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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 50

 

 

30/09/2009. Conselheiro Acácio resolveu, de uma vez por todas, o problema estético da força feminina e o problema físico da beleza do homem:

— A beleza masculina está na força. A força da mulher está na beleza.

 

 

28/09/2009. O leitor comum de romances tem todo o direito de preferir a obra e mandar às favas o autor, já que aquela lhe basta para o mergulho no poço fundo da ficção. O mesmo não acontece com o intelectual, que vive permanentemente atrás da trama furtiva da realidade, na qual autor e obra jamais poderiam se separar.

Essa ligação do escritor com sua obra não é assim tão visível, como pensava a crítica positivista. Não há determinismo nessa relação, em que o filho jamais poderia ser uma cópia do pai. Se o conhecimento da biografia dos escritores ajuda a conhecer melhor a obra, não é tanto pelas informações “complementares” que possa conter, como pelos misteriosos hiatos ou buracos negros que aparecem entre as esferas da biografia e da criação literária.

A vida do escritor só começa a interessar, evidentemente, depois do conhecimento das obras, mas não pode deixar de interessar ao leitor menos ingênuo, aquele que, ao assimilar o produto, é impelido como que naturalmente ao encontro do fabricante, não só para descobrir os truques empregados na produção, mas também a sua motivação mais profunda, experimentando, a partir daí, um movimento de vaivém contínuo entre os dois planos, o real do escritor e o ficcional das obras. 

 

 

23/09/2009. Que puta mão de obra era fazer um livro na Idade Média! Quando surgiram as universidades, entre os séculos XII e XIII, as escolas logo ficaram cercadas de artesãos e copistas, que atendiam aos pedidos de professores e alunos. Eram as máquinas de xérox daquela época; algumas, mais rápidas, gastavam  só um mês para entregar a encomenda, obra de arte de artesanato, em que caligrafia e iluminura se juntavam para o deleite do leitor, que ia depois dar vida às linhas grafadas com voz alta; era inconcebível, então, essa leitura silenciosa de hoje, quase sem timbre, totalmente contaminada pelo utilitarismo moderno. Quando Gutenberg apresentou ao mundo a sua maquininha mágica de imprimir, de início a relutância foi geral na aceitação do novo produto: como trocar os livros coloridos por aqueles tijolos alvinegros e impessoais?

Já se vê que o gibi não é tão novo como se pensa.

 

 

22/09/2009. Horário partidário gratuito na tevê.

— E agora, com vocês, o verbo blablablar. Eu blablablo, tu blablablas, nós blablablamos. Blablablai vós. Que eles blablablem!

O verbo blablablar nunca anda sozinho. Acompanha-o fiel e pegajosamente o verbo babar.

 

 

20/09/2009. Dois estudos poéticos com hipérbole e emoção relembrada em tranqüilidade.

1. Ó rio, chora por mim,

Pois já secou meu pranto

(Muito antes de ter fim

A dor, que ainda dói tanto).

2. Muito antes de ter fim

A dor, que ainda dói tanto,

Já está seco o meu pranto.

Ó rio, chora por mim!

 

 

18/09/2009. Tinha razão Tom Jobim: na canção brasileira, até os anos cinqüenta, predominavam os perdedores. A letra de “Fracasso”, de Mário Lago, é bem ilustrativa: “...só me ficou, da história triste desse amor, a história dolorosa de um fracasso.” Se não era derrota no amor, eram saudades de tempos menos complicados, dos bailes de outrora, das valsas bem rodadas, etc.

Vitoriosos, só os malandros de Noel Rosa & Cia., com seus João Ninguém e suas espertas conversas de botequim. Que futuro podia ter um país que só tinha duas saídas: ganir ou roubar?

Já estamos, a todo vapor, em pleno futuro. Os principais vitoriosos ainda são os malandros, mas trocamos a dor de cotovelo pelo outro lado do disco: a concupiscência generalizada.

 

 

17/09/2009. Um veículo, quando funciona bem, não precisa de assistência técnica. É o caso da internet, veículo transportador de informações audiovisuais. Mas não é o caso do veículo chamado livro, que ultimamente não sai da oficina.

Quem anda querendo dar uma “mãozinha” a esse velho e lento meio de transporte é o Lula, seu mais notório inimigo: o governo, numa típica e malandra mesura com chapéu alheio, deverá mandar ao congresso um projeto para a criação de um fundo de incentivo ao hábito da leitura, tributando em 1% o faturamento de editores, livreiros e distribuidores.

“Assim que o fundo for criado”, avisa o Ministério da Cultura, “a contribuição a ser recolhida propiciará recursos para financiar projetos, programas e ações do setor público e da sociedade civil de fomento ao livro e à leitura”, o que, traduzido no mais eloqüente português implícito, significa aquilo que a gente já sabe muito bem.

 

 

16/09/2009. O escritor Ruy Castro, deslumbrado com a grande afluência do público à bienal carioca do livro, garante que o livro não sofre ameaça alguma de outros veículos transportadores de conhecimento. Mencionou o CD e o DVD, mas por que se esqueceu da internet?

Segundo ele, o livro é bonito, gostoso, portátil e não precisa de máquina para tocar. Concordo plenamente; uma página de livro é, ainda, muito mais agradável que uma tela eletrônica. Mas quem pode garantir que vai ser sempre assim? Se não precisa de máquina para tocar, precisou de uma bem sofisticada para ser feito; e, se ainda não tem a instantaneidade de um café expresso, certamente vai chegar lá, mas sempre dependente da tecnologia, como o CD, o DVD e a internet.

Honestamente, ninguém pode negar que, enquanto veículo de informação prática, destinada a virar ação imediata, o livro já foi superado de longe pela rapidez da internet. Agora, quanto à literatura, é preciso considerar o seguinte enrosco: de um lado, a perfeita adequação do livro para transportar as obras-primas que para ele foram feitas e sem as quais, nós, leitores acostumados a esse tipo de meio, não podemos passar de forma alguma; de outro, porém, a concorrência atual de outras mídias para o transporte de narrativas ficcionais, como o cinema e a tevê, muito mais “envolventes” e adequadas ao tipo de sensibilidade predominante, treinada no uso simultâneo dos sentidos. Essas condições perceptuais (no sentido do McLuhan) das novas gerações, parecem torná-las menos dispostas ao saboreio do velho prato principal dos biblio-ratos, entre os quais desavergonhadamente me incluo.

O livro precisa só de nós, disse o Ruy Castro no final da sua crônica, embora concluindo de modo um tanto surpreendente para quem tanto tinha gabado suas virtudes: “Neste momento, mais do que nunca, talvez.” É uma frase que soa como lamento de torcedor para time lanterna: o livro precisa não só do subsídio de nossa mão para abri-lo e segurá-lo, mas de também do subsídio da nossa “mãozinha” consumidora para que ele continue competindo na disputa midiática.

Ora, direis, tudo no capitalismo precisa de marketing & propaganda. Vamos, então, promover a charretinha do livro...

(Cá entre nós, nada tenho contra charretes, desde que não se maltratem as éguas. Só acho que o livro não tem muito futuro como coisa de massa. Estou com Vargas Llosa: o público do livro será cada vez mais seleto, e a publicação, valendo-se dos truques tecnológicos, será cada vez mais uma obra de arte de editoração).

 

 

13/09/2009. A desbocada Dercy Gonçalves era a anti-mulher por excelência. A maior prova disso é que só pode haver “uma” Dercy Gonçalves, cuja maior graça era não ter graça alguma: uma excepcionalidade caricata.

O pudor é parte essencial da graça feminina. Convive bem com qualquer tipo de roupa, ou até com a ausência absoluta delas. Assim como pode haver a maior malícia na única parte descoberta de um xador, pode a mulher de biquíni fechar-se no mais delicioso recato. Nada é mais provocante do que uma nudez discretamente envergonhada. Natural nas horas de maior recolhimento, não atrapalha as de total entrega (até pelo contrário).

Se o cristão é o sal da terra, o pudor é o sal da fêmea.

 

 

12/09/2009. A mulher do meu virtual bisneto provavelmente ainda não está viva. Nem concebida foi. Não sabemos quem será seu pai e sua mãe. Mas ela já existe nalgum ponto do infinito, como noutro ponto já existirá meu futuro bisneto, aguardando-se ansiosamente. É essa ansiedade que move o universo. A vida futura já existe, só que noutra órbita do tempo. Poderia conhecê-la melhor, se eu não fosse tão ruim em cálculo de probabilidades.

 

 

09/09/2009. Mesmo explicadas, há coisas que continuam estranhas. Uma delas é essa misteriosa, embora bem sucedida, parceria do homem com o cachorro, tantas vezes até superior à parceria entre humanos. Não há nenhuma lei moral ou religiosa que me impeça de tratar um animal que late como meu próximo, muito mais do que essas verbosas criaturas que aparentemente se parecem comigo, mas com as quais não tenho a menor afinidade.

 

 

08/09/2009. A realidade miraculosamente persuasiva dos sonhos, mesmo depois de explicada em detalhes pela neurofisiologia, vira para o outro lado da cama e retoma o sono interrompido, voltando a fazer parte do mundo mágico. 

 

 

07/09/2009. Foi através do rádio, por volta de 1970 ou 1971, que começou a chover na roseira da MPB. Na Rádio Jornal do Brasil, só sintonizável à noite e na faixa de ondas longas, ouvi então uma entrevista com Antonio Carlos Jobim por ocasião do lançamento da jazz-valsa “Chovendo na roseira”. Um dos entrevistadores era o Edino Kriegger, o grande nome atual da música de concerto. Choveu tanto na roseira da minha vitrola, que já não consigo mais escutar a bela canção jobiniana. Essa é uma das maiores decepções do degustador de música popular: saber que jamais reviverá a experiência da primeira vez em que ouviu certa canção, que foi se desgastando nas sucessivas audições até chegar ao esvaziamento quase total.

 

 

06/09/2009. O rádio ensinou coisas que nunca aprenderia no ginásio. Por volta de 1970, descobri algumas emissoras diferentes das sintonizadas por vovô. Quase só com programação de música de concerto, e sintonizáveis até que razoavelmente em ondas médias, passava de vez em quando o ponteiro pela Rádio Cultura, de São Paulo e da Rádio MEC, do Rio. Foi nelas que aprendi a gostar de música clássica, em meio ao fogo cerrado e cruzado das canções populares. Certamente, comecei a ouvir por ser coisa chique, mas continuei ouvindo pois logo percebi que ela oferecia alguma coisa além do que as canções podiam dar.

Da Rádio Cultura, ainda me lembro de duas vinhetas musicais: alguns compassos da Sinfonia Clássica, de Prokofiev, e de um “ponteio” de Camargo Guarnieri. A Rádio MEC também tinha, além da música, um programa aos sábados chamado “Quem conta um conto”, que era um misto de leitura e dramatização de histórias curtas, com inevitável jeitão de rádionovela. Nele ouvi, entre outros, “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto, e uma história, da qual desconheço autor e título, em que o protagonista ouvia o Bolero, de Ravel, obsessivamente tocado em misterioso apartamento vizinho. 

 

 

05/09/2009. O antigo aparelho de rádio ABC hoje é meu, depois de cuidadosamente embalsamado. O verniz brilhante de poliuretano deu cara nova à caixa de imbuia, foi trocada o tecido do alto-falante, que o tempo “sporcaccion” ensebou e puiu. Um velho rádiotécnico da cidade trocou algumas válvulas do seu coração e substituiu a lâmpada queimada do dial, deixando bem limpo a escala do vidro preto e o ponteiro vermelho. Enfim, como se tivesse recém saído da fábrica, virou um belo e proustiano objeto que enfeita uma velha cristaleira que foi da minha avó e traz mais lembranças do que sons (as espertas ondas longas, médias e curtas são hoje marolinhas cansadas).

Em respeito a seu passado, que também foi meu, não o ligo mais.

 

 

04/09/2009. Em literatura, quem menos briga por direito autoral é o autor. Se a obra saiu como queria, já se considera milionariamente pago.

 

 

03/09/2009. Final de poema pirateado da internet.

...já que satisfazer

o apetite mental,

quando a comida custa

mais que a quantia justa,

não é roubo, é dever

espiritual.

E a quem rouba ladrão,

cem anos de perdão

virtual.

 

 

02/09/2009. De um gazal de Hafiz.

O amor é parecido a um mendigo qualquer,

No entanto esconde, sob os trapos, um tesouro.

Venturoso é quem pede esmola a esse esmoler:

Pode ganhar — surpresa! — uma coroa de ouro...

 

 

01/09/2009. No final de 1968, ano em que a imaginação tentou tomar o poder, Prudente de Moraes, neto, escreveu que o artista só conseguia ser reconhecido, pela crítica especializada, se tivesse um compromisso explícito com a renovação, convicto de que a volta a soluções passadas “representaria uma perda de substância, após uma evolução que lhes acenou com a missão transcendente de exprimir e resolver os problemas essenciais da vida.”

Sua cabeça estava feita para buscar um caminho novo para as artes. “Ora, aqui é que as coisas engrossam”, pensava Prudente, “pois as artes, as belas-artes, estão com seus caminhos fechados, já há algum tempo.” “Admitem, ainda, que lhes seja dado encontrar o mapa da mina — da sonhada mina que já não existe mais.”

“Seu destino provável — por menos agradável que seja reconhecê-lo — é reintegrar-se no papel decorativo, o que lhes reduz consideravelmente as possibilidades filosóficas. O que lhes resta é caminhar para um convênio com a arquitetura, a fim de se incorporarem nela, que lhes pode ainda reservar função condigna, capaz de lhes assegurar a sobrevivência.”

Diante de tal redução da arte a funções menores, o impulso romântico e revolucionário do artista levava-o ao desespero, fazendo-o confundir inovação com extravagância, que, a rigor, nunca foi a razão de ser das artes. Isso podia levar a um rápido momento de prestígio e fama, mas não à sonhada mina da renovação. Minas não há mais, diria o poeta...

“A consciência desse momento dramático ainda não se fixou no espírito da maioria dos interessados. Desconhecem a profundidade e a universalidade do seu drama e esperam da lavagem de cérebro, que os liberte dos compromissos talvez indevidamente inseridos no aprendizado do seu ofício, a independência de movimentos que lhes permitam concorrer ao torneio dos desesperados.”