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NOTAS PARA UM DIÁRIO -  66

 

 

31/12/2010. Boas festas.

E o Tempo vai botar

Mais um ovo:

É o ano novo.

Que bicho vai dar?

 

 

28/12/2010. O sofrimento de Narciso.

Narciso cético perante o espelho:

— E se eu desconfiasse

Um pouco mais

Da minha própria face?

O espelho respondeu-lhe com poesia:

— Mais nítida no vidro

A tua imagem ficaria.

Narciso, autopiedoso, então gemeu:

— Como são egoístas

Todos os que não sofrem como eu!

 

 

27/12/2010. As cheias de graça.

O mistério da graça feminina

Tem pouco a ver com sexo, na mulher.

É algo mais acima, que requer

Certa presença fluida, de menina

 

Quase intangível... Quando ela se entrega,

Igual a qualquer fêmea ardendo em brasas

Para o prazer da posse e a dor da entrega,

O pássaro da graça bate as asas.

 

Depois, porém, de terminada a guerra,

Volta a mulher a fazer parte do ar,

Do ritmo oculto que sustenta a terra,

 

Da pulsação secreta que há no mar,

E o véu da graça ela outra vez descerra

Para quem sabe ouvir e sabe olhar.

 

 

17/12/2010. Lição de hematologia.

Quando o canto foi expulso

Do coração da poesia,

A palavra ficou fria

Como um cadáver sem pulso,

No seu próprio sangue imerso.

O canto é o sangue do verso.

 

 

16/12/2010. Quién habla solo….

O poeta indagou de Deus:

— O que fazeis, Senhor,

Com as cartas que vos envio?

As cartas eram os poemas

Que ele escreveu durante a vida.

Deus era o criador de tudo

E o último endereço do universo.

 

 

08/12/2010. Hoje é Dia Santo, dia da Imaculada Conceição. Nossa Senhora tem um prestígio que não se limita à religião. Conheço pessoas que já perderam todo o sentido religioso da vida e ainda se apegam a essa Mãe ausente, quase etérea, ainda que multiplicada por várias denominações e uma iconografia sem fim.

Os protestantes não gostam de Nossa Senhora, alegam que a mãe de Cristo e o mito explorado pela Igreja Católica não são a mesma coisa, mas aproveitam numa boa o feriado, apesar dos Dias Santos terem perdido toda razão comemorativa — não são mais interrupções da rotina em nome de algo sagrado — e as pessoas pararem de trabalhar sem saber por que estão paradas, se em nome desse herói da pátria ou daquele herói da fé.

O agnóstico João Ribeiro, em artigo já não me lembro de qual livro seu, chamava a atenção para o grande número de Dias Santos que havia no Brasil colonial, interrompendo a vidinha comum em nome da outra vida. E aplaudia o protestante Nassau, que tentou acabar com a farra no território sob o seu domínio. Ainda bem que o Nassau foi expulso. Já o pobre João Ribeiro não merece ficar esquecido, apesar da bobagens que disse sobre o Modernismo de 1922.

 

 

07/12/2010. Elogio da casa velha (à Marilu).

Uma casa perfeita e bem bonita

Faz lembrar os poemas parnasianos,

Dando a falsa impressão de que se habita 

Um céu platônico, um Topos Uranos.

Nessas máquinas frias de viver,

Tudo é muito certinho e contraria

A imperfeição original do ser.

As casas velhas têm mais poesia,

Sofrem a mão do tempo sem sofrer,

Por ter incorporado a impermanência,

O desgaste das coisas, o deixar de ser

(Pois ser efêmeros é a nossa essência).

Prefiro as casas rústicas, mal definidas,

Mais afinadas com os Evangelhos,

E que vão sendo lentamente concluídas

À medida que os donos vão ficando velhos...