NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 6
1 de fevereiro de
2006. Um dia
desses, na TV, Juca Chaves disse que não é de esquerda nem de direita, mas é
contra o centro. Juca é um risonho pessimista, bem diferente do “não sou contra
nem a favor, muito pelo contrário”, filosofia oficial do tucanismo sobre muros.
O humor tem um jeito de dizer as coisas mais pesadas com leveza aidética.
Empresto a
fôrma do bolo e mudo os ingredientes: não gosto de rico nem de pobre, mas sou
contra a classe média.
Misantropia
não é sociofobia, nem sociopatia. É quase obrigação moral nos tempos que correm
— e como correm!
O sujeito pode
ser misantropo sem ser, obrigatoriamente, misógino.
2 de fevereiro de
2006. Os homens
olham furiosamente as bundas que passam. Estavam à toa na vida e foram ver a
bunda passar. A ex-principal instituição do mundo, a família, está organizada em
torno de uma bunda. A base é a bunda. Tudo começou com uma bunda. No princípio
era a bunda, diria o verdadeiro Gênesis. Não é uma base muito sólida.
Felizmente, é mais tenra que sólida. E a família ruiu
fragorosamente.
Quem passou
foi a família, e a bunda ficou. Quando a bunda passa, é para ficar de uma vez
por todas.
3 de fevereiro de
2006. As mulheres
conseguem ser, hoje em dia, ao mesmo tempo, mãe e moça. Prefiro a minha época,
quando a gente era só filho da mãe. # Meu neto, com dois ínfimos meses de vida,
mirou bem a mãe e fuzilou a mijadinha certeira: uma parábola cristalina na
penumbra do quarto.
4 de fevereiro de
2006. De repente,
sobre os trilhos enferrujados da pequena cidade, passa pesadamente o trem de
carga. Ninguém liga para ele. É o último animal pré-histórico.
Mas pesado
mesmo é o Eu. Como um saco de feijão na cabeça.
Nem botar o Eu
no andor, como herói vitalista, nem como aranha morta varrê-lo para baixo do
tapete. Só trazê-lo bem humilhado sob a coleira — pitibul rangendo os
punhais.
5 de fevereiro de
2006. Poeminha
otimista, provavelmente plagiado: quando tudo anoitece, é preciso aprender com
os poetas, as crianças e os loucos a arte de amanhecer.
6 de fevereiro de
2006. Conversinha
de hospital:
— O parto foi
normal?
— Nenhum parto
é normal. Todo parto é anormal, absurdamente anormal.
7 de fevereiro de
2006. O médico,
silencioso e branco como um túmulo recém caiado, compara atentamente as
radiografias, a velha e a nova. E diz, soturnamente:
— Não é
preciso preocupar-se. Pelo menos até a próxima chapa.
8 de fevereiro de
2006. De que
adianta aposentar-se? A gente arruma depois outra profissão, a de visitar
médicos, ajudando a movimentar o mercado dos planos de saúde, dos remédios, dos
exames. Vive-se pelo mercado, morre-se de mercado e pelo mercado. Que saudade da
época adolescente em que se agüentava o capitalismo — que no Brasil nem existia
— com o sonho do comunismo! Um dia a gente cresce, livra-se das ilusões mais
tolas e começa a andar descalço de pé no chão, sobre tudo o que o chão tem:
pedra rombuda, caco de vidro, serpente na moita, etc.
9 de fevereiro de
2006. Ambientalismo
é humanismo? Não acredito. Defender bicho e natureza é uma maneira discreta de
condenar o homem. Ambientalismo é eufemismo de pessimista
sadio.
10 de fevereiro de
2006. “Há tempo pra
tudo”, diz dona Bíblia. E tem mesmo. Houve época em que eu sonhava com carta de
motorista para impressionar uma certa moça. Hoje sonho em vender o carro e jogar
a carteira de habilitação no lixo do banheiro.
Fico mais
animado quando imagino que, com o dinheiro, poderia ir a uma aldeia toscana
beber vinho do lugar — moderadamente, como aconselham os rótulos daqui — e ouvir
a última língua de Dante, antes que ela se transforme definitivamente em língua
de Eros Ramazotti e Laura Pausini.
11 de fevereiro de
2006. Meio
dormindo, caio de pára-quedas na igreja da Vila Operária, em Assis, para o
casamento do filho. O paletó de lã é quente demais para as cinco da tarde e a
conversa mole do padre. Deus é pai solteiro, viúvo, separado? A banda com
violões sapeca uma música bem pop. Diabo. Sou de outra
época.
Passei o tempo
todo pensando um verso que não saiu.
12 de fevereiro de
2006. Um dia desses
à noite, antes de vir para Assis, consegui a proeza: olhei meu quarteirão de
infância como se fosse a primeira vez. Olhei com o ponto de vista gélido da
estrela mais distante, a estrela alta e fria do poeta tísico. As casas pareciam
casas de cidade estranha, dessas que a gente atravessa de ônibus na madrugada,
moído de sono e cansaço. Pela primeira vez na vida, botei meu quarteirão de
infância no lugar que ele bem merece: no passado.
13 de fevereiro de
2006. Árabes são
brigões de boteco. Encardem por qualquer tolice. Agora são as caricaturas do
Maomé. Se os católicos fossem morrer e matar pelas irreverências dos próprios
católicos contra seus deuses e santos, não restaria um único cristão vivo no
planeta para aumentar o dízimo. Aprendi com meu avô ítalo-brasileiro, católico
com restrições, algumas bem cabeludas. Meu avô não morreu disso. Nem disso
pretendo eu morrer. Até já fiz minha obrigação, transmitindo a meus filhos as
irreverências contra Deus e a Virgem Santíssima aprendidas com o velho, mantendo
no fundo um respeito irracional por essas criaturas que, mesmo não existindo,
dão sentido à grande família cósmica.
16 de fevereiro de 2006.
Era o Nelson
Cavaquinho escrito e escarrado. Sentou-se no ônibus da Garcia e começou a contar
o assalto:
— Na hora,
fiquei branco. Depois voltei a ficar preto.
Tirou a
calculadora do bolso da calça:
— Nem com isso
aqui dá pra calcular o medo que eu senti.
17 de fevereiro de
2006. Folheio
livros de pé na biblioteca da Unesp. Alberto Ramos, segundo Agripino Grieco,
disse que Casa grande & senzala
era um livro bem pensado, mas mal escrito: pensado na casa grande e escrito na
senzala.
18 de fevereiro de
2006. Pela milésima
vez, a televisão mostra o Sérgio Ricardo, que é João Mansur Luft no registro
civil de Marília, quebrando violão no badalado festival da Record. É o Bin Laden
da MPB. Glauber Rocha, o cineasta mais chato do mundo, acabou com a carreira
musical de Sérgio, transformando o romântico bossanovista em cantador esganiçado
de feira. Soa artificial. Gosto dos seus primeiros discos, que uniam o talento
do cantor e do compositor com boa formação musical ao bom letrista, que não
precisava pedir versos aos letristas oficiais da época. Antes dele, se não estou
errado, só Caymmi e Vicente Celestino juntaram esses três predicados numa só
pessoa.
20
de fevereiro de 2006, cinco da tarde.
Minha mulher deve fazer parte de alguma seita conspiratória contra a literatura.
Depois das cinco horas, com cheiro de alho refogado vindo da cozinha, é
absolutamente impossível continuar lendo ou escrevendo.
21
de fevereiro de 2006. Na aritmética moral, há uma minoria de
maus, outra de bons e uma grande maioria flutuante — boiada oscilando ora para
um, ora para outro pasto. A guerra se dá nos pólos. Vence-a quem melhor tanger o
gado oscilante. Mas a vitória é sempre relativa e temporária, pois não é
possível viver o tempo todo de orelha em pé, vigiando
currais.
22
de fevereiro de 2006. Filósofo
é o cão sarnento que consegue erguer a cabeça no meio-fio e enxergar além dos
postes de eletricidade. Se, além do além dos postes, vê estrelas completamente
indiferentes, como Rubião em Barbacena, então o cão sarnento é um
poeta.
23
de fevereiro de 2006.
Até o relativismo é relativo: mesmo suspeitando que nossas verdades sejam
questionáveis, na parte ou no todo, e seguramente serão se o ponto de vista é de
Deus, não há como viver no vácuo. Mas buscar a verdade, mais que exercício
filosófico, é arte de engolir sapo. Exemplo: ter de admitir que caminhões de
lixo, esse fétidos urubus mecânicos conspurcando as manhãs, sejam catalogados
entre as coisas essenciais da vida.
Também
não é preciso pensar tanto. De tanto pensar, morreu o homem e reencarnou num
burro.
24
de fevereiro de 2006.
Descobri, finalmente, uma razão para voltar a comprar jornal: tapar as mijadelas
do cachorro pela casa. Pelo menos até o cachorro aprender a mijar no lugar
certo.
25
de fevereiro de 2006. Aristóteles
disse que uma cidade com mais de cem mil habitantes era ingovernável. Quem sou eu para corrigir o estagirita?
De
governar não entendo bulufas, mas entendo de habitar, e digo com toda convicção
que uma cidade com mais de cinco mil habitantes é hoje em dia inabitável.
Escrevo isto num justo instante em que passa perto de mim uma moto de um bilhão
de cilindradas, de escapamento suficientemente aberto para engolir a paciência
de Jó, pilotada por um sereno cidadão de sete arrobas bem acomodadas no banco.
26
de fevereiro de 2006.
Certo maestro, na rádio Cultura, respondia cartas dos ouvintes sobre música
clássica. Falava sobre masculinos e femininos:
—
Dizemos o musicista para o homem e a musicista para a mulher. Dizemos músico para homem e... música para
mulher?
O
maestro não achava conveniente chamar mulher de música. Pois eu acho, sr. maestro. Pelo
menos certas mulheres: música das esferas, das mais perfeitas
esferas!
27
de fevereiro de 2006.
Bom programa para escritores na terceira idade: reescrever sisifianamente tudo o
que foi feito na segunda, como se a obra fosse o único passaporte para entrar no
céu. Isso se o céu já não estiver empregando críticos acadêmicos para analisar
passaportes...
Lembro
daquela tarde de banca acadêmica. A megerinha de bigode, doutora em letras
desconstruídas, voltou-se indignada e perguntou por que eu não gostava da
crítica acadêmica. Vontade de dizer que era só por causa
dela!
28
de fevereiro de 2006. Todo samba-enredo parece feito por um
crioulo doido. A história do Brasil é um samba do crioulo doido — não precisa
haver nenhuma data e nem um fato trocado.
O
controle remoto pode facilitar a obesidade centrípeta (barriguinha, em linguagem
científica), mas tem algumas vantagens.
Uma delas é mudar depressa da Globo, sempre que irrompe da tela para a
sala aquela coisa monstruosa chamada escola de samba, ameaçando o bom gosto do
apartamento. No país mais barroco e confuso do mundo, o carnaval carioca é um
problema sem solução, que devemos engolir com mansa resignação franciscana.
Mas
há problemas com solução. Em geral, só se resolvem com o tempo. Quando o
problema acaba, ficamos alguns anos mais velhos e com uma puta saudade do
problema ainda não resolvido.