NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 7
1
de março de 2006.
Data-folha deu Lula na frente da corrida, depois o devolveu de novo à merecida
posição antiga. Páreo também interessante é o do próprio PSDB, com dois pangarés
posando de manga-larga: Alkmin e Serra. Qualquer deles que puder bater o pangaré
Lula — criador da populachocracia, governo do povão, pelo povão, em nome do
povão — será bem-vindo, mas vai ser vitória com gostinho de derrota, porque lá
no fundo do cobre essa trindade eqüina é rapa do mesmo
tacho.
O
povão pensa com a barriga, dizia Lênin. Excelentes idéias tem uma barriga:
fricassê de vitela com cogumelos, bacalhoada com tomate e orégano, sorvete de
passas e nozes, etc. Engano pensar que, depois das idéias culinárias, viriam
idéias morais: vêm a sesta, a prisão de ventre, o vaso
sanitário.
A
única saída é pela boca: rir de tudo o que não se pode compreender. Rugas
provisórias de uma boa risada adiam as outras, definitivas. Acredito mesmo que
só uma religião seja possível hoje em dia: o humor. Com o máximo possível de
fanatismo.
2
de março de 2006.
—
Décadas piores virão — gemeu o pessimista. — O que fazer por minha
descendência?
—
Canta che ti passa — disse comendo e cantando um bufão italiano, com uma taça de
vinho na mão e um pedaço de pizza na boca.
3
de março de 2006.
Quando já não sabia o que fazer com o barulho da máquina de cortar grama do
condomínio, lembrei da homeopatia e corri para outra máquina, a de escrever, que
em felicíssima hora mandei consertar. Botei sulfite e comecei o batuque atrasado
de carnaval. Similia similibus curantur. Deu certo. Saiu esta nota, única que
aproveitei de meia dúzia.
4
de março de 2006.
Teste de burrice inventado por Olavo de Carvalho: leia Platão, Aristóteles,
Leibniz, etc., e depois, só depois, tentar ler Marx, Nietszche, Foucault. Se
conseguir, então você não tem mesmo salvação.
Mas
alunos não tem culpa de ser burros e zurrar o tempo todo, já que Mamãe Natureza
não distribui seus dons com o mesmo senso de justiça do ministro do Supremo, o
Jobim. Culpa mesmo tem a universidade, que adotou o zurro como língua oficial
dos campus.
Por
falar em catástrofe, daqui dois dias começam as aulas na faculdade. Quando me
lembro de que sou (ou estou) professor, esqueço imediatamente que pertenço à
espécie que pensa.
—
Que espécie de espécie é esta? — vivia perguntando o amigo Hildo, antes de fugir
para Minas.
5
de março de 2006.
O brasileirinho trocou o rim esquerdo por um carro. Como o carro não tem som, o
brasileirinho anda seriamente pensando em trocar o rim que sobrou por potente
toca-discos.
Falando
em Brasil, o crime compensa cada vez mais por aqui, Senhor. Quem quiser
subsídios para a pré-história da humanidade, leia os jornais brasileiros.
Ninguém pune ninguém, exceto a receita federal, única instituição que parece
funcionar na terrinha, que no mais está mesmo uma merda. Merda vagabunda de
vira-lata, com auréola de varejeiras em volta.
Merda
não vira esterco. Só a velha e venerável bosta. Como a que eu catava da rua
Professor José Marques, quando Canaviais ainda era Batatais, alguns dias depois
que passava a carroça do seu Sebastião Brabo. Levava direto para o canteiro de
alface, que agradecia com luminoso e belo sorriso verde, verde daquele verde que
o poeta queria verde, verde-alface (nada do verde-mofo da bandeira, que o
diretor tirava do arquivo da secretaria, nos feriados da Canoinha, e prendia no
mastro da escola. Sorte que ficava bem lá no alto, senão a gente ia cantar o
hino nacional espirrando).
6
de março de 2006.
Há excelentes títulos que não merecem certos livros ruins. Exemplo, As sandálias do pescador. Podia estar na
capa de um bom romance de Hemingway ou Conrad.
7 de março de 2006. Para um episódio de novela das
seis: a jovem de classe média, necessariamente bela, morava sozinha no
apartamento carioca. Da área de serviço via muito bem, de galeria, o exército
ocupando o morro, com suas estratégias e táticas, atrás dos fuzis roubados por
traficantes.
De vez em
quando, pipocavam tiros — e soldados verdes corriam para trás dos postes ou dos
carrinhos de cachorro quente. Os traficantes saíam fora dos barracos, só de
bermudão, e faziam micagens para os soldados. Os soldados olhavam e engoliam em
seco, com vontade de atirar, mas era preciso esperar ordem do
comandante.
Era essa a
rotina da jovem de classe média, quando estava
— O que posso
fazer? — perguntava a si mesma, ao namorado, aos amigos. — Gostaria muito de
fazer alguma coisa pra botar fim nesse absurdo. Nós precisamos fazer alguma
coisa, gente!
A “gente” não
era tão altruísta como nossa jovem — e levantava mil obstáculos. Nossa jovem
removia os mil obstáculos e vinha com outras mil soluções. Propostas de ação
eram no entanto logo desmontadas ora por si mesma, ou pelo namorado, ou por
algum amigo.
Certa tarde,
alguns dias depois, ela acabou admitindo que não havia mesmo possibilidade de
ajudar, de modo mais concreto, na solução do conflito. Perdida entre a
impossibilidade de uma ação mais concreta e o descontentamento com meras
especulações abstratas, a jovem da novela das seis — com bom coração por dentro
e belos seios por fora — foi ao supermercado comprar coisas. Comprar coisas era
uma forma muito eficaz de compensar frustrações.
Abarrotou de
coisas o carrinho. Lembrou-se, já perto do caixa, que não havia plantas no
apartamento, e então foi à seção de plantas: escolheu um pequeno vaso de
violetas brancas. Botou-o com ternura no carrinho do supermercado, sobre os
saquinhos de arroz e de macarrão, entre latas de óleo, legumes, pacotes de carne
e bolacha, leite em pó, etc.
No
apartamento, depois de guardadas no armário as coisas compradas, pegou
delicadamente o pequeno vaso de violetas brancas — como uma jovem mãe pegaria o
frágil bebê —, levou-o à torneira, deu-lhe de beber um belo gole de água e em
seguida deixou-o, como uma oferenda, no parapeito da área de serviço, o lugar de
onde assistia ao conflito armado.
Chegou à
conclusão que era a única coisa que podia fazer pelo conflito no morro: oferecer
ao deus da guerra um inocente vasinho de violetas brancas.
10 de março de 2006. Lulinha Malasarte, com cara de
bafo-de-onça e pose de lorde, foi na Inglaterra jantar com a rainha. Esses
socialistas. Bom mesmo é o comediante da TV Record: imita-o tão bem, que logo é
o presidente que passará à condição de clone.
12 de março de 2006. O nó é fácil. Difícil mesmo é o
laço. O fato do laço ser mais fácil de desfazer-se não é razão suficiente para
desmoralizá-lo. O laço é uma verdadeira obra de arte: o cruzamento das duas
pontas, os volteios seguintes e a amarradinha quase final, fechando sem
fechar... Seu criador dorme anônimo no tempo, não recebeu nenhum oscar ou nobel,
como os clássicos da literatura e do cinema.
Laço lembra
casamento. Mas o velho enlace matrimonial, autorizado pelo padre em nome de
Deus, está mais para a cegueira do nó que para a complacência do laço.
13 de março de 2006. Juro que jamais me apavorou o
silêncio eterno dos espaços infinitos, ao contrário do eterno barulho dessas
ruas entupidas de carros e multidão.
Até no
condomínio tranqüilo onde moro não estou livre de barulho. Pelo menos uma vez
por mês. Como há muita grama no condomínio, e a máquina de cortar grama é
extremamente barulhenta... O responsável pelo incômodo é um sujeito até muito
sossegado, gorducho como em geral são as pessoas sossegadas. Cumprimenta com uma
ameaça de sorriso, que nunca completa. Uma espécie de sorriso brochado. No
resto, porém, é pau para toda obra: substitui na portaria, varre calçadas e
ruas, poda a cerca viva e... e corta a grama.
15 de março de 2006. Professor já foi lamparina, lâmpada
e até holofote nas trevas. Dependia
do professor. De qualquer modo, iluminava. As trevas que sentavam nas carteiras
das escolas já foram mais sensíveis à ação da luz. Hoje criaram anticorpos. E
professor virou bombeiro, de mangueira na mão, durante cinqüenta minutos
tentando apagar o facho da moçada barulhenta, com proteínas demais e cérebros de
menos.
16 de março de 2006. É bom andar a pé, apesar dos cacos
de vidro nas calçadas de Assis. Resultado de farras noturnas, droga, bebida? Não
acredito. O ser humano é incapaz de intenções malévolas. O objetivo é estético,
visando efeitos de luz sobre os cacos a cada hora do dia: ao sol do meio dia, no
sol poente, sob lua cheia, sob luz dos postes ou no súbito brilho circular de um
farol de carro. O mundo está cada vez mais cheio de artistas.
17 de março de 2006. Maturidade: idade quadrada na qual
a gente aceita, finalmente, a trilateralidade do
triângulo.
18 de março de 2006. Manhã de sábado. O balé está
animado: bicicletas, motos e carros cortam-se coreograficamente.
A rapidez e a
sinuosidade das motos andam cada vez mais virtuosísticas. Em contraste, ma non
troppo, as bicicletas vão mais calmamente por onde nunca deveriam ir, se o
critério fosse o da racionalidade do trânsito. São linhas tênues, quase
esvoaçantes, traçadas na palma da contramão. Repito: o mundo está cada vez mais
cheio de artistas.
Que grande
arte não é feita de riscos? De quando em quando, uma ambulância aparece e leva o
artista para o pronto socorro ou direto para o médico legista, sacrificado em
pleno exercício da beleza.
19 de março de 2006. Há idéias que a época da técnica
incorporou sem discutir. Uma delas: a que recomenda clareza e economia como
melhor programa para quem gosta de escrever, mesmo aceitando que o superávit e a
máscara sejam mais naturais, mais próximos da vida. Não gastar duas linhas para
o que se pode dizer numa só, recomendam os flaubertianos. Só usar palavra
difícil quando não houver outra mais fácil que exprima a mesma
idéia.
Mas clareza e
concisão não passarim, no fundo, de truque para enfrentar a enxurrada do tempo e
a constante desestabilização do espaço? Nossa ilusão de conhecimento precisa da
muleta do resumo. Explicam-se as coisas a partir do que é comum, embora nada
seja mais pungentemente particular que a existência individual, única que de
fato existe. Transportar esse método para a vida é empobrecedor, mas — fazer o
quê? — necessário.
A cabeça manda
pensar, quando os países baixos querem viver. Como conseqüência, o mundo acorda
absurdo em plena manhã de domingo. Uma boa hipótese para o absurdo
contemporâneo: produto da tensão entre o imperativo da vida, que nunca foi tão
forte, e o imperativo da repressão para diminuir a chance do mais forte comer o
rabo do mais fraco. Sem ilusão de ordem, sem a mediocridade do método, a
floresta volta a engolir a cidade.
Só a
literatura pode arriscar-se a viver, quando o bom senso aconselha-a a pensar. E
vice-versa. Tiram tudo do poeta? Sua obra vai ficando cada vez mais cheia de
tudo, diria o Bandeira.
22 de março de 2006. Conversa com professora recém
aposentada. Ainda é moça no registro civil, cinqüenta e cinco anos, idade em que
as mulheres de vida tranqüila ainda dão trabalho na cama. Mas o magistério fez o
que pode para tirá-la do páreo. Dá pra ver que foi bonita nos áureos tempos. A
inteligência continua jovem, capaz de salto triplo, não necessariamente
dialético. Pertence à minoria de professores que merecia ter ensinado, em vez de
trabalhar como assistente social.
Olha para
salário escrito no olerite do mês e suspira:
— Veja.
Diminui a cada ano, como eu... Do salário que poderia ganhar e não ganho, boa
parte fica para o Estado. O maior desconto não foi registrado aqui: é a caridade
forçada que fiz e continuo fazendo para o governo, que tira de nós para fazer
coisas mais importantes. É minha esmola compulsória para um governo sem vergonha
se reeleger.
24 de março de 2006.
Os paulistas pobres
estão gordos. Palavra do IBGE. Nossa pobreza, arrastada com facilidade pela
Locomotiva da Nação, é uma pobreza gorduchinha, rechonchuda. Uma gracinha de
pobreza.
25 de março de 2006.
Para a sagração da
primavera: a gripe das aves deve chegar ao Brasil em setembro, junto com as
flores. Para facilitar os velórios?
26 de março de 2006.
Shakespeareana nº
1. Quanta coisa, mais alta que a cúpula do PT e mais subterrânea que as glebas
dos sem-terra, escapa da vã filosofia da professora Chauí!
27 de março de 2006.
Qual é a diferença,
hoje em dia, entre um professor de literatura e o de lingüística? O primeiro
anda cada vez mais atrás da gramática da literatura. O segundo, atrás da
gramática da gramática.
29 de março de
A leitura que
se aprende na escola é só preparação para a leitura solitária, como o atleta de
saltos que treina o ano inteiro para uma exibição de poucos
segundos.
30 de março de 2006.
Chuva braba?
Tempestade? Tromba d'água? Tudo isso tiro de letra. O que me derruba mesmo é
aquela gotinha que cai do beiral e entra na gola da
camisa.
31 de março de 2006.
Há homens
superiores e inferiores, garantia Hitler. O bigodinho tinha razão. Só que a fita
métrica pra medir não é racial, nem econômica, nem política, nem intelectual,
nem estética, nem religiosa... É moral.
Um preto da
África, mesmo tribal, pobre, sem nenhum poder na tribo, sem nenhuma habilidade
artesanal, pode se incluir na categoria dos superiores. Basta ter a sorte de
reunir os atributos que qualquer pessoa de bom senso, mesmo sem os ter na dose
necessária, admitiria como essenciais nos machos e fêmeas pensantes: tolerância,
generosidade, sinceridade, lealdade, humildade, honra, coragem.
Também pode
ser escalado para o mesmo time um alemão branquelo, rico, inteligente, desde que
continue a lista com os atributos acima.
Rico, pobre,
branco, preto: nada disso importa. Tudo vem nos genes. O bom exemplo e a boa
educação ajudam até certo ponto. Um samba desses não se aprende na
escola.