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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 53
31/12/2009. Já faz um bom tempo, Delfim Neto disse que o poder domesticaria o PT. Os empresários caíram nessa e, como sua ambição é só o sucesso imediato, ainda estão brincando de montar no burro aparentemente manso do Planalto, mas que continua xucro por trás da sela Armani. Enquanto o burro-chefe diverte a peonada, a tropa dos burricos militantes vai sendo deslocada para os escalões e postos estratégicos do Estado. Quem analisa bem esse rodeio caipira é Olavo de Carvalho, em seu site. Esse momento de apropriação do Estado é o mais importante, até agora, de uma luta que começou bem antes, há algumas décadas, nos anos setenta da ditadura militar, com os ditos “movimentos sociais” que, então, já se articulavam numa trama cada vez mais vasta, indo das aparentemente ingênuas agitações populares de bairro por água encanada, luz, transporte, creches, até operações mais ostensivamente políticas, como pressão por anistia a terroristas e demais presos políticos, fomento do racismo negro para combater o racismo dos brancos, invasões de terra (que, a partir de 1984, se organizariam sob a rubra foice do MST). O êxodo rural dos anos sessenta e setenta, mudando a cara das grandes cidades do país com o largo cinturão de pobreza mal assistida que se ia formando ao redor, foi prato cheio para a militância esquerdista e, logo em seguida, o tráfico de drogas. Foi aliás de outra bobeada dos militares — botar bandidos comuns e terroristas de esquerda em celas únicas —, que nasceu o crime organizado no Brasil. Há fortes indícios de que, em tal propícia circunstância, o tráfico de drogas e a militância esquerdista teriam somados esforços para a realização de seus objetivos particulares (o “pessoal” sempre adorou circular entre o fumo e o pó que, segundo Gôngora, era mesmo o destino incontornável del hombre), através da ligação continental do terror marxista com o narcotráfico. Sem partidos legalmente ativos, e com a censura à imprensa amordaçando o barulho socialista, outros canais foram acionados pelo “pessoal”: os sindicatos unidos pela CUT, a Igreja Católica (pontos de discórdia com os esquerdistas, como o aborto, eram estrategicamente esquecidos), e sobretudo a universidade pública, ocupada então por marxistas, feministas e homossexuais militantes, formados e diplomados na década anterior, antes do golpe militar. Esses grupos, com notórias dissensões entre si, também atuavam na mídia, sobretudo a televisão, que sabiam manipular com argúcia gramsciana. Essas divergências acidentais foram aparadas pelo PT, que logo surgiu para, com sua inegável esperteza sociológica, juntar em barco único tripulantes do mesmo time que, irracionalmente, ainda vestiam camisas distintas. Até a época do mensalão, o estatuto do PT usava a palavra leninismo para definir a orientação do partido, mas foi banida na cirurgia plástica a que foi submetido em 2007. Riscou-se o nome do guru, mas permaneceu mantida a mesma idéia totalitária de antes: o novo objetivo, a partir de então, ainda era a velha luta para “eliminar a exploração, a dominação, a opressão, a desigualdade, a injustiça e a miséria”. Ora, como não temer uma agremiação política, composta de “bichos da terra tão pequenos” como nós, que se arroga o poder exclusivamente divino de acabar com a imperfeição humana?
25/12/2009. Que é feito do Natal? Ficamos nós Sem Menino Jesus, sem Virgem Mãe, Imersos na água benta do champanhe Que faz Dioniso urrar por nossa voz. Seja pra quem convive, ou quem se isola Na longa noite do mais farto dia, É o mesmo espírito que cantarola Nossa angústia pagã, nossa folia De bichos estranhíssimos que entopem Os corredores lúbricos do shopping. Meu Deus, meu Deus, mas como gasta o povo! E, a cada cheque que feliz conquista, Contra-ataca risonho o balconista: — Feliz Natal e próspero ano novo!
22/12/2009. Um capitalismo boçal, progressivamente minado por idéias e atitudes socialistas, praticado por cristãos, budistas ou muçulmanos, é o que espera por meus netos na próxima curva cega da História.
21/12/2009. O Ser é mais longínquo do que nada. Infinitivamente tão distante, Pode estar bem mais perto, a cada instante, Do que a coisa mais próxima e tocada. Eterno brincalhão de esconde-esconde! Quanto mais perto a gente se aproxima, Mais ele sobe, etéreo, lá pra cima... Continua entre nós, só que bem longe.
20/12/2009. Bergson não tinha razão: a natureza também tem senso de humor. Por exemplo, quando disfarça bosta de cachorro com folha de outono para melhor capturar a sola do meu sapato.
19/12/2009. A música é a embriaguez do número. A matemática é uma canção paraplégica.
18/12/2009. A maioria dos alunos de Letras é fã do Chico, burguês com quem aprendem a contestar a ordem burguesa. Adoram o compositor que orgulhosamente estampou, na contracapa de um de seus discos, documentos que comprovam breve passagem sua, como ladrão romântico de automóvel, pelas emocionantes dependências da polícia paulista. Há um conhecido samba sobre malandragem, muito conhecido da moçada, em que o filho do Sérgio Buarque de Holanda fala no “malandro candidato a malandro federal”, feito inicialmente para criticar políticos desonestos e que, quem diria, ia servir como luva para os políticos do próprio partido do sambista.
16/12/2009. Aritmética conjugal. Eu + você = nós... cegos.
15/12/2009. Os alunos de universidade, em sua relação com a escrita, podem ser divididos em três grupos: os que escrevem mal, mas o fazem com a própria cabeça; os que, sem cabeça universitária mas dotados de extraordinária habilidade autodefensiva, preferem o recurso do copiar-e-colar do Word; e os que, também beneficiados pelo computador e a internet, aderiram a um tipo de escrita compilativa baseada na técnica da montagem, em que a organização individual do período é substituída por esperta organização de parágrafos alheios, colhidos aqui e ali na grande rede. Uma das mais acessadas fontes de informação da internet, a Wikipédia, usa esse mesmo método coletivista e tribal na construção de verbetes.
05/12/2009. Pavana para eu mesmo morto. As minhas profundíssimas poesias Guardei-as na dispensa, entre tranqueiras. Tive dó de queimá-las — e dos dias Inteiros que perdi, noites inteiras... Por que tanto desprezo por aquilo? Metáforas me cansam. Quero a voz Pobríssima dos cães, o tranqüilo Discorrer entre sombras sempre a sós. Fiquei mais pobre — eu que nada tinha? O meu pecúlio é já não ter mais nada. Leio pernas e seios nas calçadas Nuns textos só compostos de entrelinhas. Adeus às bibliotecas! Por filés Troquei o Dante, o Rilke, o Valéry. Olho de frente o mundo, não de viés. Nem antes nem depois: agora & aqui. Sou aprendiz da breve coisa humana, Assimilada ao vivo e sem teoremas. Estou com a vida e a vida nunca engana. Mas que saudade, juro!, dos meus poemas!
05/12/2009. Conversa filosófica sob o guarda-chuva. Como se coada Na gaze tonta Que cobre a estrada De ponta a ponta, Cai a garoa Aborrecida. — Que acha da vida? — Acho que é boa...
03/12/2009. Diálogo da luz e da sombra. — Tudo parece tão explícito outra vez! — Douram-se as coisas... É uma falsa nitidez. — Lustres e espelhos é o que o mundo mais produz. — A sombra, muitas vezes, veste-se de luz...
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