Voltar à página inicial

 

 

 

NOTAS PARA UM DIÁRIO - 55

 

 

22/02/2010. As sonatas para violino e piano, de Mozart, embora pouco destacadas numa obra que inclui o Réquiem, as missas, as grandes óperas, as sinfonias e os concertos para piano, também são de grande beleza (como não dá para menosprezar o restante da sua obra camerística, que inclui belos trios, quintetos e quartetos). Se é certo que a genialidade do compositor se expressou melhor na música para canto, as dezesseis sonatas para violino e piano  poderiam ser consideradas as canções sem palavras de Mozart. É assim que devem ser ouvidas: como lieder sem versos, cuja poeticidade não necessita de palavras para se manifestar.

 

 

21/02/2010. Democracia é a vontade da maioria. Isso não quer dizer que tenha alguma coisa  a ver com verdade objetiva.

 

 

20/02/2010. Minha geração foi a última, talvez, a ser educada para a carência, e em todos os aspectos da vida: morais, culturais, materiais. Nossos netos, mais que nossos filhos, serão educados (ou pelo menos deveriam ser) para se defender de uma realidade exatamente oposta àquela, a da abundância. Antes a gente comia o mais que pudesse para ficar forte, hoje come o menos que pode para viver mais... Sexo era medido com fita métrica pela família e o padre; hoje é estimulado como fator de saúde mental, inclusive pelos livros didáticos. Era a coisa mais difícil, sobretudo para quem vivia no interior, conseguir aquele livro, ver aquele filme ou aquele quadro, ouvir aquela música; hoje, os navios piratas ancoram em nosso porto atulhados das jóias ou do lixo cultural do ocidente e do oriente. Nunca foi tão totalitária a estimulação sensorial, ao contrário do relativo repouso dos sentidos de antigamente.

 

 

19/02/2010. Tantos são os livros e ensaios no computador, que fui obrigado a comprar o leitor de livro digital da Sony (mais universal que o Kindle da Amazon) para enfrentar todo aquele material que dormia um sono pesado no meu notebook. É impossível ler textos mais longos no computador — embora seja possível ler milhares de textos breves durante toda uma tarde.

O leitor da Sony é um auxiliar importante, mas é até covardia comparar um troço desses ao velho livro de papel, que, com a moderna tecnologia editorial, tem ficado cada dia mais bonito. Aliás, sempre houve belos livros. Passei boa parte da minha adolescência entre as estantes da biblioteca pessoal do José Olympio, que a doara à minha pequena cidade, também cidade natal do editor. Eram exemplares, na maioria, de obras por ele lançadas, das quais fazia uma pequena tiragem com papel especial e encadernação primorosa. Era quase possível sentir o sulco da impressão mecânica, ao contrário da página de textura chapada a partir das impressões em off-set. 

 

 

18/02/2010. Vale mais a gente se preocupar com o passado e com o futuro, do que com o presente. O passado está nos fazendo a cada segundo, assim como as expectativas futuras, e a essa obra em eterna construção e provisoriedade, na qual não convém pensar muito, podemos chamar de presente. O futuro é infinitamente maior que o presente, o que é suficiente para exigir de nós uma atenção especialíssima.

 

 

17/02/2010. Quais são os escritores mais prezados, atualmente, na universidade? Até bem pouco tempo, vinha em primeiro lugar, disparadíssimo à frente, o Trio de Ouro: Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral. A principal razão era a “modernidade de linguagem” presente em suas obras, importando menos a metafísica do primeiro, o existencialismo da segunda e o marxismo do último. “Modernidade” que vinha de longe, do esteticismo oitocentesco (parnasianismo e simbolismo que mais tarde se transformariam em neo-parnasianismo e neo-simbolismo), da renovação dos estudos barrocos nas primeiras décadas do século XX, da forte penetração das teorias literárias formalistas na universidade.

Embora Marx seja, na universidade, o queridinho do pedaço, aqui no Brasil a lição de mestre Candido sempre teve muitos seguidores: aspectos econômicos e sociais só merecem atenção da crítica quando se transformam em “princípios estruturais” das obras. Estético, para o professor, são as contradições sociais presentes na organização total do texto. O fator social, além de fornecer assunto para o escritor, “é elemento que atua na constituição do que há de essencial na obra de arte literária”. No mesmo ensaio em que o afirmava, ilustrava sua posição teórica com um exemplo: a mentalidade mercantilista do Segundo Império, em Senhora, de José de Alencar (romance sobre a compra de um marido), se expressaria pela estrutura comercial, mercadológica, que organizava toda a narrativa, com cenas, diálogos e enredo imitando aspectos das operações comerciais, como avanços e recuos, pressões e concessões, manobras secretas.

Otto Maria Carpeaux, no prefácio da sua História da literatura ocidental, compreendia a obra literária como produto de duas ordens de fatores: uma ordem histórico-social, efêmera e contingente, na qual estava irremediavelmente mergulhado o escritor, e uma ordem permanente, de fatores universais, que inevitavelmente acabavam por se manifestar, apesar da contingência sócio-histórica. Essa foi a posição estética que sempre orientou a atividade crítica de Carpeaux: um olho no chão da História, outro no céu metafísico.

Desde o início, Antonio Candido optou claramente, redutoramente, por uma única daquelas ordens: a sociológica. Quem lê seus ensaios, percebe sem muito esforço que o fator social não somente “atua na constituição do que há de essencial na obra de arte literária”, mas é a principal razão de ser da literatura, dos escritores e da crítica, enfim, da literatura como instituição. 

Há um ensaio em que, censurando a preferência do estruturalismo por entidades binárias, recomenda o tripé dialético: é o três que faz andar a História. Às duplas famosas, como Tonico e Tinoco, Ginger e Fred, goiabada e queijo, Romeu e Julieta, cara e coroa, etc., certamente preferirá os trios: barba, bigode e cabelo; Pai, Filho e Espírito Santo; cimento, areia e cal; Jesus, Maria e José; marido, esposa e amante. No trio, haveria sempre a presença de um elemento que parece concluir o que a dupla tem de inacabado e provisório. À metafísica do Dois, Antonio Candido sempre preferiu a do Três...

Aparentemente, a sua briguinha com os estruturalistas tinha uma causa nobre, de refutação do reducionismo formalista. Mas não: como bom neo-marxista, ele aceitava as ferramentas analíticas do método francês, que contribuíam para um melhor conhecimento da mecânica literária, desde que estivessem a serviço de um senhor mais universal, a História. Ilustra bem essa concepção um longo ensaio, tediosamente analítico, sobre o “espaço” no romance L’assomoir, de Zola. 

Atualmente, porém, com a influência dos “estudos culturais” (vulgo multiculturalismo), as portas da universidade foram arrombadas por toneladas de textos de autores representativos das minorias, reivindicando com firmeza o seu direito a ser objeto de teses e dissertações. Perto dessa manobra escancaradamente política, as limitações da sociologia literária de Antonio Candido podem ser a coisa mais refinada do espírito.

 

 

16/02/2010. MacLuhan precisa ser reeditado, sobretudo A galáxia de Gutenberg. A retribalização atual do mundo, segundo o ensaísta canadense, teve na eletrônica o seu principal fator condicionante, contribuindo, como nenhum outro, para liberar uma forma mais primitiva de percepção da realidade. Com o cinema, a televisão (e depois a internet, que teria deixado MacLuhan “macluco”), todos os sentidos da pessoa seriam excitados ao mesmo tempo, treinada de forma progressiva para uma relação mais natural, menos conceitual, com o mundo.

Na verdade, a onda tribocontracultural, que começou a varrer o século XX a partir das suas primeiras décadas e adquiriu força total depois dos anos sessenta, resultando na atual mentalidade multiculturalista, não foi conseqüência da eletrônica, como queria MacLuhan, mas principalmente caudatária de uma tendência revolucionária anti-ocidental, anti-humanística, bem mais antiga. Os fatores eletrônicos apressaram um processo que vinha de antes, da era mecânica.

 

 

15/02/2010. Soneto anglo-hispânico.

Depois de tanto tempo, te revia.

Eu disfarçava a minha falta de ar

Falando ansiosamente e sem parar,

Pra te esconder minha cardiopatia...

Falava de uns poetas que então lia,

Mas se, acaso, tocasses minha mão,

Ias saber como ela estava fria,

Mesmo se aos pulos tinha o coração.

Eu gaguejei umas quinhentas vezes,

Miserável ator atrapalhado

Esquecendo o monólogo ensaiado

Nos dias, nas semanas e nos meses.

E, em vez de mim, falei desengonçado

Dos poetas espanhóis e dos ingleses.

 

 

14/02/2010. No meio da palestra, o professor do Departamento de Educação entrou em surto psicótico e disse, depois de mencionar a Paidéia jaeggeriana, que Homero foi o Paulo Freire da Grécia antiga.

 

 

13/02/2010. Católico que se preza tem de acreditar em milagres. O engenheiro Gustavo Corção, que sabia como ninguém calcular probabilidades, acreditava também na possibilidade da intervenção de Deus na natureza. A técnica, que deixa o homem mais cheio de si, é limitada: suas fronteiras esbarram depressa na onipotência divina. Há um livro do grande escritor com um título bem expressivo: As fronteiras da técnica.

Nós, que estamos na periferia do cristianismo, parecemos aqueles moleques de antigamente, que iam para a estação na hora em que passava o trem. Olhavam, com inveja, para os vagões cheios daquela gente privilegiada, escolhida para a grande viagem.

Eu sou um moleque daqueles. De vez em quando, me aproximo do comboio da transcendência e tento subir, mas o chefe do trem me barra logo no primeiro degrau. Enfio a mão no bolso, à procura do bilhete, mas não há nada ali. E volto para a estação mordendo desconsoladamente as unhas, decepcionado com a minha pobreza.

Embora reconhecendo a superioridade moral e filosófica do cristianismo, ainda não consegui comprar o bilhete de embarque.

 

 

12/02/2010. Antes da chuva.

É o vento oblíquo nas ramadas,

Nos telhados, nas roupas, no ar,

Nas estrelinhas espetadas

Que vão mudando de lugar.

Desamparada, a meia-lua

Vai velejando mais depressa.

Canta um pássaro lá na rua:

Começa, chuvinha, começa!

 

 

11/02/2010. Enquanto a esquerda sonha com um Estado Mundial governado pela ONU, fico pensando como seria bom se meu pequeno e rico estado tivesse mais autonomia em relação a Brasília, cuja pior qualidade, por incrível que pareça, não é ser a obra-prima do Niemeyer.

Brasil é uma abstração política, assim como todos os países de dimensão continental, Rússia, China, Índia, Canadá, EUA.

Cá entre nós: nossa medida mais natural de organização sócio-política não seria o bairro, além do qual tudo já começa a ficar intangível?

Tudo bem. Sem exagero: nem muito para baixo, no meu quintal, nem muito para cima, no Clube Bilderberg. Nem ONU, nem Conselho de Bairro.  

Se o Estado Mundial for mesmo inevitável, e eu pudesse escolher entre ser governado por uma junta bolivariana do Cone Sul ou virar súdito daquela corte a que se referia o Paulo Francis, os Estados Unidos da América do Norte, eu não hesitaria: mil vezes mais útil ser um americano de segunda classe, sob a batuta da Casa Branca, que bater continência aos futuros Lula e Chaves latino-americanos.

(Em breve, o direito de escolher estará entre as coisas mais utópicas do mundo).

 

 

08/02/2010. Quando a adoção de idéias abstratas é motivada pelo mais profundo ressentimento, o produto final só poderia se chamar marxismo.

 

 

07/02/2010. O país anda tão ruim em matéria de recursos humanos conservadores, que a Folha precisou importar de Purtugal o João Peraira Coutinho.

 

 

06/02/2010. Meu amigo Hildo Rieli está levantando fundos para criar a sua tão sonhada FAPCOR - Faculdade Politicamente Correta. Por enquanto, já tem alguns cursos em mente: Teologia da Libertação, Engenharia Social, Estudos Multiculturais, Letras (de música), Psicanálise Reichiana, Geografia da Fome, História da Civilizações Indígenas, Filosofia Africana.

 

 

05/02/2010. A correspondente brasileira em Nova York vive pegando no pé da Sarah Palin. Como é feia, inveja-lhe a beleza; como se acha inteligente, despreza-lhe a burrice. Achou o cúmulo a ex-candidata republicana ter anotado, na palma da mão, os itens que devia tratar com jornalistas, “cola de ginasiana antes da prova”.

Se dona Sarah fosse de esquerda, como Lula, podia como ele ser ignorante à vontade, que estaria perdoada. Toda a esquerda pensa como a correspondente brasileira em Nova York: em primeiro lugar, vem a agenda mínima revolucionária (estatismo, distributivismo, pansexualismo, ambientalismo, multiculturalismo). Se você é adepto deste programa político, jamais poderá ser condenado intelectual ou moralmente por nada, pois inteligência e moral são conceitos já perfeitamente superados.

 

 

04/02/2010. A religião de Nietzsche.

Parece que toda a gente,

Como Nietzsche gostaria,

Fez de uma estrela cadente,

Transitória e displicente,

Verdadeira estrela-guia.

 

 

03/02/2010. Um aspecto das grandes cidades, muito destacado pelas artes contemporâneas, era o da “multidão solitária”: milhões de pessoas espremidas num mesmo espaço — crescendo continuamente para os lados e para o alto —, e que perdiam a possibilidade de se comunicar diretamente, como nas pequenas cidades das quais a maior parte delas provinha. Essa gélida relação interpessoal da pólis baudelairiana foi cantada em prosa, verso, som e imagem.

Não é difícil imaginar que essa frieza das metrópoles se foi atenuando, lentamente, graças aos meios eletrônicos de comunicação, que começaram a devolver às pessoas alguma coisa da perdida onipresença aldeã. Se inicialmente o rádio, o telefone e, depois, a televisão, teriam contribuído para amenizar os efeitos depressivos daquela solidão cercada de gente por todos os lados, com a internet e o celular foram sensivelmente diminuídas as distâncias urbanas e interurbanas, sem esquecer outros benefícios que o progresso tecnológico trouxe para as grandes cidades, sobretudo a modernização dos meios de transporte. Evidentemente, nada disso elimina o lado terrível da cidade grande, mas a torna mais tolerável.

O show começou a ficar mais emocionante a partir da década de sessenta. Outras alterações se ligavam às mencionadas, configurando um quadro que ninguém mais hesita em qualificar de revolucionário. O primeiro impacto revolucionário — o ronco do trovão inaugural —, já passou. Estamos, agora, vivendo a fase surda e definitiva da revolução, quando as novas idéias e comportamentos vão lenta e seguramente substituindo as anteriores.

 

 

02/02/2010. Sozinha, desesperadamente,

Sem deixar rastro em nenhum lugar,

Afogou-se nas águas do mar

A mais bonita estrela cadente.

Desistiu do céu, muito cansada

De tanto brilho — a estrela sozinha

Teria sido uma planetinha

Bem mais feliz, embora apagada.

Nem nome tem! Tão rapidamente

Passou, que nem pôde ser nomeada:

Foi brilho errante seguindo em frente,

Uma estrela cadente — e mais nada.

 

 

01/02/2010. O caminho da roça.

O escritor Osman Lins, numa estupidez sem par em nossas matas, não aceitava que Otto Maria Carpeaux, em vez de se preocupar mais com nossos escritores, preferisse escrever sobre autores estrangeiros que não conhecíamos.

Wilson Martins fez o que o romancista do Avalovara exigia de Carpeaux, dedicando toda a sua vida e cultura — que era realmente admirável — a uma literatura que, nas palavras de Antonio Candido, escritas antes do professor adotar o credo multiculturalista, era um pequeno ramo de um galho menor da literatura européia. O galho menor era a literatura portuguesa.

Foi um desperdício, de qualquer maneira. Professor nos EUA durante muitos anos, período em que podia ter funcionado como divulgador, entre nós, do pensamento e das  letras norte-americanas, que nada tem de ramo pequeno ou galho menor, Wilson Martins preferiu abrir academicamente aos States a porteira da nossa pujante literatura, enquanto mandava, para os suplementos daqui, artigos em que continuava, teimosamente, resenhando a produção literária caseira, quando não se dispersava por fatos e nomes da mais distante história política do país.

Faltava-lhe uma generosidade mais universal, que teria servido de contrapeso à forte inclinação de cuidar do próprio terreiro (nesse aspecto, Paulo Francis foi mais importante). Tinha humor, um humor curitibanamente sizudo. O estilo não primava especialmente pela graça, embora a linguagem fosse correta. Se ao estilo de Antonio Candido faltava “la mano che trema”, como bem observou meu filho Fausto, um pouco mais de “cuore” teriam feito bem aos artigos de Wilson Martins, de certo modo revestidos do gelo de Curitiba.

Por outro lado, devemos a Martins, em vários artigos recolhidos na série Pontos de vista, reflexões importantes sobre a contínua pauperização cultural do Brasil, a partir dos anos cinquenta, na mesma e lamentável proporção em que o país crescia economicamente. Poucos perceberam, como ele, e no próprio momento em que a coisa se dava, as bobagens que ia tomando conta da nossa molambenta universidade, nas últimas décadas, como o marxismo, o estruturalismo, o desconstrucionismo.

Diferente, porém, de Otto Maria Carpeaux, a quem respeitava e admirava (seu primeiro livro de crítica,Interpretações, trazia um entusiástico ensaio sobre o recém emigrado vienense), Wilson Martins preferiu o caminho da roça. Perdemos nós, os da roça.