|
NOTAS PARA UM DIÁRIO - 45 30/04/2009. É patético o esforço de alguns professores secundários em prol da leitura, quando os alunos já estão noutra, por outras mídias envolvidos (no sentido macluhaniano de presos por todos os sentidos). Se o propósito da escola é civilizar a patuléia, ou, em dialeto mais politicamente correto, promover a cidadania, a TV e a internet parecem mais competentes que o livro, mesmo quando este tem mais imagens do que palavras. Mais patético, ainda, é o dinheiro inútil que o estado gasta com as editoras, com tudo o que pressupomos existir em tais transações. Quem já viu professores em final de carreira, bagaços semiambulantes movidos a antidepressivos, logo pensa no salário de um centímetro que os dedos do Chico Anísio tornaram célebres, quando a principal causa é outra: a total inadequação do giz, da lousa e da cansada voz humana diante de um público adolescente que quer mais, muito mais... 29/04/2009. Enterrar as pessoas pela manhã, sob sol de rachar mamonas, é um belo truque para diminuir os efeitos sombrios da morte nos que ainda permanecem provisoriamente vivos. 28/04/2009. A ficção trabalha com o possível para enxergar com mais nitidez a realidade. 27/04/2009. Diante dessas últimas gerações absolutamente áudio-visuais de alunos de letras, é inútil insistir com a escrita. Pra eles, as idéias nascem com a fala e pra serem ditas; saber falar com boa mise-en-scène é mais importante que juntar carreiras de palavras num monótono pedaço de papel. A própria escrita, na comunicação pela internet, é oralizada e estonteantemente sintética, cheia de abreviaturas incompreensíveis pros leigos, embora até isso seja uma prática destinada muito em breve ao baú dos anacronismos, dadas as facilidades que a www cada vez mais oferece à verdadeira comunicação oral (a velha televideofonia dos filmes futuristas d’antanho e que hoje é a mais banal realidade em qualquer computador com banda larga). Urgente, portanto, é trazer de volta duas disciplinas da antiguidade, a oratória e a dialética, que ensinavam a dizer, a pensar, a discutir, surgidas numa época em que a troca de idéias só dispunha de um meio pra se realizar: a linguagem oral, o bate-boca-frente-a-frente. Mais tarde, no reino dos livros e dos jornais impressos, quando a poesia se transformou em literatura, a oratória se tornou irrelevante. Status tinha mesmo quem dominava os segredos da escrita; eram os nossos heróis da inteligência. Sem registro de suas performances, só conhecemos de nome e de fama os grandes oradores da época moderna, assim como os virtuoses do violino e do piano, como Paganini e Liszt. O nome oratória não cheira bem? Eu vou propor, à comissão permanente de reformulação curricular da minha faculdade, que se chame falatória — pra distinguir de falatório, que já é uma triste realidade de fato e não um nobre alvo a atingir. 26/04/2009. Só vale a pena morrer por um direito: o de nascer de novo. 25/04/2009. Imagino que a primeira sensação do recém aposentado seja qualquer coisa muito próxima à de voltar ao próprio estado natural. Mais: de ter reatado com a própria eternidade. Gota no oceano, as décadas em que se vive ativo não fazem nenhuma falta à humanidade; só têm sentido se somadas ao trabalho comum dos milênios. É frustrante para o indivíduo constatar que não vale nada por si mesmo, mas só a serviço da grande máquina anônima do universo. 24/04/2009. O marido acabou antes da mulher a declaração de imposto de renda, mas não a enviou logo pela internet. Esperou pela esposa: — Acha que eu ia deixar a sua declaração viajar sozinha para Brasília? 23/04/2009. Durante os cinco séculos de predomínio do livro, foram publicadas tipograficamente não só as obras escritas nesse período, mas todos os manuscritos anteriores que o tempo pode conservar. Nunca a história tinha visto uma proliferação tão grande de livros — mar de papel em que os eruditos geralmente se afogavam, com poucos deles retornando à superfície para dar conta daquela labiríntica viagem submarina. Tinham lido todos os livros, e a carne continuava triste. A humanidade vai ler menos, de agora em diante, e escrever menos, mas o saber acumulado em tantas folhas de papel, reais ou virtuais, não pode ser eliminado tão simplesmente. Será sempre uma pedra no sapato do futuro, cujas cabeças mais inteligentes volta e meia terão de se debruçar sobre o anacrônico material e com ele dialogar, seja para refutar ou aprender. 22/04/2009. O sambista Geraldo Pereira conheceu de dentro a malandragem carioca, que nele era mais dramática do que exótica ou ideológica, como é o caso de Chico Buarque, que a transforma em ingrediente na contestação da ordem burguesa, sem deixar de revelar uma ostensiva atração pela figura do malandro e mal disfarçada vontade de ser malandro também. Chegou a sê-lo de fato quando apoiou o ditador de Cuba, um lugar do planeta em que jamais viveria das canções socialistas que fez; canções que o deixaram rico porque — segunda malandragem — teve a sorte de viver no torpe mundo capitalista; e apoiando um partido político que instituiu a malandragem como principal regra de ação. Os sambas “Escurinho” e “Pedro do Pedregulho”, de Geraldo Pereira, mostram um letrista mais preocupado com questões morais do que políticas. Ouvidas em seqüência, as canções têm um efeito dramaticamente dialético: o primeiro, quase em ritmo de embolada, falando do “escuro direitinho” que, por artes do amor, foi tomado pela “mania de brigão”, especializando-se em conflitos; o segundo, em solene ritmo de samba-canção, sobre o valente que quebrava botecos e enfrentava a polícia, mas que, por artes do mesmo e contraditório amor, decidiu adotar a vida direita. 21/04/2009. Se dissesse que Drummond é um poeta necessário em minha estante, estaria mentindo. Não sou moderno o suficiente para assimilá-lo bem: passei da aldeia caipira para a global sem baldeação na Cidade Grande, cuja experiência me parece fundamental para a devida compreensão de sua obra, apesar dos aspectos universais que ela passou a revelar depois de sua militância comunista. Leio melhor poetas que nunca saíram da província, mesmo se viviam em Porto Alegre, como Mário Quintana, ou até se giraram o mundo, como Ribeiro Couto, sem falar naquele irresistível velhinho provinciano que tinha um olho em Pasárgada e outro na cruz nazarena. 20/04/2009. Um dia, o gênero romance já foi muito necessário. Hoje, só alguns romances são obrigatórios. 19/04/2009. Meu pedreiro nasceu com temperamento de chefe e inteligência de lacaio. É um bufão involuntário. 18/04/2009. A única reforma possível, na educação brasileira de hoje, seria de ordem econômico-motivacional: preceder as notas de zero a dez, no final da avaliação, pelas notas de vinte, cinqüenta ou cem reais durante o processo de aprendizagem. Sai caro, mas só teríamos alunos brilhantes. 17/04/2009. Nalgum lugar do futuro, o romance Lolita, de Nabokov, ainda será editado em coleções de literatura infanto-juvenil. 16/04/2009. Estava sempre inventando truques pra enganar a solidão. O mais recente era treinar caretas quando passava por espelhos, surpreendendo-se a cada instante com a riquíssima plasticidade do próprio rosto. Quando a coisa virou hábito, momices brotavam independentemente dos espelhos, embora esses fossem importantes pro exercício ilusionista. Com o tempo, os cômodos vazios superpovoaram-se de máscaras, e ele recozia para si mesmo o único verso feliz de Mário de Andrade: — Sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta idiotas. 15/04/2009. Dizia McLuhan que somos mais felizes quando os cinco sentidos estão equilibrados no ato da percepção, sem predomínio de um sobre os outros. Segundo ele, nas sociedades tribais havia esse equilíbrio sensorial, que começou a desaparecer com a invenção do alfabeto e se perdeu de vez a partir da máquina de Gutenberg, com a visão assumindo o controle do barco perceptivo. Esse equilíbrio tribal estaria começando a voltar na época da eletrônica, sobretudo graças à TV — McLuhan não viveu para ver a internet —, que seria um meio de comunicação mais “envolvente” e dirigido a todos os sentidos. Com todas essas mídias de hoje, parece haver mais superexcitação sensorial do que equilíbrio. Retribalizado, acho que o mundo está, mas é uma tribo muito barulhenta e agressiva. Ao contrário da velha aldeia, a aldeia global está sempre com excesso de lotação e as pessoas vivem bastante ocupadas, relacionando-se com o tempo de uma maneira muito mais ansiosa do que os plácidos aldeões pré-eletrônicos. 14/04/2009. Sempre que vou a laboratório médico penso na dialética hegeliana, em que positivo é coisa ruim e negativo é coisa boa. 13/04/2009. Inventário. Sou um fazendeiro a meu modo, Um fazendeiro do quintal: As minhas plantas planto e podo, Cães apascento sem curral. Minha fazenda é minha quinta Sem pecuária e agricultura: Frente e fundo, trinta por trinta; Infinita, porém, de altura. 12/04/2009. O relativismo é uma conseqüência do ambiente liberal e cético que, a partir do século XVIII, permitiu o livre exame das coisas e a livre expressão dos seus resultados — o que em princípio era e é boa coisa, quando não termina por tolerar posições ideológicas mais radicais, como o superindividualismo nietzscheano ou o igualitarismo autoritário, fontes do nazismo ou do comunismo. Sem um valor mais alto que se levantasse, tudo era permitido e Raskholnikov podia fazer o que bem quisesse. O relativismo é o calcanhar de Aquiles do mundo liberal; ou, para continuar na imagística homérica, o cavalo de Tróia por onde entram os inimigos da sonolenta liberdade e tomam conta do seu precioso pedaço. É uma falsa filosofia, que facilita o ingresso e fortalecimento daqueles conceitos que batem de frente com as idéias liberais, constituindo a mais viva ameaça ao próprio vovô complacente que tudo permite. A realidade humana é plural nos aspectos mais exteriores, mas guarda uma identidade essencial, escondendo algumas verdades básicas que são responsáveis pela unidade do nosso ser em meio à mais caótica dispersão por épocas, civilizações, religiões e filosofias diferentes, ponto de apoio sem o qual voltaríamos ao jardim zoológico da pré-história, assim que soprasse o menor ventinho reformista. Nada seria menos fascista do que, antes de assegurar livre trânsito a determinada ideologia, o Estado liberal examinar-lhe os documentos e conferir se possui carteira de habilitação democrática, ou seja, se está de acordo com aquela legislação básica que defende a natureza humana do perigoso “coração das trevas”. |