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NOTAS PARA UM DIÁRIO -  68

 

28/02/2011. Se, lá atrás, os cristãos não tivessem se defendido com lanças da ameaça constante de povos não-cristãos, hoje não faríamos sinal-da-cruz quando passamos por igrejas, nem procuraríamos acertar o passo na dança das virtudes (teologais ou cardeais). O que muita gente, na certa, lamentará, pois a esbórnia de hoje teria começado muito antes.

A religião católica, para se preservar, acabou produzindo uma civilização que, nalguns aspectos, dela se distanciava. Era, enfim, uma coisa feita de homens — e homens pecam. É por isso que o Vaticano podia ser, ao mesmo tempo, sede provisória do pai de Lucrécia Bórgia (também conhecido como Papa Alexandre VI) e símbolo permanente da insuperável doutrina cristã.

Cristãos filhos da puta passam, a Igreja Católica fica.

 

 

26/02/2011. O romance A estrela sobe, de Marques Rebelo, que sempre corre o risco de ser apresentado como documento ficcional do meio radiofônico brasileiro nos anos trinta, parece ser, na verdade, uma síntese feliz da história da humanidade, na visão que René Girard possui dessa mesma história: competição desenfreada, ameaça de sacrifício punidor para manter a espécie viva e surgimento do cristianismo, há dois mil anos, substituindo a expiação pela misericórdia, o que bastava para fazer dela a religião mais recomendável do ocidente.  

Esses três conceitos fundamentais do pensamento de René Girard — desejo mimético, bode expiatório e moral cristã —, marcaram encontro na obra de Rebelo, o qual, grande leitor de romances que era, de Cervantes até Proust, sabia muito bem dos perigos da rivalidade mimética, aquela que decorre da irreprimível necessidade humana de imitar o desejo alheio, de desejar o que os outros desejam, transformando a violência num estado quase natural das pessoas.  

Se o imperativo da imitação já revela, nos animais, o desejo de ser outro, no ser humano chega a um nível espantoso de sofisticação. O desejo mimético, como o chama R. Girard, é ao mesmo tempo criador da civilização e a maior ameaça à espécie falante (ou cantante, como é o caso do romance de Rebelo).

 

 

25/02/2011. É comum a aplicação mecânica, nos estudos literários, de esquemas teóricos importados das ciências humanas ou da filosofia, como se as obras literárias devessem abrir mão de sua função de representar intuitivamente a realidade, para fornecer material de primeira mão à abordagem científica ou filosófica.

A segunda atitude parece ter sido vitoriosa. O que se parece exigir da obra literária, hoje em dia, é mais a prontidão servil de ilustrar pensamentos já sistematizados noutros arraiais, do que o trabalho prévio de captar verdades humanas com as “antenas da raça”, especialmente desenvolvidas nos escritores e poetas.

 

 

24/02/2011. O único comunismo possível é o descrito por Manzoni, no capítulo de Os noivos dedicado à peste de Milão.

A peste tinha o revolucionário poder de nivelar tudo por baixo. Nobres e plebeus, padres e leigos, homens e mulheres: todos pertenciam ao mesmo proletariado da doença e do medo. Ao contrário, porém, do que ocorria na URSS, China ou Cuba, a peste oferecia ricas possibilidades de transcendência pessoal.

É o caso do episódio, talvez o mais comoventes da obra, em que Renzo descobriu que seu malfeitor, D. Rodrigo, tinha sido contaminado pela peste e estava no lazareto, um doente como qualquer outro doente. Seguiu para lá, decidido a vingar-se do nobre, que tinha raptado sua noiva e transformara sua vida num inferno.

Foi frei Cristóvão quem deixou sem sentido a vingança (adiantava bater em cachorro morto? queria, acaso, tomar o lugar de Deus?), numa fala impregnada de  cristianismo e sabedoria.

E Renzo entendeu que a justiça já estava feita.

 

 

23/02/2011. Se a liberaçao sexual é boa estratégia para deixar mais dependente do Estado o indivíduo entorpocido, tem contado sempre com a colaboração da literatura, e isso desde o século XVIII, a época de Rousseau e outros liberadores. Um século mais tarde, com o romance naturalista, muito mais zoológico do que antropológico — era o Kama sutra do ocidente —, o público literário já podia se deliciar abertamente com longas cenas de sexo explícito, que tinham pouco a ver com a neutralidade da ciência natural e funcionavam mais como guias-práticos de masturbação, quando não eram pornografia pura e simples (é o caso do grotesco romance O bom crioulo, de Adolfo Caminha, explorando a veadagem entre marinheiros).

 

 

22/02/2011. Num hotel-fazenda da Mantiqueira.

Nessa tarde, em que tudo é esquecimento,

Venha a substância leve e delicada,

Nascida do ar, trazida pelo vento,

De uma ilusão qualquer no fim da estrada;

Uma ilusão sem cor, um pensamento

Que, zombando da minha voz cansada,

Siga comigo no meu passo lento

Sem exigir de nós que ocorra nada.

Por que ficar remoendo essa miséria?

Minha alma falaria só de coisa séria

A si mesma — corguinhos, nuvens, plantas…

E as poucas horas já seriam tantas

Que a vida, mesmo se acabasse aqui,

Devolveria tudo o que eu perdi.

 

 

21/02/2011. Na ação de informar um acontecimento ou uma ideia, o emissor da mensagem, como gostam de dizer os linguistas, limita-se a revelar o que sabe. É o que chamam de função referencial da linguagem. Dependendo, porém, da gravidade da informação, a mensagem pode forçar o receptor a tomar alguma decisão muito séria, numa espécie de coação involuntária. Sem querer, portanto, uma atitude meramente referencial pode adquirir aspectos conativos, embora não fosse essa a intenção do emissor.  

Já na desinformação — transformação distorcida da mensagem para manipular a opinião pública —, as duas funções da linguagem misturam-se no mesmo ato e ao mesmo tempo: uma informação explícita e aparentemente referencial, veiculada em tom neutro, encobrirá sempre uma intenção de compelir, ainda que astutamente disfarçada pela primeira. O verdadeiro propósito é militante — a serviço de igrejas, partidos, doutrinas —, visando mudar o pensamento e o comportamento alheio.

 

 

20/02/2011.  “De tanto ver triunfar o niilismo, o homem vai sentir vergonha da própria moralidade” (Rui Barbosa de roupa nova).

 

 

19/02/2011. E pensar que a pomba branca da paz, de Picasso, foi construída  com os glóbulos vermelhos que o estalinismo derramou…

 

 

18/02/2011. O poeta é um sujeito cansado de tanto olhar.

 

 

17/02/2011. Como diria o Conselheiro Acácio, sexo é fundamental para a vida. Se nos casamentos, porém, sexo fosse fator determinante, como ensinam as telenovelas, boa parte deles já teria começado nos puteiros, quando as vaginas são apresentadas pela primeira vez aos pênis; e aquele famoso xingamento — que mora na ponta da língua de todo cidadão — seria um cândido afago verbal.

 

 

16/02/2011. A utilidade da noite.

Mesmo que haja todo dia,

Noite é coisa muito rara,

Coisa misteriosa e clara,

Hora silenciosa e pia.

Hora de sentir coragem

Antes de dormir profundo,

Pausa do abismo, mensagem

De Deus às coisas do mundo.

Hora de lembrar que tudo

Aquilo que se arquiteta,

Nunca jamais se completa.

Hora do homem desnudo.

Noite: a grande humilhação,

Desvalimento absoluto,

Uma tarjeta de luto

No sol, no mar, na razão.

 

 

15/02/2011. Auto-crítica do espelho.

— Espelho, és amigo franco

Ou maldosa criatura,

Sempre a zoar da textura

De cabelo preto e branco

Que, unidos na mesma teia,

O tempo artesão me tece

E o vidro mau alardeia?

— Não! Sou teu amigo, e creia:

Também o espelho envelhece…

 

 

14/02/2011. Revolução é pegar na unha os dons do Espírito Santo e virá-los impiedosamente do avesso, sem nenhum temor a Deus, pois o deus darwiniano não interfere no mundo. A inteligência não pode, jamais, atrapalhar a livre descarga dos impulsos; as leis eternas da sabedoria devem ser revogadas e substituídas por leis perenemente revogáveis; prudência é coisa de medroso e afasta mil possibilidades de ser feliz; a inconstância é mais humana que a determinação (as pessoas em geral, não só “le donne”, são instáveis como pluma ao vento); o conhecimento foi quem nos expulsou do Paraíso; mais útil que a compaixão individual é a ação filantrópica do Estado e das Ongs.

 

 

13/02/2011. Ainda tinha alguma esperança da classe operária gostar, não dos últimos quartetos de Beethoven, mas pelo menos da “Valsa das flores”, de Tchaikovski. Mas agora, com o multiculturalismo triunfante, a porta da educação popular está definitivamente fechada para a arte burguesa e só se abre para o rap da periferia, o pagode da Cohab, a dança da garrafa, a mulinha pocotó e a barata da vizinha.

 

 

12/02/2011. Hoje, não há mais vira-lata. Cachorro de rua é fura-saco. Mas vai continuar sendo eternamente vira-lata, pois, na representação da realidade, importa menos a precisão do termo do que a plasticidade da imagem.

 

 

11/02/2011. Em breve, quando o tempo começar

A fugir de verdade… Sei que agora,

Por mais que fuja o tempo e passe a hora,

Ainda não sei por dentro o que é passar.

Em breve, quando o espelho responder

Com mais sinceridade… Mas aqui,

Mesmo estranhando o bairro em que nasci,

Ainda não sei por dentro o que é morrer.

Agora, quero o tempo aproveitar

Para entender melhor, já que depois,

Quando a Moira tiver guardado a foice

Manchada com meu sangue jugular...

Aqui, diante do espelho que me fixa,

Quero saber por quê, pois logo além,

Quando Zé Carlos já for Zé Ninguém

Liberto desta língua tão prolixa...

 

 

10/02/2011. Os militares de 1964 funcionavam em nome de uma grande utopia: impedir o avanço das hordas esquerdistas. Seguraram a torrente por algum tempo, mas logo o dique se rompeu e a água represada levou a barragem para longe, cheia de milicos afogados. Hoje, o rio flui tranquilo em campo aberto, alagando tudo em volta, com a sua irreprimível vocação de mar. Alguns descontentes conseguem atingir o pouco de margem que ainda resta e assistem, impotentes, ao cego fluxo que a tudo vai arrastando consigo: alta cultura, religiões fundadoras, moralidade.  

 

 

09/02/2011. Haiconto.

E a luz desligo:

— Bem vindo, ó sono,

Prévio jazigo.

 

 

08/02/2011. Ver Bush-Pai no youtube dizendo “new world order”, sem mover os beiços e com o “r” mais caipira da roça, é absolutamente imperdível, como diria o Paulo Francis. Quanto grito de guerra no passado, antes da internet, não deve ter sido tão ou mais burlesco? O nosso “independência ou morte”, como revelou recentemente um historiador, pode ter saído da boca imperial mais frouxo do que um suspiro de donzela, pois D. Pedro estava com forte diarréia naquele distante 7 de setembro de 1922. Será por isso que o Brasil nunca acreditou na própria autonomia?

 

 

07/02/2011. Como não tinha me ocorrido antes? Cristo foi professor.

 

 

06/02/2011. Segundo Gustavo Corção, é preciso consertar periodicamente os circuitos do nosso desconfiômetro.

 

 

05/02/2011. Os militares tiraram o latim da escola? Napoleão Mendes de Almeida, através do próprio Estadão, oferecia um curso de latim por correspondência baratíssimo, e me inscrevi. Ainda guardo as lições que ele me enviava semanalmente — que não eram senão os capítulos de sua famosa gramática —, junto com minha tarefa cuidadosamente corrigida.

Entre as coisas de que não me perdôo, está a de não ter levado adiante o estudo, cujo dinheiro preferi empregar no curso de clarineta e logo em seguida (depois de vergonhosamente derrotado pela palheta do sopro), no de violão clássico do mesmo professor Herquinho. Também nocauteado pelas seis cordas, que hoje só arranho, acabei no fim das contas quase sem latim, que só retomaria preguiçosamente no curso de letras; e com algumas noções de teoria musical, que me impediriam de boiar completamente na leitura de Uma nova história da música, de Carpeaux.

Uma das maiores frustrações, como leitor do Estadão, foi a de nunca ter lido, ali, nem nos cadernos diários nem no Suplemento Literário, matéria assinada por Otto Maria Carpeaux, que nessa altura já tinha desistido do ensaísmo jornalístico e só redigia verbetes para a Enciclopédia Mirador.

 

 

04/02/2011. Na minha adolescência, mais ou menos por volta de 1970, meu pai fez uma assinatura do Estadão e o então principal jornal do país começou a chegar diariamente em minha casa, situada numa cidade chamada Cu-do-Judas. Confesso que não era nada fácil viver sob a jurisdição do traidor de Cristo, sobretudo na sua parte mais torpe.

O ginásio estadual de Cu-do-Judas, em que estudava, já estava sendo vítima da reforma educacional dos militares, mediocremente pragmática. O Estadão, portanto, veio para equilibrar o orçamento espiritual da família. E passei a ter professores do tipo de Pedro Dantas (Prudente de Moraes, neto) e Jean-François Revel para assuntos políticos, Gustavo Corção para assuntos teológicos, Arnaldo Pedroso d’Horta para assuntos de arte, José da Veiga Oliveira para assuntos musicais, Napoleão Mendes de Almeida para assuntos gramaticais…

Com esse corpo docente, embora vivendo na parte mais indecente do Judas, quem precisaria de ginásio estudual?

 

 

03/02/2011.  “Revolucionários bem sucedidos conseguem apagar os antigos costumes, ridicularizar as velhas convenções e quebrar a continuidade das instituições sociais – motivo pelo qual, nos últimos tempos, eles têm descoberto a necessidade de estabelecer novos costumes, convenções e continuidade; mas este processo é lento e doloroso; e a nova ordem social que eventualmente emerge pode ser muito inferior à antiga ordem que os radicais derrubaram em seu zelo pelo Paraíso Terrestre. Os conservadores são defensores do costume, da convenção e da continuidade porque preferem o diabo conhecido ao diabo que não conhecem. As pessoas atuais são anões nos ombros de gigantes, capazes de ver mais longe do que seus ancestrais apenas por causa da grande estatura dos que nos precederam no tempo.” (Russell Kirk)

 

 

02/02/2011. Gosto dos clássicos e da literatura contemporânea que se parece com os clássicos, ou seja, não suporto vanguardismos de nenhuma espécie. Noutras palavras, sou um conservador nas artes, na filosofia, na política e na vida em geral. Um anarco-conservador, para ser mais preciso, pois acho qualquer forma externa de governo um saco, ainda que de algum modo necesssário. Só não abro mão do auto-governo, que procuro exercer com base na velha e sempre útil moral cristã; e só não compareço às igrejas católicas da minha cidade, para o meu repasto semanal do vinho e do pão de Deus, pois as missas se transformaram num horrendo lixo ideológico ou, quando não, no espetáculo mais perfeito do tédio e da indiferença.

 

 

01/02/2011. Quem vive em cidade pequena, sabe o quanto a internet fez pela distribuição mais homogênea das idéias e das informações. Até vinte anos atrás, o mundo chegava até nós pelas agências internacionais de notícias e a seleção, sempre sujeita a interferências mil, que a imprensa brasileira fazia delas. Havia também os correspondentes que os principais jornais mantinham lá fora, como Paulo Francis, ou a tradução de artigos assinados por gente como Jean-François Revel.