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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 42

 

 

31/01/2009. Oração de São Francisco de Bagdá.

Onde houver crianças adestradas para a guerra, que eu leve um instrutor de pipas.

Onde houver mesquitas sisudas, que eu leve igrejinhas brancas de Ouro Preto.

Onde houver homem-bomba, que eu leve Groucho Marx ou Jacques Tati.

Onde houver burca ou xador, que eu leve saia justa e blusa decotada.

 

 

30/01/2009. Só por um rabo de saia é justificável trocar a volta segura pelo atalho duvidoso.

 

 

29/01/2009. Envelheceu obcecado com o aperfeiçoamento da aerodinâmica da mão, visando o tapinha na bunda da mulher amada. Até que um dia ele percebeu que já havia mais osso que polpa naquela outrora tão bela região feminina — e ela percebeu que o rápido jatinho de antigamente já não passava de um trêmulo e hesitante teco-teco.

 

 

28/01/2009. Eu tinha um coração sovina, de mãos sempre fechadas. Até que conheci Fulana, que botou meu coração de joelhos, com as mãos súplices.

 

 

27/01/2009. Nobuo Uematsu, compositor inspirado de trilhas para vídeo-game, é um “suiteiro” que já foi até orquestrado e gravado por respeitadas orquestras sinfônicas do ocidente. É música globalizada, uma espécie de world music de concerto, e por ela cruzam ventos sonoros de todos os pontos da aldeia planetária: encontra-se permanentemente aberta a qualquer folclore nacional, aos vários gêneros populares e sobretudo à solene influência de alguns compositores clássicos, como Tchaikovski ou Stravinski. Não se trata de mais um praticante esperto do kitch, que tapa o nariz diante da própria criação, enquanto confere os dólares que, através dela, deslizam para a sua conta bancária. É um cultivador respeitoso do kitch, que acredita e não se envergonha do sentimentalismo que exprime com talento.

Além do vídeo-game, da world music, do kitch, do youtube e dos dólares, Uematsu é só um desses compositores que gostam de criar a sua música, pouco se lixando para o que dizem os fiscais alfandegários da estética.

 

 

26/01/2009. De tão ocidentalizado, só falta ao Japão mudar-se de vez para o Ocidente. E se trocasse de lugar com a Bolívia?...

 

 

25/01/2009. Quando os conceitos racionais já não resolverem mais nada, o homem sabe que poderá contar com a poesia, adormecida mas sempre viva no subsolo do espírito. Necessariamente acompanhada da beleza e da liberdade, ela é eterna, subsistindo além das atrocidades humanas. Nossa época exilou a poesia? “Exilada, ainda será mais bela. As crianças a recolherão no espírito e ela ressurgirá mais límpida.” A criança, e sua eventual sobrevivência no adulto, é responsável pela permanência da poesia entre nós, mesmo nos momentos mais hostis da História. Sempre haverá crianças que esquecerão de amadurecer... “As horas passam, os homens caem, [mas] a poesia fica” — como uma voz e uma luz na noite do mundo. É o que garante a voz solene do “exilado” Emílio Moura, no belo poema “Permanência da poesia”.

 

 

24/01/2009. O que mais chateia o pensamento não é aquilo que, por causa de dezenas de obstáculos humanos, ele não vai conhecer, mas o que ele jamais poderá conhecer, mesmo se funcionasse por um milhão de anos.

 

 

23/01/2009. Subsídios para uma futura crônica.

A Faixa de Gaza se chamava, agora, Faixa do Gozo — e todas as palestinas bonitas, bem longe dos véus, esqueciam nas praias do Mediterrâneo os seus corpos morenos e nus, já perfeitamente curados do fundamentalismo islâmico.

 

 

22/01/2009. A função do triângulo.

Se tivesse de escolher entre uma e outra, ficaria com as duas.

 

 

21/01/2009. Pintura flamenga.

O luar, amante indeciso,

Entrou sob a mesma porta

Que visitou no outro mês.

E os olhos da quase morta

Floriram, mais uma vez,

O mesmo e triste sorriso.

 

 

20/01/2009. A vitória de Obama teve um efeito simbólico: o negro que finalmente venceu o branco na disputa mais importante do mundo. Por isso, foi tão amplamente comemorada pelos negros e por todos aqueles que sempre torcem, miticamente, pelo sucesso dos mais fracos, mesmo se incompetentes. Bastarão, porém, alguns meses de governo pro mito ficar branquinho da silva, como seus antecessores; ou seja, começará a ser julgado, enfim, como político.

 

 

19/01/2009. Na época em que o livro e o jornal eram os principais meios de comunicação, o virtuose da escrita tinha tudo pra ser um pop star. E muitos foram, como Walter Scott, Balzac, Victor Hugo, George Sand. Agora, junto com o craque do retrato a óleo e da forma-sonata, entre outros craques do passado, vai virar peça de museu — um solene Museu do Espírito, cheio de professores universitários pra tirar o pó das velhas estátuas.

 

 

16/01/2009. Morrer não é igual pra todos. Só depois da morte é que a gente começa a ficar igual, rigorosamente igual, graças ao trabalho incansável dos vermes comunistas.

 

 

15/01/2009. O destino é a mais suave manifestação de Deus.

 

 

11/01/2009. Antes da morte, nunca é tarde para mudar. O poeta Ferreira Gullar, na Folha de domingo, converteu-se finalmente ao capitalismo: produto da agressividade humana, seria mais benéfico à humanidade do que o socialismo (que presumivelmente bebia na fonte da bondade e da justiça).

Mas falar em justa e bondosa doutrina, a respeito do marxismo, é continuar a dizer sandices. Que justiça é essa, que manda invejosamente descer quem conseguiu subir mais alto ou expulsa de campo quem não desistir da doutrina oposta? Que bondade é essa, que todos devem praticar por decreto, exceto os dirigentes que, em defesa da ordem sagrada, têm todo o direito de ser cruéis?

Socialistas movidos mais pelo ressentimento que pela fraternidade são muito mais nocivos que capitalistas obrigados a engolir as leis.

O poeta foi vencido pelas evidências, mas insiste em manter algumas ilusões. Outro exemplo: espera ele que a ganância, motor do vil mercado, um dia se transforme em ganância do bem, ou seja, que de algum modo o capitalismo acabe por desaguar nas águas bentas do socialismo... Não mais por pressão dos sindicatos ou das armas, mas por uma espécie de esgotamento natural da vã cobiça; ou, quem sabe até, por um milagre do céu.

 

 

10/01/2009. Deus foi bem intencionado, quando soprou aos humanos a receita da bomba atômica: adiar por algum tempo o suicídio da espécie.

Obra-prima do paradoxo é a bomba atômica, pois empurra a espécie humana para a beira do abismo e ao mesmo tempo a impede de saltar.

 

 

09/01/2009. A Folha publicou hoje um artigo elogiando o lobo mau Stalin. O autor é uma vovozinha caduca de 101 anos: Oscar Niemeyer.

 

 

08/01/2009. Li nalgum lugar, em Toynbee, que a chegada súbita dos ingleses na Nova Zelândia provocou nos nativos uma epidemia de infertilidade, cessando por alguns anos a produção de índios. Era o impacto de uma tecnologia superior sobre a rudimentar. Fico pensando no preço psiquiátrico que nós, caipiras do interior, não tivemos de pagar, nas últimas décadas, para assimilar essa civilização da informação que começou a chegar com o cinema, depois com a televisão e, a partir dos anos noventa, com a internet?

Se tem razão o finado McLuhan, a nova tecnologia vai se somar ao que já somos, já que é nossa extensão, agindo com uma influência mais subliminar que consciente, além das opiniões e dos conceitos, contra a qual não haveria remédio, pois seus efeitos se manifestariam nas relações entre os sentidos e nas próprias estruturas da percepção. Um dia, os nativos da Nova Zelândia voltaram a fabricar descendentes e hoje são cidadãos ocidentalizados, súditos da rainha da Inglaterra. No meu caso pessoal, sou muito menos resistente hoje do que há uma década em relação à “chegada súbita dos ingleses”...

 

 

07/01/2009. Na década de sessenta, todos queriam ser futurólogos. O futuro seria logo depois, e não havia jogo mais fascinante que adivinhá-lo. Hoje, meio século depois, já é possível fazer o balanço daqueles exercícios proféticos e apontar os que deixaram a bola mais perto da caçapa.

 

 

06/01/2009. Os parentes da capital vieram passar o Ano Novo na chacrinha e se espantaram com a variedade de pássaros que agora, para o nosso júbilo, vêm se esconder na cidade.

— Os canaviais expulsaram os passarinhos — expliquei a eles. — Há mais árvores aqui na cidade do que na roça. 

Eles não conheciam nenhum passarinho. Não sabiam um único nome de passarinho. Mas isso não era problema, pois arranjaram um jeito de nomeá-los por conta própria. Foi um dos divertimentos favoritos dos parentes modernos, nos dias em que ficaram com a gente. E a ornitologia ganhou algumas espécies novas de pássaros: “paper-vew”, “baby”, “top less”, “vem-cá-titio”, entre muitos outros.

 

 

05/01/2009. Quando tudo, hoje em dia, favorece a comunicação fácil e direta, quem ainda vai se interessar pela conversa tonta da poesia?

Outro fator de repúdio: o poeta não se preocupa com a felicidade humana.

O poeta vem advertir contra a mais perigosa das tentações, no sentido religioso da palavra: desejar, para esse mundo, uma ordem que só poderia ser atingida em outro mundo, sobrenatural ou imaginário. Mas quem ainda tem tempo de ouvir, no meio de tantas seduções concretas, o poeta falar na ameaça de caos que ronda a ordem mais organizada ou na hipótese cafona de uma ordem superior, além do aqui e do agora?

Pode ser que um dia ninguém mais queira escrever contos ou romances, mas sempre haverá alguém atento ao mistério das palavras, fonte eterna da poesia — que não é, que nunca foi gênero literário, mas condição humana.

 

 

04/01/2009. Gosto muito de árvores, ou seja, não tenho nenhuma vocação para ambientalista.

 

 

03/01/2009. A idéia de povo, quando foi adotada pelos intelectuais progressistas da pequena classe média, tinha acabado de ser reciclada no forno do romantismo, que a remodelou de acordo com seu padrão sentimental. Desse ponto de vista, o populacho parecia ter uma cara simpática, heróica, como a dos protagonistas de Os miseráveis, de Victor Hugo, bons selvagens corrompidos só na superfície pela sociedade burguesa. O pessimismo naturalista fez o que pode para devolver o povo à ciranda cega dos instintos, mas a verdade é que as duas tendências seguiriam paralelas, a idealizante e a depreciativa, pelo século XX afora, enquanto o Zé-Povinho real, de pés bem plantados no chão, ia se multiplicando conforme mandava o Gênesis e sobrevivendo graças aos truques da medicina contemporânea, que lhe dá assistência médica gratuita. O próprio inchaço demográfico é a senha mágica, ou melhor, o cartão magnético que lhe abre as portas da vida moderna, bota seus filhos nas escolas públicas e lhe permite subir pela escada rolante que leva ao cobiçado Lugar-ao-Sol: uma casinha minúscula, mas povoada de eletro-eletrônicos que tornam a vida cotidiana mais fácil e o mantém bem informado sobre o mundo, sobretudo acerca de seus direitos no mundo. Nada tem de romântico.

 

 

02/01/2009. Um habitante essencial da aldeia caipira que reaparece na aldeia global: o fuxico, agora bem turbinado, via Orkut.

 

 

01/01/2009. O cedro — e sua crespa e bela cabeleira.