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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 57
13/04/2010. A ponte de vidro. Primeiro, veio a coisa. Ou melhor, a imagem da coisa: Uma ponte de vidro. Depois veio a função da coisa: Atravessar o abismo Com plena visão de tudo.
10/04/2010. Uma simples espiada nos clássicos da historiografia literária do século XIX e inícios do século XX, bastará para perceber como a diacronia literária abraçava, sem purismos formalistas, as outras manifestações do pensamento humano (De Sanctis, Taine, Menendez y Pelaio, Brunetière, Lanson), apesar de todas as limitações deterministas do período. Histórias literárias importantes do século XX, como as de Francesco Flora e Attilio Momigliano na Itália, Valbuena Prat na Espanha, Albert Thibaudet na França, etc., nunca deixaram de acolher os “parentes” da literatura em suas obras. A História da literatura ocidental, do Carpeaux (que estava bem atualizado sobre as principais correntes críticas contemporâneas), e que me parece ser a maior tentativa do gênero em todo o ocidente, também abre espaço, ao tratar dos mais significativos autores literários de cada “zeitgeist”, para filósofos, historiadores e ensaístas em geral. Entre nós, esse troço de história literária pura, exclusivamente com os três gêneros literários, é invenção do Afrânio Coutinho. E vingou bem vingado: todos os nossos cursos de letras, a partir dos anos sessenta, adotaram o mesmo purismo “especializado”, banindo do currículo tudo o que não tivesse a ver com literatura ou linguagem. Até o sociólogo Antonio Candido embarcou nessa e nada fez, em todo o seu enorme círculo de influência, para remediar a situação, embora o seu método integrativo, sócio-estilístico, de algum modo quebrasse a redoma purista, mantendo seus discípulos antenados no social e na história (apesar das grosseiras limitações marxistas do seu método).
07/04/2010. Oficinas de criação literária não funcionam bem em cursos de letras. Humilham os alunos e não garantem que vão gostar mais de literatura, depois da experiência medíocre de criar o que não era para ser criado. A sábia advertência de Rilke não deve ser esquecida: só escrever quando for impossível não fazê-lo. A razão, portanto, já estava com a poesia popular: não se aprende samba no colégio.
04/04/2010. É de fundamental importância, antes de qualquer providência paliativa, expor o aluno de letras a idéias mais profundas do que as defecadas pela mídia, introduzi-lo no universo de certas noções básicas — coisas como relação do particular com o universal, conceito e intuição, sujeito e objeto, liberdade e necessidade, diferença entre informação e compreensão, diferenças entre ciências humanas e ciências naturais, conceitos básicos da psicanálise, do marxismo, do existencialismo, do liberalismo, do pensamento conservador, entre outras coisas —, sem os quais qualquer tentativa de interpretação do mundo ou da literatura fica parecendo uma piada. A filosofia e as humanidades podem morar na mesma pessoa, em perfeita união com a literatura. Portanto, a redução dos estudos literários, no primeiro ano de Letras, é um paradoxo necessário e tem um objetivo bem claro: prover o aluno daquelas ferramentas conceituais básicas, com as quais a teoria da literatura e as histórias literárias, a partir do segundo ano, só teriam a lucrar. Se o professor quiser insistir com literatura, nessa fase, deve ser totalmente “desteorizada”. Como, porém, as carências do aluno de letras não se reduzem à literatura e ao pensamento em geral, cujos fundamentos deveriam ficar a cargo do ensino médio (hoje completamente entregue às varejeiras), mas também em relação às outras artes, não se pode perder a chance de, logo no início do curso, mostrar certas coisinhas paleolíticas, como a música de concerto (de preferência ao vivo), as artes plásticas (de todas as épocas, não só das queridinhas vanguardas do século XX), o grande teatro (dos gregos a Shakespeare, de Ibsen a Tchekov, de O’Neill a Beckett, etc.). Esse banho de alta cultura não visa, obviamente, despertar alunos do sono pop, que me parece impossível, mas avisá-los de que existem mais coisas entre o céu das mídias e o chão das universidades. Sócrates (está lá no Ménon) achava que qualquer pessoa, até um escravo, trazia em sua mente os arquétipos do pensamento, as idéias universais: bastava parturejá-las, arrancá-las maieuticamente do fundo da grossa casca sensorial, como parteiras fazem com bebês. Só um professor não comprometido com tolas idéias revolucionárias pode avisá-los de tais coisas e, pelo exemplo, mostrar como as informações recebidas podem se transformar em verdadeira compreensão dos fatos.
01/04/2010. Comecei, na universidade, como professor de teoria literária. Cada vez mais, porém, me convenço da absurda inutilidade da disciplina à qual estou ligado, em meu departamento (pelo menos, da maneira como ela é concebida a partir, sobretudo, da década de setenta, com a invasão das hordas estruturalistas e o que se seguiu). O estruturalismo passou, mas ficou a moda da terminologia técnica, que muda a cada geração de acadêmicos do mesmo jeito com que mudam os modelos de sapatos, os telefones celulares e a gíria do morro. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um professor de teoria literária se exprimir em linguagem razoável. Ninguém pode negar as vantagens que o contato com as grandes questões da literatura traria ao estudante de literatura: o que ela é, o papel que ocupa na sociedade, a dimensão histórica dos gêneros literários e das obras literárias em particular, os grandes temas da literatura ocidental, as principais doutrinas críticas, relação com as outras formas de conhecimento e as outras artes. Mas isso já é uma utopia: salvo exceções, não há mais estudantes de literatura, ou seja, alunos que procuram o curso de letras por identificação com o objeto de estudo e comprovada eficiência, aferida pelo vestibular, para lidar com o dito objeto já no primeiro ano do curso. Não é o que acontece. Uma sondagem que sempre faço, no início de cada ano, tem revelado infalivelmente o aspecto aleatório da opção feita: é a própria falta de opção que empurra boa parte dos alunos para dentro dos muros acadêmicos, o que seria até interessante (afinal, não são poucas as afinidades entre poesia e acaso), se eles não chegassem com absoluta incapacidade de organizar informações e compreender a matéria ensinada. Pouco pode fazer a teoria literária nessa circunstância, sobretudo uma teoria literária viciada em si mesma e que, quase sempre, reduz o espaço da obra literária, para reservar o centro do palco às próprias questiúnculas teóricas que, quase nunca, são aquelas descritas atrás; e que, quando são, vêm completamente embalsamadas pelo jargão de discutível cientificidade (dando-nos saudade da velha “microscopia filológica” a que se refere Curtius). Em vez de discussão teórica sobre origens e fins da literatura, é muito mais necessário, no primeiro ano dos cursos de letras, uma disciplina que revele as noções elementares da arte de ler e, ao mesmo tempo, introduza o aluno nas chamadas humanidades (não no sentido antigo da palavra, de estudo da literatura e do pensamento clássico, mas como o conjunto das artes, da filosofia e das ciências humanas), pois não parece razoável sentar tijolo sobre tijolo do edifício teórico-literário, sem a base de cultura geral que os nossos alunos não trazem mais do ensino médio, como acontecia antes da melancólica reforma educacional feita pelo generais de 64. Esta abrangência de propósitos pode parecer caótica ou fragmentária a colegas mais cartesianos, mas é a única maneira de compensar, com sua diversidade, o quase irremediável buraco negro da formação colegial dos alunos. Uma disciplina que atualmente se encontra em boa parte dos cursos de letras, Leitura e produção de textos, em geral presente na grade curricular do primeiro ano, poderia desempenhar aquelas funções de tapa-buraco, não obstante o nome pouco feliz. Eu o reduziria a Leitura e escrita, mas como contornar a velha mania acadêmica de dourar a pílula com expressões de duvidoso sabor técnico? Vale a pena dar uma passada de olho no programa desta disciplina, tal como se apresenta hoje no curso em que trabalho. É uma mistura de bons propósitos e fantasias infantis: “Sensibilizar o aluno para o hábito de ler, escrever e defender pontos de vista.” “Permitir ao aluno a ampliação de seus horizontes e reunir subsídios para escrever com desenvoltura sobre variados temas.” As duas frases quase dizem a mesma coisa. Quanto a “defender pontos de vista” e “reunir subsídios para escrever com desenvoltura sobre variados temas”, só há uma saída: além do aluno desenvolver a técnica de pensar e o hábito de distinguir o verdadeiro do falso, informar-se sobre tudo o que é humano, fazendo sua a divisa do comediógrafo latino Terêncio: “Nada do que é humano me é estranho”. Daí a necessidade de, no primeiro ano de letras, superlotado de alunos, mas desértico de idéias, incrementar de preferência a cultura geral, antes iniciar a especialização nos estudos literários, no que acerta o programa da disciplina ao sugerir o “contato com inúmeros textos, de diferentes espécies”. “Levar o aluno a desenvolver maior consciência a respeito da linguagem, de modo a compreender e produzir textos coerentes, nas modalidades oral e escrita.” Desenvolver maior consciência a respeito de si mesmo e da realidade devia ser prioritário, na ordem do que deve ser conhecido. A linguagem é a principal ferramenta do processo, mas é um meio e não uma finalidade. Uma maior “consciência da linguagem” não leva ninguém, por si mesma, a “Compreender e produzir textos coerentes, nas modalidades oral e escrita”, se o aluno não desenvolve ao mesmo tempo a técnica de pensar e o hábito de distinguir o verdadeiro do falso. Essa extrapolação da linguagem é mais uma conseqüência da invasão estruturalista. “Desenvolver no aluno a consciência da leitura enquanto verdadeira prática social, que se constitui em valioso instrumento de inquirição dos textos e do mundo, dando ao leitor uma capacidade cada vez mais forte de questionamento e de crítica, necessários à formação de sua personalidade.” Mais do que prática social, a leitura é uma atividade espiritual, com seus elementos psicológicos, sociais, existenciais e morais. Ela não só é um valioso instrumento de inquirição dos textos, mas o único: não há outra maneira de inquiri-los. “Proporcionar ao aluno condições para uma participação real na vida da comunidade em que vive, por meio de textos dirigidos a boletins, jornais e outros meios de comunicação, reivindicando direitos ou opinando sobre assuntos de importância na atualidade.” Participação na vida da comunidade não se dá somente com textos dirigidos a boletins, jornais e outros meios de comunicação, mas também através da fala (na própria escola, na igreja, em convenções partidárias, etc.). Mas por que só reivindicar direitos? Não é preciso estimular, também, a consciência dos deveres? “Desenvolver no aluno, por meio do contato com inúmeros textos, de diferentes espécies, uma consciência crítica a respeito de sua própria produção, que espontânea e livremente, nos diversos estágios, comparará com a produção de outros autores, como os colegas de classe, o professor ou escritores de renome, garantindo, assim, pela própria atividade de leitura, um contínuo trabalho de avaliação dos próprios textos que produzir, possibilitando alterações no processo da escrita e correções de metas e técnicas empregadas.” Aqui surge, embora não nomeada, a questão importantíssima dos modelos e da imitação, o “desejo mimético”, para usar a expressão de René Girard. Só não me parece que o cotejo com os modelos deva dar-se de forma tão livre e espontânea, mas, antes, de maneira regular e rigorosa. E as alterações sugeridas pelo confronto dos modelos não pode ficar restrita ao “processo da escrita e técnicas empregadas”; as correções de metas devem, sobretudo, atender a uma necessidade de rigor na articulação das idéias. Francamente, não vejo problema na diversidade (mais do que fragmentação) existente no programa da disciplina, que permite a leitura de textos literários, textos não literários (jornalismo, filosofia, ciências sociais), introdução às outras artes, além da oportunidade de criação literária. Colocada estrategicamente no primeiro ano de Letras, Leitura e produção de textos poderia funcionar como um banho de “alta cultura”, uma introdução às humanidades, numa universidade cada vez mais dominada pelo multiculturalismo e a ideologização de esquerda, quase sem espaço para o pluralismo de idéias, inclusive conservadoras, como se espera de uma “universitas”. Para mim, a diversidade (no currículo escolar e na vida) parece mais solução que problema. Contrariamente ao que podem pensar alguns colegas, e ao que eu próprio pensava, vejo na redução da carga horária de Teoria da Literatura um grande avanço. Repito: cada vez mais me convenço da absurda inutilidade desta disciplina, dominada, a partir da década de setenta, pela miopia estruturalista, pela sociologia da literatura e, mais tarde, pelos chamados “estudos culturais” (mas só da baixa cultura). E, cada vez mais, minha disciplina é Leitura e procriação de textos, de cujo programa sou e serei um defensor daqui em diante, embora lamente o espaço exagerado que a literatura passou a ocupar ali.
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