|
NOTAS PARA UM DIÁRIO - 46 29/05/2009. O livro pode ser transitório, mas não a escrita. O romance pode ser transitório, mas não a ficção. O poema pode ser transitório, mas não a poesia. 28/05/2009. O capítulo das amizades de Carpeaux ficaria incompleto se, ao lado de seus novos amigos brasileiros e dos velhos amigos europeus, não se abrissem alguns parágrafos sobre os colegas de infortúnio com quem partilhou as experiências iniciais do exílio. Num dos seus primeiros ensaios publicados no Brasil, "Última canção, vasto mundo", Otto Maria Carpeaux refere-se a um ilustre amigo austríaco, o barão de Andrian, que também vivia entre nós. Era Leopold Andrian (1875-1951), neto do famoso operista Meyerbeer. Amigo de Hofmannsthal e Arthur Schnitzler, contemporâneo de Franz Kafka, Karl Kraus, Musil, Wittgenstein, Rilke, Hofmannsthal, Mahler, Freud, Schönberg, Klimt, fez uma incursão rápida pela literatura, em 1895, com um pequeno romance: O jardim do conhecimento. 27/05/2009. Na qualidade de representantes, legalmente constituídos, dos próprios interesses, os políticos agem o tempo todo com uma admirável coerência. Incoerente é o eleitor ao exigir da pedra que forneça leite. 26/05/2009. Na época do mensalão, vexado como ninguém, o colega Shigueru ia empilhando cada nova revelação da CPI no armário das impossibilidades inacreditavelmente possíveis da política. Quando, em meados de setembro de 2006, armário da vergonha já lotado, jurei que ele fosse repudiar de uma vez o PT, saiu-se com uma fórmula perfeita em defesa do partido e de si mesmo: — Pensando melhor, acho que não há outra forma de lidar com o “sistema”. Ou a gente joga o mesmo jogo do “capital”, ou o socialismo nunca vai sair do papel. 24/05/2009. O fato da maioria dos políticos ser maquiavélica não autoriza ninguém a dizer que a política seja uma atividade obrigatoriamente amoral. Não há convite mais sedutor à exceção do que um conceito enfaticamente determinista, mesmo que a regra seja quebrada só uma vez por século. 23/05/2009. Mais interessante que rodear fatos, é procurar sua motivação universal. Pouco me importa, pessoalmente, que Pallocci tenha se eleito deputado federal sob suspeita de crime e agora, mesmo antes de ser julgado pelo Supremo, seja o candidato preferido do Lula ao governo paulista; bem mais interessante é a idéia de que o político não é o cidadão que representa os outros cidadãos, mas um animal essencialmente lúdico que só aprecia emoções muito fortes. Afinal, não é qualquer um que consegue deitar-se bandido e algumas horas mais tarde acordar herói da pátria, ou vice-versa. E, o que é melhor ainda, sem nenhum abalo de superfície. 22/05/2009. Quando um crítico adquire uma visibilidade muito grande, há algo de anormal na relação da literatura com o público, já que a função do crítico seria por natureza efêmera, de intermediador que abre a porteira da obra ao leitor e depois se retira discretamente de cena, deixando que aqueles dois se entendam da melhor maneira possível. Ali terminaria seu papel na comédia da leitura. Se ele consegue continuar no palco até o final e permanece na lembrança da platéia com mais nitidez que a própria obra, é sinal que a conversa lógica do mediador anda mais sedutora que a conversa mágica do criador. Não se fazem estátuas para críticos, dizia Sibelius. A atual crise da leitura tem aberto exceções também no Brasil para essa antiga lei e, pelo menos junto ao público acadêmico, críticos passaram a ter fã-clubes mais numerosos do que escritores. É o caso, entre nós, do simpático professor Antonio Candido, intelectual sério, cidadão humilde e ao mesmo tempo senhoril, discretamente vaidoso de sua condição quase papal de mentor de boa parte das letras universitárias. 19/05/2009. Mais benéfica do que a recente publicação póstuma do medíocre romance inacabado de Paulo Francis seria botar de novo em circulação, em livro ou pela internet, a íntegra do importante Diário da corte, que mostra a lenta transição da fase esquerdista para a fase adulta do escritor carioca. 18/05/2009. Para Toynbee, nenhuma transformação posterior foi mais importante do que a passagem do sub-homem a homem, há não se sabe quantos mil anos atrás — trezentos mil, quinhentos mil? Mamma mia, como somos velhos e ainda não aprendemos nada! Nietzsche, o mégalo-maluco, diria que só um fato poderia competir em importância com aquele: a transformação do homem em super-homem. Muito mais interessante, pelo menos do ponto de vista da tragédia clássica, seria a volta do homem a sub-homem, que me parece muito mais plausível do que a hipótese nietzscheana. 16/05/2009. Tudo bem. Admitamos que o fato de outros terem escrito no passado seja um excelente estímulo para movimentar a máquina criadora dos escritores vivos (uma causa, digamos, freudiana da literatura, que Harold Bloom sintetizou na conhecida fórmula “ansiedade da influência”). Não é menos estimulante a competição interpares que se dá no próprio presente, que seria o fator darwiniano da realização artística; ou a expectativa narcísica de reconhecimento público. No entanto, nenhuma dessas esporas fere mais fundo o espírito do grande poeta ou romancista do que a necessidade, nem sempre consciente, de dirigir-se a um interlocutor absoluto, que o poeta Antonio Machado exprimiu excelentemente no verso “quién habla solo espera hablar a Dios un día”, que diz muito mais do que oitocentos livrecos de teoria literária. 15/05/2009. Gostava de emoções fortes: sexo fogoso, destilados, Coríntians. Quando morreu, alimentou discretamente a esperança de ser mandado para o inferno, lugarzinho quente e agitado como os lugares que gostava de freqüentar na Terra, mas acabou indo mesmo para o purgatório, que até achou interessante, e depois para o céu, onde se considerou mais punido do que recompensado. 14/05/2009. Estou enganado ou haveria algumas diferenças entre os jovens de agora, embalados e amamentados pela internet, e os de vinte anos atrás, quando comecei a dar aulas na universidade? O curso de letras está massificado, poetas e romancistas não fazem parte das expectativas espirituais e profissionais dos alunos; a única poesia que lhes entra na cachola (ou no intestino) é a letra de música, embora pareçam mais disponíveis que gerações anteriores a ouvir aquilo a que não foram condicionados. São potencialmente multiculturalistas, relativistas, mas dão a impressão de completamente perdidos no formigueiro de informações em que vivem. 13/05/2009. O nome da catástrofe. — Quase duas semanas sem escrever... — Quebrou a mão? — A mão está boa. — Não pagou a conta da banda larga? — Botei no débito automático. — O ladrão levou o notebook? — Trago sempre comigo. — Não baixou o santo da inspiração? — Até que sim. — O escritório foi inundado? — Nunca esteve tão seco. — Então... — É o pedreiro, cara. Tem um pedreiro lá em casa tocando rock involuntário. 12/05/2009. É ilusão pensar que você não vai ficar velho: só alguns sortudos conseguem morrer cedo. 01/05/2009. A letra de música é a poesia popular do presente. Militantes de esquerda, feministas, gays, negros, padres católicos, pastores evangélicos, entre outros, incluindo os humoristas, as eternas vítimas do amor e agora da concupiscência, apelam para essa modalidade semiliterária de persuasão ou consolo. Quem quiser coisa menos efêmera, deve recorrer aos velhos poetas do livro, acessíveis em tiragens cada vez menores ou em boas bibliotecas públicas. Se um dia a grande poesia será conduzida por outras empresas transportadoras, só quem viver verá. |