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NOTAS PARA UM DIÁRIO -  63

 

 

26/09/2010. Sei que não há cidade brasileira que se compare a Veneza. Juro que gostaria de morar lá, como o Diogo Mainardi. Só não gostaria de sair fugido do Brasil para Veneza, como aconteceu com Diogo Mainardi — e só por ter cumprido sua obrigação de jornalista, denunciando as virtudes e boas ações do governo petista. Mas há males que, pelo menos para nós, telespectadores, vêm para o bem: é de Veneza que o jornalista agora interfere nas conversas do Manhattan connection, que ganhou um charme especial com aquelas gôndolas indo e vindo por trás do “dono da anta” (Lula é minha anta é o nome do último livro de Mainardi).

 

 

25/09/2010. Sempre tive a impressão de que o José Serra entrou no jogo eleitoral já sabendo que ia perder. E foi até o fim só para cumprir tabela.

 

 

24/09/2010. Numa noite dessas, rolando ao acaso o controle remoto pelos canais, parei na TV Cultura. Passava o filme A vida dos outros, sobre os últimos dias da Alemanha comunista. O filme mostrava alguns aspectos da ditadura, sobretudo a corrupção dos burocratas e a censura artística e intelectual. Sem entender direito o que estava acontecendo, fui no primeiro intervalo dar uma espiada na internet e então comecei a entender tudo, tudinho: o tal do Markum não era mais o capo da emissora paulista. O próprio visual dos intervalos tinha mudado, a dinâmica era outra, parecia uma tevê de verdade. Será que dura um ano?

 

 

23/09/2010. Comecei a ler Pedra de luz, do poeta paulista Rodrigo Petrônio. Já destacaria o belo poema "Sobre a folha de água corrente", de versos bíblicos que transitam do acessório ao essencial, das coisas mais presentes e terríveis às "formas insensíveis" que "o tato humano apalpa em vão". Me parece o único roteiro digno da poesia, ao contrário da tendência dominante, pelo que conheço da atual poesia paulista, de jamais abandonar o contingente (tendência ou impotência?).

  

 

22/09/2010. Confia no gosto, leitor. Você continua bebendo água, se percebe que está salobra?

 

 

21/09/2010. Agenda para qualquer depois-de-amanhã.

Tirar o sapato sob a mesa da sala de aula

Sem que isso absolutamente configure prática revolucionária.

Tomar sorvete na praça do Dr. Jorge

Quando ainda era uma pracinha tranquila e silenciosa de outro planeta.

Trocar dois dedos de prosa com seu Tião

Quando seu Tião ainda estava vivo em todos os tímpanos do bairro.

Ouvir o gordo balconista, no ex-Bar América,

Defender com veemência pastoral o candidato Paulo Salim Maluf.

— Saúde! — gritar ao vizinho que espirrou há muitos anos.

E, enquanto tento descobrir Órion no céu estrelado do quintal,

Pensar rapidamente em dona Morte,

Mas bem rápido

Para que não Ela não pense que estou me apaixonando.

 

 

20/09/2010. John Taylor Gatto, no livro Armas para instrução em massa, diz que o objetivo da escola americana é transformar seres humanos em recursos humanos. É lamentável, obviamente. Mas se a escola brasileira conseguisse pelo menos isso, já estaríamos muito bem servidos; por enquanto, ela só consegue transformar projetos de seres humanos em macaquinhos barulhentos, desmentindo a universalidade do evolucionismo darwiniano.

 

 

19/09/2010. O dia mais cinzento desta vida.

Não sou do Partido Verde

Nem de partido nenhum

— Nem verde nem azul nem amarelo ou branco —

Porém o dia mais cinzento desta vida

Foi quando na avenida Comandante Salgado

Não vi mais as velhas sibipirunas do canteiro central.

Lembrei-me do meu querido Marques Rebelo

Que atribuía sua miocardite ao general Mendes de Morais

Quando cortou a amendoeira

Da curva que tinha esse nome.

Sentiu uma dor de ir para a cama...

Também senti um troço esquisito

Quando as dezenas de sibipirunas

Tão verdes tão frondosas tão amigas

Foram abatidas pela cruel moto-serra do senhor prefeito

Em defesa do calçamento da avenida Comandante Salgado.

Mas em vez de me deitar corri à mesa do escritório

Onde possuído da mais absoluta ira cívica

Escrevi estas vinte e duas linhas

No Ano do Cão de 1994.

Não tenho pressa de vingança.

Nem sei se quero me vingar.

Sei que Jesus Cristo, São Francisco e Nossa Senhora

Devem estar sofrendo comigo neste momento.

Estou em boa companhia.

 

 

17/09/2010. Para Charlotte Iserbyt, no seu fundamental O emburrecimento proposital da América, a solução para a educação pública é sua gestão descentralizada. O financiamento das escolas deve ser local, a cargo de cada comunidade, se os cidadãos desejam manter instituições verdadeiramente acadêmicas. “Quem paga o flautista, tem o direito de dar o tom”, segundo um velho ditado. Seria fácil contratar os melhores professores, aqueles que realmente entendem da sua matéria, e que estariam livres dos danosos cursos de doutrinação esquerdista a que estão obrigados pelo governo estadual. Imagine-se, aqui em São Paulo, quanta economia não traria o fechamento da Secretaria de Educação, com a devolução de todos aqueles doutores gramscianos às suas universidades de origem! Educação custa pouco, garante a pedagoga americana: lavagem cerebral e serviço social é que custam muito caro.

 

 

14/09/2010. Governantes invisíveis da humanidade: assim se consideram todos os iluminados que, descrentes da justiça humana, se reúnem em sociedades secretas para melhor tramar, na sombra, o destino que mais convém ao mundo. Só uma profunda convicção na perfectibilidade da espécie e na própria perfeição faz com que alguém se autonomeie anjo-da-guarda dessa pobre e vulgar humanidade das ruas. Possuem pelo menos dois atributos demoníacos: o orgulho e o gosto da sombra.

 

 

13/09/2010. Segundo Charlotte Iserbyt, a pedagogia moderna, baseada no naturalismo rousseauniano (educação permissiva em que professor deve evitar disciplina rigorosa e lições cansativas) e na psicologia comportamentalista (que concebe o ser humano como animal condicionável), foi feita sob encomenda para “escolas mais orientadas para a socialização da criança que para o desenvolvimento do intelecto, e para o surgimento de uma sociedade cada vez mais dedicada à satisfação dos apetites sensoriais, em prejuizo da ação responsável”.

É assim que a maioria dos alunos chega à universidade: bem socializada e com uma irresistível vontade de namorar. Basta um pequeno empurrão acadêmico, com suas idéias libertárias, para o pessoal mergulhar de vez no buraco da incivilidade. Assim será o mundo de logo mais: por fora, a bela viola da civilização; por dentro, o pão bolorento da barbárie.

 

 

10/09/2010. Recebi e-mail de Elpídio Fonseca, tradutor do filósofo Eric Voegelin e do excelente Diário da felicidade, de N. Steinhardt, comentando meu romance Consagro-vos a minha língua. Com permissão do autor, transcrevo abaixo o generoso comentário:

Prezado Professor José Carlos Zamboni,

Acabo de ler o romance do Sr., Consagro-vos a minha língua, e desejo expressar-lhe o meu encantamento com o livro, começando pelas orelhas escritas pelo protagonista do livro, e pelo prefácio da Virgem, tão revelador da misericórdia dela por nós, pecadores, até o final provisório – espero- do desencanto de Hildo.

Outro aspecto que gostaria de ressaltar é a linguagem fluente do livro, adequada sempre a todas as situações, das mais altas às mais baixas, criando personagens muito convincentes, a começar do pobre Hildo Rielli, que, em troca de uma consagração literária que não ocorreu, deixou de lado a mãe de sua filha e a esta própria, chegando ao fundo do poço, ao render-se a todas as chantagens de Maria de Lourdes.

Outra coisa de que gostei são as mudanças que o Sr. faz da primeira para a terceira pessoa, ora como narrador onisciente, ora como o próprio Hildo.

Não bastasse isso, e o livro é permeado de citações de leitura que aparecem de maneira muito natural nas falas.

O modelo circular do livro também prende muito a atenção. Gostei particularmente da inspiração que Nossa Senhora deu à fonoaudióloga, para que Hildo escrevesse aquilo que o atormentava, uma espécie de cura pela palavra, como prega a logoterapia de Viktor Frankl.

O senhor conseguiu retratar muito bem a fantasia/desejo de Maria Rita de ser seviciada por Hildo, trajado de militar, muito própria do revolucionário, como analisado por Doderer, citado por Voegelin, em Hitler e os Alemães:

“Doderer ofereceu uma característica do revolucionário em Os demônios. Um revolucionário é “alguém que quer mudar a situação geral por causa da impossibilidade ou insustentabilidade de sua própria posição”, ou melhor, por causa dos “fundamentos da vida em geral”. Entretanto, o fato é que uma pessoa que foi incapaz de suportar a si mesma torna-se um revolucionário; então, são os outros que têm de suportá-la. A tarefa abandonada e altamente concreta de sua própria vida (...) tem, é claro, de ser posta em esquecimento, e junto com ela, a capacidade de relembrar em geral. Disso se segue diretamente que a revolução realiza uma falsificação sistemática da História. Daqui, Doderer continua a análise da agressão e da força.

Se a segunda realidade se torna dominante numa sociedade, na verdade ainda há formalmente uma comunidade feita de membros dessa sociedade. Mas tal sociedade perpetra a mais alta traição da humanidade. E nesse tipo de sociedade, quem quer que não esteja alienado da primeira realidade pode apenas cometer alta traição.”

Morri de rir com a cena de Cláudia, amante de Fernanda, ligando para Hildo e esse descrevendo o que gostaria de ter acontecido, ao que ela nada pôde responder senão desligando o aparelho telefônico.

Parabéns pela obra-prima, e espero poder ler, editados pela É, os demais livros que compõem O homem de duas palavras.

Um abraço do admirador

Elpídio

 

 

01/09/2010. “Designado para exarar parecer” (como ainda dizem no cândido dialeto acadêmico) sobre uma proposta de pesquisa de “história oral”, que fotografaria e entrevistaria catadores de lixo reciclável de Assis-SP, não puder aceitar. Não é coisa inútil registrar o que pessoas interessantes têm a dizer, mas acredito que os catadores de lixo merecem muito mais a nossa “caritas” do que a vã curiosidade acadêmica.

Fui apresentado à terceira virtude teologal ainda moleque, e se até hoje não a pratico como devia, não é por culpa do meu pai. Bastava ser pobre para alguém já despertar nele algum interesse — ele que também era pobre e foi por muitos anos secretário da Conferência de São Vicente de Paula em nosso bairro. Certas famílias da cidade, por terem muito pouco para viver — geralmente de pais mortos, doentes ou fujões —, acabavam sendo adotadas pela Conferência. Mais exatamente, cada membro da confraria encarregava-se de uma família necessitada.

A Sociedade de São Vicente de Paula era dividida por setores. Cada bairro tinha a sua “conferência”, com um presidente, secretário, tesoureiro e mais quatro ou cinco membros. Havia a Conferência Santa Cruz, Conferência Bom Jesus, Conferência Santo Antônio. Essa divisão, importante para facilitar o trabalho assistencial, e que valia para o ano todo, sofria uma breve interrupção em dezembro, quando se dava a união dos confrades de todas as conferências, por volta do Natal, para a arrecadação de mantimentos para os assistidos, tanto os que moravam nas casas da Sociedade, como os velhinhos do Asilo que ela mantinha ao lado do Cemitério dos Pobres. Era o único momento em que a discreta filantropia do grupo saía ao ar livre, escancarava-se para o público. Nunca vi maior ausência de autopropaganda. Dizia o santo Vicente que o segredo é a alma de uma comunidade; quando um fato se torna público, entra na jurisdição do diabo.

A palavra era mesmo esta, “pobre”, ao contrário da eufemística “excluído” que se usa hoje. Meu pai também tinha direito a uma família de pobres, a quem visitava regularmente, ao menos uma vez por semana. Era bem recebido nas casas, como se fosse mesmo um doutor (doutor ele era, mas dos automóveis da sua oficina). Entrava, sentava-se. Depois perguntava como andavam as coisas, anotava num caderno as necessidades da viúva ou “largada”, prometendo levar tudo ao conhecimento da diretoria. Sempre me carregava junto, certamente para já ir me preparando para o exercício da nobre virtude, que Belfegor, o demônio da preguiça, sempre me impediu de desempenhar como devia. É um dos demônios mais competentes esse tal de Belfegor.

Também uma vez por semana, comunicava tudo nas reuniões que era feitas na sacristia da velha igreja de Santa Cruz, no Castelo, não longe de nossa casa, para as quais também sempre me arrastava. Ali, na Conferência de Santa Cruz, depois de lida a ata da reunião anterior, os demais confrades do bairro expunham o resultado de suas últimas visitas, como iam vivendo seus pobres, as doenças, os problemas, as necessidades mais urgentes — se precisavam de médicos, remédios, alimentos. Meu pai, que durante um bom tempo foi secretário, anotava tudo no seu caderno para a redação da ata seguinte, que muitas vezes eu próprio passava a limpo no grande livro de capa dura e preta, apesar da caligrafia do meu pai, que só tinha o “quarto ano do grupo”, ser muito melhor que a minha.