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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 49

 

 

31/08/2009. Prudente de Moraes, neto, numa observação sobre o Oswald de Andrade político:

“Ora, nem o marxismo tinha como absorver todo o Oswald de Andrade, que lhe escapa com freqüência, transpondo-lhe as férreas cortinas até sem querer, nem Oswald de Andrade tinha como absorver todo o marxismo, sistema a cuja inflexibilidade não poderia resistir o temperamento eminentemente impulsivo e instável do escritor. Um Oswald de Andrade que se esgotasse na linha auxiliar do nosso marxismo crioulo, nunca seria, em nossa literatura, a extraordinária figura, ainda viva e atuante, que realmente é.”

 

 

30/08/2009. Ferreira Gullar escreve hoje, na Folha, sobre Prudente de Moraes, neto, lembrando que o velho jornalista apoiou o movimento de 64 e depois virou seu adversário. Adversário do chamado “estado de exceção” e dos atos institucionais, mas ainda permanecia essencialmente liberal e teimosamente anti-marxista, o que nosso poeta não quis lembrar. Do marxismo, disse Prudente, em 1973, que era uma doutrina totalitária por índole. Dos escritores marxistas, que o dogmatismo lhes perturbava o espírito crítico: “Tendo como seu papa infalível o próprio Marx, e não admitindo outro intérprete do mundo, eles não reconhecem verdades ou leis que não figurem por antecipação na obra daquele doutrinador revolucionário dos meados do século XIX. O marxismo é uma religião sem Deus, como o positivismo — dizia Maritain — e seus fiéis não se afastam da palavra oracular do apóstolo.”

Sobre o romance engajado, achava que podia “ser utilizado, eventualmente, numa frente de luta política, mas é como utilizar espingarda de caçar passarinho, num autêntico safári.”

Se o Brasil não estivesse tão sectário politicamente, já estariam publicados em livro os mais ou menos mil artigos que escreveu, na segunda metade da década de sessenta, de apoio teórico ao governo militar. Se as pessoas de esquerda fossem mais inteligentes, gostariam de saber o que um homem inteligente, como Prudente de Moraes, neto, teria escrito contra a sua seita.

 

 

27/08/2009. Scarlatti compôs para cravo, mas no cravo pesado de Wanda Landowska ou Gustav Leonhardt, fica insuportável: é um recital de martelos, mais que de teclado. Transposto para o moderno piano de Vladimir Horowitz, Glenn Gould ou Marta Argerich, não há Chopin ou Debussy que se lhe compare, com o perdão do português correto. Uma sonata em mi maior, na “fisarmonica” do italiano Teodoro Anzelotti, parece mesmo ter sido feita para a sanfona. Já para Scarlatti ao violão, e nem precisa ser com John Williams, não encontro adjetivos — é puro deleite.

 

 

26/08/2009. Faz um teste: entra numa dessas livrarias pop e vê se você descobre algum livro de autor conservador. Não vai ser fácil. E as editoras, então? São aquela meia-dúzia de sempre. Tenho saudade da velha Livraria Acadêmica, de Ribeirão Preto, com um acervo inacreditável para os padrões interioranos e sem nenhuma censura ideológica. Seu Guerino queria vender, fosse Marx ou Ortega.

A música-ambiente de todas as livrarias moderninhas do país é o “Samba de uma nota só”.

 

 

25/08/2009. É provável que a facilidade eletrônica de copiar e presentear as obras de arte pela internet, sobretudo as obras de arte mais importantes para o gosto contemporâneo, como o cinema e a canção, venha a criar um tipo de criador pouco preocupado com direitos autorais, pelo menos em relação ao seu público, mas descobrindo outras maneiras de ganhar dinheiro com o que faz, como a veiculação de propaganda religiosa, política ou comercial. Já ninguém impede ninguém de baixar gratuitamente o último sucesso de Hollywood, mas é possível obrigar o público a engolir a marca de automóvel ou de bebida mais presente no filme. Os filmes continuarão sendo feitos, muita grana rolará entre a primeira palavra escrita do roteiro e a distribuição final da obra (nos cinemas, nas locadoras ou nos sites piratas), mas será diferente a nossa forma de contribuir para o bolso da indústria cinematográfica.

 

 

24/08/2009. Nosso escritor mais realizado, Machado de Assis, ajudou a criar um modelo de comportamento profissional — o literato grudado nas tetas da big-mother estatal —, que influenciou a república das letras muito mais do que suas fascinantes obras literárias.

 

 

23/08/2009. Para Deus, todas as verdades são acacianas.

 

 

22/08/2009. Estranho o que acontece quando você começa a ler a obra de um escritor vivo e, durante a leitura, alguns dias depois, chega pela tevê ou pela internet a notícia de sua morte: a voz biológica e mundana do autor já não existe mais, porém aquela emissão artificial, que sobe dos sinais impressos na página e foi construída com a mesma e obstinada precisão com que são feitas as máquinas, continua milagrosamente a ser “ouvida”. Enquanto, lá no aconchego do túmulo, o corpo material do autor inicia discretamente o triste ciclo da decomposição, os dedos do leitor vão virando folha atrás de folha do livro sobrevivente, em cuja capa ainda aparece, mais ou menos ironicamente, o nome famoso do recém finado. Não convém chamar isso de imortalidade, como o faz a ABL, mas...

 

 

18/08/2009. O economês é um depósito inesgotável de material metafórico. PIB, por exemplo. Aquilo que você faz no banheiro não tem mesmo cara de produto interno bruto?

 

 

16/08/2009. Penso sempre no velho do rastelo, aquele do Canto IV dos Lusíadas, quando sou obrigado a fazer uma viagem um pouco mais longa e já começo a sentir saudade de casa antes da partida. Maldito o primeiro que, no mundo, botou vela num pedaço de pau e o soltou sobre as ondas! Mísera sorte! Estranha condição!

 

 

13/08/2009. Mário Palmério, o romancista, um dia decidiu morar num barco-gaiola sobre os rios da Amazônia. Por essa época, eu o vi num Roda-Viva da TV Cultura, quando esse programa ainda entrevistava gente de direita, com uma bancada de jornalistas de todos os times ideológicos. Impossível, hoje, imaginar um Lenildo Tabosa Pessoa fazendo perguntas a um Brizola, que, com delicadeza sem par em nossas matas, depois de irritado com uma pergunta feita por aquele jornalista conservador, olhou fixo para a câmera e perguntou ao distinto público se ele, Lenildo Tabosa Pessoa, não tinha mesmo uma cara de rato.

A entrevista com Palmério não tinha porque ser polêmica. O jeito bonachão do velho escritor antes convidava a um bate-papo mineiro, regado a cachaça. O que não impediu, porém, provocações dos dois lados.

Depois de tantos anos, lembro de três coisas: uma pergunta sobre o fim da Amazônia pelo desmatamento, que o romancista respondeu dizendo que “aquilo” era enorme demais para se deixar acabar assim tão rápido. “Não é fácil destruir a Amazônia.” A confissão de que estava preparando um livro sobre a Amazônia, fazendo pela hiléia o mesmo que Euclides da Cunha tinha feito pelo sertão... E, às gargalhadas, o caso da antropóloga francesa que, depois de conseguir permissão para passar algum tempo em certa tribo, teve de sair na carreira para não ser estuprada por um bom selvagem.

Palmério era dono de uma universidade, no Triângulo Mineiro. Um dentista, que lá se formou, me disse que ele morava num sobradão dentro do próprio campus, perto da faculdade de odontologia, e que, com certa freqüência, podia ser visto com um violão, na grande sacada do piso superior, ao lado de uma jovem e bela paraguaia (foi embaixador no Paraguai, e de lá trouxe não só a bela e jovem paraguaia, como uma velha e bela guarânia, composta segundo as regras da arte).

Era um bon-vivant. Deixou só dois romances, mas foram bem lidos no seu tempo, Vila dos Confins e Chapadão do Bugre, esse último filmado pela Bandeirantes em série bem feita, creio que dirigida por Walter Avancini, numa época que as novelas de televisão ainda podiam ser bem feitas.

 

 

12/08/2009. A decadência da educação (ou das artes, da religião, do pensamento etc. etc. etc.) há muito tempo que já engoli e digeri. Tirei de letra, como dizem os críticos literários do futebol. Só não consigo assimilar essa avassaladora substituição do chapéu pelo boné.

 

 

11/08/2009. A máquina estatal não é minha, não é sua e muito menos de nós todos. É dos mais espertos e virtualmente dos contra-espertos, embora esses últimos estejam sempre em absoluta minoria.

 

 

10/08/2009. Parceria, coisa comum entre compositores populares, em música clássica só ocorre na música vocal: o canto sacro, o lied e a ópera, em que geralmente o libreto não sai das mãos do músico, apesar das exceções (Wagner, Janacek, Hindemith, Menotti). Mas não deixa de ser uma espécie de parceria os concertos de Vivaldi arranjados por Bach, os prelúdios e interlúdios de Wagner transpostos para piano pelo sogro Liszt, as orquestrações de Mahler para os últimos quartetos de Beethoven ou a bela orquestração de Ravel para Quadros de uma exposição, de Mussorgski. Quem gosta, como eu, desse tipo de música, poderia ficar relacionando sem parar esses encontros de gênios, que a gente só chamaria de parceria num sentido lato. Talvez esteja mais próximo do fato as conclusões póstumas de obras inacabadas, como a décima sinfonia de Mahler terminada pelo dodecafônico heterodoxo Ernest Krenek (que também poderia figurar naquela relação acima, dos raros compositores que não pediam libretos para estranhos) ou ainda a orquestração de Luciano Berio para uma sinfonia que Schubert deixou só esboçada, com divertidas alternâncias entre passagens tradicionalmente românticas e explosivamente seriais. A criação, na música clássica, é bem mais solitária que na popular.

 

 

09/08/2009. Agora é por telefone que atacam, exigindo nosso dinheirinho suado. São associações de amigos das principais doenças do homem, e não há quem resista ao apelo inteligente, verdadeiro golpe de mestre, a menos que tenha o coração muito duro.

É o caso do meu. Como não tenho condições de avaliá-las, me recuso a fazer caridade a siglas que me procuram por telefone, abstrações que podem, no fundo, encobrir um negócio bem concreto e rendoso (ou até bem intencionado, pois da humanidade é possível esperar tudo, inclusive boas intenções).

Fico bem mais realizado, filantropicamente, quando dou um prato de comida a uma dessas visitas inesperadas e desconhecidas, que tocam tremulamente a campainha. Ou, sobretudo, quando pago uma pinga a um cachaceiro. Não há nada mais dramático, nada mais miserável do que um homem que decidiu terminar bêbado a sua vida, sem no entanto caixa para custear tão úmida opção. Se eu fosse escritor e resolvesse escrever um livro com o nome de Vidas secas, garanto que seria uma tragédia sobre bêbados sem dinheiro para negociar uma pinguinha com o dono do boteco.

 

 

08/08/2009. No início, a palavra escrita era empregadinha da palavra falada. Mais tarde, passou a olhar de cima a patroa, sobretudo quando começou a se vestir tipograficamente e passou a usar as principais figuras de estilo que tinha roubado da patroa.

 

 

07/08/2009. Com um único dedo, dei um golpe de estado e fechei o congresso nacional: na minha tevê aqueles caras não entram mais.

 

 

06/08/2009. Num contexto em que nada ocorria, qualquer novidade espantava. Hoje, porém, são assimiladas como fatos de rotina e não surpreendem mais. A sua ausência é que surpreende e angustia. A percepção contemporânea foi treinada, pela tecnologia, para movimentar-se sem dificuldades na montanha-russa das novidades surpreendentes.

 

 

05/08/2009. A função dos futurólogos otimistas não é fazer previsões certeiras, mas conter a ansiedade do presente. São calmantes sem contra-indicação.

 

 

04/08/2009. O irrigador de água esparzia cristais no jardim. O beija-flor se equilibrava entre as gotículas, matando-as no peito como um centro-avante.

 

 

03/08/2009. Os audiolivros estão aí. Basta um celular e um arquivo de mp3. Você pode suportar o engarrafamento auto-ajudado  pelo Augusto Cury ou voar para Paris “ouvindo” um romance do Chico Buarque. Seus vendedores fazem questão de insistir, hipocritamente, que o produto não pretende substituir o livro, contentando-se em ser uma espécie de extensão daquela respeitosa mídia impressa, cujos conteúdos transportaria servilmente a lugares até então inacessíveis às velhas pernas de papel.

Os leitores do futuro vão usar menos óculos; trocarão o oftalmo pelo otorrino.

 

 

02/08/2009. Os adolescentes barbocabeludos dos anos sessenta, retribalizados pelo ócio que só o capitalismo lhes permitiria gozar, sonharam com o fim da economia de mercado. Quando acordaram, estavam exemplarmente vestidos de paletó e gravata, defendendo reformisticamente o capital como a única via possível para o socialismo, escondido sem nenhuma ansiedade num futuro remotíssimo, sem qualquer pressa de chegar.