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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 44 28/03/2009. Saul Bellow viu a assimilação de aspectos do socialismo pelo capitalismo como uma vitória deste, prova cabal de sua superioridade, quando talvez seja justamente o contrário: o inimigo entrando pela porta dos fundos e se instalando discretamente nas casas brancas do liberalismo. 27/03/2009. De que adianta tanta informação, se as pessoas não sabem o que fazer com elas? Os sábios, mortos ou vivos, estarão cada vez mais disponíveis na internet, mas na época do self-made man e do self-service parece condenado a desaparecer o velho hábito de perguntar a eles qual é o melhor caminho. 26/03/2009. Não há revolucionário mais perigoso, na música ocidental, do que o talentoso Michel Legrand, que quebrou as fronteiras estéticas ao juntar, na mesma panela midiática, a música clássica tradicional, a moderna, o jazz e o kitsch. Expressão mais acabada de multiculturalismo no universo musical, é preciso escutá-lo com dedos a postos para tapar o nariz, ou melhor, os ouvidos. 25/03/2009. Mas a tendência tribalista da aldeia global, de retorno a formas de convivência mais comuns e menos individualistas, não parece favorecer mais o socialismo que o capitalismo? 24/03/2009. Se, na era da informação, toda pequena aldeia acaba inevitavelmente do tamanho do globo, cada indivíduo se julgará com um imenso rei na barriga, pois informação dá poder, e excesso de informação gera, em larga escala, indivíduos bem mais poderosos. A guerra deixará de ser um fato esporádico e internacional, virando combate diário contra indivíduos ou bandos excessivamente fortes, escarnecendo impiedosamente da dura lex. Mesmo os que se colocam ao lado da lei, parecem fazê-lo com certa complacência. A aldeia global parece programada para produzir mais déspotas que cidadãos. 23/03/2009. Depois de mais de dez anos engavetado, a viúva de Paulo Francis decidiu publicar um inédito do escritor: o romance Carne viva. Cheira a inacabado, mas há muitas páginas que permitem imaginar como teria sido o romancista Paulo Francis, se tivesse vivido algumas décadas antes, quando ainda era possível escrever romances com entusiasmo. 20/03/2009. Ninguém, no Brasil, sabia escrever mal como Octavio de Faria. Pois também é preciso saber escrever mal, fazendo o deficit funcionar como superavit. 17/03/2009. Todos têm algum segredo, Algum crime, uma vergonha Que nem mesmo o sonho sonha. São coisas inconfessáveis Que não se diz a ninguém, Uns negócios impensáveis, De tanto que metem medo Quando o pensamento vem. E que ninguém diz, na vida, Nem a padre confessor Especialista em segredo, Nem a analista sisudo, Nem à amada mais querida, Nem à mãe, fonte de tudo, Nem ao mais obscuro verso, Nem a Deus, em surda prece. Coisas que, se alguém dissesse, Poria em risco o universo E o motor da Criação. Coisas que pensar nem ousas. Tão inconfessáveis cousas Que nem formuláveis são. 16/03/2009. Um viva para as diferenças radicais! O casal mais bem entrosado do mundo é formado por duas personalidades diametralmente opostas: o extrovertido Sr. Pinto e a introvertida Dona Buceta. 15/03/2009. Em McLuhan, que era católico depois de ter sido protestante, os meios de transporte do pensamento são criações humanas, mas parece sobrenatural o seu poder na modificação da sensibilidade e do espírito. Seriam ferramentas sugeridas por Deus, pelas quais Ele interferiria indiretamente na História. 14/03/2009. O feminismo e o movimento gay esvaziaram semanticamente duas velhas e nobres expressões da língua portuguesa: xingar de filho da puta e mandar tomar no cu. 13/03/2009. O compositor Sérgio Ricardo, um dos principais talentos musicais de sua geração, é um grande criador de melodias, mas suas letras idiotamente engajadas funcionam como agentes poluidores das canções, inquilinas vulgares que não merecem as mansões em que moram. 12/03/2009. Quando os filhos são pequenos, a mãe torce pra que eles adoeçam de vez em quando: é o melhor jeito de exercitar o cuidado. Quando eles crescem e ameaçam abandoná-la, ela não vê a hora de pegar uma doencinha e virar objeto do cuidado deles. 11/03/2009. Proust acertou na mosca azul: não é a comunidade de opiniões que aproxima as pessoas, mas a consangüinidade de espírito. 10/03/2009. Hoje só há espaço para dois tipos de artista: o que agrada as massas e o que provoca o seu grupinho de amigos. 09/03/2009. Não sou muito apreciador do “estilo” de Harold Bloom, mas gosto do seu método atual, impressionista. Que importa se já compartilhou das bobagens desconstrucionistas? Como seu colega de raça Paulo de Tarso, também teve sua estrada de Damasco e renegou a antiga crença. Hoje é um nome famoso e respeitado, circulando pelas listas de best-sellers e contrariando as tendências dominantes nas letras universitárias — estruturalismo, feminismo, multiculturalismo, marxismo e o próprio desconstrucionismo —, em nome da velha e sadia crítica subjetivista. 08/03/2009. Como poderia haver literatura sem um público burguês cultivado, capaz de reagir às obras com inteligência e deixar mais ou menos à vontade, em seus salões, a vaidosa fauna dos escritores? Mesmo uma reação profundamente negativa era mais vital para a saúde da arte do que a indiferença atual do “homem massa”. 07/03/2009. O neoliberalismo incorpora aspectos do socialismo pra garantir-se no poder, mas como está mais interessado nos seus negócios, não perde muito tempo com militância ideológica. O neossocialismo incorpora aspectos do liberalismo pra chegar ao poder, e como seu único negócio é a militância ideológica, tem boas chances de ganhar a partida. 06/03/2009. Há cem anos morria assassinado Euclides da Cunha, em pleno sucesso literário e crise conjugal. Em sua cabeça, os louros da glória se misturavam desajeitadamente aos cornos do marido enganado. 05/03/2009. Um jornalista francês, deplorando a inevitável superação do jornal impresso pela internet, acredita que com o livro não acontecerá o mesmo, pois há nele (palavras do francês) algo de mágico: as pessoas gostam de segurar nas mãos um objeto como esse. Todos já testemunhamos esse fascínio que o livro-coisa exerce mesmo em quem não suporte ler. Sempre haverá uma livraria pop no shopping ou no aeroporto; o livro vai continuar, por aí, transportando romances que viraram filmes vitoriosos de Hollywood, religião, auto-ajuda, clássicos em domínio público, e inclusive a boa e a má literatura do futuro. O livro será salvo não tanto pela utilidade, como pela beleza do produto. 04/03/2009. Sobre a pré-história do romance, só a epopéia é lembrada, deixando-se de lado o teatro, que também é uma forma de contar histórias e não morreu durante o reinado do romance, gênero bem mais transitório que surgiu com a portabilidade permitida pela máquina impressora, inicialmente como divulgação em série do romance medieval de cavalaria e logo a seguir, após a poda de asas do fabuloso, como principal veículo do espírito realista da época moderna. O romance de cavalaria era epopéia em prosa, escrito mais para ser declamado do que lido solitariamente. Com a tecnologia, o teatro recuperou-se do golpe sofrido com a invenção da impressora e voltou de roupa nova, com as devidas adaptações e assimilações, sob a forma do cinema. O cinema também aproveitaria muito do romance, depois de deixá-lo na lona em estado agonizante. Por que o teatro é o único gênero que permaneceu, bem menos sujeito às circunstâncias históricas que a epopéia e o romance? Certamente por levar a técnica de contar histórias a seu limite máximo, que é a representação, fingimento ao vivo das ações humanas. 03/03/2009. Antes do livro impresso, não havia o hábito da leitura solitária e muda. Se agora, com outras empresas de transporte literário, ela ainda se mantiver viva, será sinal de que não era só uma forma histórica e passageira destinada a ser substituída por outras, mas uma necessidade da mente individual no trato com idéias universais. 02/03/2009. Colheita sideral. Manejada por anjos bêbados ou loucos, A lua em foice decepava estrelas — Mas éramos sozinhos e bem poucos Pelas ruas desertas a colhê-las. 01/03/2009. Esta nossa vidinha caminha num corredor muito estreito, quase sem luz, espremida entre o código genético e o código penal: o primeiro estabelece nossas fronteiras e o segundo as defende. |