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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 58


31/05/2010. Leva-se um ano pra botar a casa de pé; pra derrubá-la, bastam algumas horas e alguns martelos. Foi o que aconteceu com a cultura ocidental: em pouco tempo, a marreta da contracultura, forjada pela própria cultura ocidental, jogou tudo por terra, fragorosamente, numa impiedosa autodemolição. Hoje, não adianta culpar o jovem, ao chegar na universidade embalado pela última banda pop e completamente imunizado contra a alta cultura. Quem passou a infância e a adolescência adestrando-se nesses laboratórios de engenharia social que são a televisão (aberta ou fechada), a música popular (brasileira ou internacional) e a escola (pública ou privada), não tem como deixar de escarnecer do Bach ou do Shakespeare. Violento, o jovem sempre vai ser; se foi treinado pra derrubar os ídolos errados, pior pra civilização. A barbárie deve cumprir o seu ciclo. Alguma boa semente, no entanto, sempre fica escondida nas barbas do monstro, e um dia ela cai, e brota, e tudo pode começar outra vez. É o que faz da Idade Média uma lição até mais interessante do que a própria Renascença, na qual nem tudo o que reluz é ouro.


30/05/2010. Nova ordem.

Muito contrário ao meu gosto

De jeca preso ao quintal,

Virá o Governo Mundial:

Seja por consenso imposto

Ou imposição consensual...


27/05/2010. Essa confusa espécie dos bípedes implumes está, quase sempre, à deriva no mar de lama da História — que não merece o H maiúsculo com que a grafamos.


26/05/2010. Levava-se a literatura mais a sério, quando o mundo era mais pobre. Hoje, com as fantasias da classe média — público principal das letras — realizáveis bem mais prontamente, bastando um clic de mouse ou digitar alguns números de agência de viagem, quem precisa de romances para satisfazer a sede fabulatória, viajar para Paris ou cercar-se de companhias na solidão? Pessoas superexcitadas, sensorialmente mais exigentes, preferem filmes ou videogames. Quando não optam, logo de uma vez, pela própria ficção do mundo real: shoppings, praias,  excursões ao Egito.


25/05/2010. Lição de casa.

Maduram as laranjas-limas

Frente à janela do meu quarto.

É lento, muito lento o parto,

Mas enfim quantas obras-primas!


24/05/2010. Um dos homens mais poderosos do mundo, do segundo pós-guerra em diante, é o dono do Chase Manhattan Bank, David Rochefeller, que sempre se orgulhou de ser internacionalista, ou globalista, como se prefere dizer agora. Levando a sério a doutrina Monroe — América para os americanos, ou, mais exatamente, toda as Américas para os norte-americanos —, foi sócio de uma grande fazenda de gado, no Mato Grosso do Sul, de 1948 a 1980, segundo ele contou em suas Memórias (Rocco, 2003). Viajou muito ao Brasil, que conhecia bem, sobretudo nossa atrasada oligarquia política, responsável por um indesejável crescimento das esquerdas e do nacionalismo. Por isso, não hesitou dar forte apoio ao movimento de 64: talvez tenha sido o principal avalista junto aos bancos privados que financiaram o desenvolvimento dos militares (v. Luís Viana Filho, O governo Castelo Branco, 1975).

Em suas memórias (Trinta anos esta noite, 1997), Paulo Francis se refere a um encontro que o general Golbery do Couto e Silva, então chefe do SNI, promoveu na Civilização Brasileira, a principal editora da década de 60 e centro de convivência das esquerdas letradas (coisa que um dia existiu, por mais que a gente não acredite). O general tinha ido pedir o apoio da inteligência canhota ao projeto liberal-econômico de Castelo Branco, que, segundo ele, era impossível de realizar sem mão de ferro.

E quem disse que a esquerda mais inteligente não aprovaria as reformas? Eis o que pensava um velho militante comunista, por nome J. A. Mafra, num documento publicado pelo general Sílvio Frota, em suas memórias: “A revolução de 64 abriu condições para o socialismo. Acabou com o getulismo, o janguismo, o peleguismo. Acabaram-se os caciques (chefes políticos) quase totalmente desmoralizados. Os militares não conseguiram o que muitos desajavam: uma ordem nova. A coisa mais fácil deste mundo é provar-se que os militares falharam. Nossa vez está chegando. Os políticos estão desacreditados. Os militares também. O campo está aberto.”

Quando o comunista Glauber Rocha bateu palmas para o estatizante e simpatizante das esquerdas Ernesto Geisel (ainda segundo depoimento do mesmo general Frota), devia saber o que estava fazendo. E a profecia do comunista Mafra se cumpriu num prazo até breve. Não se passaram nem dez anos da tal abertura e FHC, algo incomodado sob o uniforme de liberal, já subia triunfalmente a rampa do poder. Estava aberto o caminho para os Lulas, Dilmas e tutti quanti.

O “intervencionista” Rochefeller também já devia saber o que estava fazendo, naqueles distantes anos sessenta, quando a pedagogia pragmática dos americanos, através do acordo MEC-USAID, enterrou de vez o que ainda restava do velho currículo escolar moldado pelos jesuítas, com latim, grego, canto orfeônico, francês, alemão, filosofia, gramática.  Se essas matérias ainda estivessem nas escolas, Luís Inácio da Silva jamais teria deixado de ser sindicalista. Estaria, no momento em que acabo de escrever isto (às sete da noite), tomando cachaça nalgum boteco de São Bernardo do Campo.


23/05/2010. A internet, se pode favorecer a retribalização da espécie sob a mesma taba eletrônica, também pode contribuir, e muito, para a dimensão universal da inteligência, que sempre foi a sua terra natal: a gente tem, à disposição, mais recursos para desprovincianizar o espírito. Obrigatoriamente, o debate político e cultural vai deixar o círculo restrito do bairro e sair em busca de uma arena maior. O fato municipal ou nacional, por mais miúdos que sejam, já nascerão numa circunstância diferente — num berço mais ou menos global. Ai de quem teimar em considerá-los sob o antigo ponto de vista!


20/05/2010. O segundo gol.

A bola veio rasteira,

Mas o bico da chuteira

Do Robinho a fez voar:

Foi desenhando, pelo ar,

Quase imperceptíveis traços

De um vôo que se desenrola.

E a rede, abrindo-lhe os braços:

Bem vindo, pássaro-bola!


19/05/2010. Quantas pessoas, dessas que passam apressadas por nós, já estão literalmente mortas e ainda não foram avisadas? Para elas, o único documento de porte obrigatório devia ser o atestado de óbito, que aliás não precisa ser definitivo: para quem está morto em vida, há sempre  chance de ressurreição. Alguns remédios costumam ser infalíveis, como literatura ou filosofia, e podem ser utilizados sem limitação posológica. Só teria direito à renovação do atestado de óbito aquele que não demonstrar a menor reação aos medicamentos indicados.


18/05/2010. Entre a língua e os dentes.

Será mais nobre preservar os dentes

Ao transigir com torpes inimigos,

Ou ir sofrendo os danos e perigos

Que a dignidade impõe aos mais decentes?

Na boca, valem mais trinta e dois dentes,

Todos brilhantes, mas nenhum do siso,

Ou uma só língua que, se for preciso,

Vai dizendo as palavras mais mordentes?


11/05/2010. O principal fator para o sucesso do Lula, no estrangeiro, é que seus pronunciamentos aparecem com sabor de inglês — inevitavelmente melhorados pela tradução e pelo timbre dos tradutores. Nos anos sessenta, meu pai tinha uma pequena loja. Perto do Natal, ficava atulhada de brinquedos. Me lembro de um macaquinho com violão que fazia muito sucesso: a gente dava corda e ele começava a tocar. Lula sempre me lembra aquele macaquinho do passado. As eminências pardas do Planalto dão corda e ele se põe a macaquear o texto programado. Por esses e outros motivos é que lamento não ter nascido no estrangeiro. Em qualquer lugar do estrangeiro, eu estaria a salvo da língua portuguesa falada pelo Lula.


10/05/2010. Ouvi, pelo rádio, uma funcionária da Unicef dizer que o Estatuto do menor sofre tantas críticas, no presente, porque está muito à frente da nossa época. A mulher era articuladíssima: falava como uma maquininha programada para falar bem, e o conseguia admiravelmente, mas havia qualquer coisa de demoníaco em sua voz e nas suas idéias, um tom de possuída pelo demônio da perfeição futura, ao garantir que já sabia qual era o devir que nos esperaria mais à frente. Era como se ela, a funcionária da Unicef, tivesse o poder de desejar por nós, em nosso nome, o único futuro que poderíamos merecer.


09/05/2010. Nada melhor do que pegar na unha o pião de uma causa perdida, desde que seja boa e não tenha nenhuma chance de vitória a curto ou médio prazo, o que nos desobriga da decepção de vê-la derrotada pela eterna limitação da vida prática. A conclusão só pode ser esta: é impossível viver sem alguma expectativa de sucesso, individual ou social, ao mesmo tempo que se aceita a condição humana, o “castigo imerecido” do segundo soneto inglês do Manuel Bandeira. Não há mais nobre utopia do que aceitar a realidade como ela é. 


08/05/2010. Quando nos depuramos das ideologias — essa rota camisa de força com que vestimos a realidade e que se rasga ao mais leve movimento desta —, só aparentemente ficamos diante do vazio existencial. Basta virar os olhos para trás e já enxergamos, na primeira curva do passado, a “sabedoria das leis eternas”, para lembrar mais uma vez o belo título de Mário Ferreira dos Santos. Nossa espécie é muito velha. Muito embora uma parte razoável daquelas leis tenha sido escrita alguns séculos antes da nossa era, sua elaboração e sua experimentação é multimilenar, bastante anterior à técnica de registrar os pensamentos por escrito.


07/05/2010. Miniconto. Tinha tanta suscetibilidade a barulho, que só dava descarga quando não tinha jeito.


06/05/2010. A universidade vive fechada em si mesma. Pouco importa se os professores viajam sem parar à Corte (para usar uma palavra cara ao Paulo Francis), atrás de cursos ou congressos. No fundo, continuam à procura da mesma coisa e não da diferença complementar. Esse autotelismo caipira parece ser uma marca do brasileiro: quando aqui chegou o Carpeaux, em 1939, e começou a abrir o vasto leque do seu conhecimento bibliográfico, foi uma completa ciumeira no arraial. O Brasil sempre se beneficiou com dois tipos de intelectuais: os estrangeiros que, como Carpeaux, vinham para cá, ou os brasileiros que saíam do país, para de fora mandar ou trazer informações preciosas. Se esse último papel, hoje, está bem representado por Olavo de Carvalho, que vive atualmente no estado da Virgínia, EUA, teve em Paulo Francis, de 1971 a 1997, um nome fundamental.


05/05/2010. A última dos passadólogos: o negão teria  olhado para a mulher de Naendertal e visto que era boa.


04/05/2010. Diante da premente realidade da “aldeia global” — um mundo cada vez mais interligado tecnológica, econômica e subculturalmente —, já faz tempo que os think tank começaram, numa perspectiva intergovernamental e financiados por poderosos organismos internacionais, uma corrida para influenciar aquela parte da classe política e empresarial com poder de adaptar os governos nacionais à aldeia global, ou seja, implantar discreta, progressiva e, um dia, oficialmente o governo mundial.

Um dos índices mais alarmantes da nossa decadência espiritual é o fato dos intelectuais mais influentes de hoje serem economistas. Relacionam-se tão de perto com a classe empresarial e política, são tão bem vindos ao banquete das principais decisões, que ficamos com a impressão de que a única possibilidade de ação, no mundo contemporâneo, esteja com eles. Sua ciência já ocupa, desgraçadamente, o lugar de diretora das demais áreas do conhecimento.


03/05/2010. Truffaut, numa tomada de Farenheit 581, baseado no livro de Ray Bradbury, mostra um livro de Sartre, A questão judaica, entre clássicos que eram acumulados para a fogueira. Ora, o Sartre socialista (o marxismo era para ele a filosofia insuperável da nossa época) devia concordar com a palavra de ordem do seu chefão: parem com esse negócio de interpretar a realidade! O que não deixava de ser um forte desestímulo à indústria livreira, se esse próprio mandamento marxista não tivesse provocado uma enxurrada bibliográfica.


02/05/2010. O Brasil sempre se beneficiou com dois tipos de intelectuais: os estrangeiros que vinham para cá, ou os brasileiros que saíam do país, para de lá mandar ou trazer informações preciosas. Atualmente, esse último papel está bem representado por Olavo de Carvalho. Procuro-o de caderninho em punho, nos artigos ou no programa de rádio, para anotar as recomendações bibliográficas que, de outra maneira, não chegariam até nossas taperinhas.