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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 52

 

 

30/11/2009. Dia internacional do silêncio.

Por que o silêncio pode mais que a voz

E, quando ficas muda e eu fico mudo,

Parece que o silêncio conta tudo

Que não soubéramos dizer de nós?

Proponho um dia internacional

Do silêncio — só pássaros se ouvindo...

No mais, somente a voz de cada qual

Consigo mesmo. Não seria lindo?

 

 

27/11/2009. O casal de crianças se diverte no banco do condomínio. Ela deve ter uns doze anos, ele um pouco mais. Durante os beijos, ficam de bico colado por longos minutos, ardentemente, alheios aos tsunamis em volta. Quem poderia dizer que não se trata de pedofilia?

 

 

25/11/2009. O sábio perneta.

1. A perna esquerda está perdida?

Mas pra tudo dá-se um jeito

Enquanto não se perde a vida:

Só levanto com pé direito...

 

2. A perna esquerda está perdida?

Só levanto com pé direito...

Pra quase tudo dá-se um jeito

Enquanto não se perde a vida.

 

 

24/11/2009. Os pop-rockeiros dos anos oitenta, no Brasil, retomaram a tradição engajada da MPB anterior e continuaram fazendo a cabeça do público jovem, então bastante ampliado. Seus representantes eram, quase todos, da classe média, tiveram formação universitária, acreditavam no socialismo, vendiam muito disco e levavam multidões aos shows barulhentos, cenograficamente multicoloridos — ambiente preferido para seduzir a moçada em transe, ritualisticamente dançando e berrando com braços erguidos.

As letras das “canções” (chamemos assim aquelas unidades musicais...) eram enormes, geralmente medíocres, mas revelavam claramente suas fontes “eruditas”, que podiam ser Pessoa ou Maiakovski, Neruda ou Aldous Huxley, Oswald de Andrade, Drummond, concretistas, geração beat, e tantos outros, além de ídolos do pop internacional, como os dois Bob, Dylan e Marley, John Lennon, Ray Charles, etc.

As letras “transgressoras” e seus autores já fazem parte do cânone acadêmico para dissertações de mestrado e teses de doutorado, geralmente escritas por jovens ou ex-jovens que iam àqueles espetáculos. Não há veículo mais eficiente de doutrinação revolucionária.

 

 

19/11/2009. Reflexões sobre um crime passional.

O por-amor-matar

Seguramente há de ser

O avesso complementar

Do por-amor-morrer.

 

 

15/11/2009. Aos nossos futuros mestres (hipótese metempsicótica).

Penso naqueles que, após

Milênios sob o chão duro,

Voltarão antes de nós

No mais distante futuro,

Abrindo, com sua voz,

Nosso caminho no escuro.

 

 

12/11/2222. Literatura tribal, feita para todos os sentidos, é a única que ainda pode ser ensinada nas humanidades da universidade multicultural, à qual todos, indiscriminadamente, tem acesso. Não me espantaria se um ex-aluno da APAE varasse a cerca frouxa dos vestibulares e acabasse especialista em Bakhtin. 

Um poema do Bandeira é muito mais respeitado quando lido em voz alta, e o respeito aumenta quando transportado por um veículo eletrônico. Os meios mudam, sempre mudaram. Não dependem de nós: ocorrem por misteriosa deliberação “histórica”, o que é o mesmo que dizer “por vontade divina”. 

Já fomos viciados em leitura tipográfica, quando o livro de papel era o rei das mídias. E quem garante não estejamos retornando à oralidade socrática, com as facilidades atuais de gravar e veicular a voz?

Nas oito horas semanais (ida e volta) em que viajo de carro, redescobri o prazer de ouvir os textos que eu mesmo escolho, eu que sempre fui fã do rádio (que me obrigava a ouvir também o que não queria). O saldo é sempre positivo: o octeto de horas passa rápido, e chego no meu destino rodoviário um pouco mais sabido (melhor diria sabidorido, mistura de saber e dor, sobretudo nas regiões glúteas, as últimas em que os engenheiros de carro popular parecem pensar).

A hora final, nessas viagens, quando o estresse do asfalto bate pesado, é sempre reservada ao programa filosófico-jornalístico semanal do Olavo de Carvalho, um satírico à Lima Barreto e Antonio Torres (não confundir com o homônimo ficcionista atual), transmitido nas noites de segunda-feirapor uma web-rádio americana. É o horaciano docere cum delectare onde deve mesmo estar: na filosofia e não na poesia.

 

 

10/11/2222. Conta-se que, no distante e concupiscente ano de 2009, num burgo da antiga província brasileira da Aldeia Global, uma falsa loira botou um minivestido vermelho (algumas fontes garantem ser rosa) e foi para a universidade aumentar o saber.

Cruzava, porém, as pernas de um modo tão elaborado, tão artístico, que a única coisa que aumentava era o pênis dos garotos (naquela época, o pênis dos garotos ainda crescia diante do prosaico espetáculo da nudez feminina).

Acabaria, por fim, quase linchada por colegas mais assépticos, “evangélicos”, como se dizia então, se não saísse quadrilateralmente escoltada pela polícia, envolta num pudico avental branco de laboratório.

Alguns dias depois, já transformada em mártir dos direitos sexuais ou incômoda transgressora da ordem acadêmica, era sumariamente expulsa da escola e pleonasticamente canonizada pela mídia.

O fato repercutiu. Uma entidade criada para defender o orgasmo múltiplo da mulher, chamada Movimento Feminista, promoveu um protesto com jovens usando minissaias, vestidos curtos e seios de fora (naquela época, a exposição total dos seios também fazia crescer o órgão masculino). Viam-se também travestis, homens que se vestiam de mulher; gays, homens que praticavam sexo com homens; sapatões, mulheres que praticavam sexo com mulheres, além outras minorias solidárias com a causa — minorias que, bem somadas, davam um total razoavelmente majoritário desfilando pelas ruas da velha Megapaulo, que era então uma pequena cidade (aglomerado urbano cercado bucolicamente de campos por todos os lados) com somente vinte milhões de habitantes.

A principal liderança do manifesto era uma senhora católica, pertencente a velha seita cristã já então quase totalmente dominada por certa teologia da libertação (doutrina que visava, muito espertamente, eliminar a idéia de Deus no próprio QG que a defendia), e psicanalista de profissão, atividade muito em voga naqueles idos tempos tão malucos, destinada sobretudo a preparar, teoricamente, a máquina humana para operar prazeres de natureza sexual, ao mesmo tempo que eliminava a culpa (sentimento desconfortável ainda muito presente no período, resultante de qualquer violação estatutária, sentimento milenarmente incrustado na alma, como era então chamado o software das pessoas).

Durante a passeata, a psicanalista católica desfilava no alto de uma geringonça denominada Observatório da Mulher, na verdade um carro alegórico (veículo destinado a um velho ritual religioso chamado Carnaval, inicialmente repudiado e logo aceito por aquela progressista seita cristã).

A psicanalista católica berrava contra as posições contraditórias e hipócritas da Megapaulo em relação às mulheres. Com um potente megafone, começou citando um certo Livro de Reis, capítulo dois, parte de um livro bem maior chamado Bíblia:

— A minha boca dilatou-se para responder a meus inimigos! A nossa cultura diz que a mulher tem que valorizar o corpo e mostrá-lo; ser bonita e ser gostosa. É o que estamos fazendo. Por que ainda somos castigadas quando assumimos nossa nudez com tranqüilidade?

Naquele dia, toda a Megapaulo parou para ajudar a promover a falsa lora do vestido vermelho. Quem não estava na passeata feminista estava filosofando nos botecos (lugares públicos em que se serviam certos entorpecentes líquidos fartamente consumidos pela população proletária). O assunto principal dos botecos girou em torno de um estranho tema que parecia, então, apaixonar as mentes masculinas e tanto desafia os antropólogos atuais: a falsa loira do minivestido vermelho usava calcinha ou não?

 

 

05/11/2009. Não há mandamento mais civilizado que o de respeitar o próximo. Impõe, no entanto, uma condição: que o próximo seja respeitável. O que quer dizer: só será respeitável se respeitar as mesmas coisas respeitáveis que eu respeito.

Mude-se a posição do sujeito e do objeto da ação, e os conceitos continuarão válidos. Não há mandamento mais civilizado do que o respeito do próximo por mim. Esse mandamento impõe, no entanto, uma condição: desde que eu seja respeitável. O que quer dizer: só serei respeitável se respeitar as mesmas coisas respeitáveis que o próximo respeita.

A respeitabilidade desses valores comuns foi estabelecida pelos que viveram antes de nós. Somos próximos enquanto estamos reunidos em volta dessa fogueira comum. Quem não pensa como eu, não se senta à minha mesa, disse o coro na Antígona.

Quem quiser questioná-los, tem todo o direito, desde que, durante a investigação, permaneça dentro daquela moral provisória a que se referia Descartes — que outra coisa não é senão o quadro de valores comuns estabelecido pelos que viveram antes de nós.

Se, ao final da investigação, descobrir que um valor deva ser substituído por outro mais valioso, terá um segundo e sagrado direito: de convencer o próximo pela argumentação. Giordano Bruno não conseguiu convencer a Igreja e, irracionalmente, preferiu morrer por suas idéias. É, certamente, o precursor daqueles que, mais tarde, não hesitariam em matar por suas idéias.

 

 

03/11/2009. A única utopia possível numa época revolucionária é o conservadorismo.

 

 

02/11/2009. Até os anos oitenta, o primo pobre da música clássica era a trilha de filmes. Entre as novidades da década seguinte, está nascimento do irmão mais novo do primo pobre: é a música para jogos eletrônicos, da qual não se podia esperar muita coisa, se não tivesse dado pelo menos um sério candidato a John Willians do videogame. Trata-se do talentoso compositor japonês Uematsu, cujas trilhas, depois do sucesso junto ao público dos joguinhos, andou merecendo adaptações sofisticadas para orquestra de concerto.

É lícito esperar qualquer coisa do talento (que, quando necessário, aparece onde for possível).

 

 

01/11/2009. Quando, com insistência muito suspeita, a Folha chama de golpismo a intervenção provisória e constitucional no governo de Honduras, está apoiando o verdadeiro golpista, aquele chapéu bigodudo que queria dar uma rasteira chavista na lei e aumentar o território fecal da esquerda latino-americana. No plano da opinião, o jornal paulista já vem fazendo isso há muito tempo: aumentar o território fecal das idéias.