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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 41

 

 

24/12/2008. Ao contrário do que previu McLuhan, os novos meios de comunicação (que são extensões dos nossos sentidos, sim, mas amputadas) não substituíram a velha escrita, que passou da forma manuscrita à tipográfica e agora é incorporada pela eletrônica. O livro, veículo lerdo demais para tanta velocidade, vai certamente desaparecer, mas o alfabeto fonético continua vivo e a escrita, com a internet, envolve cada vez mais o planeta encolhido, trazendo de volta a prática das iluminuras medievais.

 

 

23/12/2008. Se a televisão já tinha conseguido encolher bastante o planeta, até transformá-lo numa aldeia, a aldeia global de McLuhan, a internet foi mais radical e reduziu o universo a uma tela de monitor — janela que se abre para onde a gente quiser. O mundo mora em frente e é nosso vizinho mais próximo. O muito-que-fazer e o muito-que-pensar mudaram nossa percepção do tempo, que parece passar mais depressa. É o assunto preferido do meu barbeiro. Com a mente tomada pela chuva de balas das informações eletrônicas, e a sensibilidade condicionada o tempo todo pelo simultaneísmo audiovisual dos meios de comunicação, quem ainda terá paciência para o esforço mecânico de abrir um longo romance oitocentista e percorrer, estoicamente, um parágrafo depois do outro?

 

 

22/12/2008. Só foi possível um Fellini e um Bergman quando o público do cinema também freqüentava a literatura.

 

 

21/12/2008. Durante os anos de 1944 e 1945, quando a guerra do Ocidente contra o próprio Ocidente ia chegando ao fim, um intelectual austríaco refugiado no Brasil, Otto Maria Carpeaux, escrevia quase três mil páginas de uma grande História da literatura ocidental, a pedido da editora da Casa do Estudante do Brasil, em que eliminava as fronteiras nacionais e tratava o Ocidente como um grande país, uma espécie de país literário, mais ou menos oculto sob a diversidade das línguas européias (que nunca abalou a profunda unidade que atravessava o “país” de ponta a ponta, como um rio São Francisco do espírito, ligando os gregos antigos à contemporânea Euro/América).

A maneira que Carpeaux encontrou para suportar, no exílio latino-americano, a guerra que estava devastando a sua velha Europa, foi revelar, sob as províncias de Babel, um subsolo comum, a mesma língua literária aproximando os falantes das mais diferentes línguas nacionais.

Foi lamentável que a editora não tenha publicado, no ano seguinte (1946), a imensa história, que teria sido a melhor contribuição brasileira à comemoração da paz mundial. Permaneceu inédita por quase quinze anos, e só começou a sair, a partir de 1959, pela editora O Cruzeiro. Desde então, e com as outras edições da mesma obra — a última das quais, a terceira, saiu agorinha mesmo, em julho de 2008, pela editora do Senado, em quatro tomos e um total de 2879 páginas —, o público brasileiro tem tido a oportunidade de conhecer não só autores dos quais nunca tinha ouvido falar, mas, sobretudo, de perceber aquela unidade que havia por trás de tantas literaturas aparentemente separadas pelo instinto nacionalista. 

 

 

20/12/2008. A literatura serve pro sujeito não se perder de vista.

 

 

19/12/2008. Fábula com cheiro.

Ele sentiu o mau cheiro e, imediatamente, saiu pelo quintal atrás do cocô de cachorro. Procurou em todo lugar: no gramado, sob as árvores, ao pé do muro, no cômodo de despejo, mas não o encontrava. Nem sombra do objeto da sua pesquisa, exceto o cheiro. Devia ser mesmo uma obra monumental para emitir um cheiro como aquele, tão onipresente, acompanhando-o por onde quer que fosse no gramado, sob as árvores, ao pé do muro, no cômodo de despejo. Repetiu centenas, milhares de vezes a busca pelos mesmos pontos, olhava como um pássaro, farejava como um cachorro. Inútil. A vida passou. Nunca mais saiu do quintal e da sua pesquisa. Não fez mais nada, na vida, além de procurar o inacessível cocô de cachorro, que tudo indicava estar por ali perto, nalgum lugar bem à sua volta. O tempo passou e ele ficou muito velho no quintal. Um dia, a faxineira o encontrou estirado à sombra da mangueira: estava completamente morto. E ela viu, com cara de nojo, grudado na sola do sapato do falecido, um bom pedaço amarelo de cocô de cachorro, bem fresquinho, como se tivesse sido pisado no minuto anterior.

 

 

18/12/2008. A violoncelista assim se referia a seu instrumento:

— É meu marido... Vive no meio das minhas pernas e paga as minhas contas.

 

 

 

17/12/2008. Pixinguinha disse certa vez, num título de choro, que a vida era um buraco. Devia ser uma máxima popular, mas nem por isso menos verdadeira: a presença do buraco tem uma abrangência, por assim dizer, metafísica. O universo é um buraco, que alguns crêem finito e outros infinito, cheio de outros buracos negros ou brancos. É em buracos e por buracos que expressamos nosso efêmero amor carnal. Num buraco fomos concebidos e de um buraco saímos prontos para a vida. Viver é abrir e tapar buracos: tapando os que outros abriram, abrindo-os para escapar do inimigo. Uma dívida insolúvel ou uma crise existencial é um grande buraco, uma pirambeira. Nossa casa começou em cavernas, como um buraco de fato, e hoje é um buraco emancipado ao nível do chão, quando não das nuvens — um prédio é uma colméia cheia de buracos —, e que tem como função mais importante defender-nos do vento, da chuva e principalmente dos vizinhos .

Finalmente, depois de todos os buracos da vida, é num buraco que nossa vida termina. A vida é um buraco; a morte é um buraco. É, portanto, um absoluto. Deus será um buraco?

 

 

16/12/2008. O poeta Ribeiro Couto começou pós-simbolista. Escreveu, muito jovem ainda, dois bonitos livros “penumbristas”, publicados no final da segunda década do século XX. Sobre o primeiro deles, O jardim das confidências, Agripino Grieco disse que chovia sem parar sobre todos os poemas. Uma chuvinha noturna, ilhando em seu quarto de solteiro o poeta tuberculoso que, com bom domínio da versificação, sobretudo do alexandrino nada parnasiano, parecia despedir-se do mundo em cada verso que escrevia. Aderiu, depois, ao que havia de mais superficial no modernismo: pouco à vontade no verso livre, descreveu tipos brasileiros e cantou costumes do interior, atolando-se por quase duas décadas no “barro do município” (título de um livro seu de crônicas).

Nos seus últimos livros, compreendeu que sua praia era alguma coisa semelhante ao penumbrismo do início, e então voltou às origens, procurando ligar juventude e velhice, as duas pontas do seu tempo poético. Velho, voltou a ser o jovem envelhecido antes da hora que tinha medo de morrer jovem; mas foi um retrocesso com sabor de triunfo, pois o velho não passava de um jovem que tinha vencido a morte a cada hora vivida. A velhice, ainda que o arrastasse  a cada dia para o desfecho inevitável, era um inequívoco sinal de vitória — vitória, pelo menos, sobre a morte prematura que, felizmente para a poesia brasileira, ia sendo adiada até segunda ardem.

Um paradoxo envolve a personalidade literária e civil de Ribeiro Couto: são poemas em voz baixa, altamente interiorizados, escritos por homem extrovertido e de ação. Quando quis coincidir temperamento e poesia, na fase modernista, não foi tão convincente. Seu melhor caminho era quando fingia, e fingia tão completamente, que chegava a fingir que era vida a vida que de fato experimentava...

 

 

15/12/2008. Projeto para as férias úmidas de janeiro: reler Vidas secas.

 

 

14/12/2008. Nesta semana, em São Paulo, um seminário internacional vai discutir a crítica literária. Mas isso ainda existe? O ensaísmo universitário, pois parece que é disso que, na verdade, vai tratar o seminário, não pode ser confundido com crítica literária, que sempre foi uma atividade mais voltada para o público literário não especializado e exercida, nos melhores casos, por pessoas que conseguiam pensar por conta própria, como Tristão de Athayde, Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Agripino Grieco, Franklin de Oliveira, Wilson Martins. Por mais que a gente discordasse do que eles escreviam, havia por trás dos textos uma personalidade intelectual e um estilo inconfundível: eram escritores, além de críticos, e podiam ser compreendidos pelo leitor medianamente culto que freqüentava os suplementos literários.

Alguns nomes que vão participar do seminário paulistano são figurinhas conhecidas do meio acadêmico, pop-stars da universidade, mas só conseguem entusiasmar um público bem demarcado: colegas de ensino e alunos de pós-graduação. Na maioria, com bem menos cultura literária (isto é, conhecimento das obras fundamentais) do que muitos médicos, advogados e até engenheiros de outrora. Mas que importância tem isso, se são profundamente sabidos em teorréia literária, estudos inculturais, psicanálise marciana, marxismo de Neandertal e outros delírios da mesma espécie?

 

 

04/12/2008. Minha utopia é a cristã, expressa no ama o próximo como a ti mesmo. É o mandamento  definitivo, do ponto de vista moral, político e lógico, superior aos três pontos cardeais da Revolução Francesa, inclusive a própria fraternidade que, dita assim, secamente, não diz nada. Como desejar igualdade a todos, sem mais nem menos, se a vida seria praticamente impossível sem as diferenças? Como o espírito pode falar em liberdade política, conhecendo ao vivo a prisão do corpo e todas as outras limitações do espaço? A fraternidade cristã, expressa no aforismo do nazareno, é mais perfeita do que parece: ao regular o amor ao próximo pela mesma medida do auto-amor, o cristão se defende ao mesmo tempo do comunismo e do individualismo. Se a comunidade exigir muito do indivíduo, como no primeiro, pela regra cristã ele tem direito ao mesmo quinhão. Se, ao contrário, o indivíduo quiser tudo pra si, como no segundo, pela regra cristã o grupo tem o direito de exigir dele na mesma proporção. O ama o próximo como a ti mesmo seria um legítimo fiel da balança, responsável pelo melhor equilíbrio — minha eterna utopia!

 

 

03/12/2008. O repúdio aos “pretos” não me parece problema de raça, mas antipatia pela cor. É absolutamente inaceitável que essa rejeição da forma passe por cima da substância, julgando pela pele quando o critério devia ser moral. Mas a cor preta, muito antes de haver africanos escravos, nunca foi sinal de boa coisa: morte, luto, trevas... Não é difícil entender como, por analogia, a cor escura da pele tenha provocado nos “brancos” — nos animais brancos, pois essa rejeição é coisa mais instintiva que racional — uma certa reação de defesa, que ia do simples pé-atrás ao cruel pé na bunda. 

 

 

02/12/2008. O romance é um boato de duzentas páginas. O leitor e o crítico, nos melhores casos, são desdobramentos de dois tipos que conhecemos muito bem: o voyeur e o fuxiqueiro.

 

 

01/12/2008. Augusto Frederico Schmidt não me parece autor de poemas, de livros de poemas, nem de uma obra completa, mas poeta de grandes e inúmeros versos isolados.