NOTAS PARA UM DIÁRIO
- 59
20/06/2010. Por mais que tenha tentado, ó
andorinha, não consegui passar a vida à toa.
18/06/2010. Que fazer com coisas tão distantes –
de um lado a concepção agostiniana da depravação da natureza humana e de outro
a ideia de Rousseau de que somos naturalmente bons?
A estupidez da segunda dispensa
qualquer comentário, enquanto o pessimismo cristão parece bem mais perto da
verdade. Nada de mais sábio foi criado, no mundo dos mitos, do que a história
do pecado original: não é preciso ser frequentador habitual de missas e outros
cultos para nela reconhecer a mais perfeita intuição da moralidade humana.
Todos os bebês estão sujeitos a
herdar o que existe de pior na sua ascendência; quando não, nascerão de
qualquer maneira, e até nos melhores casos, sujeitos à prisão do espaço e do
tempo, limitados pela contingência da matéria enquanto viverem, sem falar da
agressividade natural que compartilharão com as outras espécies animais.
Por essas e por outras, não é
difícil concluir que a visão cristã (o homem como vaso de fezes) é muito mais
benéfica à condução dos negócios humanos, sobretudo a educação de crianças, do
que as bobagens rousseaunianas, que só podem satisfazer aos que gostam de se
divertir com fantasias de Hollywood.
15/06/2010.
Milan
Kundera, num bom ensaio sobre o romance ocidental, menciona um neologismo de
Rabelais, agelaste, que vem do grego e significa aquele que não ri, que
não tem senso de humor. O que mais espanta nos revolucionários terroristas do
filme Bom dia, noite, de Marco Bellocchio, é exatamente isso: a sua
total e permanente falta de humor. São terrivelmente sérios, do começo ao final
do filme, aspecto que o cineasta faz questão de sublinhar sobretudo nos closes
– gélidos enquadramentos de rostos sem a menor presença de espírito.
13/06/2010.
Bom
filme é Bom dia, noite, de Marco Bellocchio. E é inevitável a conclusão
de que não pode haver diferença de substância, mas só de método, entre os
extremistas de esquerda que sequestravam e matavam os Aldo Moro do mundo, e os
esquerdistas de “mãos limpas” que seguem as regras do jogo da política
partidária. No fundo, concordam com algo básico: este mundo é injusto e é
preciso substituí-lo por outro que, por si só, justifica qualquer pacto
diabólico, seja com o diabo sanguinário do terror ou o diabinho malandro que
favorece alianças temporárias com inimigos. No “museu de sociologia retrospectiva”
(a expressão é de Franklin de Oliveira) que é a América Latina, as duas
modalidades de marxismo, aparentemente distantes no tempo, coexistem quase lado
a lado no espaço: por exemplo, as FARC colombiana e o petismo que veste Armani.
Olham-se com desprezo no banquete da política, mas por baixo da mesa trocam
carícias obscenas com os pés.
12/06/2010.
Folheei
um desses “cadernos do aluno e do professor”, que o governador Serra impingiu a
todas as escolas públicas de São Paulo. Em todos as disciplinas, e para todos
os assuntos, só uma verdade conta, e é a que aparece nos cadernos. Em vez de
treinar a mente das crianças e adolescentes pelo método da contraposição,
optou-se pelo da imposição. Quando, a propósito de uma tema polêmico, aparece
uma concepção discordante, ela já vem desfigurada para favorecer a assimilação
do conceito oficial, “chapa branca”. Tudo isso está perfeitamente de acordo com
o dogma marxista de “ideologia”, segundo o qual a maneira como um povo produz e
trabalha vai determinar suas crenças religiosas, filosóficas, políticas, morais
e estéticas. O pensamento da direita é fruto de uma organização produtiva e
laboral injusta, baseada numa estrutura social inaceitável que se mantém na
base da dominação e da opressão. Por que mostrar aos alunos um pensamento que é
falso por definição? Em vez disso, os “cadernos do aluno e do professor” já vão
direto ao ponto: sem perder tempo com interpretações da realidade, apontam
rapidamente quais são as ideias verdadeiras e as condutas corretas que podem
mudar o mundo.
08/06/2010.
Discute-se,
hoje, se é melhor para a universidade e para a sociedade haver cotas para
negros ou cotas para alunos de escolas públicas, quando a verdadeira questão é
outra, constantemente camuflada por todos nós: por que a academia decidiu
transformar-se numa fábrica de especialistas sem nenhum compromisso com o mundo
do espírito?
07/06/2010.
O
professor David Harvey é desses marxistas seduzidos pelo capitalismo, que, para
ele, “é uma força constantemente revolucionária da história mundial, uma força
que reformula de maneira perpétua o mundo, criando configurações novas e, com
frequência, sobremodo inesperadas.” Uma revolução, ele se esqueceu de dizer,
mais ou menos natural, que simplesmente vai ocorrendo, sem a pretensão de
transformar este mundo num paraíso, ao contrário das revoluções marxistas,
minuciosamente planejadas e visando mudar o mundo de maneira radical. Só mesmo
o Diabo para soprar uma heresia dessas no ouvido esquerdo dos homens — o mais
imperdoável, o mais mortal dos pecados: fazê-los acreditar que é possível
transformar em realidade as fantasias da razão.
06/06/2010. Os economistas também
usam linguagem figurada, mas em geral preferem buscar seus conteúdos metafóricos
em faixas mais abstratas do conhecimento. Ponto de inflexão,
expressão técnica da geometria (“ponto de uma curva no qual a concavidade se
inverte”), pode acabar significando, na boca de um jornalista da área
econômica,momento de mudança. E então a economia, já difícil pelo
jargão, torna-se mais complicada ainda por essa incapacidade de conversão de
conceitos técnicos em imagens mais generosas, como brilhantemente fez, por
exemplo, Ortega y Gasset na filosofia.
05/06/2010. O avô, no quadro da
parede, parecia suspenso pelo bigode, tamanha era a imponência do piloso traço
horizontal, já embranquecido pela velhice, mas ainda vaidosamente agudo e
recurvo nas pontas.
04/06/2010. Não é que o homem moderno
não precise mais da arte para satisfazer suas necessidades espirituais, como
queria Hegel, mas precisará de outras artes, mais afinadas com a sensibilidade
contemporânea. A proliferação de vídeos-locadoras — em vez de bibliotecas —
pelos bairros das cidades, além dos downloads de filmes pela internet, é prova
de que a arte continua necessária na era das massas, como foi necessária nas
sociedades tribais, no classicismo grego e romano, na civilização cristã. Em
vez da morte das artes tradicionais, é possível hegelianamente falar da sua
superação dialética no cinema, que incorporou a pintura, a escultura, o teatro,
o romance, a poesia e a música, embora isso não seja garantia nenhuma de
qualidade. Aliás, que cineasta dispõe da liberdade de criação praticamente
ilimitada do romancista, como certa vez disse o Paulo Francis?
03/06/2010. Jonas e a
baleia.