NOTAS PARA UM DIÁRIO - 67
17/01/2011. No lugar da opção
preferencial pelo espírito de pobreza, hoje a Igreja opta, preferencialmente,
pela pobreza de espírito.
16/01/2011. Balada do vigarista.
Nosso
vigário marxista,
Companheiro
e camarada,
É, no
fundo, um grande artista:
Faz a cruz
virar espada.
Enquanto
benze co’a destra,
Fecha o
punho da outra mão,
Pois a
História, a grande mestra,
Pode mais
que a religião.
No inferno
é sempre bem visto!
Seu templo
mudou de cara:
Tem uma
imagem de Cristo
Com boné do
Che Guevara
E outra
imagem carrancuda
De Jesus
tocando rock.
— É tudo
questão de enfoque—
Diz ele. —
Deus também muda!
Digitalizou
os sinos,
Democratizou
a fé,
Trocou os
sagrados hinos
Pela canção
do Vandré.
Nas missas
da sua igreja
Dominicana
(ou jesuíta?)
Já consagra
com cerveja
Gelada e
batata frita.
15/01/2011. Epígrafe (tirada do
romancista francês Jacques Chardonne, do qual ninguém mais quer saber, pois era
de direita) que Marques Rebelo botou no seu livro Estela me abriu a porta: “O tempo conserva, de preferência, aquilo
que é um pouco seco.” Como o Graciliano Ramos deixou escapar esta? Ficaria
perfeita na abertura do Vidas secas.
14/01/2011. Nos braços de dona Dita
(dura)
Na
briguinha do poder,
Não existe
maior perda
Do que
perder para a esquerda
Que não
aceita perder.
13/01/2011. É água que não acaba mais
no sudeste. Nesta chuvosa e sempre úmida cidade, janeiro é mês para a gente começar
a dormir logo após a passagem de ano e só acordar trinta dias depois, em
fevereiro.
Livro de
Horas para janeiro: Vidas secas, de
Graciliano Ramos.
12/01/2011. Poema de janeiro.
Chuvinha…
Parece feita
Para a alma
encaramujar-se:
Hora da
nudez perfeita,
De jogar
fora o disfarce…
Depois de
errar como lesma
Pelo chão
úmido e sujo,
Ela se
enrosca em si mesma
Como a
concha e o caramujo,
E, em si
mesma, fria e só,
Do corpo
desencorpada,
Vai
treinando para o nada
Quando o
corpo virar pó.
11/01/2011. O cristianismo começou
como desobediência civil: Cristo não pediu licença ao Estado para espalhar suas
idéias heterodoxas, as quais, se aplicadas como ele mandou, tornariam o Estado
— que, no Brasil, não passa de eficiente máquina de roubar —, uma coisa quase
obsoleta, reduzida ao mínimo. Não é o mercado, mas a caritas que poderia emagrecer a obesidade do Estado, fazendo com
consciência individual, carregada de moralidade, aquilo que a máquina estatal
só faz por obrigação política ou esperteza ideológica.
10/01/2011. Morreu o pai da
faxineira. Não vou a velórios. Acho insuportável a indiferença dos mortos.
08/01/2011. Lembrei-me dos “porteiros
fantasiados de almirantes”, de que fala Carpeaux, quando fui a um médico de
Ribeirão Preto, cujo consultório tinha uma bela coleção da revista Bravo e ficava bem pra lá do décimo
andar.
O porteiro
do prédio, um mulato de meia idade, estava rigorosamente fantasiado de
almirante, e me olhou com uma fria e britânica sobranceria. Eu me senti menor do
que uma pulga, mas era, enfim, o seu momento de vingança classista, embora eu
estivesse bem longe da classe que diretamente lhe pagava pelos serviços e pelo
uniforme.
Imagino-o,
depois do expediente, ao chegar na casinha espremida da mais distante periferia.
Já livre do uniforme carnavalesco, continuaria agindo como oficial da marinha
ou seria mais um torcedor do Corinthians reintegrado em seu eco-sistema?
Só um conto
kafkiano poderia responder.
07/01/2011. Enquanto a novela da
Globo mostra o narco-personagem fazendo uma comovente palestra, na sede dos
Narcóticos Anônimos, sobre sua odisséia no vício e depois no tratamento do
mesmo, imaginamos o invísivel vôo de um estranho pássaro cortando os céus do
sistema financeiro mundial: é o capital proveniente do tráfico de drogas, sem o
qual aquele mesmo sistema entraria em colapso.
06/01/2011. Diogo Mainardi é quase um
conservador, mas seu estilo tem alguma coisa a ver com o rock. Estilo-dinamite,
rápido e explosivo.
05/01/2011. Não, o universo não pode ser um cachorro sem dono.
03/01/2011. No meio do caminho, depois de se perder numa selva
escura, encontrou a saída com ajuda de um fantasma famoso, poeta clássico morto
há mais de dois mil anos. Viu-se então em lugar muito mais divertido, ao pé de
um inesperado abismo. Se olhava para baixo, círculos se desdobravam afunilados
e cada vez menores, quase a perder de vista — um funil desenrolando-se de si
próprio para o fundo de si mesmo, como chapéu de palhaço, cone de rodovia em
obras ou pirâmide de ponta-cabeça plantando bananeira.
À medida
que seu personnel ghost o conduzia aos vários andares subterrâneos do
cone, ele ia vendo muitas coisas ao mesmo tempo, como se o cercasse por todos
os lados uma porção de telões japoneses ou coreanos, cada um deles mostrando,
ao vivo e em cores, uma cena diferente: bandos de sem-terra destruindo
plantações; traficantes de cocaína escondendo-a em compartimentos secretos de
uma caminhonete; deputado de esquerda recebendo propina de um empresário de
direita; passeata gay em grande avenida de cidade grande; rapaz drogado matando
a família numa pequena cidade do interior, e outras coisas animadas do mesmo
gênero.
Primeira
descoberta importante: estava num lugar chamdo Inferno.
Segunda:
a língua falada nesse lugar era o português.
A cena,
porém, que mais lhe chamou a atenção, pois ocorria no ponto mais pontudo e
iluminado da pirâmide invertida, era o faraó Lula passando a faixa imperial à
“faraína” Dilma.