Quem sou eu para condená-la? Concordei. Afinal a Vaidade, na modalidade mignon, não era tão feia assim. Dei todo o apoio:

— Remédio natural, o cristianismo. Sem contraindicação. E os efeitos colaterais até que valem a pena: além da possibilidade da vida eterna, você volta a ficar atraente e o M., na certa, vai logo querer marcar a data do noivado.

 

 

09/08/2011. A estrada começava muito perto

E então fugi, deixando a velha Casa,

Descalço, mãos vazias, pés em brasa,

Sem saber que era o início do deserto.

Na caminhada fui colecionando

Pedras nos vales frios, poeira nos montes

Ásperos, sempre em frente, delirando,

Na ilusão de abraçar os horizontes.

Muitas vezes nos meus delírios via

Da minha velha e tão distante Casa

A sombra, a mesa farta, o vinho, o pão...

Mas mesmo arrependido eu prosseguia

— Descalço... mãos vazias... pés em brasa... —

Na busca inútil da mesma ilusão.

 

 

08/08/2011. É uma pena. Já não tenho mais idade para exigir cotas acadêmicas para os doze e meio por cento dos meus genes importados da África. Mas posso exigir um ressarcimento milionário pela chibata que os vergastou! Aí vou viver numa boa, nalguma ilha do Caribe, em companhia dos meus afro-sortudos doze e meio por cento.

 

 

06/08/2011. Esse negócio de raça e racismo, no Brasil, anda muito mal explicado. Fiz as contas e cheguei à conclusão de que pelo menos doze e meio por cento dos meus genes foram importados da África. Meu avô José Elpídio, apelidado de Zé Preto, era um mestiço de alma branca (uso essa imagem de propósito, para provocar os zelos politicamente corretos de algum leitor amigo). Descendia de fazendeiros caipiras que tinham escravos e se misturaram sanguineamente com eles.

Adão era o nome de um preto do qual meu avô sempre falava, e bem; embora “propriedade” do meu bisavô, nunca foi tratado como tal; foi mais agregado do que escravo. E esse mesmo bisavô branco, João Theodoro, descendente dos Corrêa de Toledo que tinham vindo de Aiuruoca, cristãos novos, não pensou na cor da pele ou no odor das axilas da futura esposa, quando se apaixonou; usou outros critérios, entre os quais o moral, pois minha bisavó Maria Luísa era sobretudo uma santa mulher, e só depois mestiça (ou negra, como preferiam dizer os racistas do século XIX e os politicamente corretos de hoje). Provinha, pela porta dos fundos, do fundador da minha cidade, Germano Moreira, que cedeu o seu sobrenome à linha bastarda da família, iniciada nos alvores do século XIX pelo seu filho: José Moreira emprenhou a escrava Saloméia, preta retinta, que na senzala deu à luz um mulatinho chamado José Feliciano Moreira, criado com o pai na “casa-grande”. O mais curioso da história era que meu bisavô branco provavelmente também descendesse — só que pela porta da frente — de uma filha do mesmo Germano Moreira, e seria portanto primo distante da própria esposa “negra”.

São essas coisinhas do Brasil, que o Gilberto Freyre conta com arte verbal consumada no seu “romance sociológico” Casa-grande e senzala, e que dificultam, entre nós, o florescimento da espúria planta do racismo, por mais que tentem adubá-la alguns professores universitários militantes, mal informados ou mal intencionados.

Muitas vezes até contamos piadas em que os pretos levam a pior, de judeus “ladrões”, de “viadinhos” ridículos, de gagos empacados nos f e nos t, mas o cristianismo que forra nossas entranhas impede que transformemos favelas em guetos, judeus em fumaça de Auschwitz, gays em clientela principal de exorcistas. Gagos podem até virar professores universitários... 

Muitas dessas piadas são reações normais de um mais que saudável preconceito. Quando li, pela primeira vez, os Dez princípios conservadores, do filósofo americano Russell Kirk, concordei com quase tudo o que ele dizia, exceto a defesa do preconceito.

Vou citar o trecho: “A nossa moral — afirmou o autor de A mentalidade conservadora — é, em grande parte, preestabelecida. Os conservadores argumentam que seja improvável que nós modernos façamos alguma grande descoberta em termos de moral, de política ou de bom gosto. É perigoso avaliar cada tema eventual tendo como base o julgamento pessoal e a racionalidade pessoal. O indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia, declarou Burke. Na política nós agimos bem se observarmos o precedente, o preestabelecido e até o preconceito, porque a grande e misteriosa incorporação da raça humana adquiriu uma sabedoria prescritiva muito maior do que a mesquinha racionalidade privada de uma pessoa” (o grifo é meu).

Fiquei, depois, mastigando aquele pedregulho, e não foi muito depressa que vim a compreender o sentido profundo do preconceito. Acredito que hoje a ideia ficou clara. O preconceito não é um julgamento herdado e no qual a princípio confiamos? Sim. Todos os julgamentos da espécie devem ser obrigatoriamente burros, e todas a iconoclastias individuais já nascem preservadas da estupidez? É claro que não.

É natural que os judeus, historicamente associados com a usura, coisa que mexe no bolso mais íntimo das pessoas, sejam objetos de certa prevenção. As prostitutas, que são toleradas quando à margem — a “zona” foi um dos mais respeitáveis fatores da coesão da família, no Ocidente —, eram vistas com reservas ao invadirem o espaço da “mulher direita”. E quando esta deixava de cumprir o dever da fidelidade, o grupo passava a olhá-la com desprezo, o que quase não acontecia se o infiel era do sexo oposto, ainda que ilegal.

A prevenção com o lado comerciante ou financista dos judeus não impediu que eles chegassem aos postos mais altos das sociedades ocidentais para onde migraram, e ninguém lhes pode tirar o mérito de pertencer a um povo que ajudou a fundar a mais completa religião da história.

As prostitutas, mesmo na ilegalidade, sempre gozaram (sem trocadilho) de um status privilegiado, na vida real e sobretudo na ficcional — a literatura e o cinema estão aí para prová-lo. Uma das coisas que aprendemos com a tradição preconceituosa é não cuspir no prato em que se comia. Todos os que, na hora necessária, já digerimos prostitutas, assimilando com prazer suas vitaminas e proteínas, nunca cogitamos de construir gulags siberianos para prendê-las ou paredões cubanos para fuzilá-las; só não aceitamos que se casem com nossos filhos antes de abandonarem tão edificante métier, nem que sua profissão seja legalizada e o doce substantivo puta venha a ser substituído por “profissional do sexo” ou “prestadoras de serviços sexuais”. A prostituição é necessária, mas errada, e esse paradoxo somos obrigados a engolir, se pretendemos ter alguma coerência moral...

O mesmo paradoxo vale para os gays: estão equivocados, mas são inevitáveis. E quantos homossexuais não se destacaram na filosofia, nas artes, nas ciências, na política, nos últimos dois mil e preconceituosos anos de civilização cristã? Essa “vítimas”, entre outras, da “sabedoria prescritiva” da espécie humana, sempre foram toleradas e aceitas, e o preconceito sempre funcionava, exceto nos casos minoritários de intransigência patológica, como bom aviso do melhor amigo.

Como tudo na vida, há o preconceito burro e o inteligente. Preconceitos tenho vários. Procuro arrancar de mim os indesejáveis, mas trato muito bem de alguns, rego-os todo dia com água limpa, pois afinal herdei-os de antepassados que tropeçaram bastante e suaram muita camisa para elaborá-los, legando-nos essa tradição moral que segurou as pontas do Ocidente durante quase dois mil anos. Há juízos que o passado já se encarregou de construir por nós, e não precisamos posar de libre penseurs a todo momento. Aliás, foi essa liberdade de pensamento, produto do Iluminismo, que ferrou com boa parte da minha geração, alimentada com o leite azedo da “contracultura”, a arrogância nietzschiana, a presunção marxista e a ingenuidade freudiana.

 

 

04/08/2011. Bons tempos aqueles do velho ginásio, nos anos 60 e início dos 70: época em que começava a ser plantado tudo aquilo (sexo, droga, rock) que estamos colhendo hoje no ponto: a banalização do sexo disfarçada de liberdade de escolha, o meganegócio da droga fazendo milhares de escravos e mortos por ano e, na música, a diluição da civilizada melodia sob a ditadura do ritmo mais incivil.

Acredito que vivíamos a época mais terrível do Ocidente, e não sabíamos... Pessoalmente, tive uma grande sorte, pois, embora me tornando agnóstico (me tornei e de algum modo me tornaram, pois nem tudo depende só da gente), eduquei meus quatro filhos dentro da velha moralidade judaico-cristã e hoje eles são mais civilizados do que eu — bons burgueses educando meus pequenos netos de acordo com a "regra da arte": batismo, crisma, catecismo, primeira comunhão, tapa na bunda, puxão de orelha, ou seja, tudo o que ajudou a reprimir a fera humana nos últimos dois mil anos (e veja que, apesar disso, a fera derramou muito sangue, inclusive dentro da própria Igreja).

A Igreja, à qual voltei depois de um longo e cáustico agnosticismo, tem algumas virtudes e muitos defeitos, como tudo o que é humano, pois foi fundada e mantida por homens; fundada, aliás, pelo mais simpático e humano, demasiado humano, dos santos: São Pedro, tão humano que negou o Cristo três vezes antes do carijó cantar. É a essa Igreja que voltei, cheia de sabedoria e de falhas, ao contrário das sabichonas mas infalíveis igrejas protestantes, depois daqueles saudosos anos 60 e 70 me terem transformado num imbecil "livre pensador", que achava que sabia tudo e não sabia merda nenhuma. E voltei, apesar dessa padrecada niilista que tomou conta das paróquias e ordens religiosas.

Hoje percebo que, no fundo — nalgum porão da consciência onde se depositam as coisas que realmente permanecem —, sempre fui um conservador, e fico feliz quando penso que todos aqueles nossos mestres de Nada & Porra Nenhuma não conseguiram apagar da minha cabeça o sentido da velha moralidade ocidental, fundada por Moisés no deserto, e que o pobre Nietzsche, com martelinho de moleque arteiro, tentou em vão destruir.

 

 

03/08/2011. Visite o blog e leia a tradução do ensaio “O bode expiatório e Deus”, de René Girard. Foi publicado na colecção Textos Clássicos de Filosofia, da Universidade da Beira Interior, Covilhã, em 2009. O texto saiu originalmente em René Girard et alii. Dieu, une invention? Paris, Les Editions de L’Atelier, 2007, pp. 55-76.

René Girard nasceu em Avignon, França, em 1923. É um dos maiores pensadores vivos, comodamente instalado no cruzamento de várias áreas do saber: literatura, filosofia, antropologia, teologia. Desde os anos quarenta trabalha em universidades americanas, a maior parte do tempo na Universidade de Stanford. Segundo ele, a competição desenfreada, que tem caracterizado a história desde o início, é a maior ameaça à espécie humana, sobretudo por favorecer uma paixão desconhecida das outras espécies: a vingança. Para evitar a própria extinção, criou o bode expiatório, que pagaria por todos e garantiria a sobrevivência do grupo. O surgimento do cristianismo há dois mil anos, substituindo ineditamente a expiação do "bode" pela misericórdia de todos, agora vistos como irmãos e filhos de Deus, bastou para fazer dela a religião mais recomendável do ocidente.

 

 

01/08/2011. Letra de samba.

Que te compre

Só quem não te conheça,

Por não saber

O que tens dentro da cabeça.

O que tens na cabeça

Eu já te digo:

É o que, nos outros, sai

Pelo tubo digestivo.

 

P. S. Baseada no que disse Gustavo Corção da cúria metropolitana carioca, logo depois que Paulo VI “assinou” o Concílio Vaticano II: o que saía da boca dos bispos do Rio era parecido ao que lhes saía pelo tubo digestivo.