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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 48 26/07/2009. Há mais de quatro mil anos, começou pra valer a corrida tecnológica em que o Ocidente levou a melhor, diversificando a cara até então mais ou menos única do pessoal pré-histórico. Essa tecnologia que um dia separou, nos últimos cinco séculos começou a reunir de novo, através da revolução dos transportes e da informação, num mesmo rosto global, a espantosa diversidade do mundo. Depois de tanta estrada fugindo da velha aldeia, já estamos dentro de um futuro com jeitão de paleolítico. 25/07/2009. Chuchu é o são Francisco de Assis do cardápio. 24/07/2009. Para que cheguem mais perto Do seu momento mais puro, A luz precisa do escuro E o cântaro do deserto. 23/07/2009. Tarefa pra casa do professor de filosofia, depois da aula sobre estoicismo: tentar desistir da linha telefônica pelo zero-oitocentos. 22/07/2009. O livro infantil, para sobreviver, passou a diagramar-se como o cinema e a tevê: a predominância de imagens sobre texto é uma tosca imitação de um filme legendado. É bem possível que, com um objeto desses nas mãos, a criança consiga suportar o tedioso tempo em que deve permanecer na escola; mas como reagiria a esses livrinhos em sua casa, perto da coleção de DVDs piratas da Barbie ou do Caillou que o papai amorosamente arranjou para ela? Eu não gostaria de estar na pele de um professor de literatura infantil. 21/07/2009. Devíamos processar esses autores de auto-ajuda que vivem falando bem da vida. A vida tem muitas coisas boas, mas nunca do jeito que diz um livro de auto-ajuda. 20/07/2009. A alegria do encontro corre sempre o risco de ser substituída pelo tédio da convivência. 19/07/2009. A mãe e seu bebê formam um único e indivisível animal. 18/07/2009. Dúvida de jardineiro. Por que é que rosa em botão Ou rosa murcha e sem cor Têm muito mais duração Que uma bela rosa em flor? 17/07/2009. E pensar que a vanguarda criadora da nossa língua está no morro da Rocinha e adjacências... Mais cedo ou mais tarde, todos acabamos por usar abertamente as palavras que o simpático pessoal do tráfico inventou para uso interno. 16/07/2009. Pelo menos virtualmente, a novela de televisão, enquanto veículo transportador de ficção, não é inferior ao romance. Se roteiro, interpretação e direção fossem bons, ganharia na representação “direta” da vida o que perderia em arte verbal, contando ponto num item fundamental: as soluções dramático-visuais. 15/07/2009. O mundo já foi bem menor que o mundo. Hoje é muito maior. 14/07/2009. Chico Buarque, não contente com ser um vitorioso cançonetista e estar entre os melhores letristas da sua geração, decidiu virar romancista a todo custo, praticando um gênero para o qual não tem talento. Aceitemos ou não a sua estupidez ideológica, ele fica bem mais à vontade entre rimas e imagens do que criando personagens e enredos. 13/07/2009. Balanço do semestre. Chefe de mim mesmo (e ruim), Fiz uma casa suspensa Nas nuvens da indiferença; E tirei férias de mim. 12/07/2009. Às vezes me pego andando como o senhor Hulot ou olhando como Groucho Marx. 11/07/2009. Na interminável briguinha do bem e do mal, com vitórias dos dois lados, os socialistas aparentemente sempre estiveram no primeiro batalhão, apesar do zero em comportamento nalguns episódios importantes do século XX. O socialista Kazantzakis tem uma fórmula perfeita para essa estratégia, diabolicamente construída com os materiais da poesia: o ódio é um lacaio que vai abrindo caminho para o seu senhor, o amor. Mas matar em nome do bem não é irmão gêmeo do alisar em nome do mal? Só disfarçam de método dialético o que não passa da mesma genética doentia. Podem até ser perdoáveis na sua insanidade fraternal, quando não são sacanas demais para tirar proveito dessa fantasia perigosa. 10/07/2009. Osso duro de roer: as pessoas de quem não gostamos também podem ter talento. 09/07/2009. Das reflexões de um etê. A humanidade terráquea já deu provas suficientes do que pode fazer em matéria de horror. Será diferente no futuro? Eu não botaria minha mão no fogo por essa raça. 08/07/2009. Adiantaria mais se, em vez de reduzir a emissão de seus gases poluentes, os países ricos ajudassem os países pobres a reduzir a emissão caótica de esperma. 07/07/2009. Quem procurar, no romance brasileiro, alguma forma de denúncia das classes dominantes, não vai se decepcionar. O material é farto, facilmente encontrável em Aluísio de Azevedo, Raul Pompéia, Lima Barreto, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, Jorge Amado, etc., etc., etc. Já o contrário — escritores conservadores que escreveram sobre personagens revolucionários —, é mais difícil de achar. Começa a aparecer a partir dos anos trinta. Gastão Cruls fez uma boa caricatura do revolucionário gaúcho num personagem do seu último romance, De pai para filho. Ciro dos Anjos ridiculariza o socialista de boteco n’O amanuense Belmiro. Marques Rebelo zombou do integralismo no romance Marafa e dos comunistas em O espelho partido. Nenhum desses pós-modernistas, porém, avançou mais na análise da mentalidade revolucionária do que Octavio de Faria. Foi um homem que nunca escondeu a simpatia pelo fascismo; no fim da vida, já se definia fascista pela cabeça, mas democrata pelo coração... Antes de fazer romances, escreveu alguns ensaios contra o liberalismo e o comunismo, adotando finalmente, ainda que sem ortodoxia, o ponto de vista da Igreja Católica, sobretudo pelo ângulo de León Bloy, o escritor que queria ser santo e que viu na vida burguesa o maior obstáculo a esse ideal (padre Luís, um dos principais personagens da Tragédia burguesa, parece inspirado no mestre francês de Octavio). 06/07/2009. A canção popular não combina com conteúdo “profundo”. Presta-se bem melhor à expressão sentimental, de preferência ligadas ao amor. Também deu certo como crônica do cotidiano ou propaganda ideológica. Já os diluidores contemporâneos de Pound, Maiakovski, Brecht ou Fernando Pessoa parecem ter encontrado veículo mais eficiente no recitativo tribal do rock. 05/07/2009. Entrevista. Quem é você? Juro que nunca soube. Sua música preferida. "Pour Élise", em arranjo de caminhão de gás, numa segunda-feira de manhã. Quais os seus filmes favoritos? Meus próprios sonhos e pesadelos. Quase todos fellinianos. Qual é o filme que você quer ver? Um filme nacional que conseguisse me segurar na poltrona até o fim. Como vê, um desejo utópico. Que livros levaria para a famosa ilha? Minha caixa de ferramentas seria mais útil. Que livro você gostaria de ler? Um romance policial mesopotâmico, de preferência em linguagem cuneiforme. De que comida mais gosta? Preferia não mencionar coisa tão íntima. Que frase gravaria no pára-choque do caminhão? "Penso e logo desisto." Um lugar que você desejaria muito visitar. Só um: o Paraíso. 04/07/2009. Intelectual costuma ter muito cuidado com a vida prática, pois ela vicia. A vida prática é o ópio da inteligência fáustica, perseguida pela idéia de absoluto. 02/07/2009. No aniversário do pai. “Meu corpo fez oitenta anos, pensou o pai, mas ainda não estou preparado para morrer. Mentiria se dissesse que mais cinco ou dez anos bastariam para eu arrumar as malas para a eternidade. Meu corpo e minha alma nunca se entenderam direito. Enquanto meu corpo inspira compaixão, minha alma se diverte, silenciosamente, com tanta gente compassiva me dando lugar nos ônibus ou na fila dos bancos. O moleque que me assovia de escárnio nem de longe desconfia que, no fundo, sempre tivemos a mesma idade. Não gostaria de enganar ninguém e dizer que estou me sentindo como um jovem, mas sou sincero quando afirmo que ainda não estou pronto para o pó, a cinza, a fumaça. Deus pode me tirar de circulação quando bem entender. É um direito dele. Mas vou sofrer um bocado para me acostumar com aquele paradeiro do cemitério.” |