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NOTAS PARA UM DIÁRIO -  62

 

 

31/08/2010. Em meados de junho, participei de um seminário na Unesp sobre literatura contemporânea pós anos 80. Falei do papel do Paulo Francis no período, e não me lembro mais se no mesmo dia, ou no seguinte, um colega da Unesp-Araraquara, Antonio Donizeti Pires, falou durante uma hora sobre orfismo na poesia de um jovem poeta paulista, Rodrigo Petrônio. Foi quando tomei conhecimento da sua obra. E, confesso, bastante surpreso por ver a poesia metafísica de volta a um seminário acadêmico, numa universidade que obedece como nenhuma outra aquilo que manda o Antonio Candido, um dos principais, senão o principal, responsável por reduzir o cânone brasileiro contemporâneo a modernismo de 22, romance regionalista do nordeste e experiências roseanas com a linguagem.

 

 

30/08/2010. Virou moda ensinar literatura africana nos cursos de letras. Santo Agostinho? Tertuliano?

 

 

29/08/2010. Olavo de Carvalho, repetidas vezes, tem falado de uma característica do Lula, em particular, e das esquerdas em geral: a autopiedade. Tenho um excelente exemplo bem à mão. Conta o jornalista Clovis Rossi que o então candidato a presidente, perguntado pela Folha de São Paulo, em 2002, por que não se preocupara em estudar mais, depois de já estabelecido na vida como dirigente sindical e depois como líder do PT, o Companheiro Dodói limitou-se a dizer que se sentia desrespeitado e não responderia.

 

 

27/08/2010. Autobiografia de um círculo.

Nasci pra morte quando, resoluto,

Neguei Deus com ideias de brinquedo,
Colhendo no deserto o amargo fruto
Plantado contra a vida muito cedo.

Troquei o eterno pelo vão minuto,
O azul da altura pelo chão do medo.

E veio o amor, e era um diamante bruto;
E veio o ciúme como um vinho azedo.

Veio a poesia, e com palavras luto
Nesse ringue sem fim do português:
O poema sinto e penso, vejo e escuto.

Disso é que um dia vou morrer, talvez:
Buscando nas palavras o Absoluto

Qual um mugido em busca de sua rês.

 

 

26/08/2010. O século XX, na literatura e nas artes brasileiras, presenciou dois grandes surtos vanguardistas, um no início, a partir da famosa semana modernista de 1922, e outro em meados da década de 50, com a concretismo. O primeiro significou uma entrada um tanto atrasada no espetáculo da dita “modernidade”; o segundo, antecipou em alguns anos a grande reviravolta contracultural dos anos 60.

Não deixa de ser curioso o fato do período mais rico da cultura e das artes brasileiras se situar exatamente entre esses dois polos de radicalização cultural e artística: os anos 30 e 40.

A poesia, que era bastante extrovertida na época  anterior — de apologia nacionalista, crítica social ou descaradamente piadista — em Trinta se introverteu e passou a enxergar novamente a condição humana. Foi quando poetas que já vinham das décadas anteriores, como Manuel Bandeira, Jorge de Lima ou Ribeiro Couto, depuraram a sua linguagem lírica de todo o sociologismo e o folclorismo que as atingiram nos anos Vinte. E, sobretudo, foi quando chegam à maturidade nomes como Murilo Mendes, Vinícius de Morais, Cecília Meirelles, Augusto Schmidt, Emílio Moura, Drummond, Cassiano Ricardo e o próprio Mário Quintana que, embora só conhecido nacionalmente nos anos 50, produziu parte significativa de sua obra poética entre os anos 30 e 40 (algo parecido ocorreu com o grande poeta carioca Dante Milano, que já vinha de antes mas só estreou em 40, e com o mineiro Abgar Renault que, só publicando em livro depois de velho suas “poesias reunidas”, já as fazia circular entre amigos e periódicos desde a década de 30).  

Se foi a década de Trinta que começou a escrever a melhor poesia brasileira do século XX, o mesmo pode e deve ser dito do romance, bastando mencionar a ficção regionalista do Nordeste e a ficção urbano-psicológica do Sul e Sudeste.

Esta última pode ser dividida em duas grandes famílias: a machadiana, com Ciro dos Anjos, Marques Rebelo, João Alphonsus (que morreu cedo) e o Érico Veríssimo anterior a O tempo e o vento; e a dostoievskiana, com Lúcio Cardoso, Cornélio Pena e Octavio de Faria, da qual sairia, no começo de 40, a prosa existencialista de Clarice Lispector. O própio Pedro Nava, que só passou a escrever sua prosa memorialística depois dos anos 70, foi um intelectual da mesma geração desses nomes mencionados; e se, cronologicamente, vem bem depois, estetica e espiritualmente pertence à Geração de Trinta, conseguindo sintetizar as duas tendências acima, como seus contemporâneos José Geraldo Vieira e Nelson Rodrigues (que em 30 já praticava ativamente o jornalismo).

Mesmo a ficção nordestina, rotulada apressadamente de regionalista, apresenta algumas curiosas variadades, seja entre os seus representantes (adeptos do realismo socialista, como Armando Fontes ou Jorge Amado; investigadores da alma, como Graciliano Ramos ou José Lins do Rego; ou alternado entre as duas coisas, como Rachel de Queirós); no interior da obra de alguns deles, como Rachel e Graciliano.

Convém não esquecer que o livro de novelas Sagarana, do sudestino Guimarães Rosa, foi escrito em Trinta, e tem muitos pontos de contato com o filão regionalista do Nordeste, assim como com a espiritualidade “católica” de alguns de seus colegas mineiros ou cariocas.

Em síntese, temos no período uma tendência psicólogica ou outra claramente sociológica, de mapeamento literário das várias regiões brasileiras, e que, a partir dos anos 40, atinge o extremo Norte, com o romance de Dalcídio Jurandir, o extremo Sul, com o novo Érico Veríssimo, o Centro-Oeste, como Bernardo Élis e Guimaraes Rosa, e, um pouco depois, o interior do Sudeste com os romances de costumes políticos de Mário Palmério.

Será também essa dupla tendência, ora para o estudo da alma, ora para a investigação da realidade exterior, responsável por uma ensaística bastante rica no período. Na sociologia e nos estudos históricos, se Oliveira Viana já tinha escrito o principal de sua obra em 30, é no início dessa década que surgem Gilberto Freyre e, num plano menor, Sérgio Buarque de Holanda (cuja principal obra continuo acreditando ser Raízes do Brasil e não Chico Buarque).

O ensaio “espiritualista” foi praticado por Alceu de Amoroso Lima e logo depois, da maneira mais brilhante, pelo conservador Gustavo Corção, que publicaria nos anos 50 um dos principais romances de sua geração e um dos maiores de toda a literatura brasileira: o machadiano Lições de abismo. Também pertencem a essa geração de 30 os filósofos Miguel Reale e Mário Ferreira dos Santos, de vasta e importante obra; e, um pouco mais novo que os dois, mas já estreando em livro no começo dos anos 40, o heideggeriano Vicente Ferreira da Silva, morto prematuramente mas já reconhecido no país e no exterior.

 

 

25/08/2010. Perguntei à jovem se a gratidão não era um valor moral eterno, desejável para todo o sempre.

— Não. Não tenho obrigação nenhuma de ser grata, a menos que escolha esse sentimento. Sou eu quem decide se devo ser grata ou não. Há pessoas que escolhem ser gratas e outras ingratas.

— Você não se sente naturalmente inclinada a ser grata a alguém que verdadeiramente te beneficiou?

Olhei bem nos olhos da moça, enquanto ela negava outra vez. Seu olhar me parecia normal, a voz era até suave, seria, daqui a alguns anos, uma jovem e terna mãe. E, no entanto, morava em seu espírito aquela idéia absurda, terrível, virtualmente perigosa, da liberdade individual a qualquer preço.

É isto a juventude: um momento da vida em que, nos melhores casos, a mente passa por todas as vitrinas do espírito e experimenta todas as idéias expostas. O futuro do jovem vai depender das idéias que levar para casa em sua sacola. E pensar que muitos não terão liberdade para escolher, pois sua sacolinha já vem sendo sortida de bobagens, desde a infância, pela televisão e a escola.

 

 

23/08/2010. Para o Manual dos novos subversivos.

Se você disser, a jovens universitários com inclinações esquerdistas, que sua utopia é idiota, terá menos sucesso do que se conseguir mostrar como certas idéias conservadoras são bem mais sensatas, como a certeza da imperfeição humana, a necessidade de contenção das paixões ou a existência de valores morais permanentes. É a tática da negação de um erro pela discreta afirmação da verdade oposta.

 

 

22/08/2010. Fantasias.

Dizia o sábio Agostinho:

“Somos uns vasos de fezes”,

Mas que pensam, tantas vezes,

Que são cálices de vinho...

 

 

21/08/2010. Que importância teria, se os revisionistas do Holocausto conseguissem baixar de milhões para milhares o número de judeus mortos nos campos de concentração? Bastaria uma só pessoa tratada daquele jeito pelo Estado — conjunto das instituições destinadas justamente a defender o indivíduo —, para reduzir a quase nada a nossa fé na humanidade.

Por outro lado, é suficiente o exemplo moral do psiquiatra austrojudeu Viktor Frankl — que esteve em Auschwitz e Dachau, perdeu esposa, irmãos e pais, mas sobreviveu e, sobretudo, perdoou os seus algozes — para fazer brotar de novo aquela fé ameaçada.

 

 

20/08/2010. “A casa que o comunismo está construindo para a humanidade não é um palácio, mas uma prisão, pois não tem janelas.” (Christopher Dawson, em Dinâmicas da história do mundo, que a editora É acabou de lançar.) 

 

 

19/08/2010. Olho com piedade para o lagarto cinzento, velho residente no muro do meu quintal. É, seguramente, o ítem mais feio no portfólio do Criador. E pensar que, no passado do mundo, já foi maior que o caminhão do vizinho. Ao contrário de alguns macacos, que perderam o rabo e aprenderam a tabuada, o infeliz foi encolhendo, encolhendo — o máximo a que podem chegar, atualmente, é crocodilo ou jacaré.

(Enredo para um filme de terror: a engenharia genética da China produzindo dinossauros para o negócio de sapatos, bolsas e cintos).

Já sei de onde vem aquele aspecto triste do lagarto do meu muro: é pura saudade do Mesozoico.

 

 

08/08/2010. Os exumadores do Qorpo. Exemplo de entusiasmo apriorístico por um autor — o contrário do “não li e não gostei” oswaldiano —, foi o que aconteceu com o crítico Prudente de Moraes, neto, nome importante do não tão importante modernismo paulista, em relação ao comediógrafo Qorpo Santo, tido como precursor do teatro de vanguarda.

Prudente certa vez revelou, em artigo para O Estado de São Paulo (de 03 de janeiro de 1969), que o escritor gaúcho lhe tinha sido, desde cedo, um nome bastante familiar. Descendente de gaúchos pelo lado materno, o neto do nosso “presidente Prudente” já na infância ouvia o bisavô pampeano falar com frequência de um poeta maluco, a quem conhecera pessoalmente:

 

(...) reportava alguns feitos, gestos e ditos, no mesmo espírito zombeteiro e ridicularizante que tinha sido, à época das doideiras do poeta, a reação unânime dos seus contemporâneos. Assim Qorpo Santo, algumas décadas depois da morte, ainda era, mesmo à distância, apenas o grotesco e o tresloucado, o clown que apanha, cai e se arrebenta, provocando gargalhadas em que não é difícil identificar a contribuição do sadismo coletivo.

 

Nada foi mais século XX do que isso: as vanguardas buscarem nos loucos e nas crianças os modelos da criação artística. Em plena militância modernista, no início dos anos vinte, pareceu a Prudente que as doideiras que o homem escrevia, embora só conhecidas por ouvir dizer, se encaixariam perfeitamente no ambiente estético do movimento vanguardista que ajudava a construir. Foi tomado por “premente necessidade” de pesquisar e conhecer os textos publicados, na esperança de lhes encontar “algo mais”:

 

Alguma coisa, uma espécie de mistério e misterioso pressentimento parecia indicar que deveria haver substância de outra natureza, de envolta naquela propalada maluquice (...) a vaga expectativa de que se viesse a encontrar, um dia, sob as manifestações de loucura de Qorpo Santo, a súbita revelação de algum precioso veio de poesia autêntica.

 

A pesquisa, porém, não teve sucesso, e o modernismo perdeu a oportunidade de antecipar-se, em quatro ou cinco décadas, à descoberta de Qorpo Santo como precursor da mais ardente modernidade.

É lugar-comum em certos ambientes acadêmicos dizer-se que a infra-estrutura marxista ou inconsciente freudiano se valeriam do aparato mental dos escritores, sobretudo dos mais intuitivos, para exprimir realidades mais profundas: justamente por não funcionarem normalmente (e aqui está o elo que os vincula aos loucos), estariam menos controlados pela mentalidade burguesa e portanto mais aptos a servir de ferramenta expressiva. Para Marx, só haveria no fundo um escritor, o Sr. Infra-Estrutura, assim como para Freud o Sr. Id. O crítico acadêmico pode escolher, de acordo com suas inclinações. Um escritor, mesmo não tematizando diretamente certa configuração social, poderia, caso tenha boa “antena”, de preferência da marca Pound, exprimi-la em seus princípios fugitivamente estruturadores. É uma maneira de admitir a realidade pela porta dos fundos do conhecimento, e o escritor como uma espécie de serviçal das ciências humanas.

Foi o que fizeram os exumadores de Qorpo Santo, autor de textos notoriamente mal escritos porém milagrosamente “videntes”... É certo que a publicação do autor gaúcho, nos anos sessenta, acrescentou algo à nossa pobre literatura teatral, sobretudo a oitocentista. Há passagens bastante divertidas em suas esquetes, algumas vezes com saborosa mistura de linguagem solene e vulgar, como a do rei que volta da batalha para trocar a roupa toda ensanguentada, e depois retorna novo em folha; ou família que, com a ajuda do criado, se vinga do patriarca arrancando as partes de uma cópia do seu corpo.

O leitor do século XX ou XXI, antes de dar rédea solta ao impulso genealógico e tentar ver em Qorpo Santo um genial precursor da modernidade, deve no entanto considerar a possibilidade de suas extragavâncias estilísticas serem produto da doença mental de que sofria, e que não se perderam, entre outras prováveis experiências do tipo, pelo fato do autor as ter podido editar.

Onde termina o elemento patológico e começa o estético em Qorpo Santo? Quando ele ainda vivia, não era levado a sério. Para o leitor da Porto Alegre oitocentista, a literatura que fazia e publicava por conta própria, numa espécie de revista que batizou de Ensiqlopèdia, era tolerada como excentricidade de louco manso, enquanto para os intelectuais da província e os médicos que o interditaram não passaria de documento psiquiátrico. De qualquer modo, o que não se admitia era que aquela materialização literária das suas obsessões pudesse ter valor artístico.

Na avaliação do comediógrafo, estou mais inclinado a concordar com o julgamento dos seus contemporâneos do que com os leitores da minha época. Lendo as páginas da sua “ensiclopèdia”, escritas para a leitura imediata e jornalística, publicada pelo próprio autor, nota-se como Qorpo Santo nada tinha, do ponto de vista moral, com o libertarismo surrealista ou o nihilismo destrutivo dos quais seus exumadores pretendem fazê-lo antecipador. Sua moral ainda era a burguesa. O final de peças como As relações naturais ou Mateus e Mateusa ilustra-o bem. Peças? Para definir melhor o gênero que praticou o autor, seria preferível falar em esquete, peça curta geralmente humorística.

É necessário considerar a obra de QS em sua relação com o teatro do período e com a doença mental do autor. Esta segunda perspectiva é fundamental para evitar a alucinação crítica — como enxergar no maluco de Porto Alegre o precursor do surrealismo ou do teatro do absurdo. Depois dos delírios interpretativos dos últimos cinquenta anos, é preciso voltar aos textos de Qorpo Santo e enfrentá-lo com as únicas armas que não nos acertarão pela culatra: a perspectiva da tradição literária ocidental. Se ainda se praticasse, na universidade, a análise estilística, seria fácil mostrar como a escrita de Qorpo Santo é frouxa. Ao lê-lo com um mínimo de expectativa estética, jamais o botaríamos ao lado dos nossos melhores autores do período: Gonçalves Dias, José de Alencar ou Machado de Assis.