NOTAS PARA UM
DIÁRIO - 69
30/03/2011. Presente
de aniversário.
Aos cinquenta e cinco anos quero crer,
Ó Mãe, já ter vivido o suficiente
Para iniciar como recém-nascente
O tempo que me resta por viver.
Não que eu queira zerar o que vivi
(O que vivido foi, no lucro está),
Mas é que há tanto por viver aqui
Que era preciso que eu nascesse já,
Recém-nascendo do que sempre
fui
— Eu que fui sempre o eterno provisório,
Substância encarcerada no acessório,
Agua multiplicada que não flui.
E eu que fui sempre o que esperou por nada
— Eu na estação, mala no chão, sozinho —
Hei de recém-nascer no fim da estrada:
Final da estrada, início do caminho...
29/03/2011. Pe. Serafim Leite, no
primeiro volume de sua vasta e erudita História
da Companhia de Jesus no Brasil, mostra o trabalhão que os jesuítas tiveram, mundo afora, para aprimorar o seu ratio studiorum.
O método de ensino previa três graus: Letras Humanas,
Artes e Teologia.
Letras Humanas, que vinha depois do estudo elementar,
equivalia ao nosso ginasial e se dividia em Retórica, Humanidades (literatura
antiga e história) e Gramática (suprema, média e
ínfima). Segundo os padres, a principal preocupação do adolescente devia ser o
domínio das ferramentas do conhecimento: ler, escrever, falar. A principal
língua era o latim, única que os alunos deviam usar em aula para escrever ou
conversar, mas também um pouco de grego e hebraico. E os modelos eram os velhos
clássicos, que estavam na ordem do dia: Homero, Demóstenes, Horácio, Ovídio e,
como mestres de estilo, Cícero e Virgílio. No Brasil, ensinava-se também o que
os padres chamavam de “grego da terra”, a língua dos índios, que logo mereceu
gramática e dicionário.
Só depois vinha o curso de Artes, correpondente
hoje ao de Filosofia, e em seguida Teologia, não só teórica, mas também
prática, com discussão de casos morais. Para os alunos, nada de “distrações
repetidas e demasiadas”, e os melhores estudantes, dos quais sairíam os futuros professores, tinham tratamento especial,
que o pessoal delicado de hoje prefere chamar de elitista.
Essa notável máquina de ensinar — que ainda era
utilizada nos quase mil colégios espalhados pelo mundo quando, no século XVIII,
a Ordem foi extinta —, pelo jeito não fazia muito sucesso aqui na terrinha brasilis. Os padres, em suas cartas, referiam-se à pouca disposição dos brasileiros para os estudos, apesar
de quase todos garantirem que eram talentosos.
Um deles anotou que, por ser a “terra relaxada, remissa e melancólica, tudo se vai
em festas, cantar e folgar”. Ou seja, enquanto no resto do mundo
jesuítico a moçada ralava no latim e na retórica, nossos antepassados tinham
uma missão histórica muito mais importante: estavam lançando as bases, cada vez
mais sólidas, do futuro Carnaval. Em vez do estoicismo jesuítico, sempre
preferimos “distrações repetidas e demasiadas”. Festas, cantar, folgar… Era e é
o nosso jeito de fazer revolução.
Outro padre, Pero Rodrigues, precursor dos
naturalistas curiosos que logo aportariam nos trópicos com pena e papel, pintou
o seguinte quadro bucólico, abrangendo inclusive os próprios “padres letrados”:
“Como nesta província nasce um bicho,
como raposas, a que chamam preguiça, não sei como também se pega em muitos a
pouca curiosidade do estudo e contentam-se com pouco, donde entra a ociosidade
e com ela suas filhas e isto se vê mais nos naturais”.
O resultado, segundo Pe.
Serafim Leite, era a falta de aplicação aos estudos e o perigo constante de
desistência. Evasão escolar, portanto, não é problema novo no país: acha-se
entre as mais veneráveis virtudes nacionais.
Cazzo! Que Ratio Studiorum
podia dar conta do nosso zoológico tropicalista?
27/03/2011.
Desconstrução (versão revista).
Dormiu naquela noite o sono mais granítico
Saiu sem despedir-se de sua esposa flácida
Deixou os quatro filhos
numa escola pública
E foi pegar no trampo com seu fusca mínimo
Ligou o rádio de pilha pra escutar as últimas
Botou cimento e cal na betoneira mágica
E enquanto levantava a parede assimétrica
Mostrou sua erudição em piada pornográfica
Comeu um rango quente na marmita térmica
Deitou-se sob o andaime pra um cochilo rápido
Sonhou que viajava num carrão nipônico
Acordou de repente com a brecada súbita
Passou o fim da tarde na casa lotérica
O fusca teve um leve problema mecânico
Entrou num botequim de alto teor alcoólico
Comeu um travesti com seu cartão de crédito
26/03/2011. O carioca Ronald de Carvalho (1893-1935) foi nome importante do
modernismo brasileiro e português. Escreveu uma famosa História da literatura brasileira, em 1919. Como poeta, passou por
todos os estilos do começo do século XX: parnasianismo, decadentismo,
modernismo, neo-romantismo withmaniano. Estudou filosofia e sociologia em Paris. Foi
diplomata e ministro de Estado, cargo que ocupava quando um acidente de
automóvel lhe tirou a vida, aos 42 anos, quando sua prosa ensaística chegava ao
pleno amadurecimento.
Estava bem por dentro do que rolava pelo mundo. Vejam
o que já dizia no início dos anos trinta, sobre o comunismo soviético: “...o Governo Bolchevista é a encarnação do mais desesperado
capitalismo (...) A ditadura do proletariado [é] a simples mascara de um
formidável jogo de bolsa, secretamente auxiliado pelos magnatas da alta
finança, que se divertem nos seus castelos ingleses, constroem arranha-céus em
Nova York e Chicago, compram ações de companhias de navegação e estradas de
ferro na América do Sul, na Ásia e na Austrália.” Adivinha quem pagava a conta…
Mais detalhes, v. o artigo “O super-capitalismo bolchevista” no blog anexo.
25/03/2011. Não há mais abjeta manifestação de racismo, no Brasil, do que a desses
branquelos que estimulam a retribalização
indumentária de negros e mulatos. Bota um “afro-descendente”
dentro de um paletó-e-gravata, faz cabelo e barba, mete um desodorante, pra ver
se a polícia implica com o dito. Os espíritos mais lúcidos já enxergaram que
multiculturalismo, embora pareça o contrário, é multiplicação cancerígena de apartheids.
24/03/2011.
Psicanálise do perdão.
Vamos fazer um trato?
Tu te perdoas
Pelo que me fizeste.
Eu me perdôo
Por tudo que te fiz.
23/03/2011. Truque das novelas da Globo para espalhar
dissonância cognitiva: sobre um fundo conservador — fios narrativos com pais,
mães e filhos à moda mais ou menos tradicional —, espalham-se pela trama
algumas histórias com pais, mães e filhos de acordo com os novos paradigmas.
Como o telespectador não vai engolir o casal gay (que até briga bem menos que
casais naturais), se vem embrulhado no mesmo pacote
respeitável de uma família normal?
22/03/2011. Depois da palestra do professor Tiago Valente sobre o jornalismo de
Monteiro Lobato no Estadão, de 1913 a
1923, quem pode afirmar que o Brasil também não estava em guerra naquele
período? Guerra contra a pobreza, contra a elite burra, contra a falta de
informação. E, em vez de aplaudir a recente Revolução Soviética, como fez Lima
Barreto, Lobato se inspirava na democracia norte-americana, pois sabia que só o
regime de livre iniciativa poderia tirar o Brasil do século XIX.
Evidentemente, nem tudo é tão democrático assim na
democracia norte-americana, mas dos males é o menor. Quando lemos A elite secreta dos EUA, de Anthony
Sutton, sabemos o quanto o povo americano se divide entre democratas autênticos
e uma minoria plutocrata, que já no século XIX tinha ido beber no hegelianismo
alemão e voltou deslumbrada com o joguinho de tese-antítese que o filósofo
ensinou ao ocidente (cujo exemplo mais à mostra é o bipartidarismo deles). Mas
isso é uma outra história.
Eu sempre achei que o Estadão de 1970 era a única escola que eu frequentava. Impossível
imaginá-lo hoje, quando a imprensa virou o lixo que todos sabemos. Mas o jornal
dos Mesquitas já tinha nascido assim: com propósito
pedagógico, procurando preencher de algum modo a nossa ausência de
universidade. Foi uma verdadeira escola da elite governante e da classe-média
paulista.
Sou de uma cidade de deu um governador estadual a São
Paulo: Altino Arantes. Sua biblioteca pessoal está lá em Batatais, mal cuidada
pelos manés que hoje dirigem a cidade, mas qualquer um que passar uma diagonal
d’olhos pelas estantes vai verificar como aquele pessoal antigo da política era
gente de outra espécie.
20/03/2011. Esses
relativistas…
— Vocês comem a carne do seu Deus? — perguntou o
asteca Montezuma, em 1519, ao conquistador espanhol Hernán Cortez. — Nós comemos a nós mesmos.
Desconfio que a gastronomia ibérica deva ser superior
à asteca: o povo que se alimentava de Deus conseguiu escrever um Don Quijote de La
Mancha; e o que se alimentava de gente — que mal
gosto! — continuou condenado à mais vulgar imanência.
Prefiro a civilização em que o verbo comer, aplicado a pessoas, de preferência
do sexo oposto, possua valor eroticamente metafórico.
Se eu fosse professor de história, na escola básica,
juro que ensinaria a meus alunos que o tal Cortez fez muito bem em dominar
aquele pessoal que nada entendia de culinária. Por mais que a civilização
cristã tenha cometido asneiras, pois sempre houve
asnos no rebanho cristão, ela foi fundada por Alguém que veio condenar o
sacrifício do homem pelo homem, mesmo quando as intenções podiam ser as
melhores, como no caso do Santo Ofício.
19/03/2011. O que mais espantava Mário Quintana, talvez o maior sábio brasileiro do
século XX, não era o macaco como possível origem do homem, mas a séria
possibilidade vir a ser o seu futuro.
18/03/2011. Segundo o fidelcastrista Antonio
Candido, a literatura é uma traição sistemática da realidade. É preciso exemplo
melhor de como uma habitual estratégia politica — a queima de arquivos — pode
influenciar a teoria literária?
Literatura, e estou pensando em Cervantes, Shakespeare,
Stendhal, é um esforço de revelação da verdadeira realidade. Mas, se quisermos
continuar com a ideia de traição, podemos então dizer que a literatura é uma
traição sistemática da realidade aparente em nome da realidade substancial,
aquela em que se escondem as “coisas permanentes” de que falava Russell Kirk.
17/03/2011.
Desconstruindo o pedreiro explorado.
Dormiu naquela noite como coisa sólida
Saiu sem dizer tchau pra sua esposa flácida
Deixou os quatro filhos
numa escola pública
E foi pegar no trampo com seu fusca célebre
Ligou o rádio de pilha pra escutar as últimas
Botou cimento e cal na betoneira mágica
E enquanto levantava a parede assimétrica
Falou de futebol e um pouco de política
Comeu um rango quente na marmita térmica
Deitou-se sob o andaime pra um cochilo rápido
Sonhou com a prestação de um produto eletrônico
E despertou com riso de um colega sádico
Curtiu uma filinha na casa lotérica
O fusca quase teve um problema mecânico
Entrou num botequim de alto teor alcoólico
Comeu um travesti com seu cartão de crédito
16/03/2011. O atual estudioso acadêmico de literatura disfarça muito bem a sua
dificuldade de transitar da obra lida para o conjunto em que se insere, com a
desculpa de que é preciso cuidar bem do texto — essa sacralização irracional do
texto. Ora, cuidar bem do texto é considerar a sua particularidade, aquilo que
possui de próprio, e nada favorece mais essa tarefa do que a velha abordagem
estilística quando bem conduzida, mas que só se completa quando o objeto da nálise é reintegrado em sua familia,
em sua genealogia espiritual, o que só pode ser feito se o leitor possui
formação histórico-literária e de história das idéias
em geral.
É óbvio que esse segundo momento pressupõe o primeiro,
o qual, porém, nem sempre precisa ser revelado ao público na sua totalidade, o
que se tornaria extremamente cansativo numa palestra ou num artigo de
periódico. Seu lugar é o das teses e das monografias, e seu único público é a
banca julgadora, que talvez precise dessa demonstração quase atlética de
competência analítica para avaliar candidatos a doutores.
Entretanto, continuar a exibir essa performance
científica, fora do âmbito das defesas acadêmicas, é no mínimo pedante. Na
palestra e no artigo, o crítico deve mostrar outra capacidade: a de síntese. É
da natureza do estudo literário essa circulação permanente e de mão dupla do
texto para o contexto; se houver necessidade de enfatizar um dos pólos, que seja o último, jamais o primeiro, pois o texto
será sempre estrela de uma constelação pre-existente,
que ajudou a produzi-lo e ao final vai ser a sua grande moldura.
Sem essa visão “cósmica” do estudo literário, a
palestra ou o artigo não passará de estágio introdutório do processo. E é para
isso, desgraçadamente, que os atuais cursos de letras, fechados para as
ciências humanas e a filosofia, preparam o futuro investigador: para o
exercício paralítico da análise que jamais atingirá o degrau superior da
síntese. Estamos formando “portadores de necessidades especiais” nos estudos
literários (para usar a deliciosa linguagem politicamente correta).
15/03/2011. Casa do
ser?
Palavra é o ventre do ser.
Nela, silentes gomos,
Misteriosamente somos
O que ela vive a dizer...
A palavra pronuncia
O que nunca sai de mim:
Só terei chegado ao fim
Quando ela calar-se, um dia.
14/03/2011. Nunca os estudos de história literária estiveram tão distantes do seu
pressuposto religioso como hoje. Religiões são fundadoras e mantenedoras de
culturas e civilizações; desconhecê-las é perder boa parte do jogo literário,
chegando no final do segundo tempo. Isso vale também
para a religião ateísta, que possui sua “ateologia”,
seus rituais, sua dogmática, seus pastores... A literatura moderna permanece incomprensível sem levar em consideração essa “ateologia”. Pena que alguns bobocas das letras acadêmicas,
embora impregnados até os ossos do credo ateísta, não compreendam isso.
13/03/2011. Arte é assim: se der uma graninha, ótimo. Se não, o artista já se sente
suficientemente pago com a atividade criativa, seja ela medíocre ou genial.
12/03/2011. Josué Montello escrevia muito bem; sabia, como poucos, montar um enredo; faltava-lhe, no entanto, humor. Será consequência da sua forma