NOTAS PARA UM DIÁRIO - 64
28/10/2010. Em Divertir-se até morrer, Neil Postman aposta que o futuro
totalitarismo não será doloroso, mas prazeroso. A humanidade aprenderá a amar
as coisas que irão destruí-la.
Obras como Estruturas da mente: a teoria
das inteligências múltiplas, de Howard Gardner, que ofereceu uma base
neuropsicológica ao multiculturalismo e ajudou a justificar a tal “progressão
automática” das escolas paulistas, são importantes contribuições do presente
para aquele diabólico plano da nova esquerda.
27/10/2010. O amigo Elpídio Fonseca generosamente me enviou, num dia desses, alguns
trechos de filósofos romenos. Desentranhei de um parágrafo de Petre Tutea, à
maneira de Manuel Bandeira, este decassílabo perfeito sobre Cristo:
"É a eternidade que pontua a
história".
Bonita imagem, verdade indiscutível.
26/10/2010. Proliferam, na universidade, trabalhos feministas que procuram
retroativamente vingar-se do patriarcado machista. Antes, porém, que isso virasse
moda no Brasil, tive uma colega folclórica, no departamento de literatura, que
defendeu no doutorado a tese segundo a qual Bentinho era veado não assumido e
seu principal objeto de desejo era o amigo Escobar. A capitosa Capitu era só o
terceiro vértice do triângulo — a pedra no meio do caminho.
Toda tentativa de transplantar o conceito
maniqueu-marxista de luta de classes para o universo da espécie humana, em que
o gênero feminino estaria para o proletariado oprimido assim como o masculino
para a burguesia opressora, esquece um dado fundamentalíssimo. Estou falando da
condição humana, que inclui, no caso da parceria homem-mulher, aquela
heraclitiana unidade na diferença que nos torna miseráveis indistintamente,
tenhamos nascido com pênis ou vaginas, e existencialmente condenados a virar
poeira, fumaça e nada, como no verso de Gôngora.
Depois do exercício de localizar diferenças e
especificidades, autorizado pela dimensão histórica do ser humano, é
terminantemente proibido esquecer os elementos comuns aos dois gêneros. Nada do
que é humano deveria ser estranho aos fazedores de teses, como disse Terêncio
há mais de dois mil anos, compreendido nesse humano, obviamente, tanto a esfera
feminina como a masculina. Apesar das diferenças genitais, compartilhamos
durante muito tempo os mesmos deuses e demônios, as mesmas tendas no deserto e
ainda muitas quitinetes pelo futuro, e estaremos um dia no mesmo barco
conduzido pelo infatigável Caronte.
Vou fazer o possível para não filosofar, pois
não é minha praia, mas tudo o que é humano se manifesta sempre a partir de duas
perspectivas: particular e histórica, universal e trans-histórica. As
personagens femininas da literatura têm, portanto, um lado cronologicamente
mensurável, ligado à época a que cada uma delas pertence e limitado pelo seu
contorno social; e um outro lado incomensurável, além das épocas particulares e
das camisas-de-força sociais.
Da forma como eu entendo, há um feminino
contingente, condicionado pela geografia, pela etnia, pela religião, pelos costumes,
pela educação, pela tecnologia, pela opinião pública etc. — mais ou menos
sensível, mais ou menos delicado, mais ou menos afetivo, mais ou menos
intuitivo, mais ou menos fraco fisicamente, mais ou menos indefeso, mais ou
menos belo, mais ou menos devotado ao lar e à família —, e um eterno feminino,
enquanto gênero da espécie humana, com características biológicas e forma
corporal próprias, naturalmente dotado da faculdade de concepção e reprodução,
submetida a partir da puberdade à ovulação e aos ciclos menstruais,
características que, ausentes do gênero masculino, vão predispor as mulheres a
um comportamento mais adequado ao seu script natural.
Se a natureza feminina condiciona parte do
comportamento da mulher, do mesmo modo modo como a masculina faz com o homem,
no plano espiritual os dois gêneros podem se libertar da contingência natural e
fazer meia-volta-volver no sentido de uma unidade anterior e mais profunda que
a da espécie puramente animal: a unidade de um ente provisoriamente assexuado, divinamente
impelido pela necessidade de compreender o real.
18/10/2010. Ser conservador, torcer para o time das coisas eternas, é uma espécie de
ioga do espírito: tranquiliza-o e ao mesmo tempo enrijece a sua musculatura. É
o melhor antídoto para suportar, sem desespero, mais quatro anos de PT. “Apesar
de você, amanhã há de ser outro dia”, como dizia o samba canhoto dos anos 70 e
que agora, endireitado, serve para os novos subversivos, aqueles que não
aceitam o “sistema”, o status quo esquerdista.
Estive pensando na opção preferencial de
Marina-morena pelo alto do muro. Se ela se definisse pelo Serra, este podia
ganhar a eleição. Quieta como está, seu silêncio é incontestavelmente vermelho:
serve mais à causa petista. E seu coração não fica tão apertado, como no dia em
que decidiu abandonar os “companheiros” pelo meio ambiente.
17/10/2010. Foi no início dos anos 80, com Franco Montoro (1983-1987), estréia da
oposição no estado de São Paulo, que a esquerda começou a se apossar da
educação, aproveitando o método behaviorista implantado pelos militares e
utilizando-o para fins politicamente mais corretos (v.ensaio de Osman Lins, em Problemas
inculturais brasileiros, sobre o livro didático dos anos setenta).
Em essência, nada mudava: os alunos
continuavam a ser tratados como ratos de laboratório, com a diferença de, a
partir de então, serem treinados a decorar outras palavras e outras idéias,
mais afinadas com a mentalidade da UNICAMP, que dava o tom pedagógico ao
governo Montoro, através do secretário de educação Paulo Renato Souza,
economista de formação.
Um estudo comparativo dos livros didáticos
anteriores e posteriores à primeira gestão peemedebista, em São Paulo, vai
revelar o verdadeiro divisor de águas que foi esse governo, quando a esquerda,
com um jejum de poder de quase vinte anos, finalmente ia passar a dar as cartas
na educação e na cultural em geral.
A mudança da era Montoro começou em grande
estilo populista, com ampla e arrastada consulta aos professores da rede
pública e das três universidades estaduais, para elaboração da reforma
curricular. Em língua portuguesa, a ênfase recaía no que os documentos oficiais
chamavam de “dimensão social da linguagem”, respeito à linguagem do aluno,
eliminação de preconceitos (raça, sexo, cultural, sócio-econômico); a gramática
tradicional, reduzida ao mínimo, devia ceder espaço à interpretação mecânica de
textos, obediente aos livros didáticos; e os textos deviam ser aqueles que, de
preferência, representassem a realidade que os novos ideólogos gostariam de mostrar
ao aluno, expressos em linguagem o mais próximo possível deste, que seria, a
partir de então, doutrinado no novo evangelho.
É evidente que essa realidade dos ideólogos
não era a realidade objetiva, mas construída ou em construção. A linguagem, de
veículo de dados objetivos, devia passar a ferramenta de elaboração de novas
realidades, uma função que a poesia sempre teve, mas não necessariamente o
pensamento científico, mesmo o das humanidades.
Hoje, está muito claro para mim o elo que
houve entre as duas reformas: a primeira implantou o método do condicionamento
skinneriano e ampliou horizontalmente a rede de ensino, com dinheiro do United
States Agency for International Development (USAID) e ajuda técnica da
Universidade da Califórnia; a segunda, com prestimoso auxílio da bibliografia
marxista, entrou com as “melhores idéias”. Era, enfim, Gramsci aplicado,
deitando-se confortavelmente na cama anteriormente preparada pelos militares.
12/10/2010. Um inimigo natural das hostes malignas é o “traíra”. Sempre tem havido
desertores do Mal, e não porque se transformem subitamente em gente boa, como o
Inominado do romance de Manzoni (Os noivos, um dos maiores romances de
todos os tempos, só se encontra nos sebos do País do Futebol).
Os desertores da KGB, como Anatoly Golitsyn,
foram fundamentais para o lado de cá do mundo conhecer o funcionamento da
terrível máquina soviética, sobretudo as técnicas de aliciamento utilizadas nas
democracias ocidentais. Sem o cantor Roberto Jefferson, ninguém teria sabido da
alegre dança dos dólares que animava os porões do PT.
Marina Morena da Silva, por mais que tenha
deixado o PT com o coração apertado, oficialmente é uma desertora, ainda que
coce bastante a suspeita de que esteja funcionando como uma espécie de plano B
do lulismo, como acredita Olavo de Carvalho. Se for verdade, o plano deu
errado: sua performance muito deveu ao eleitorado evangélico, não só os
evangélicos de “esquerda”, como ela, que é da Assembléia de Deus (cujo “papa”,
dizem, é figura de proa na maçonaria brasileira), e é uma igreja bem menos
fundamentalista que a Congregação Cristã e nem tão moderninha como a Universal
do Reino Macedônico. Foram os “crentes” de todos os naipes que se refugiaram em
sua chapa, ao descobrirem que Sinhá Dilma & Companheiros eram abortistas.
Mais uma lição para o PT aprender, se quiser
cumprir com mais eficiência a agenda gramsciana de ocupação discreta e
hegemônica do país: a maioria dos brasileiros é conservadora e há coisas, como
aborto ou casamento gay, cuja penetração no eleitorado deve ser feita com mais
delizadeza e mais lubrificante.
Isso, a esquerda tucana sabe fazer muito
melhor. Exemplo é o domínio de suas tropas brancas, quase invisíveis, sobre a
Secretaria de Educação paulista, que faz alunos e professores engolirem como
chocolate suíço a mais desprezível doutrinação revolucionária.
08/10/2010. Diálogo da grandezas do Brasil.
Anjo:
— Dizei, Senhor, por que tanta
Fartura num só lugar?
Qualquer coisa que se planta,
Tiro e queda, vai brotar.
Terra de todas as cores,
Tem a mais rica floresta
Com passarinhos e flores
Permanentemente em festa.
É a mais bela entre as primeiras,
Primeiríssima do mundo!
Lindas praias, cachoeiras,
Rios compridos, céu profundo,
E a natureza que canta,
Que canta junto co’ mar!
Dizei, Senhor, por que tanta
Beleza num só lugar?
Deus:
— Contigo, isso tudo eu louvo.
Mas, meu caro, deixa estar
Pra ver a merda de povo
Que no Brasil vai morar.
07/10/2010. O principal defeito das obras que atacam o catolicismo é que, depois da
enumeração dos seus pontos vulneráveis, não mencionam o que fez de bom. O mesmo
vale para boa parte dos que o defendem: não dão o braço a torcer para os erros
que ele evidentemente cometeu durante os últimos dois mil anos, o que seria
excelente atitude cristã. O charme da Igreja está justamente na sua profunda
humanidade — humana, demasiado humana instituição, como diria o mais
anti-cristão dos filosofos —, que compreende o vício e o pecado dos padres, mas
também as realizações mais permanentes da nossa civilização.
06/10/2010. Letra
para cantar com a melodia do Caymmi.
Marina, morena, Marina,
Você se pintou
De verde, Marina da Silva,
Mas não me enganou.
Eu já repeti pros amigos,
Só falta falar pra você:
No fundo, Marina morena,
Ainda és do PT.
05/10/2010. Nove e pouco da manhã. Ouvia por acaso a rádio Eldorado, retransmitida
pela operadora de tv. Era um programa dito cultural. Como a locutora, de voz
doce e agradável, recomendasse um certo site para quem quisesse ler ou ouvir
coisas interessantes, anotei para depois conferir.
Conferi há pouco. É um site do PT disfarçado
de “midia independente”, que jura não ter nenhuma inclinação partidária, na
mesma página em que faz campanha anti-Serra e alerta contra a “ditadura
midiática além do voto”.
— Cazzo! — disse aos meus botões. — Como isso
é possível numa rádio que anuncia, a cada hora, estar a mais de quatrocentos
dias sob a censura do governo petista?
A locutora leu o que um redator, certamente
militante do PT, escreveu. Para a conquista dos 4.865.828 de eleitores que
votaram em Santa Marina da Silva, os estrategistas e militantes do PT já estão
na rua. É a campanha da Dilma em plena ação, feita por militantes vitalícios,
que só pensam naquilo: vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e
cinco dias por ano militando, a vida inteira só pensando e fazendo PT.
Eis como funciona o tal Midia Independente:
depois de tomar uma frase atribuída a Serra — “A grande problemática das grandes
metrópolis, como São Paulo, é a migração nordestina” —, que qualquer
sociólogo assinaria, seja de esquerda ou direita, o Midia Independente
transforma-a, com truquinhos da “arte da desinformação”, em “Serra culpa
nordestinos pelos problemas de São Paulo”. É a pedra filosofal da alquimia
petista, sabemos todos, sempre transformando uma coisa naquilo que a coisa não
é.
Desenterrem os velhos Mesquitas! Suas múmias
saberão administrar melhor o Grupo Estado do que os diretores atuais.
04/10/2010. Caro Elpídio, penso que, por mais que um professor possa fazer por seus
alunos, como indicar bibliografia ou esclarecer conceitos, há certas coisas que
só dependem deles. Há alguns com verdadeira dificuldade de compreensão, mas os
piores são aqueles que, treinados maniqueisticamente na escola básica e média
pra só enxergar na realidade opressores e oprimidos, recusam com veemência e
até insolência qualquer idéia que não se encaixe no "seu" esquema de
compreensão do mundo (sabemos quem são os verdadeiros autores do
"esquema" e o criminoso trabalho de lavagem mental que é feito, nas
escolas, com crianças e adolescentes).
Votei no Serra, votei no Alckmin, me parecem
pessoas de bem, mas será possível que não sabem o que se passa lá na Secretaria
de Educação? Dois anos atrás, as escolas da capital e do interior receberam um
pacote com trinta filmes, sob a desculpa de iniciar a molecada nos clássicos do
cinema. No pacote quase não havia clássicos, mas obras engajadas no esquerdismo
mais sacana, como Diários de motocicleta. O Che como modelo moral! Não sei se vai adiantar,
mas temos de avisar o sr. Alckmin.
03/10/2010. Em vez de política vou falar de primavera, que, entre outras coisas, é
sinônimo de cigarra. A uma primeira impressão, o canto das cigarras é uma coisa
só, mas se você ficar bem atento vai distinguir mais timbres, muitos timbres.
É, na verdade, uma orquestração bastante complexa, por trás da aparência
minimalista da obra. Vale a pena parar e ouvir — é de graça. Agora, por
exemplo, uma cigarra parece ter recebido o espírito de uma galinha e se põe a
cacarejar.
02/10/2010. A
jovem aluna, rostinho sem nenhum sinal de sandice, contou que ia votar na Dilma.
— Afinal, o Lula fez um bom governo. Quem ganha
pouco é que pode dizer...
Pensei nos doze anos em que ela passou na escola
pública, pensei na sua família. Será que em nenhum dos dois lugares lhe
ensinaram que, além do critério econômico, há também, e sobretudo, o moral? É
mais uma vida inteira desperdiçada, se não descer do céu uma luz que ilumine o
outro lado de sua ignorância (para imitar o que disse o velho Marques Rebelo,
no final do romance A estrela sobe).
No caso presente, quanto mais sobe a estrela do PT,
mais as almas caem e se quebram no chão (roubo, aqui, o belo título do romance
de Karleno Bocarro, que a editora É acaba de publicar: As almas que
se quebram no chão, ambientado na Alemanha Oriental à época da queda e da
quebra do muro de Berlim, testemunhado por um estudante brasileiro que perde a
fé no marxismo e volta ao mundo real).
A vida é assim mesmo. Com os destroços do muro que
lá caía, o PT ia erguendo o nosso próprio muro da vergonha, separando os
brasileiros da verdadeira realidade — um mundo que, além do poder de compra,
também depende dos valores morais.