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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 54
30/01/2010. Na minha escola utópica, em vez da disciplina Educação Sexual eu botaria Educação Contra-Sexual (sem caretice puritana). O sexo, embora gostosíssimo, não é, sempre, um aliado: não são poucas as vezes em que, num contexto contracultural, como é o nosso, funciona como amigo da onça — mestre na arte de puxar tapetes. É coisa da qual o fedelho, nesse período desgraçado que é a adolescência, mais deve defender-se do que acercar-se.
29/01/2010. Júlio Medaglia, no seu programa “Tema e variações” pela Cultura FM, disse num dia destes, ironicamente, que o estoniano Arvo Pärt é um compositor que começou vanguardista para terminar beato. A beleza da música de Pärt, uma bela missa “a cappella” tocada logo em seguida, pisou solenemente no pescoço da ironia do maestro. Como os míseros ateus invejamos descaradamente os que crêem...
28/01/2010. Antigamente, escritores praticavam o jornalismo para sobreviver. Hoje, há jornalistas que praticam a literatura por mera vaidade. No segundo caso, a literatura só tem a perder; no primeiro, a imprensa só teve a ganhar.
27/01/2010. O objetivo dos cursos de letras não pode ser mais o de preparar os alunos para os clássicos da literatura. Isto está absolutamente fora de qualquer cogitação. Se eles pegassem gosto pelos best-sellers do momento já seria o máximo: quase um negócio utópico! Confesso porém que, como professor de letras, não embarco nessa: vou continuar subversivo, com minha vendinha acadêmica, de uma porta só, oferecendo acesso aos velhos autores de sempre. Que se foda a expectativa dos nossos mimados discentes... Que universidade privada me daria essa liberdade?
26/01/2010. Tamanho não é documento. Chuva braba? Tempestade? Tromba d'água? Tudo isso tiro de letra. O que me derruba mesmo É aquela gotinha, Inesperada e precisa, Que cai do beiral E entra na gola da camisa.
25/01/2010. Marx estava quase certo: até sua época, escreveu ele em A ideologia alemã, os filósofos haviam interpretado o mundo. Só não conseguiu perceber qual devia ser a tarefa seguinte da filosofia: começar a organizar o mais que bimilenar almoxarifado do pensamento.
24/01/2010. Depois que a estrela caiu. Era uma estrela cadente Que, de repente, caía Na rua sórdida e fria: Cósmica, límpida, ardente. Quase em ponto de sangria, A grande flor do nascente Estava só entreaberta: Vinha amanhecendo o dia Muito, muito lentamente, Debaixo da névoa incerta Cobrindo a rua deserta Com seu lençol transparente. Era uma estrela cadente Que, de repente, lá ia Misturada em meio à gente Na rua sórdida e fria. Pela calçada deserta Ela ia só, tristemente, Dessa tristeza que aperta Com morsa o peito da gente. E em vez de manhã, que breu! Caída a estrela cadente, O dia claro e luzente De repente escureceu.
23/01/2010. A criança é um estágio intermediário, cheio de “sound and fury” , entre o Nada e o Ser. É recomendável que, nesse período preparatório, não seja tratada como bicho nem como anjo, pois a predisporia a viver, mais tarde, abaixo ou acima do nível das leis. Recomenda-se, também, overdose de moral cristã desde a mais tenra infância, de preferência temperada com culto religioso e medo do Inferno, para facilitar a ingestão da Tábua da Lei — que é um bife duríssimo!
22/01/2010. As revistas semanais melhoram consideravelmente quando, alguns meses depois de lançadas e livres da incumbência de apostar corrida com o tempo, são lidas em barbeiros ou consultórios médicos. Adquirem uma certa poeira historiográfica que tornam os fatos mais convincentes, mesmo os mais improváveis.
21/01/2010. Lembro-me bem que tu riste Quando eu de mim me dizia Ateu: — Pra mim, só existe O Deus da filosofia... Que ateu mais sem convicção!... Ateu não; talvez a-theo, No sentido de quem não Pôde ainda ver o Céu. Mas creio em Nossa Senhora, A Mãe do Filho do Pai, Cuja fé mais se afervora À medida que vai embora Essa vida que se esvai. Não sei de ateu mais cristão, Cristão que sempre se trai: Ateu tão sem convicção, Que volta e meia ergue a mão Pra fazer Nome do Pai.
20/01/2010. A tecnologia da informação aumenta tanto a área de luz como de sombra, no planeta. Se, na “aldeia global” pós-internet, ficou infinitamente mais fácil o acesso aos bens culturais da humanidade, tornou-se também mais fácil, na mesma proporção, a globalização do crime e da conspiração. “Numa era em que as polícias secretas, os serviços de inteligência e as organizações clandestinas de toda sorte cresceram até alcançar dimensões planetárias e agiram mais intensamente do que em qualquer outra época da História, a presunção de tudo explicar só pelos fatos mais visíveis e notórios é, francamente, de uma estupidez sem limites”, escreveu com razão Olavo de Carvalho. Cada vez mais, vamos ter duas Histórias: uma aparente, como a ponta do iceberg, e outra de fato, ou seja, o próprio iceberg, fundamento da protuberância enxergada pela maioria de nós. Esta dualidade — derivada da capacidade atual de agir com mais eficiência nas sombras — se espalha por todos os aspectos da cultura, inclusive nas artes, sobretudo na mais viva delas, o filme, que hoje pode ser “transportado” pelo cinema, a televisão, o DVD, a internet, o celular. Não há meio mais eficaz de manipulação psicossocial. Perto dos filmes de intenção propagandístico-ideológica de hoje, com seus truques sub-reptícios, os romances “engajados” do passado são ingênuos e inofensivos contos da carochinha.
19/01/2010. Tudo indica que a Dalva de Oliveira global, que posou de boazinha para melhor se encaixar na mensagem feminista do seriado Dalva e Herivelto, seja uísque falsificado (v. nota do dia 11/01). Parece que não foi gente tão fina assim... Um indício de que a roteirista Maria Adelaide do Amaral, autora da minissérie, pretendeu distorcer os fatos reais, em proveito da sua utilização ideológica, está na matéria que a imprensa publicou hoje, sobre uma filha que a cantora teve com um comediante argentino — Dalva Climent — e que não foi mencionada na obra. Segundo a advogada da filha, Dalva "mora na favela de Vigário Geral, Rio, em estado de miserabilidade e está com câncer". Dalva Climent, que tentou impedir a exibição de Dalva e Herivelto, estaria “movendo um processo contra Pery e Ubiratan Ribeiro, filhos de Dalva e Herivelto, mostrados pela minissérie. Seu objetivo é ser reconhecida como filha e ter direito a receber pelas músicas.” Contra a Globo, vai entrar com uma ação por danos morais e materiais. Segundo a Folha (19/01/2010), Maria Adelaide do Amaral se justificou dizendo que fez um "recorte" na história da cantora. "Meu foco foi a relação de Dalva e Herivelto. Na história e na obra do casal, ela não teve importância. Não estou dizendo que não foi importante para Dalva, mas que não fez parte do período que optei por retratar [ela não havia nascido nessa época]".
14/01/2010. Tive duas grandes emoções na vida: quando saí pela primeira vez com minha futura mulher, numa tarde de sábado em 1976; e quando conheci a serra da Canastra, em 1988. O cinema também costuma me emocionar. Gosto tanto de cinema, que já evito ver filmes e só assisto o mínimo necessário — pra que não se transforme em vício absoluto, absolutista. Já acreditei em Deus, depois fui ateu sem muita convicção e agora acho o cristianismo repressor, na versão católica, a melhor opção moral para a espécie, mas minha única e verdadeira utopia, num mundo radicalmente distópico, é morrer dormindo. Desejo, também, uma boa noite a todos.
11/01/2010. Com algumas boas reconstituições do passado radiofônico brasileiro e interpretações não mais que medianas dos atores, o seriado Dalva e Herivelto, da Globo, foi muito mais uma aula sobre as conseqüências nefastas do machismo, do que a história de um casamento infeliz entre dois artistas talentosos. As categorias da velha narrativa maniqueísta estão mais presentes que nunca: o Herivelto da roteirista Maria Adelaide Amaral é o bandido que arruína a vida da mocinha Dalva. O melhor da série foi a trama, embora montada para favorecer a intenção psico-socio-manipuladora (que antigamente a gente chamava de arte engajada) da roteirista: os momentos finais da história, com a agonia de Dalva em 1972 e sua expectativa frustrada de rever o ex-marido pela última vez, são contraponteados por longos retornos no tempo, que vão contando a vida da dupla e mostrando por que Herivelto foi tão malvado nos últimos minutos de vida da cantora. Os dois personagens centrais sempre se desencontram, pois vivem em épocas bem diferentes: ele é um anacrônico patriarca brasileiro dos anos quarenta e ela uma valente feminista dos anos sessenta. Mensagem da história: não há canção bonita, por mais belas que sejam algumas de Herivelto, que supere em beleza a prática político-libertária de uma mulher cansada de ser Amélia. Não há maior inimiga da arte do que a sua psico-socio-manipulação.
07/01/2010. Segundo Paulo Markun, seu atual manda-chuva, a TV Cultura oferece “aos contribuintes paulistas (que a financiam) educação, cultura, informação e formação crítica para o exercício da cidadania, sob a fiscalização de um Conselho Curador, democrático e plural.” É mentira. Formação crítica para o exercício da cidadania, na TV Markun, não passa de iniciação audiovisual ao marxismo. Outra mentira: não há Conselho Curador democrático e plural. Se a TV Cultura fosse plural, minha visão política e cultural estaria ali representada; e não está. Eu seria mais um telespectador da TV Cultura; e não sou. O dinheiro que sai do meu bolso, e ajuda a manter a Fundação Padre Anchieta, acaba financiando a exibição de documentários extremamente parciais sobre meio ambiente, minorias, questões agrárias. O Roda-Viva, que já foi “plural” na escolha dos entrevistadores e do convidado semanal, agora é um clube fechado do esquerdismo light. E as apresentações da Osesp, na Sala São Paulo, continuam na periferia da meia-noite, como sonífero de luxo ao pequeno público politicamente correto.
06/01/2010. Hoje em dia, bem pouca gente pode dizer de si mesma, autodefinindo-se: “Eu sou eu e minha circunstância.” A maioria das pessoas coincide inteiramente com a circunstância, sem nunca ter visto sequer a sombra do eu individualizador. A televisão, que é a principal universidade do país, pioneiríssima da universidade à distância, tem feito o que pode para acabar com a raça dos “indivíduos”, essa coisa nem tão antiga assim, conquistada a duras penas pela espécie humana nos últimos milênios. Criou a televisão um ambiente virtual que é muito mais concreto do que todas as salas e quartos que nele estão ancorados (nada é mais parecido com um barco à deriva do que uma casa que ficou de repente sem sinal de TV). Os canais são as salas de aula dessa universidade à distância. Há casas com direito a meia dúzia de salas de aula, outras com duzentas, mas no fundo as lições são sempre as mesmas: o telespectador pode mudar à vontade de canal, que o ambiente continuará o mesmo, ora tagarelando ostensivamente as mesmas palavras de ordem politicamente corretas, ora fazendo transitar as mesmas idéias de maneira sub-reptícia, usando os truques mais inteligentes da psicomanipulação. Filmes, seriados e novelas são terreno propício para essas operações que, como a injeção na veia, faz ligação direta entre o comando das lideranças (formadoras da opinião...) e a mente sempre aberta do vasto público. Perto dessas técnicas sofisticadas de controle, a literatura engajada de Jorge Amado parece um conto da carochinha.
03/01/2010. Os empresários acreditam que os petistas só brincam de Che Guevara, mas que, no fundo, querem o que eles sempre quiseram: dinheiro e poder. Na verdade, o PT disfarça o seu lado maquiavelicamente revolucionário com a fantasia do revolucionário de escola-de-samba. É uma operação muito sofisticada para quem se especializou em administração de empresas, mas pouco conhece de sociologia. Há, portanto, dois partidos num só: o PT dos dirigentes maquiavélicos, que aderem à política liberal pois sabem que só a paz econômica pode favorecer o trabalho “transformador” das bases, e o PT dos militantes obreiros, que vão realizar o trabalho braçal de ocupação do território burguês, seja pelo método do estupro, como nas penetrações sem consentimento praticadas pelo MST (favorecidas pelos petistas do judiciário), seja pela suave penetração de idéias radicais no currículo escolar da molecada ou no divertido mundo do espetáculo televisivo, para a qual o partido no poder conta com a importante colaboração do seu principal adversário político, o PSDB. O poeta Ferreira Gullar (Folha, 03/01/2010) acredita que a dificuldade de definir, atualmente, esquerda e direita seja “consequência do avanço das ideias progressistas. Conhece alguém que se oponha à construção de uma sociedade justa? Eu não conheço. Difícil mesmo é chegar lá.” Mas é justamente aqui que mora a diferença: nos métodos (que em grego significa caminho) para chegar lá. É extremamente conveniente, para a nomenklatura petista, convencer a militância de que o nobre fim de consertar radicalmente o mundo — “eliminar a exploração, a dominação, a opressão, a desigualdade, a injustiça e a miséria” — justificaria, por si só, o método mais torpe de ação, enquanto eles, mais expostos à mídia, posam de democratas liberais.
02/01/2010. Quem, hoje, melhor conhece a mentalidade vermelha (cor que está faltando na bandeira nacional) são ex-esquerdistas que passaram para o outro lado: “entregaram” todos os truques do pessoal.
01/01/2010. É evidente que nem todos os políticos de esquerda estão no PT; uma boa parte espalha-se pelos pequenos partidos coligados, pelo grande partido coligado, o PMDB, e pelo grande partido adversário, o PSDB (o que, feitas as contas, preenche mais de dois terços das cadeiras do Congresso Nacional). Nem todos estão no time que governa, mas, guardadas as diferenças estratégicas, coincidem ideologicamente. Quem tiver alguma dúvida quanto ao marxismo tucano, é suficiente dar uma espiada no programa e na prática da secretaria da educação do estado de São Paulo, cujo governo, nas últimas duas décadas, tem sido liberal nas finanças e socialista na cultura.
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