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NOTAS PARA UM DIÁRIO -  72

 

 

26/06/2011. Bernanos e suas impressões brasileiras.

“É provável que um grande número de meus leitores nunca tenha ouvido falar em Pirapora, e o nome de São Francisco só despertará em sua memória lembranças de gângsteres norte-americanos. O São Francisco, entretanto, é um dos maiores rios deste Brasil imenso, e Pirapora um rebanho de casas brancas agrupadas ao longo de suas barrancas, entre palmeiras e mangueiras. Pirapora é a última estação da Central do Brasil, os trilhos param por aqui. Para além, no sentido da Bolívia, Goiás ou Mato Grosso, até a fabulosa Amazônia, estende-se a floresta sem estradas, o sertão torturado todo ano pela sede, e que vai perder-se, milhares de quilômetros depois, nos pântanos da nossa floresta equatorial, a floresta venenosa que ainda esconde tantos segredos entre suas margens putrefatas.

Mas vejam ! Quando desembarquei do trem, na pequena estação, com minha mulher e meus filhos, sob o gigantesco pé d’água de uma tempestade brasileira, encontrei um jovem mulato, que ali estava para me dar boas vindas, e que, na apoteose de um céu de repente varrido de suas nuvens e puro como um diamante, nos conduziu à sua casa, onde me mostrou com orgulho a modesta estante em que organizava seus livros. Logo reconheci Désespéré, la Femme pauvre et le Salut par les juifs. Pois toda a América do Sul cultua Léon Bloy.”

 

 

21/06/2011. Os miseráveis.

São hóspedes frequentes desta vida

O infortúnio, a pobreza e a dura lida.

Como se não bastassem, Satanás

Aduba as almas para as ervas más.

Morre o feliz, perdura o descontente

E o mal descansa provisoriamente.

Bastante coisa falta ao que nasceu:

Mendigo é o príncipe, como o plebeu.

E se às misérias do mundo ilusório

Concede a morte um final provisório,

Resta saber o que virá em seguida:

As misérias da vida após a vida.

 

 

15/06/2011. Parada gay em ritmo de quadrilha. André amava Rodrigo que amava Marcelo que amava Rafael que amava Bruno que amava Fernando que só amava o seu dedo médio. André foi trabalhar na UNESCO, Rodrigo virou teólogo da libertação, Marcelo não resistiu à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, Rafael agora dirige uma escolinha infantil construtivista, Bruno ingressou no telejornalismo desinformativo e Fernando ligou-se em união civil estável a um ambientalista do Greenpeace que não tinha entrado na história.

 

 

14/06/2011. Para facilitar as coisas para os gays e eliminar a velha idéia de casamento como acasalamento superior entre macho e fêmea humanos, visando a procriação e a educação da prole, os engenheiros sociais da teledramaturgia global por duas vezes fizeram a novela das nove, Insensato coração, empregar a expressão “união civil estável” em cerimônias de casamento entre homem e mulher.

Um dos temas da telenovela é o homossexualismo, e o objetivo óbvio é dar uma mãozinha à Lei da Homofobia, que o Congresso tem medo de aprovar, ao contrário do Escritório de Advocacia do PT, vulgo STF, pois não precisam temer as urnas.

Há cenas de pura propaganda. Os gays da novela estão entre as pessoas mais sensatas da trama: um advogado honesto e competente de grande empresa e um professor universitário de Direito. Têm aspecto de homem normal. É claro que não podia faltar um “viadinho” exuberante, promotor de eventos que prefere ser chamado de promoter; mas os engenheiros que projetaram a história tiveram o cuidado de construí-lo com caráter e cultura admiráveis.

O mais interessante é um gay in progress, também com jeito normal de homem, no lento processo de abandonar o armário; quem o está puxando para fora é o professor de Direito. A cena da academia de ginástica em que os dois admiram a mútua musculatura é antológica, digna de figurar nalgum vídeo oficial do MEC para fins escolares.

 

 

06/06/2011. Há dois mil anos, Deus passou por aqui e fez uma grande revolução. Quinze séculos depois, começou um forte movimento contra-revolucionário, que era, na verdade, um movimento retrógrado, de incontidas saudades do paganismo perdido.

Seu crescimento foi lento até o final do século XVIII, pois não é fácil brigar com coisas fundadas por Deus; mas, com a Contra-Revolução, em sua versão francesa de 1789, ganhou um notável impulso, só superado pela Contra-Revolução na versão soviética, em 1917 (a contribuição nazista ao movimento foi fogo de palha que quase não passou de uma década, pois seus líderes tinham o grave defeito da sinceridade, que em termos de política contra-revolucionária é altamente comprometedor).

No século XX, os principais concorrentes de Deus foram Lênin, Stalin, Hitler, Mao Tse-Tung. Mas eram tratores muito barulhentos, e alguns contra-revolucionários astuciosos perceberam que seria mais producente trocá-los por veículos leves e silenciosos. Um deles era a desinformação, aéreo como o mosquito da dengue, de uma assustadora e quase imperceptível onisciência, e permanentemente ativo na contaminação contra-revolucionária.