Voltar à página inicial

 

NOTAS PARA UM DIÁRIO - 5

 

 

1 de janeiro de 2006. “No 2000 chegarás, do 2000 não passarás”, dizia o finado avô. Já estamos com cinco anos de lucro. Ele partiu antes, para não se decepcionar com a profecia falhada. Mas, num certo sentido, estava com a razão: o ano de dois mil pode ser o marco definitivo de um novo tipo de homem, esboçado no Renascimento, iniciado na Revolução Industrial e com perfil bem definido na atual Era da Tela. Um homem mais afinado com a máquina que consigo mesmo.

Felizes anos velhos!

 

2 de janeiro de 2006. A maldade não foi inventada no ano que terminou. Caim já traficava drogas e comandava o crime organizado. Enquanto seus descendentes assaltam lares e lojas, jogam aviões contra Nova York, declaram guerras contra velhos e crianças, os descendentes de Abel consomem sem trégua no shopping mais próximo, congestionam o trânsito, submetem-se à televisão.

Cristo, grünewaldianamente preso à cruz, nada pode fazer.

 

3 de janeiro de 2006. A compaixão pela humanidade que sofre não pode dispensar a beleza. O bem sem o belo talvez não passe de um deserto bem organizado. Mas a beleza não é uma conquista fácil — o belo é só o começo do terrível, escreveu Rilke —, e é por isso que os “moralistas” desistem de buscá-la. Platão já tinha percebido como os artistas podiam dificultar o funcionamento da República.

Platão não teria lá a sua razão? Artista é bicho complicado, exigente demais, e a sociedade não poderia se pautar pelas suas exigências. Uma sociedade que sonha com a perfeição deve se contentar, paradoxalmente, com a mediocridade. Só o homem medíocre, que não aprendeu a rir de si e do mundo, tem o direito de atingir a condição de máquina perfeitamente integrada ao maquinário.

O bem é mais natural que o belo?

 

4 de janeiro de 2006.

O jovem navio,

Sempre a navegar,

Nem viu quando o rio

Acabou no mar.

E o mar engoliu,

Com fome voraz,

O velho navio

— Para nunca mais.

 

5 de janeiro de 2006. A felicidade hedonista é uma trégua entre duas dores. Um cessar-fogo provisório. Mas há uma felicidade que, além da dor e do prazer, mas incluindo os dois sentimentos, consiste sobretudo em pensar.

 

6 de janeiro de 2006. Minha cidade, pobre Batatais!, está a trinta e poucos quilômetros de Ribeirão Preto, com mais de quinhentos mil habitantes, e a quarenta de Franca, com trezentos e cinqüenta mil. Ligando tudo, os canaviais sem fim e um verniz de primeiro mundo escondendo o terceiro, formado sobretudo de migrantes, atraídos do Brasil miserável logo acima. E a miséria, o poeta me perdoe, é feia, áspera, intratável!

 

7 de janeiro de 2006. Segundo F., nesse mundo massificado, igualitarescamente nivelado por baixo — o socialismo estabelecido sem revolução —, são revolucionários todos os que não acreditam em verdades absolutas no palco miserável da história, e defendem os valores do indivíduo contra a imbecilidade coletiva, a gentileza contra a grosseria, a generosidade contra o ressentimento, a amizade contra o coleguismo ideológico, a coragem contra a adulação. É a nova esquerda, garante o amigo L. A.

 

12 de janeiro de 2006. Descendo de Avaré a Itararé, vê-se que o sul de São Paulo não rima só com palavras. Todas as colinas, vermelhas, terra “rossa”, estão cobertas de milho e soja. A praga da cana ainda não foi rogada por aqui.

# Relativamente tranqüilo no volante, depois do pé-d’água na travessia de Ponta Grossa. Da rodovia dá para ver um pouco das esculturas naturais de Vila Velha. Os assaltantes atendem, aqui, pelo nome de pedágio. Lembro do tio Paulinho, que também era meu primo. Era o piadista da família: “As moças de Curralinho gostam dos rapazes de Ponta Grossa”.

# Escurece de Curitiba a Joinville. Ameaça de chuva. Leio placa em espanhol, sugerindo ao motorista dirigir durante o dia — es más agreable. Sucessivas curvas fechadas, em descida que não tem fim. Os dois ouvidos estão tapados. Não ouço o motor do carro, nem dos caminhões que ultrapasso. Surdo como vovô Condo. E pensar que vou paralelo ao velho e noturno Atlântico, trinta quilômetros para lá, atrás das montanhas catarinenses. O caipira estremece: perfeita sensação de insegurança.

 

13 de janeiro de 2006. As velhas casas alemãs de Jaraguá, sem muros e cerca elétrica, estão perdidas no meio de uma cidade já dominada pelas indústrias e os automóveis rapidíssimos. Há coisas boas na tecnologia, mas em geral é uma droga. Sem fazer coro com hippies, ambientalistas, etc., não tenho dúvida nenhuma de que a técnica, se continuar tomando conta do homem, vai acabar com o mundo, com o homem e consigo mesma. A técnica não pensa, mas estamos deixando que ela decida.

Jaraguá é o terceiro ICMS do estado, embora não passe dos cento e cinqüenta mil habitantes. Só perde para Joinville e Blumenau. Esparrama-se como um polvo pelo vale do rio Itapocu, de águas verdes e mansas. Os morros, em volta, lembram Minas Gerais. Garantem-me que do alto do morro do Boa Vista posso ver o mar — na hipótese de eu chegar vivo até lá em cima.

Árvores. Nunca vi tanta árvore numa cidade. Fico imaginando como esta cidade era agradável antes do barulho e do trânsito doido. As montanhas parecem Poços de Caldas, embora nada mais diferente de um mineiro do que um catarinense. Diferença acidental, evidentemente. No fundo, somos todos filhos de Deus, filhos bastardos de Deus.

Se Santa Catarina parece Minas na paisagem, é pura São Paulo na vida prática. É preciso incentivar a migração de mineiros, para dar um ritmo mais introvertido a essas belas montanhas, povoar as ruas da cidade com a reservada cordialidade mineira.

 

14 de janeiro de 2006. Faço minha estréia no litoral catarinense, na ilha de São Francisco. Praia famosa, me dizem, Ubatuba, mesmo nome da paulista. Mal desço do carro, entro de novo. A estréia não durou dois minutos. Estraguei o passeio de quem veio comigo. Coisa abominável. Toda a bela orla marítima dominada por casas alugadas para a temporada, com churrasquinho, música sertaneja, barrigudos. Como as velhas ficam horríveis de maiô!

Vou para o outro pólo da ilha, onde está o centro histórico de São Francisco. A coisa muda completamente de figura. Aqui me sinto bem. Pouca gente nas ruas. É uma das cidades mais antigas do país. A Cananéia que deu certo, bem cuidada. É meio-dia, o sol queima, o calor sufoca, mas há brisa. Desprezo os peixes do cardápio e almoço uma alcatra macia ao lado do mar, com as águas batendo no porto.

 

15 de janeiro de 2006. Domingo de manhã. Saio para buscar um jornal catarinense e passo pela catedral aberta. Subo como um penitente a escadaria. O padre e o sermão do padre. “Todos os rios dão na morte. Os difamadores da morte são inimigos da paz. Lázaro estava coberto de Deus, não de lepra”, garante o padre com sotaque gauchesco. Desço os sessenta degraus já alimentado para o resto do dia. Esse padre é um poeta. Já pode candidatar-se para a Academia Catarinense de Letras.

 

16 de janeiro de 2006. A simpatia talvez não seja o melhor produto catarinense. Ninguém cumprimenta ninguém. Quem é vizinho de Minas estranha um pouco. Mas, em compensação, o centro da cidade é limpo, sem lixo, sem mendigos, sobretudo sem manos de bermudão e boné para trás.

Mas a grosseria está generalizada: é o produto mais bem distribuído do socialismo capitalista. Forçando uma parceria Rimbaud/Drummond: por delicadeza perdemos o bonde e a vida. A falta de educação é uma conquista geral. Ninguém precisa se sentir frustrado.

 

17 de janeiro de 2006. Bom exercício de discernimento, ao caminhar pelas ruas de Jaraguá, é distinguir as moças alemãs das moças italianas. Nem sempre é possível. Num dos cemitérios da cidade, desses que sobem morro, li várias lápides com sobrenomes misturados, alemães com italianos.  Mas a melhor surpresa não veio de uma moça e sim de uma velha que vi no banco traseiro do Corça: era a cara da tia Giusta.

# No supermercado. O segurança careca, empertigado entre as prateleiras de enlatados, era um oficial da Gestapo.

 

18 de janeiro de 2006. Na estrada para Pomerode, pequena cidade também esparramada num vale verde, nada parece Brasil. Na venda, peguei o pote de melado e um saquinho de bolachas orelha-de-gato. Tudo produção local. O dono falava alemão com o freguês e, em mal português, veio atender-me.

— Minha futura nora também é de São Paulo — e disse o nome da pequena cidade, perto de Marília. — Moreninha, mas muito boa pessoa.

 

19 de janeiro de 2006. Faz bem viajar a um estado que não se parece com o Brasil.

 

21 de janeiro de 2006. Evidente que a mitificação de Santa Catarina se deve ao pouco tempo que passei lá. O senso crítico também merece férias. Não é possível viver o tempo todo julgando — de espada na mão, como diria Schopenhauer. Se eu fosse um lavrador do oeste catarinense, talvez sonhasse em vir para São Paulo, a terra onde se junta dinheiro com rastelo, como dizia a nonna italiana.

 

22 de janeiro de 2006. Algumas vezes, vem uma vontade incontrolável de escrever — as mãos formigam, a cabeça ferve... São alguns sintomas. É preciso fingir que escrevo para a vontade passar. Depois arranco a folha do caderno, amasso-a e pratico tiro ao alvo no cesto de lixo.

Com essa meia-dúzia de linhas também foi assim.

 

23 de janeiro de 2006. Isso de escrever é mesmo uma coisa complicada. Há vezes em que tenho assunto, mas as mãos formigam tanto, ferve de tal modo a cabeça, que não é possível completar uma única frase. A expressão permanece teimosamente aquém do assunto, sem merecê-lo. Só dando uma volta por aí, ou deixar para o dia seguinte.

Nas poucas, raríssimas vezes em que houve coincidência perfeita — na medida das minhas evidentes limitações — entre a vontade de escrever e a presença do assunto, senti o que se poderia chamar de felicidade. É um estado tão raro que, por isso mesmo, vale a pena esperar pela próxima vez.

 

24 de janeiro de 2006. Paro o carro no sinaleiro e a moça se aproxima — belamente suja. Está coberta de farinha de trigo, fedendo a ovo, com maquiagem de índio.

— Uma moedinha pro “bicho”, tio — implora.

Minto com a maior cara de santo:

— Infelizmente, não tenho nem uma aqui...

Ela agradece e vai mendigar no carro de trás. Deve ser pagamento de promessa, depois do massacre dos exames: uma incluída assumindo, ao menos por algumas horas, a condição de excluída. É bom treino, também, para ingressar definitivamente no capitalismo socialista, mantendo na ponta da língua o discurso igualitarista, sem abrir mão, nem um milímetro, da prática competitivo-consumista.

De qualquer modo, é uma atitude bem simbólica: o primeiro gesto do universitário brasileiro é pedir esmola.

 

25 de janeiro de 2006. A gorda da vigilância sanitária mora no Vixe (apelido interjetivo da periferia mais distante de Canaviais) e é uma brava soldada na guerra contra a dengue. Se não fosse ela, estaríamos todos fodidos.

Faz questão de apertar o interfone do sobrado de classe média, onde mora, provavelmente, a moça da nota anterior que passou no vestibular. A empregada abre o portão e ela vai até o quintal gramado, impecavelmente limpo. Pergunta, só por perguntar, se a piscina está clorada. Ela sabe que está. Elogia, gira os olhos gulosos pelo ambiente de novela da Globo.

Curiosa como é, adora a profissão. Sempre vê coisas e casas diferentes. No entanto, perto do sobrado da moça que passou no vestibular, há um bairro em que quase todas as casas são suspeitas de mosquito, mas ela bate em cada porta só uma vez. Se não atendem logo, não insiste. Detesta fiscalizar bairro de pobre.

 

26 de janeiro de 2006.  Invejo sinceramente quem crê em Deus, mas dispenso fanatismo.

— Deus, pra mim, é uma coisa muito íntima. Prefiro não falar sobre ele — disse a um Testemunha de Jeová, da última vez em que fui assediado.

Frases de efeito não dobram fanáticos. As estratégias anteriores também não funcionaram. Se me apresentava como católico, era alguém que podia ser convertido e me tocava escutar pregação. Se dizia que era ateu, feria ainda mais fundo a veia missionária do pregador.

Da próxima vez, vou dar troco com a mesma moeda e dizer que pertenço a uma severa seita — quem sabe uma Congregação Universal do Verbo Silente — que proíbe aos adeptos conversar sobre religião, com ameaça de fogo satânico a quem infringir o dogma.

 

27 de janeiro de 2006. O mundo não quer mais saber de literatura. Pior, evidentemente, para o mundo. Adianta estar convicto de que os abismos, os labirintos, as complexidades da vida se exprimem melhor nos dramas, nos poemas, nos contos e nos romances?

A arte de hoje é o cinema. Não o grande cinema de Bergman ou Fellini, mas o filme de entretenimento, cheio de (d)efeitos especiais. Cinema, música pop, instalação. A deformação caricaturesca da arte moderna acabou com a pintura. Cézanne é dos últimos. Como o dodecafonismo é o fim da música praticada por seres humanos. Tudo a mesma merda. O que mais mereceremos, Senhor?

 

28 de janeiro de 2006. Escritor, para ser publicado, deve seguir receitas da moda. Há várias à disposição do candidato. O negócio é escrever para o Mercado. Mas nem tudo está perdido: a internet soluciona o problema dos diletantes, que podem se apreciar a baixo custo, sem gastar com publicação.

 

29 de janeiro de 2006. Santamente indignado com a facilidade com que alunos burros ingressam no curso de letras, formando a maioria da classe, prof. Hildo Rielli começou a dar nota dez a quase todos. Ou seja, fazer o que virou moda: premiar a incompetência (to be) contra o mérito paciente (or not to be).

Só reprovava os poucos inteligentes. Quanto mais inteligente, mais próximo da zona fria do zero. Inverteu as pontas da fita métrica.

— Numa escola assim, vocês merecem ser cruelmente reprovados. Deixem a falsa vitória aos ineptos.

Os poucos alunos reprovados até entenderam o método do mestre, e intimamente aplaudiram. Mas — e o futuro feijão das criancinhas? A vida prática tem razões que a própria razão, etc. Prof. Hildo foi objeto de várias reuniões departamentais, intra-departamentais, pós-departamentais. Numa delas, a solenemente última, ficou decidido por milhares de votos a zero que ele devia ser submetido a uma perícia médica e afastado de suas funções, para o bem das letras.

Há quem ache — cá entre nós — que ele fingiu hamletianamente um método. Fingiu de doido para escapar da insanidade geral. Não é como doido que ele vive agora, numa tranqüila chácara mineira, aos pés de uma montanha muito alta, dessas que seguram valentemente o mundo do outro lado.

 

30 de janeiro de 2006. Diante da injustiça, há duas atitudes nobres: quixotismo ou resignação. Uma terceira — os velhos e esburacados caminhos legais — é para as almas pequenas.

 

31 de janeiro de 2006. Pobreza já foi produto da luta de classes, já foi ideal de vida. Hoje, no programa Fome Zero, virou meio de vida.

 

 

1