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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 47 28/06/2009. Tenho um cachorro de raça e um vira-lata. Os dois se entendem muito bem, pouco se lixando para nazistas ou militantes do movimento negro. 27/06/2009. Nas duas artes mais vivas da nossa época, a canção e o cinema, a literatura é mera coadjuvante: submete-se, como letra de música, aos caprichos da melodia; e, como roteiro cinematográfico, curva-se diante da imagem. Quando insiste na própria autonomia, através dos gêneros literários tradicionais, o público boceja e deixa o livro cair no assoalho. 26/06/2009. A vida heróica tinha mais sentido do que a nossa, mas só era possível quando o indivíduo era mais forte do que suas ferramentas. Hoje, com a tecnologia, o indivíduo é incomparavelmente mais fraco do que suas extensões, tornando-se ridícula qualquer atitude de heroísmo. Dom Quixote foi o principal profeta desse empobrecimento moderno. 25/06/2009. A morte dos outros não passaria de mero episódio funerário, se não fosse um aviso sobre nossa futura morte. Como o existencialismo, porém, já passou da moda, e, junto com ele, aquela quase profissional consciência do fim, nada nos impede de considerar a morte, a nossa e a dos outros, como um aborrecido episódio funerário. 24/06/2009. O esquizofrênico tanto leu romances de cavalaria, que um dia decidiu armar-se cavaleiro e sair pelo mundo corrigindo as maldades humanas. Tratou logo de procurar um escudeiro para acompanhá-lo, mas não demorou a perceber que tinha mesmo era arranjado um psiquiatra, que o analisou implacavelmente durante toda a aventura, sem no entanto conseguir trazê-lo de volta à realidade. Foi o primeiro psiquiatra do ocidente: Sancho Pança. 22/06/2009. É mais fácil sobreviver a doenças que a médicos. 19/06/2009. É algo perfeitamente compreensível e desculpável alguém ter sido comunista ou fascista há cem anos atrás. Escapa, no entanto, a qualquer possibilidade de compreensão e desculpa, se o fato acontecer na primeira década do século XXI, depois das experiências desastrosas daquelas tão bem intencionadas doutrinas... 18/06/2009. Vou começar a cultuar a Pré-História. As principais invenções humanas não foram realizadas nela? A roda, o caminho, a linguagem, a poesia. Foi nalgum monte pré-histórico que Deus apareceu pela primeira vez. O amor de homem por mulher, olhos nos olhos, braços nos braços, boca na boca, foi inaugurado no escurinho nas cavernas ou numa verde curva de floresta paleolítica. 17/06/2009. A internet, no seu estado atual, permite a circulação de todas as idéias e, por isso, incomoda o sono dos dirigistas, que não admitem um mundo diferente do que fantasiaram. 15/06/2009. Já virou rotina quase anual a greve de professores das universidades públicas paulistas. Independentemente da pauta do movimento, o fato revela uma inquestionável politização da universidade, em que o pesquisador, sobretudo das humanidades, já não consegue separar pesquisa e pensamento político. O professor universitário típico morreria de tédio se não exercitasse regularmente as suas aptidões sindicalistas; se, enfim, não se sentisse interferindo na gestão do seu campus. 14/06/2009. A marcha unida para o lado esquerdo da história fica mais facilitada na universidade, com o jovem rebanho nas mãos de vaqueiros especialmente treinados para caminhar naquele rumo. Por isso é que certos alunos e professores das universidades estaduais paulistas são contra cursos não presenciais, que, segundo eles, privariam os estudantes da “vivência acadêmica”. Acreditam eles que, estudando individualmente pela internet, todos os jovens estariam condenados ao neoliberalismo. Ou seja, longe do poder de fogo da politização universitária. Ou melhor, da lavagem cerebral esquerdizante. 12/06/2009. Se dependêssemos dos historiadores, jamais saberíamos com que brinquedos brincaram as crianças da antiguidade. Eles preferem folguedos de gente grande, como guerras, religiões, códigos jurídicos, inscrições tumulares. 11/06/2009. Lua cheia — essa gordinha simpática. 10/06/2009. Quando uma rádio concede em sua programação algum espaço para a MPB, já sabemos que vamos ouvir música engajada nas ideologias da moda, sobretudo marxismo, freudismo, ambientalismo. Embora nada esteja mais na moda que o capitalismo — os próprios expoentes da MPB são espertos capitalistas —, jamais se escutará um samba abertamente defensor das idéias liberais. A vida verdadeiramente real não dá samba de MPB. 09/06/2009. Mesmo com todo o respeito pelas vítimas de Hiroshima, não parece coisa de mulher de malandro a irrestrita adesão japonesa ao modus vivendi americano? 08/06/2009. Letra de música, para funcionar, não precisa ser “poética”. Talvez o melhor é que nem o seja. Quanta prosa rimada, com uma boa idéia por trás, a gente não canta chorando ou sorrindo? 07/06/2009. Parece que só nós, aqui no Brasil, usamos a expressão “música popular” para apontar a canção ligeira, intermediária entre o canto folclórico e o erudito. Os italianos, franceses e americanos, para só mencionar três países importantes no mundo da canção, não usam aquele adjetivo com sabor fascista e comunista. De “música popular brasileira” saiu a sigla MPB, que aponta preferencialmente para a bossa nova, a canção de protesto dos anos sessenta, o tropicalismo — curiosamente pouco populares, pois seus representantes são da classe média —, e aqueles autores que, vindos de antes, a partir da década de vinte e trinta, fossem pelo critério das afinidades (ou até das distorções) considerados dignos de pertencer à seleta confraria. O mesmo valeria para o choro, certos contemporâneos do “morro” e alguns nordestinos da seca que, devidamente reembalados, se encaixassem no perfil nacional-popular-progressista da sigla. Os milongueiros e xoteiros gaúchos ficaram de fora, como ficaram os caipiras paulistas e os brasilguaios matogrossenses da guarânia e do rasqueado. Que saberíamos da canção amazônica, não fosse o sucesso carioca do paraense Waldemar Henrique? 06/06/2009. Será que a música ocidental, livre das microtonalidades orientais, não surgiu como parte da tremenda luta medieval contra o islamisno? 05/06/2009. Na democracia, todos os políticos tem o direito de cometer arbitrariedades. Na ditadura, só o tirano e seus puxa-sacos. Por que ainda insistimos em preferir a primeira? Não seria muito mais útil educar a espécie para produzir tiranos bonzinhos e inteligentes? 04/06/2009. Contaram-me num dia desses. O “irmão” Jurandir era crente e estava morrendo, no hospital, fazia uma semana. Fumante desde jovem, não conseguia deixar de fumar, mesmo sabendo que perderia o direito a extrema-unção se não ficasse pelo menos três dias, setenta e duas horas, sem botar cigarro na boca. O irmão de sangue, que era presbítero, rogava-lhe sussurrante: — Pela graça de Deus, Jurinha! Tanto pediu que o moribundo atendeu. Passou o primeiro dia sem cigarro, o segundo e, bem antes de completar o terceiro, tudo fazia crer que ele morreria em qualquer minuto seguinte. O resto da família, todos eles evangélicos, se revezava no leito de morte, mas provavelmente nenhum estava mais angustiado que o mano presbítero, pois sabia que não ia desobedecer à Lei em hipótese alguma: era muito formalista, e se Jurandir morresse antes de completar o terceiro dia sem fumo, não daria a extrema-unção. Quando a enfermeira de quarto chamou o médico plantonista e parecia inevitável o desfecho antes da septuagésima e purificadora hora, o mano presbítero foi tomado por um sentimento súbito e inevitável de piedade: sob o espanto mudo da pequena platéia evangélica, encomendou a alma do irmão de igreja e irmão de sangue. Quando viu, já tinha cometido o pecado; logo Jurandir tombava a cabeça para o lado e o quarto virara um coro só de mulheres esgoelando. 03/06/2009. Em dia de pagamento, viro tecladista de caixa eletrônico. Meu samba é de uma nota só — e meu salário também. 02/06/2009. Para a nossa coleção de pérolas: a escola mais organizada do país é a da APAE, para deficientes mentais. 01/06/2009. A internet começou com palavras. Arquivos de imagens eram muito pesados; e sons, então, nem pensar. Não faltaram otimistas de ocasião para apressadamente apostar num renascimento da escrita e da leitura que, se houve, foi mais quantitativo que qualitativo, sempre condicionado pelo medo da conta telefônica e tendo como resultado final uma espécie de taquigrafia improvisada. De qualquer maneira, era a internet uma aliada da escrita e indiretamente do próprio livro, que saía ganhando no confronto com o desconforto oferecido pelas telas dos primeiros monitores. O sonho, porém, não durou dez anos e, com a banda larga, a situação está se invertendo: as palavras escritas ficarão cada vez mais a serviço das imagens e dos vídeos, quando não diretamente substituídas por arquivos sonoros. |