1 de janeiro de 2006.
“No 2000 chegarás,
do 2000 não passarás”, dizia o finado avô. Já estamos com cinco anos de lucro.
Ele partiu antes, para não se decepcionar com a profecia falhada. Mas, num certo
sentido, estava com a razão: o ano de dois mil pode ser o marco definitivo de um
novo tipo de homem, esboçado no Renascimento, iniciado na Revolução Industrial e
com perfil bem definido na atual Era da Tela. Um homem mais afinado com a
máquina que consigo mesmo.
Felizes anos
velhos!
2 de janeiro de
Cristo,
grünewaldianamente preso à cruz, nada pode fazer.
3 de janeiro de
Platão não
teria lá a sua razão? Artista é bicho complicado, exigente demais, e a sociedade
não poderia se pautar pelas suas exigências. Uma sociedade que sonha com a
perfeição deve se contentar, paradoxalmente, com a mediocridade. Só o homem
medíocre, que não aprendeu a rir de si e do mundo, tem o direito de atingir a
condição de máquina perfeitamente integrada ao maquinário.
O bem é mais
natural que o belo?
4 de janeiro de
2006.
O jovem navio,
Sempre a
navegar,
Nem viu quando o
rio
Acabou no mar.
E o mar
engoliu,
Com fome
voraz,
O velho navio
— Para nunca
mais.
5 de janeiro de
6 de janeiro de
2006. Minha cidade,
pobre Batatais!, está a trinta e poucos quilômetros de Ribeirão Preto, com mais
de quinhentos mil habitantes, e a quarenta de Franca, com trezentos e cinqüenta
mil. Ligando tudo, os canaviais sem fim e um verniz de primeiro mundo escondendo
o terceiro, formado sobretudo de migrantes, atraídos do Brasil miserável logo
acima. E a miséria, o poeta me perdoe, é feia, áspera,
intratável!
7 de janeiro de
2006. Segundo F.,
nesse mundo massificado, igualitarescamente nivelado por baixo — o socialismo
estabelecido sem revolução —, são revolucionários todos os que não acreditam em
verdades absolutas no palco miserável da história, e defendem os valores do
indivíduo contra a imbecilidade coletiva, a gentileza contra a grosseria, a
generosidade contra o ressentimento, a amizade contra o coleguismo ideológico, a
coragem contra a adulação. É a nova esquerda, garante o amigo L. A.
12 de janeiro de
2006. Descendo de
Avaré a Itararé, vê-se que o sul de São Paulo não rima só com palavras. Todas as
colinas, vermelhas, terra “rossa”, estão cobertas de milho e soja. A praga da
cana ainda não foi rogada por aqui.
#
Relativamente tranqüilo no volante, depois do pé-d’água na travessia de Ponta
Grossa. Da rodovia dá para ver um pouco das esculturas naturais de Vila Velha.
Os assaltantes atendem, aqui, pelo nome de pedágio. Lembro do tio Paulinho, que
também era meu primo. Era o piadista da família: “As moças de Curralinho gostam
dos rapazes de Ponta Grossa”.
# Escurece de
Curitiba a Joinville. Ameaça de chuva. Leio placa em espanhol, sugerindo ao
motorista dirigir durante o dia — es más
agreable. Sucessivas curvas fechadas, em descida que não tem fim. Os dois
ouvidos estão tapados. Não ouço o motor do carro, nem dos caminhões que
ultrapasso. Surdo como vovô Condo. E pensar que vou paralelo ao velho e noturno
Atlântico, trinta quilômetros para lá, atrás das montanhas catarinenses. O
caipira estremece: perfeita sensação de insegurança.
13 de janeiro de
2006. As velhas
casas alemãs de Jaraguá, sem muros e cerca elétrica, estão perdidas no meio de
uma cidade já dominada pelas indústrias e os automóveis rapidíssimos. Há coisas
boas na tecnologia, mas em geral é uma droga. Sem fazer coro com hippies,
ambientalistas, etc., não tenho dúvida nenhuma de que a técnica, se continuar
tomando conta do homem, vai acabar com o mundo, com o homem e consigo mesma. A
técnica não pensa, mas estamos deixando que ela decida.
Jaraguá é o
terceiro ICMS do estado, embora não passe dos cento e cinqüenta mil habitantes.
Só perde para Joinville e Blumenau. Esparrama-se como um polvo pelo vale do rio
Itapocu, de águas verdes e mansas. Os morros, em volta, lembram Minas Gerais.
Garantem-me que do alto do morro do Boa Vista posso ver o mar — na hipótese de
eu chegar vivo até lá em cima.
Árvores. Nunca
vi tanta árvore numa cidade. Fico imaginando como esta cidade era agradável
antes do barulho e do trânsito doido. As montanhas parecem Poços de Caldas,
embora nada mais diferente de um mineiro do que um catarinense. Diferença
acidental, evidentemente. No fundo, somos todos filhos de Deus, filhos bastardos
de Deus.
Se Santa
Catarina parece Minas na paisagem, é pura São Paulo na vida prática. É preciso
incentivar a migração de mineiros, para dar um ritmo mais introvertido a essas
belas montanhas, povoar as ruas da cidade com a reservada cordialidade mineira.
14 de janeiro de 2006.
Faço minha estréia
no litoral catarinense, na ilha de São Francisco. Praia famosa, me dizem,
Ubatuba, mesmo nome da paulista. Mal desço do carro, entro de novo. A estréia
não durou dois minutos. Estraguei o passeio de quem veio comigo. Coisa
abominável. Toda a bela orla marítima dominada por casas alugadas para a
temporada, com churrasquinho, música sertaneja, barrigudos. Como as velhas ficam
horríveis de maiô!
Vou para o
outro pólo da ilha, onde está o centro histórico de São Francisco. A coisa muda
completamente de figura. Aqui me sinto bem. Pouca gente nas ruas. É uma das
cidades mais antigas do país. A Cananéia que deu certo, bem cuidada. É meio-dia,
o sol queima, o calor sufoca, mas há brisa. Desprezo os peixes do cardápio e
almoço uma alcatra macia ao lado do mar, com as águas batendo no porto.
15 de janeiro de 2006.
Domingo de manhã.
Saio para buscar um jornal catarinense e passo pela catedral aberta. Subo como
um penitente a escadaria. O padre e o sermão do padre. “Todos os rios dão na
morte. Os difamadores da morte são inimigos da paz. Lázaro estava coberto de
Deus, não de lepra”, garante o padre com sotaque gauchesco. Desço os sessenta
degraus já alimentado para o resto do dia. Esse padre é um poeta. Já pode
candidatar-se para a Academia Catarinense de Letras.
16 de janeiro de
Mas a
grosseria está generalizada: é o produto mais bem distribuído do socialismo
capitalista. Forçando uma parceria Rimbaud/Drummond: por delicadeza perdemos o
bonde e a vida. A falta de educação é uma conquista geral. Ninguém precisa se
sentir frustrado.
17 de janeiro de 2006.
Bom exercício de
discernimento, ao caminhar pelas ruas de Jaraguá, é distinguir as moças alemãs
das moças italianas. Nem sempre é possível. Num dos cemitérios da cidade, desses
que sobem morro, li várias lápides com sobrenomes misturados, alemães com
italianos. Mas a melhor surpresa
não veio de uma moça e sim de uma velha que vi no banco traseiro do Corça: era a
cara da tia Giusta.
# No
supermercado. O segurança careca, empertigado entre as prateleiras de enlatados,
era um oficial da Gestapo.
18 de janeiro de 2006.
Na estrada para
Pomerode, pequena cidade também esparramada num vale verde, nada parece Brasil.
Na venda, peguei o pote de melado e um saquinho de bolachas orelha-de-gato. Tudo
produção local. O dono falava alemão com o freguês e, em mal português, veio
atender-me.
— Minha futura
nora também é de São Paulo — e disse o nome da pequena cidade, perto de Marília.
— Moreninha, mas muito boa pessoa.
19 de janeiro de 2006.
Faz bem viajar a um
estado que não se parece com o Brasil.
21 de janeiro de 2006.
Evidente que a
mitificação de Santa Catarina se deve ao pouco tempo que passei lá. O senso
crítico também merece férias. Não é possível viver o tempo todo julgando — de espada na mão, como diria
Schopenhauer. Se eu fosse um lavrador do oeste catarinense, talvez sonhasse em
vir para São Paulo, a terra onde se junta dinheiro com rastelo, como dizia a
nonna italiana.
22 de janeiro de
2006. Algumas
vezes, vem uma vontade incontrolável de escrever — as mãos formigam, a cabeça
ferve... São alguns sintomas. É preciso fingir que escrevo para a vontade
passar. Depois arranco a folha do caderno, amasso-a e pratico tiro ao alvo no
cesto de lixo.
Com essa
meia-dúzia de linhas também foi assim.
23 de janeiro de
2006. Isso de
escrever é mesmo uma coisa complicada. Há vezes em que tenho assunto, mas as
mãos formigam tanto, ferve de tal modo a cabeça, que não é possível completar
uma única frase. A expressão permanece teimosamente aquém do assunto, sem
merecê-lo. Só dando uma volta por aí, ou deixar para o dia
seguinte.
Nas poucas,
raríssimas vezes em que houve coincidência perfeita — na medida das minhas
evidentes limitações — entre a vontade de escrever e a presença do assunto,
senti o que se poderia chamar de felicidade. É um estado tão raro que, por isso
mesmo, vale a pena esperar pela próxima vez.
24 de janeiro de
2006. Paro o carro
no sinaleiro e a moça se aproxima — belamente suja. Está coberta de farinha de
trigo, fedendo a ovo, com maquiagem de índio.
— Uma moedinha
pro “bicho”, tio — implora.
Minto com a
maior cara de santo:
—
Infelizmente, não tenho nem uma aqui...
Ela agradece e
vai mendigar no carro de trás. Deve ser pagamento de promessa, depois do
massacre dos exames: uma incluída assumindo, ao menos por algumas horas, a
condição de excluída. É bom treino, também, para ingressar definitivamente no
capitalismo socialista, mantendo na ponta da língua o discurso igualitarista,
sem abrir mão, nem um milímetro, da prática competitivo-consumista.
De qualquer
modo, é uma atitude bem simbólica: o primeiro gesto do universitário brasileiro
é pedir esmola.
25 de janeiro de
Faz questão de
apertar o interfone do sobrado de classe média, onde mora, provavelmente, a moça
da nota anterior que passou no vestibular. A empregada abre o portão e ela vai
até o quintal gramado, impecavelmente limpo. Pergunta, só por perguntar, se a
piscina está clorada. Ela sabe que está. Elogia, gira os olhos gulosos pelo
ambiente de novela da Globo.
Curiosa como
é, adora a profissão. Sempre vê coisas e casas diferentes. No entanto, perto do
sobrado da moça que passou no vestibular, há um bairro em que quase todas as
casas são suspeitas de mosquito, mas ela bate em cada porta só uma vez. Se não
atendem logo, não insiste. Detesta fiscalizar bairro de
pobre.
26 de janeiro de 2006.
Invejo sinceramente quem crê em Deus, mas
dispenso fanatismo.
— Deus, pra
mim, é uma coisa muito íntima. Prefiro não falar sobre ele — disse a um
Testemunha de Jeová, da última vez em que fui assediado.
Frases de
efeito não dobram fanáticos. As estratégias anteriores também não funcionaram.
Se me apresentava como católico, era alguém que podia ser convertido e me tocava
escutar pregação. Se dizia que era ateu, feria ainda mais fundo a veia
missionária do pregador.
Da próxima
vez, vou dar troco com a mesma moeda e dizer que pertenço a uma severa seita —
quem sabe uma Congregação Universal do Verbo Silente — que proíbe aos adeptos
conversar sobre religião, com ameaça de fogo satânico a quem infringir o dogma.
27 de janeiro de
2006. O mundo não
quer mais saber de literatura. Pior, evidentemente, para o mundo. Adianta estar
convicto de que os abismos, os labirintos, as complexidades da vida se exprimem
melhor nos dramas, nos poemas, nos contos e nos romances?
A arte de hoje
é o cinema. Não o grande cinema de Bergman ou Fellini, mas o filme de
entretenimento, cheio de (d)efeitos especiais. Cinema, música pop, instalação. A
deformação caricaturesca da arte moderna acabou com a pintura. Cézanne é dos
últimos. Como o dodecafonismo é o fim da música praticada por seres humanos.
Tudo a mesma merda. O que mais mereceremos, Senhor?
28 de janeiro de
2006. Escritor,
para ser publicado, deve seguir receitas da moda. Há várias à disposição do
candidato. O negócio é escrever para o Mercado. Mas nem tudo está perdido: a
internet soluciona o problema dos diletantes, que podem se apreciar a baixo
custo, sem gastar com publicação.
29 de janeiro de 2006.
Santamente
indignado com a facilidade com que alunos burros ingressam no curso de letras,
formando a maioria da classe, prof. Hildo Rielli começou a dar nota dez a quase
todos. Ou seja, fazer o que virou moda: premiar a incompetência (to be) contra o
mérito paciente (or not to be).
Só reprovava
os poucos inteligentes. Quanto mais inteligente, mais próximo da zona fria do
zero. Inverteu as pontas da fita métrica.
— Numa escola
assim, vocês merecem ser cruelmente reprovados. Deixem a falsa vitória aos
ineptos.
Os poucos
alunos reprovados até entenderam o método do mestre, e intimamente aplaudiram.
Mas — e o futuro feijão das criancinhas? A vida prática tem razões que a própria
razão, etc. Prof. Hildo foi objeto de várias reuniões departamentais,
intra-departamentais, pós-departamentais. Numa delas, a solenemente última,
ficou decidido por milhares de votos a zero que ele devia ser submetido a uma
perícia médica e afastado de suas funções, para o bem das
letras.
Há quem ache —
cá entre nós — que ele fingiu hamletianamente um método. Fingiu de doido para
escapar da insanidade geral. Não é como doido que ele vive agora, numa tranqüila
chácara mineira, aos pés de uma montanha muito alta, dessas que seguram
valentemente o mundo do outro lado.
30 de janeiro de 2006.
Diante da
injustiça, há duas atitudes nobres: quixotismo ou resignação. Uma terceira — os
velhos e esburacados caminhos legais — é para as almas pequenas.
31 de janeiro de 2006.
Pobreza já foi
produto da luta de classes, já foi ideal de vida. Hoje, no programa Fome Zero,
virou meio de vida.