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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 43 28/02/2009. E o sabiá, que exprime a sua alegria em tom menor? 27/02/2009. A principal causa da violência urbana é a péssima divisão de ira per capita. Socializemos a raiva com mais equanimidade e teremos a paz social. 26/02/2009. Algumas coisas melhoram, outras pioram. Mas nem as boas me impedem de envelhecer, nem as más me convencem da utilidade do suicídio. 25/02/2009. Ansiolítico natural. Entre páginas e troncos, Ligando o eterno e o instante, Nunca vi melhor calmante Que uma rede entre dois roncos. 24/02/2009. Há um estado civil que desapareceu completamente: o da mulher largada. 23/02/2009. Há a idade de ler tudo, e rapidamente. E a idade de só ler, vagarosamente, o que se impuser com muita insistência. Mas não é conselho que se deva dar a jovens, pois o conhecimento acumulado desordenadamente na primeira é fundamental para o aproveitamento sereno dos livros na idade madura (que os mais honestos entre nós preferem chamar mesmo de decadência). 22/02/2009. A hora ideal para o suicídio é quando somente o teu cachorro te leva a sério. 21/02/2009. Um bom vinho independe do formato da garrafa, mas o ritual de beber fica mais pobre e protestante sem o paramento cerimonial do rótulo ou da taça adequada. O mesmo acontece com música sem título. Por mais absoluta que seja a música de uma sinfonia de Beethoven, ela merece alguma coisa a mais além de simplesmente ser chamada de Sinfonia nº 7. Impossível que não esteja ligada a alguma circunstância emocional do autor. Berlioz nomeou uma sinfonia de Fantástica. Richard Strauss tem a Sinfonia Doméstica e a Sinfonia Alpina, que já nasceram para sugerir um certo conteúdo ou programa. Saudades de Matão não poderia jamais atender pelo nome de Tico-tico no fubá. 20/02/2009. Todas as casas, um dia, terão calhas nos beirais. Mas será mesmo concebível um mundo sem a música enervante das goteiras? 19/02/2009. Há grandes arranjadores com forte imaginação tímbrico-harmônica e pouco talento melódico. Realizam-se melhor quando a serviço dos outros. Recordaria o nosso Radamés Gnatalli e o alemão Claus Ogerman, que viveu nos EUA e formou com Tom Jobim uma parceria de bons resultados, estendendo para orquestra muitas canções inspiradas e algumas experiências “eruditas” do compositor carioca que, embora também orquestrador, tinha mais talento harmônico-melódico do que tímbrico. Deus diverte-se muito na distribuição dos talentos. 18/02/2009. Mitificação do selvagem e do rústico, o multiculturalismo foi uma pequena onda que começou no século XVIII e hoje é dona quase absoluta das ciências humanas. Rousseau é o padrinho dessa tendência, que veio do romantismo, passou por certas vanguardas “primitivistas” do século XX e hoje dá as cartas na universidade. 17/02/2009. Proust, intransponível para o cinema, é para leitores sem nenhuma pressa. Seria inconcebível na Aldeia Global. É a derrota grandiosa do romance, a sua consumação (nos dois sentidos da palavra). 12/02/2009. De um lado, há o cancioneiro popular brasileiro; e de outro, a chamada MPB. Parece que não, mas são duas coisas diferentes. Na primeira, a gente encontra muitas canções bonitas, escritas nos dois últimos séculos, porém a segunda é sobretudo uma ideologia, ou um complexo ideológico que, por mais que divirjam as idéias dessa ou daquela corrente, caminha seguramente para um certo fim: igualitarismo socialista, defesa das minorias, multiculturalismo, ambientalismo. MPB é música para formar lideranças progressistas, e por isso é dirigida preferencialmente a estudantes, que serão os empresários, cientistas e profissionais liberais de amanhã. Restrita a rádios universitárias e estatais, ou acessível através de downloads piratas pela internet, é difícil ouvi-la nas AM e FM do povão, que gosta de outras coisas. Surgiu com os cançonetistas universitários da bossa-nova classe média e se afirmou com os festivais de música engajada dos anos sessenta. Teve até direito a dissidências, como o tropicalismo, que abriu espaço para fusões com o rock e o pop internacionais. Canções líricas, “românticas”, continuaram a ser compostas pelos militantes da MPB, mas traziam a sua marca d’água nos arranjos jazzísticos e na interpretação quase sempre murmurante, o que as diferenciava das canções alienadas dos “outros”. A MPB também olhava para trás. Sabia reconhecer no passado os seus precursores, sobretudo aqueles que usaram ritmos miscigenados, como o samba e o maxixe, revestindo musicalmente crônicas do cotidiano popular; foram “relidos” e regravados dentro do novo padrão estilístico-ideológico. A principal arma da MPB, responsável por grande parte do seu fascínio, é a associação inteligente da mensagem revolucionária com a criatividade musical brasileira. Cantando e dançando belas canções, os estudantes assimilavam quase sem querer o catecismo político das esquerdas. Apesar do Lula preferir música sertaneja, a MPB teve um papel importante na sua eleição. 09/02/2009. Aquele garoto da favela preferiu a vida honesta: aprendeu a roubar bolas do ataque adversário e acertar tiros fatais de fora da grande área. 08/02/2009. A principal desculpa do relativismo moderno é o “Se Deus não existe, tudo é permitido”, de Dostoievski. 06/02/2009. Na universidade, social-democracia é extrema-direita. Liberalismo, então, nem é mais categoria política, mas penal: todo liberal seria um sociopata. 04/02/2009. Há muita bobagem em McLuhan, mas também grandes intuições. Um paradoxo mcluhaniano que está bem vivo: quanto mais aumenta o mundo, menor fica. Com a dimensão de aldeia, os marginais se unem mais facilmente; e o que antes era só luta de classes, proletários versus empreendedores, hoje é uma grande luta planetária das periferias (feministas, negros, gays, socialistas gramscianos etc.) contra o centro, ou seja, o pouco que ainda resta de vida civilizada. 03/02/2009. Eu sou eu e minhas extensões, disse McLuhan y Gasset. 02/02/2009. Olavo de Carvalho, atualmente, é quem melhor liga o Brasil à “aldeia global” das idéias. É nosso pensador mais universal, na maior parte divulgado (escrito ou oral) pelo mais universal dos meios, a internet, pois a imprensa convencional não quer saber dele. Paulo Francis era tolerado pelo lado clown do homem, que de algum modo compensava o humor cáustico do escritor. O texto de Olavo de Carvalho tem a gravidade e o rigor do filósofo, de mistura com o espírito moleque da sátira, que faz dele um temível embora engraçadíssimo polemista. — Seu ilustre pedaço de merda! — ouvi-o certa vez, em seu programa web-radiofônico, dirigindo-se a um adversário desleal. É Quixote puro, não no sentido de veiculador de idéias inaplicáveis, mas pela combinação insólita de sandice na forma e lucidez no conteúdo. Lembra muito Lima Barreto, um de seus autores preferidos, mas também o ex-padre Antônio Torres, hoje completamente esquecido, e o super-padre Gustavo Corção, todos eles especialistas em lança afiada. 01/02/2009. Boletim meteorológico da direita. Era uma chuvinha chata. Dessas chuvinhas operárias, fanáticas do trabalho e sobretudo da hora-extra. |