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NOTAS PARA UM DIÁRIO -  59

 

 

28/06/2010. Das inconveniências da liberdade.

Falando em ser e não-ser,

O que mais medo me dá

Não é que eu deva morrer,

Mas que eu possa me matar...

 

 

23/06/2010. Magister Gavião numa cerca de estrada.

Deglutidor de trinos e urutus,

Lecionas metafísica, ó gavião:

Essa lição de capturar a luz

Mais límpida com tenebrosa mão.

Um dia, vais rasgar o azul do teto,

Céu de setembro que te esconde o Não.

O Nada! O Nada! Sumirás completo

Mas não cairás, gavião, morto no chão.

 

 

20/06/2010. Por mais que tenha tentado, ó andorinha, não consegui passar a vida à toa.

 

 

18/06/2010. Que fazer com coisas tão distantes – de um lado a concepção agostiniana da depravação da natureza humana e de outro a ideia de Rousseau de que somos naturalmente bons?

A estupidez da segunda dispensa qualquer comentário, enquanto o pessimismo cristão parece bem mais perto da verdade. Nada de mais sábio foi criado, no mundo dos mitos, do que a história do pecado original: não é preciso ser frequentador habitual de missas e outros cultos para nela reconhecer a mais perfeita intuição da moralidade humana.

Todos os bebês estão sujeitos a herdar o que existe de pior na sua ascendência; quando não, nascerão de qualquer maneira, e até nos melhores casos, sujeitos à prisão do espaço e do tempo, limitados pela contingência da matéria enquanto viverem, sem falar da agressividade natural que compartilharão com as outras espécies animais.

Por essas e por outras, não é difícil concluir que a visão cristã (o homem como vaso de fezes) é muito mais benéfica à condução dos negócios humanos, sobretudo a educação de crianças, do que as bobagens rousseaunianas, que só podem satisfazer aos que gostam de se divertir com fantasias de Hollywood.

 

 

18/06/2010. Don Miguel.

Pensador de carne e osso

Foi Unamuno: um Miguel

De espírito à flor da piel

E alma no fundo do poço.

Homem simples de Bilbao,

Foi mais um basco insubmisso

Que não trocava o quintal

Nem as pescas de caniço

Pelos brilhos da mentira

Madrilenha, noche oscura

Que o punham em santa ira

(O outro lado da ternura).

Contra os homens de papel,

Do blablablá e do bulício,

Brandia a flor do conceito

Que, nele, vinha do peito.

Meio crente, meio incréu,

Pregava o cristiano ofício

Do amor – Quijote Miguel

Dos gregos, reitor de Espanha,

Reino da Ibéria Unamuna,

Unamúnica, onde ganha

A poesia – eterna luna.

 

 

15/06/2010. Milan Kundera, num bom ensaio sobre o romance ocidental, menciona um neologismo de Rabelais, agelaste, que vem do grego e significa aquele que não ri, que não tem senso de humor. O que mais espanta nos revolucionários terroristas do filme Bom dia, noite, de Marco Bellocchio, é exatamente isso: a sua total e permanente falta de humor. São terrivelmente sérios, do começo ao final do filme, aspecto que o cineasta faz questão de sublinhar sobretudo nos closes – gélidos enquadramentos de rostos sem a menor presença de espírito.

 

 

13/06/2010. Bom filme é Bom dia, noite, de Marco Bellocchio. E é inevitável a conclusão de que não pode haver diferença de substância, mas só de método, entre os extremistas de esquerda que sequestravam e matavam os Aldo Moro do mundo, e os esquerdistas de “mãos limpas” que seguem as regras do jogo da política partidária. No fundo, concordam com algo básico: este mundo é injusto e é preciso substituí-lo por outro que, por si só, justifica qualquer pacto diabólico, seja com o diabo sanguinário do terror ou o diabinho malandro que favorece alianças temporárias com inimigos. No “museu de sociologia retrospectiva” (a expressão é de Franklin de Oliveira) que é a América Latina, as duas modalidades de marxismo, aparentemente distantes no tempo, coexistem quase lado a lado no espaço: por exemplo, as FARC colombiana e o petismo que veste Armani. Olham-se com desprezo no banquete da política, mas por baixo da mesa trocam carícias obscenas com os pés.

 

 

12/06/2010. Folheei um desses “cadernos do aluno e do professor”, que o governador Serra impingiu a todas as escolas públicas de São Paulo. Em todos as disciplinas, e para todos os assuntos, só uma verdade conta, e é a que aparece nos cadernos. Em vez de treinar a mente das crianças e adolescentes pelo método da contraposição, optou-se pelo da imposição. Quando, a propósito de uma tema polêmico, aparece uma concepção discordante, ela já vem desfigurada para favorecer a assimilação do conceito oficial, “chapa branca”. Tudo isso está perfeitamente de acordo com o dogma marxista de “ideologia”, segundo o qual a maneira como um povo produz e trabalha vai determinar suas crenças religiosas, filosóficas, políticas, morais e estéticas. O pensamento da direita é fruto de uma organização produtiva e laboral injusta, baseada numa estrutura social inaceitável que se mantém na base da dominação e da opressão. Por que mostrar aos alunos um pensamento que é falso por definição? Em vez disso, os “cadernos do aluno e do professor” já vão direto ao ponto: sem perder tempo com interpretações da realidade, apontam rapidamente quais são as ideias verdadeiras e as condutas corretas que podem mudar o mundo.

 

 

08/06/2010. Discute-se, hoje, se é melhor para a universidade e para a sociedade haver cotas para negros ou cotas para alunos de escolas públicas, quando a verdadeira questão é outra, constantemente camuflada por todos nós: por que a academia decidiu transformar-se numa fábrica de especialistas sem nenhum compromisso com o mundo do espírito?

 

 

07/06/2010. O professor David Harvey é desses marxistas seduzidos pelo capitalismo, que, para ele, “é uma força constantemente revolucionária da história mundial, uma força que reformula de maneira perpétua o mundo, criando configurações novas e, com frequência, sobremodo inesperadas.” Uma revolução, ele se esqueceu de dizer, mais ou menos natural, que simplesmente vai ocorrendo, sem a pretensão de transformar este mundo num paraíso, ao contrário das revoluções marxistas, minuciosamente planejadas e visando mudar o mundo de maneira radical. Só mesmo o Diabo para soprar uma heresia dessas no ouvido esquerdo dos homens — o mais imperdoável, o mais mortal dos pecados: fazê-los acreditar que é possível transformar em realidade as fantasias da razão.

 

 

06/06/2010. Os economistas também usam linguagem figurada, mas em geral preferem buscar seus conteúdos metafóricos em faixas mais abstratas do conhecimento. Ponto de inflexão, expressão técnica da geometria (“ponto de uma curva no qual a concavidade se inverte”), pode acabar significando, na boca de um jornalista da área econômica,momento de mudança. E então a economia, já difícil pelo jargão, torna-se mais complicada ainda por essa incapacidade de conversão de conceitos técnicos em imagens mais generosas, como brilhantemente fez, por exemplo, Ortega y Gasset na filosofia.

 

 

05/06/2010. O avô, no quadro da parede, parecia suspenso pelo bigode, tamanha era a imponência do piloso traço horizontal, já embranquecido pela velhice, mas ainda vaidosamente agudo e recurvo nas pontas.

 

 

04/06/2010. Não é que o homem moderno não precise mais da arte para satisfazer suas necessidades espirituais, como queria Hegel, mas precisará de outras artes, mais afinadas com a sensibilidade contemporânea. A proliferação de vídeos-locadoras — em vez de bibliotecas — pelos bairros das cidades, além dos downloads de filmes pela internet, é prova de que a arte continua necessária na era das massas, como foi necessária nas sociedades tribais, no classicismo grego e romano, na civilização cristã. Em vez da morte das artes tradicionais, é possível hegelianamente falar da sua superação dialética no cinema, que incorporou a pintura, a escultura, o teatro, o romance, a poesia e a música, embora isso não seja garantia nenhuma de qualidade. Aliás, que cineasta dispõe da liberdade de criação praticamente ilimitada do romancista, como certa vez disse o Paulo Francis?

 

 

03/06/2010. Jonas e a baleia.

Um dia, num pretérito quase pré-histórico,

Me ensinaram que Deus era o Pai;

E que, diferente do meu prosaico pai com minúscula,

Morava muito muito longe,

Num lugar a que chamavam de céu,

Ao mesmo tempo criador generoso de tudo

E consumidor voraz de todas as espécies vivas.

Alguns séculos mais tarde,

Quando comecei a crescer com minhas barbas,

Decidi expulsá-lo energicamente das minhas cogitações!

Foi uma tentativa mais vã do que a suave brisa da tarde.

Eis que, alguns milênios depois,

Acordei de repente bem dentro da idéia de Deus,

Sufocado como Jonas na barriga de Moby Dick.