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NOTAS PARA UM DIÁRIO -  71

 

 

23/05/2011. O problema dos olhos.

Mil novecentos e cinquenta e seis,

Sete de abril, à meia noite, eu vim.

Vir não tem sido fácil para mim;

Mais difícil que um texto em japonês!

“O que em trevas vos digo, em luz dizei-o”,

Deus ordenou. Mas doente de saúde,

Montado no ímpeto da juventude,

Perdi o melhor da estrada e do passeio.

Com a estupidez fatal de todo moço,

Aos porcos pérolas lancei aos montes,

E, em vez de me guiar por horizontes,

Mirava o fundo sans futur de um poço.

Tanta poeira nos olhos tinha então,

Que andava cego à beira do caminho:

Onde havia gigante, eu vi moinho;

E onde estrelas no céu, pedras no chão.

 

 

22/05/2011. A cara leninista do politicamente correto.

No seu livro sobre filosofia marxista da linguagem, diz Bakhtin, um dos gurus dos nossos cursos de letras, que “O domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos: são mutuamente correspondentes. Ali onde o signo se encontra, encontra-se também o ideológico. Tudo que é ideológico possui um valor semiótico.” É preciso colocar “a palavra em primeiro plano no estudo das ideologias.” (Marxismo e filosofia da linguagem, p. 30-34)

Evidentemente, seria preciso saber se Bakhtin usa aqui ideologia no sentido genérico de pensamento comum de certo grupo social, ou no sentido marxista de conjunto de conceitos criados pela burguesia para justificar sua dominação sobre a classe trabalhadora.

Um discípulo de Bakhtin, o linguista V. V. Ivanov, reafirmando a noção de que as línguas são meios de transporte das ideias válidas em determinado grupo social, garante que o indivíduo assimila, já na infância, junto com o mecanismo da língua, o sistema de valores da sociedade que já estavam embutidos naquela. Assim, aprender a falar, a ler e a escrever seriam, em vez de início da libertação do espírito, o começo do aprisionamento ideológico, e a língua um precioso instrumento de controle comportamental (cf. Edward Lopes, Fundamentos da linguística contemporânea, Cultrix, 1976).

Manipulação da linguagem e controle do comportamento sempre estiveram muito unidos, na União Soviética. Manuais secretos para treinamento da técnica da “desinformação” foram produzidos pelos comunistas russos para uso e abuso na Guerra Fria. Segundo o ex-oficial da KGB Anatoli Golytsin, em Novas mentiras velhas (trad. de Henrique Dmyterko), antes disso o próprio Lênin, nos anos 20, já defendia o uso de linguagem moderada, visando aumentar a distância entre as palavras e a violência real do regime. Na era pós stalinista, para amenizar a carranca do regime totalitário, expressões como “a ditadura do proletariado” ou “leninista” eram cuidadosamente evitadas pelos soviéticos, tática seguida de perto pelos partidos eurocomunistas (cá entre nós, até a época do Mensalão, o programa do PT, na internet, ainda mantinha a palavra “leninista”).

 

 

21/05/2011. Notas para um conto politicamente correto.

O afrodescendente, portador de necessidades especiais, deslocava-se calmamente em sua cadeira mecânica, quando um tóxico-dependente abordou-o e subtraiu-lhe alguns valores. Imediatamente, a pessoa responsável pelo delito fugiu do local. Um homoafetivo, que vinha pelo passeio-público, foi testemunha ocular do evento e chamou em alto volume pelo agente de segurança municipal que, naquele exato momento, auxiliava um idoso a atravessar a via pública.

Enquanto o agente de segurança municipal punha-se a perseguir o presumível culpado, o solícito homoafetivo (que convivia bem com a sua Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, graças ao coquetel antiviral que ingeria diariamente), emitia com delicadeza para o afrodescendente algumas frases solidárias e cidadãs:

— Confia no Designer Inteligente! O agente de segurança municipal vai conseguir conter o infrator. Em breve, você será novamente reempossado dos seus valores.

— Que o Grande Arquiteto do Universo te ouça! Eram os valores que eu usaria para retribuir à prestação de serviços da Companhia Elétrica. Se ela interromper a transmissão de eletricidade, não vou poder acompanhar pelo televisor a peleja esportiva entre o meu Timão e o Parmêra!

E pôs-se a derramar dos olhos as mais límpidas, incolores e salgadas secreções.

 

 

20/05/2011. Depois de ler Pascal.

Cansei-me logo da filosofia

— Donde vim? Aonde vou? Ser ou não ser? —

E da resposta que jamais viria.

Cansado estou de ler e de escrever.

Quero ir à missa, mas a liturgia,

Que me devia aproximar de Deus,

Da vida eterna mais me distancia.

Dos padres me cansei e dos ateus.

Do blablablar do mundo me cansei.

Cansei-me de pecar! Ó Agnus Dei,

Que sofreste por nós os pecadores

Na carne vil de um pobre nazareno,

Bicho da terra, como nós, pequeno,

Sofrendo, como nós, as nossas dores!

 

 

19/05/2011. Para Julián Marias, a palavra heterossexual é pleonástica e, portanto, dispensável, pois só pode haver relação sexual entre pessoas de sexos diferentes. O mesmo valeria para homossexual, pois não pode haver relação sexual entre pessoas do mesmo sexo.

O que ocorre, então, com os gays? Uma imitação da verdadeira relação sexual, ou seja, aquela que se dá entre um homem e uma mulher, dotados pela natureza com as ferramentas adequadas para o exercício de tão nobre e gostosa função. 

Os “homoafetivos” têm todo o direito de imitar papai-mamãe, pois a natureza humana tem lá os seus caprichos e enigmas, mas não podem se esquecer de que estão num processo mimético, atuando com ferramentas mais ou menos substitutivas. O que é inaceitável é essa parceria quase-real pretender vestir a mesma roupa jurídica da dupla marido-e-mulher, milenarmente vitoriosa.

 

 

18/05/2011. Já faz algum tempo que aconteceu, mas ilustra bem o comportamento esquerdista. Professora foi despedida de uma universidade católica, na Argentina, por participação na campanha pública de apostasia coletiva No em mi nombre, realizada em seu país no início de 2009.

Que queriam os ativistas? Convencer o maior número possível de católicos a abandonar a Igreja, pois ela insistia em opor-se ao “progresso social” (divórcio, despenalização do aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outros). No site do grupo, estava e ainda está lá um modelo da cartinha apóstata, que a professora, decidida a abjurar a fé católica, preencheu e mandou ao seu arcebispo:

 

Al Sr. Arzobispo de la Iglesia Católica Apostólica Romana en Argentina,

En fecha......., he recibido mi bautismo y la consiguiente inscripción en los registros de la religión Católica Apostólica Romana ante los representantes eclesiásticos de la localidad de......

Gozando hoy de pleno discernimiento, manifiesto a usted que no adhiero a los postulados institucionales de la religión Católica, motivo por el cual expreso mi voluntad libre de ser excluído de dicho registro, decisión que no está sometida a plazo alguno de caducidad.

Consecuentemente, habiendo ya solicitado personalmente la exclusión, sin recibir de ustedes respuesta satisfactoria, INTÍMOLE:

1) A anular en sus registros el acta de ingreso o “bautismo” por la cual se me consideró parte de la Iglesia Católica Apostólica Romana, petición que no deberá estar sujeta a ningún condicionamiento formal, de acuerdo con el inciso 7 del artículo 3°, el inciso 3 del artículo 7° y el inciso 1 del artículo 16° de la ley 25.326 de la República Argentina.

2) A ser excluído de estadísticas, cómputos o cualquier otro tipo de registros, informes o bases de datos de cualquier índole, que impliquen incluirme para demostrar hacia terceros, particulares o personas públicas, las dimensiones sociales, el peso, matrícula o incidencia de dicha institución religiosa en la sociedad argentina, continental o mundial, a cualquier fin o efecto.

3) A brindar, en el término de cinco días hábiles, constancia fehaciente sobre el cumplimiento de la desafiliación que solicito, bajo apercibimiento de promover acciones judiciales, con más el reclamo de daños y perjuicios, costas y costos que el proceso pueda irrogar.

 

A universidade ficou sabendo e demitiu a professora, baseando-se em artigo do regimento acadêmico da instituição, segundo o qual é causa de demissão “difundir ou aderir a concepções que se oponham à doutrina católica”. As normas da escola estavam de acordo com o Código de Direito Canônico da Igreja, que diz na parte relativa à educação católica:

 

“A instrução e educação na escola católica deve fundamentar-se nos princípios da doutrina católica; os mestres devem distinguir-se pela retidão de doutrina e probidade de vida. Cabe à autoridade competente, de acordo com os estatutos, o dever de providenciar que nas universidades católicas sejam nomeados professores que sobressaiam, não só pela idoneidade científica e pedagógica como também pela integridade da doutrina e probidade da vida, de modo que, faltando-lhe esses requisitos, sejam afastados do cargo, observando-se o modo de proceder determinado nos estatutos.”

 

A professora, que concordou com aquele estatuto ao ser contratada, passou a alegar que o dito regimento violava a lei anti-discriminação, a lei de contratos de trabalho e a Constituição da Argentina. Que fez? Entrou na justiça contra a escola, pois se achava no direito de continuar ensinando anticristianismo numa escola católica.

 

 

17/05/2011. O PTcanthropus mais ou menos erectus, sobrevivente de uma raça pré-histórica de animais políticos, inaugurou uma nova modalidade de utopia: quer levar o Brasil de volta à era da cavernas. É a utopia retrospectiva...

 

 

16/05/2011. As velhas palavras estão de tal modo impregnadas das coisas — não das imagens das coisas, mas das próprias coisas — que chegam a confundir-se existencialmente com elas. Há coisas boas e más, feias e belas, oportunas e dispensáveis, e é por isso que, num determinado momento da história da linguagem, surgiu o eufemismo, precursor da civilização, jogando um véu suavizante na aspereza nua e crua da palavra original, que deixava a realidade multiforme subitamente diante de todos.

É bem recente, porém, a utilização ideológica e política do eufemismo, como linha auxiliar na mudança de valores. Nenhuma atitude seria mais cortês do que a substituição de certas palavras, tidas por ofensivas, por outras mais neutras, se a situação o exigisse e o falante pudesse escolher por si mesmo entre as opções. Mas não é isso o que pretende a “etiqueta” do politicamente correto; não lhe interessa treinar boas maneiras, mas preparar reformas mais profundas no comportamento social.

 

 

15/05/2011. H. G. Wells, em 1934, deu um pulo em Moscou e conversou com Stalin, Pai dos Povos e fundador da Faculdade de Engenharia d’Almas (cursada  por todos os telenovelistas da Globo). As mãos de Stalin, na época da entrevista, já estavam tingidas de sangue humano (deve ter usado luvas para encontrar-se com o famoso escritor inglês). A entrevista foi publicada no jornal inglês The New Statesman and Nation, de 27/10/1934, e traduzida para o livro de Fábio Altman, A arte da entrevista (São Paulo, Scritta, 1995).

 

 

14/05/2011. Encontrei, numa esquina qualquer da internet, aquele embrião de dicionário do politicamente correto, publicado em 2004 pela Secretaria de Direitos Humanos do PT, e que seria distribuído a "formadores de opinião" do país: professores, jornalistas e políticos.

A reação veio da própria esquerda, com direito a escárnio nas colunas do João Ubaldo Ribeiro e do Ferreira Gullar. O governo mandou interromper a panfletagem e prometeu um seminário sobre Linguagem, poder e preconceito para junho daquele mesmo ano (2005). O seminário parece que não aconteceu. Nem haveria clima: logo mais começaria o show politicamente incorretíssimo do Mensalão.

Por enquanto, a coisa é só engraçada e subdesenvolvida. Mas já é um bom treino para aquele dicionário orwelliano do 1984 que, a cada nova edição, vinha gracilianicamente mais enxuto de palavras, até a desedição definitiva sem palavras e papel (como aqueles óculos da piada, sem armação nem lentes).

Quem quiser matar saudades ou conhecer a odradekiana criatura , está no blog.

 

 

13/05/2011. A universidade está vivendo um dos melhores momentos de sua historia. Prova disso é a formação, na faculdade em que dou aulas, de uma Comissão Gestora do Programa de Controle Populacional de Animais, criada para discutir questões relacionadas aos animais em situação de abandono no Campus. Sugestões, críticas ou dúvidas devem ser encaminhadas à Comissão.

Eu tenho uma crítica, mas às pombas da Unesp que, como toda mulher do terceiro mundo, não conseguem falar não ao marido. Nosso belo bosque universitário virou um pombal chinês. Já não há mais lugar para estacionar o carro, que o carimbo é certo. Uma sugestão à Comissão: liberar a caça no campus. Irei correndo comprar uma espingardinha de chumbo.

Quanto aos gatos, invadem nossas aulas, não prestam a menor atenção à matéria e saem no meio da explanação. Exatamente como boa parte dos alunos. Uma sugestão à Comissão: criar uma subcomissão para ensiná-los a aprofundar melhor as fossas onde depositam seus produtos internos brutos, vulgo PIB. Há lugares em que é preciso andar de nariz tapado. 

Termos alunos bastante interessados em cultura popular. De vez em quando, ouço um berimbau vindo do Diretório Acadêmico; e tamborins; e pandeiros; e violões em animadas serenatas acadêmicas. Só não tenho ouvido cuícas. E há tantos gatos que podiam se candidatar a cuícas! Suas almas continuariam miando, miando, miando depois de transformados em instrumentos musicais. O multiculturalismo artístico do campus só teria a ganhar com a medida, os grupos folclóricos do DA ficariam mais barulhentos e, com aquela música-ambiente ao fundo, nossas aulas bem mais animadas.

Só não subiriam ao patíbulo os gatos que prestassem atenção às aulas.

 

 

12/05/2011. Militantes ambientalistas estão preocupadíssimos com o desaparecimento do urso panda e do tigre siberiano, mas parecem completamente cegos para a extinção, já em franco progresso, de uma outra espécie: o homo sapiens.

Deve ser isso mesmo que eles querem: marcha à ré no animal racional até ele voltar ao símio peludo, companhia mais adequada aos ursos, tigres e toda a bicharada que o Greenpeace e a WWF conseguirem preservar para o futuro paraíso reconquistado — um paraíso mais ideológico do que teológico, um Éden panteológico, construído à imagem e semelhança dos atuais inimigos da inteligência.

 

 

11/05/2011. Se hay gobierno, soy a favor! A Monsanto, que monopoliza a produção mundial de sementes transgênicas, dava mais dinheiro para o Partido Republicano do que para o Democrata, quando o primeiro estava no poder. E agora a torneira está mais aberta para o segundo, pois é ele quem manda mais.

 

 

10/05/2011. À literatura, basta ser somente literatura para ser o melhor antídoto ao politicamente correto (que não passa de baixo truque ideológico e está mais distante da realidade do que a nuvem está do chão). Romances e poemas não necessitam de programas, de palavras de ordem, para combater essa terrível falsificação da linguagem. É suficiente serem representação da imensa complexidade humana.

 

 

09/05/2011.  “Não há instrumento de controle social mais eficiente do que a imposição de novas normas de linguagem, que limitam o pensamento e modelam a conduta das multidões e mesmo das elites sem que estas ou aquelas, no mais das vezes, cheguem sequer a perceber que estão sendo manipuladas.

Nas altas esferas do movimento comunista, o emprego desse instrumento foi adotado como estratégia prioritária de guerra cultural para a destruição da civilização do Ocidente desde pelo menos a segunda década do século XX, entrando numa etapa de aplicação maciça, em escala mundial, a partir dos anos 60.

Hoje em dia, o controle esquerdista do vocabulário é um fato consumado, e aqueles que riam dele vinte anos atrás são os primeiros a submeter-se à autoridade postiça que prescreve limites à sua liberdade não só de expressão, mas até de pensamento.” (Olavo de Carvalho, Diário do Comércio, 8 de março de 2010)

 

 

08/05/2011. Hoje em dia, bem pouca gente pode dizer de si mesma, autodefinindo-se: “Eu sou eu e minha circunstância.” A maioria das pessoas coincide inteiramente com a circunstância, sem nunca ter visto sequer a sombra do próprio eu.

 

 

07/05/2011. Um tradutor brasileiro de Wallace Stevens conta que o poeta americano, nos últimos dias de vida, passou a ter no hospital um comportamento inusitado para os seus padrões de austeridade, tratando as enfermeiras com bom humor. Soube-se, depois, pelo padre que esteve com ele, que o materialista convicto tinha se convertido ao catolicismo. Como ninguém na família teve conhecimento do fato, mas só um padre, o tradutor achou que seria sensato duvidar da conversão.

Ficaria bem diferente o parágrafo anterior, se déssemos crédito à palavra do padre que esteve com Wallace Stevens nos seus últimos dias de vida. Segundo ele, o poeta americano — materialista convicto recém convertido ao catolicismo — passou a ter no hospital um comportamento inusitado para os seus padrões habituais de austeridade, na certa explicável pela conversão: tratava as enfermeiras com uma jovialidade que não era do seu feitio.

Como sou da época em que padres eram dignos de confiança, até prova em contrário, fico com a versão do padre. Wallace Stevens rezou a vida inteira, mesmo quando não tinha religião. Sua poesia completa está aí como prova.

 

 

06/05/2011. Igualar o casamento gay ao casamento heterossexual mexe ou não no direito dos heterossexuais? Os rábulas do Supremo acham que não. Eu penso que sim. Um exemplo: se sua filhinha de oito anos chegar da escola dizendo que, ao crescer, tanto pode namorar o Joãozinho como a Mariazinha, pois a professora garantiu que tanto casais do mesmo sexo como de sexos diferentes são iguais perante a lei, você não vai ter a quem reclamar. Será a sua palavra contra a da escola, que pesa enormemente mais do que a sua.

Também não vai poder reclamar contra a literatura infanto-juvenil que começar a contar histórias cheias de casais adolescentes do mesmo sexo. Uma coisa puxa a outra — e para o buraco errado.

Por enquanto, o Estado só reconhece, como família, a união estável entre o homem e a mulher. A quem recorrer do golpe dado na Constituição pelo Supremo Tribunal Federal? Precisamos, urgentemente, de um Supremo acima do Supremo. Um Supremíssimo, composto de gente mais ajuizada.