|
NOTAS PARA UM DIÁRIO - 51
30/10/2009. Jogo de luz. Voltaram os vagalumes — Dançarinos de cristal. E as lâmpadas, no quintal, Queimaram-se de ciúmes.
28/10/2009. Este país é uma’merda — obrigatoriamente com cacófato.
23/10/2009. A principal objeção de Bertrand Russel ao marxismo tinha a ver com o elemento de violência dessa doutrina. O filósofo inglês acertou no nervo. Marx ressuscitou a velha máxima heraclitiana da guerra como mãe de todas as coisas: via, na lutas de classes, o verdadeiro motor da história, elegendo como meta principal das suas “forças armadas” o aperfeiçoamento da bélica maquininha. Daí para a oficialização da guerra conjugal e dos conflitos de geração, foi um pulo. Brigar com nossas mulheres, nossos filhos e nossos vizinhos passou a ser coisa dialeticamente saudável. Num contexto como esse, Sartre só podia mesmo definir o próximo como inferno. Aliás, ele e sua namorada mais próxima, dona Simone, devem ter brincado de inferno a vida inteira.
20/10/2009. Canção de São Pedro. São Pedro, pára com a chuva! Aqui tá chovendo demais. Faz chover no nordeste, São Pedro, Faz!
Água demais não faz bem, Mata mais que a luz solar: Chuva dos olhos de alguém, Pranto do céu sem parar.
Aqui choveu tanto, tanto, Que nada tem pra molhar. Por isso eu peço a meu santo: — Leva essa chuva pra lá!
19/10/2009. Depois do calor brutal, rosado de poeira ficou o céu. Por meia hora, a fúria do vento dobrou para o leste a cabeleira das árvores. E tanto o vento as sacudiu, que o comprido galho do mogno foi atirado sobre o muro da rua, por pouco não rompendo o cabo telefônico. Foi o que vi do meu escritório. Mais tarde, vi mais coisas pela tevê: casas destelhadas, acidentes no trânsito e uma enorme sibipiruna estirada na rua, tragicamente, abraçada que nem mãe às suas mil florinhas amarelas. O comentarista do telejornal — “Quem mandou fuçar tanto na natureza?” — culpava ferozmente o homem. Não qualquer homem, mas o homem com maiúscula, também conhecido como ser humano. Tanto escutou dizer que a serra dos madeireiros e as chaminés das máquinas eram as responsáveis pelas mudanças climáticas, que agora, mecanicamente, ele o repetia em cadeia regional, à imitação do comentarista da rede nacional. Como jornalista, certamente conhece outras hipóteses, a de que a terra, por exemplo, vem sofrendo ciclicamente esses aumentos de temperatura; que o Sol pode ter bem mais culpa que o capitalismo... No entanto, jogar a culpa nos descendentes de Adão dá mais audiência, sobretudo nos descendentes ricos de Adão. E um fato natural, de proporções cósmicas, acaba se transformando em mais um episódio da luta marxista de classes.
17/10/2009. Meu cachorro matou um passarinho e fui eu que paguei o pato. Enquanto passava pelo jambolão, um parente do assassinado mirou lá do alto a minha pessoa e descarregou, num só jato, toda a sua indignação. Podia ter feito na minha cabeça ou no rosto, mas preferiu — quanto capricho! — carimbar meu pulso esquerdo, que subitamente ficou tatuado de relógio, um reloginho cinzento me falando do tempo na mais enfática das linguagens e com a mais transitória das substâncias: a merda. Era como se dissesse: — Um dia, você é quem vai ser engolido pela cadela da morte...
13/10/2009. Mudança de valores. Depois de indagado por que, ao flagrar esposa e amante na cama, só matara a primeira, declarou calmamente o réu: — Ele estava no papel dele. Ela não. O júri o condenou por unanimidade. Não por assassinato, mas por machismo.
12/10/2009. Por esse corredor do prédio de Letras, onde se lê “Silêncio” numa pequena placa que já foi luminosa, passaram no início dos anos sessenta, para suas aulas, alguns medalhões da universidade paulista: o poeta Jorge de Sena, Antonio Candido, Rolando Morel Pinto, Naief Safady, José Carlos Garbuglio. São os nossos fundadores uspianos, que aqui ficaram pouco tempo. Voltaram depressa aos holofotes da capital, exceto Antonio Lázaro de Almeida Prado, que decidiu ficar em Assis e continuou passando pelo corredor “silencioso” até se aposentar, nos anos oitenta. Nem todos alcançaram a fama dos dois primeiros. Nenhum deles se iguala, em importância literária, ao poeta português. Todos, porém, representam uma universidade que não há mais e só sobreviveu a eles através de alguns de seus assistentes, por eles instruídos e orientados. Mas esses também não estão mais aqui: vestiram há quase uma década o pijama e os chinelos da aposentadoria, deixando a faculdade entregue à minha geração — a primeira geração formada nos ginásios e colégios do governo militar, de cujos currículos foram expulsos o latim, o grego, o francês, o alemão, o canto orfeônico, a filosofia, que a Nova República cuidou de manter bem longe de nossos filhos. Nosso repasto mental restringia-se a inglês, português, matemática, história, geografia e ciências naturais, que fizeram de nós pessoas mais objetivas, ou seja, mais facilmente adaptáveis à mentalidade especializante. Na velha plaquinha do corredor das Letras ainda se lê com dificuldade “Silêncio”, mas está quase sumido e nunca mais acendeu. Silêncio é que não há mais por aqui, sobretudo no corredor e especialmente na hora das aulas. Temos agora um tipo diferente de silêncio: o silêncio do espírito.
10/10/2009. Gosto muito de árvores. Toleraria de bom grado a sujeira que elas fazem, se um vizinho resolvesse plantar alguma nas minhas imediações. Mesmo sem ser um desses heróis verdes que aparecem na tevê com faixas contra o capitalismo, eu não chiaria de modo algum ao limpar minhas calhas e bicas, ou varrer folhas secas no corredor lateral. O diabo é que nunca tive a sorte de ter um mau vizinho assim. Eu é que sou um vizinho assim para os meus vizinhos: sempre, porque amo e planto árvores, objeto da sua ira anti-arboral. Se eu radicalizasse, iríamos certamente para o duelo, pois tão grande é o meu amor quanto o ódio deles por esses seres, que só se movem quando o vento quer ou quando os atinge a lâmina afiada do relâmpago. Tem hora em que procuro entender tanta ojeriza. Será o grande número de descendentes de vênetos que há por aqui, já que italianos preferem ruas e praças completamente peladas?
09/10/2009. Exercício bucólico com alexandrinos. Azul vai ser a cor do céu — se ela cantar. Se ela cantar — todas as fontes nascerão. E a luz do sol, e o som do vento, e a cor do mar Hão de virar, também, milagres da canção.
08/10/2009. Se a banda larga não tem mesmo limites, vai engolir tudo quanto é meio de transportar conhecimento: livro, correio, rádio, telefone, televisão. O que for por ela carregado, chegará mais rápido e mais longe, desde vídeos com abjeta pornografia infantil até as obras completas de Leibniz em áudio-gravação. Atualmente, as pessoas com más intenções parecem acreditar mais nessa realidade do que as outras, e já estão ocupando seus mega-espaços na Grande Rede. A universidade pública, por exemplo, não acredita muito. Quem, hoje, abrir o bico em defesa do net-curso, corre o risco de levar um velho apagador na testa. Ninguém tem o direito de privar nossos alunos da sagrada vivência acadêmica, ou seja, sexo promíscuo, maconha, catequese ideológica — projeto pedagógico que a universidade à distância pode atrapalhar... Lembro da velha piada do vereador caipira defendendo a realização de uma obra que, segundo aparte de um adversário, contrariava completamente a lei da gravidade. O vereador caipira, esbravejando com um soco na mesa, não deixou por menos: — Nós revoga essa lei, uai! Um dia, o tele-ensino vai ser tão natural como a lei da gravidade e nenhuma greve uspiana conseguirá revogar.
07/10/2009. A internet é o Hyde Park da aldeia global.
06/10/2009. A tradição da metáfora sensual, na Bíblia, vem do Velho Testamento e deságua no Novo. Nem o apóstolo Paulo, ex-Saulo, escapou dela: o cristão, para desposar Cristo, devia comparecer às núpcias como virgem pura, e levado por ele, Paulo, alcoviteiro do sagrado. Essa judeuzada talentosa nunca tirou um pé do chão, por mais que o outro se elevasse às nuvens (como gostava de dizer um poeta de Batatais, amigo meu). Fico imaginando, nalgum templo da Congregação Cristã do Brasil, as jovens de cabelos longos e saias compridas (ainda que bem justas) ouvindo essas doces sacanagens do pregador evangélico.
05/10/2009. Enquanto, na universidade pública em que trabalho, o presidente da Associação dos Procuradores do Estado de São Paulo fazia, para um auditório lotado de alunos universitários, uma douta palestra sobre o Direito como ferramenta de dominação capitalista e as “possibilidades de reinstauração de uma práxis coletiva reconstrutora da esperança”, bem longe daqui um bando de marginais, eufemisticamente ditos sem-terra, expulsavam colonos e destruíam sete mil pés de laranja, em fazenda produtiva do estado de São Paulo, numa brava manifestação de “práxis coletiva”, sempre em nome da justiça social e em perfeita consonância com o mandamento marxista da violência entre classes. O negócio é sério: quando guerrilheiros, defensores da ilegalidade, e poder judiciário, defensor da lei, começam a pensar mais ou menos igual, embora com diferenças operacionais, nuvens de merda certamente estarão se formando no espaço aéreo da nossa Dinamarca. Não quero estar aqui quando começar a chover.
04/10/2009. Treinados a só valorizar as publicações que passam pelo crivo de comissões acadêmicas, os professores universitários andam assustados com a facilidade atual de publicação de livros, seja pela internet ou na gráfica mais próxima de casa. O imprimatur das doutas comissões é tosca imitação moderna do antigo sinal verde dos censores eclesiásticos, muito mais cultos que nós — que não passamos de pobres especialistas contidos pelo tapa-olho, a rédea curta e a barrigueira bem apertada da selaria acadêmica, além de constantemente freados por regulamentos burocraticamente anacrônicos ou ideologicamente dirigidos.
03/10/2009. Tentei uma lista das coisas que mais poderiam ameaçar a minha felicidade (relâmpagos, doenças, ladrões, os modernos meios de transporte, a imagem do Lula na tevê), esquecido de que Shakespeare já o havia feito por mim, há cinco séculos, no célebre monólogo de Hamlet.
02/10/2009. Ela virou doadora de órgãos. Dos seus órgãos sexuais...
01/10/2009. De vez em quando, a pessoa comum ouve os seus botões. O gay só tem ouvidos para o seu botão.
|