NOTAS PARA UM DIÁRIO - 65
29/11/2010. Para René
Girard, a espécie humana não teria sobrevivido ao que chama de “rivalidade
mimética”, se Deus não tivesse sido descoberto (descoberto e não inventado,
como faz questão de frisar) a tempo de frear as paixões destrutivas, sobretudo
a vingança, desconhecida dos outros animais, e que não deixariam um só bípide
implume para contar a história. Deus preservou a espécie humana e as religiões
criaram as grandes civilizações. E ainda temos coragem de falar mal desse
pessoal?
28/11/2010. Comparado
com o que a internet, para o bem ou para o mal, está fazendo e ainda vai fazer
com as informações produzidas pela tagarela raça humana, os quinhentos anos de
história do livro — com todo o respeito que devemos ao livro — já parecem
brincadeira de criança. Mas para que serve tanta informação? Precisamos mesmo
de tanta informação? Quantos bits serão necessários para a formatação de um
sábio?
27/11/2010. Dalton Trevisan é um grande prosador (descontada, obviamente, a parte
onanística da sua obra, de eterno adolescente, faixa etária cuja sobrevivência
Carpeaux já tinha percebido muito bem na personalidade literária do escritor,
quando resenhou sua primeira coletânea de contos).
26/11/2010. Nunca entendi por que os cursos que formam físicos não têm, no
currículo, a disciplina teologia. Físicos não são os neurocientistas do sistema
nervoso central de Deus?
25/11/2010. Para um estatuto da poesia.
Está vetado ao poeta
O direito de caminhar
Em linha reta.
24/11/2010. Será
mesmo mais fácil saber o que não queremos, do que expor com clareza o que
desejamos? Eu não consigo pensar assim.
Basta usar sem medo o advérbio Não, organizar com método as recusas
absolutamente necessárias, dizendo “péra lá!” ao que deve ser rejeitado, falando
“never more!” ao que pode aviltar o espírito, para que os pés já se sintam
caminhando tranquilos na única direção possível.
23/11/2010. Os homens inventaram as palavras. As mulheres, logo em seguida, o duplo
sentido das mesmas. Só depois disso é que a linguagem ficou disponível aos
poetas.
22/11/2010. O terrorismo é uma forma de guerra que só se tornou eficiente na época
da alta tecnologia. É o Ocidente armando seus próprios inimigos — os de casa e
os de fora. Mais um capítulo da velha fábula do criador de cobras.
21/11/2010.
Todos têm o direito de ser comunistas por algum tempo. Mas só por algum tempo.
Permanecem os que sofrem de sérios defeitos de fabricação moral ou cerebral.
20/11/2010.
Dentre as mágicas da manipulação midiática, está a que acontece hoje em dia com
o pensamento conservador: embora sendo o da maioria das pessoas,
conscientemente ou não, parece a coisa mais utópica do mundo. Ainda é, mas
jamais será atingido...
19/11/2010. A
conivência de certos governos socialistas com o roubo serve para ir acostumando
o pessoal com a idéia de expropriação ou da ilegitimidade da propriedade
privada. É um bom treino diário e preparatório para melhor aceitar a mão boba
do Estado revirando nossos bolsos e bolsas.
18/11/2010. A
Irlanda anda humilhada na mídia, por deficitária na economia. Se os jornalistas
fossem menos iletrados, contrabalançariam a notícia do deficit orçamentário
mencionando o admirável superavit da literatura irlandesa, com uma reserva
literária capaz de abastecer o espírito humano por séculos e séculos. O país
que já deu Jonathan Swift, Oscar Wilde, Bernard Shaw, William B. Yeats, James
Joyce e Samuel Beckett, não tem o direito de cair junto com a Bolsa nem gemer
pela pressão dos mercados.
17/11/2010.
Na juventude, quando a máquina do corpo começa a parar de crescer, muitas
pessoas se interessam por filosofia. Por que todos querem ser filósofos, quando
descobrem o sofrimento? Mas filosofia não é um manual de instruções, como esses
que acompanham produtos e lhes garantem pleno, imediato funcionamento. Não
demora a decepção dos mais afoitos, aliás a maioria. E, com a mesma presteza
com que treparam no barco, já o abandonam pela latinha de cerveja mais próxima.
16/11/2010. Antes, saíam os leitores
À procura de livros. Hoje,
Desesperados escritores
Diante da massa que lhes foge,
Vivem atrás de quem os leia,
Fantasiados de sereia.
15/11/2010. Meu
primeiro contato, pra valer, com a poesia de Bruno Tolentino foi por ocasião do
lançamento de As horas de Katharina, que comprei e li de um salto. Antes
disso, só conhecia dele um belo soneto de juventude, transcrito num ensaio do
Merquior, de 1974, “sou o que desce a ti, veia por veia…”
Foi por essa época, em 1994, que os membros
do CAL (Círculo dos Amigos da Literatura, clubinho informal assim batizado nos
anos sessenta por um dos seus mais eminentes sócios, Otto Maria Carpeaux) foram
tomados de surpresa por um barulho diferente, na pasmaceira cultural daquela
década: um poeta “metafísico” convidava os concretistas para a briga.
Acompanhei com interesse a polêmica de
Tolentino com Augusto de Campos, que apelou e chamou o adversário de
“salta-pocinhas” internacional, jeito delicado de chamar um homem de delicado.
Na época, ainda não havia vigilantes da integridade gay caçando borboletas e
homófobos. A verdade é que os pedreiros concretistas foram reduzidos à sua
verdadeira dimensão, que era o de amassar cimento com pedra britada e levantar
muros, verdadeiras muralhas da China, entre a atividade poética e o espírito
humano.
Daí para a frente, Bruno Tolentino virou
sinônimo de poesia séria no Brasil e, junto com Olavo de Carvalho, ajudou a
moldar uma geração literária, que anda hoje entre os trinta e os cinquenta
anos, responsável por recolocar o bonde da nossa literatura nos trilhos da boa
tradição ocidental.
14/11/2010. Segundo Finkielkraut, do qual sempre se aproveita alguma coisa, os
europeus se identificam mais naturalmente com a Europa que com o resto do
mundo; com sua pátria mais que com a Europa; e com sua família mais que com sua
pátria. Mas, com o empenho da Unesco, seus reflexos seriam facilmente
recondicionados e eles poderiam vencer, para o bem da aldeia global, suas
torpes preferências naturais. Não deixa de ser curioso o fato da obra de Pascal
Bernardin, Maquiavel pedagogo, que documenta fartamente a ingerência
daquela organização internacional nas escolas, estar fora de qualquer alcance
do leitor curioso: edição esgotada e fora dos sebos franceses.
13/11/2010. É preferível capitalismo a economia estatizada, mas não há nada mais
nocivo ao indivíduo e à tribo do que capitalismo com poder judiciário frouxo.
Empresários espertinhos, se não encontram pela frente a porta da lei,
podem ser até mais donosos do que déspotas não esclarecidos: em vez de vítimas
de um só ditador, seríamos de milhares deles. Bom exemplo disso é o que
acontece num distante país selvagem, banhado pelo oceano Atlântico, situado
entre a linha do Equador e o Trópico de Capricórnio. Não sei como as pessoas
aguentam viver lá. Dizem que a única lei que ainda funciona é a da gravidade.
12/11/2010. O penúltimo filme de Woody Allen, Tudo pode dar certo (Whatever
Works), não podia ser mais abertamente engajado: o diretor “explode” uma
família conservadora do interior, filiada à Associação Nacional dos Rifles da
América, e manda cada um dos estilhaços viver um destino alegremente liberal. A
esposa descobre a veia artística, vira fotógrafa de arte e bígama (“para
qualquer dos lados que se virasse na cama, havia um homem”), enquanto o pai
alto e musculoso descobre que no fundo era gay. O talento do cineasta aparece
aqui e ali, sobretudo nas piadas, pois ninguém pode negar que o baixinho é
talentoso, mas a ira anti-republicana deixa o filme pesadão e quase
completamente idiota.
09/11/2010. Decreto que o Lula esqueceu de assinar, e que coroaria admiravelmente
sua obra-prima política, seria a obrigatoriedade de constar na capa dos livros,
a exemplo do cigarro, o seguinte aviso de amigo: Ministério da Saúde, da
Cultura e da Educação advertem: ler faz mal para a vista.
08/11/2010. Alguns escritores mortos estão vivos e e quase todos os escritores vivos
estão mortos. Também na literatura, do passado ou do presente, só uma pequena
parte vale a pena.
05/11/2010. O mesmo direito que cada qual tem de fazer o que quiser do seu sexo, tem
os que consideram o homossexualismo um pecado ou uma doença. Liberdade de ação
de um lado, liberdade de expressão do outro. Só não dá para perdoar aqueles
viadinhos que tentam usurpar a inimitável graça feminina. É postiço e por isso
ridículo.
02/11/2010. Foi abrir a página do Pravda, e o antivírus abriu junto, me
avisando com doce voz feminina:
— Tem software mal intencionado querendo
entrar em seu computador. Pode causar danos à máquina ou roubar informações...
Só pode ser coisa daquele Putinho.
01/11/2010. Primeiro dia da Era Dilma. Estava preocupado com o PNDH, Plano Nacional
de Direitos Humanos do PT, base da ditadura esquerdista que o partido leninista
quer nos enfiar goela abaixo, quando encontrei na internet — esse
suspeitíssimo meio de circulação livre das idéias — um artigo publicado
pelo americano Gary D. Barnett, no site The Future of Freedon Foundation,
em fevereiro de 2008, sobre projeto de lei do Partido Democrata que tramitava
no Congresso americano, bem no poente do governo Bush, sob a muito justa
intenção de previnir atos terroristas.
Segundo a lei, que felizmente não foi aprovada,
seria considerado crime de “radicalização violenta” adotar ou promover um
sistema de crenças extremistas, com a finalidade de facilitar violência do tipo
ideológico, visando promover mudanças políticas, religiosas ou sociais.
A prevenção, segundo o autor, podia provocar um mal
ainda maior: os riscos da “polícia ideológica”. E isso se deveria sobretudo à
linguagem intencionalmente vaga e ambígua do texto legal, deixando vasto
território para futuras manobras e manipulações jurídicas. O cidadão viveria de
cu apertado e sua liberdade fugiria para o distante Reino das Cucuias. Como
aquele “sistema extremista de crenças” mencionado pela lei pode muito bem ser o
nosso, caso esteja no poder alguém que pense diferente de nós — meu pensamento
conservador, para um petista revolucionário, estaria no outro extremo de suas
idéias... —, nossa submissão ao Estado tenderia a aumentar e Leviatã sairia
obviamente fortalecido.
As consequências para o debate político seria uma
indesejável amenidade, contrária ao espírito combativo dos americanos.
Provavelmente surgiriam grupos de vigilância, policiais ou privados, para
monitorar conversas individuais e coletivas. Falar e escrever contra o governo
poderia tornar-se uma atividade perigosa, e a internet, meio livre de
circulação de idéias, seria provavelmente a primeira a ser controlada.
Para o liberal Gary D. Barnett, um dos
princípios de qualquer sociedade totalitária é a de que os cidadãos devem
consentir no controle absoluto do governo. Para os amigos do Leviatã, supremo e
soberano não deve ser o indivíduo, mas o Estado, como aconteceu nos países
governados por Hitler, Stalin, Mao e outros, que prenderam ou mataram seus
oponentes.
Se fosse aprovada a lei, Gary D. Barnett
reconhece que seu próprio artigo poderia ser enquadrado. Será que, daqui a
alguns anos, vou ser obrigado a retirar este comentário da Gaveta
transparente?
Já vou começar a pensar no futuro nome para
esta homepage. A gaveta fosca? A gaveta das sete chaves?