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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 40 30/11/2008. Arma de porte livre, a linguagem é um perigo nas mãos de qualquer um. O curioso é que o regime político mais eficaz na proteção do indivíduo, a democracia, será sempre o último a pensar em proibir ou restringir a circulação dessa arma letal. 29/11/2008. O coração do capitalismo é frio como uma pedra de gelo. Já o coração do capitalista, gente como a gente, pode alcançar todas as temperaturas do termômetro moral. 28/11/2008. Exercício com dicionário de rimas. Sou um sujeito muito antigo — Nunca fui moderno não — E tudo aquilo que eu digo, Quando dizer eu consigo, É pura repetição. Ao verso sem restrição, Eu prefiro o metro antigo, Mais próximo da canção: Sem rimas não canto não (Quando cantar eu consigo). E, francamente, não ligo Se algum leitor sabichão Achar mais joio que trigo Nessas regrinhas que eu sigo Quase só por distração. Escrevo só para o irmão, Para a amada, para o amigo, Que complacentes lerão Pensando mais no que eu digo Que na forma de expressão. Se a vida é um grande perigo, Que é que pode uma canção? Uma esperança? Um abrigo? Se eu me chamasse Rodrigo Seria uma solução? Todas as rimas em ão Que queriam vir comigo, Aguardam nova ocasião: Acabou-se a inspiração... Ou só as rimas em igo? 27/11/2008. No Brasil, durante as últimas décadas de inchaço demográfico e ensino de massa, o número de leitores cresceu. O professor FHC jogou pesado em co-edições, sempre com grandes tiragens. Eram obras didáticas e para-didáticas, destinadas a bibliotecas escolares, sem contar os livros indicados para vestibular e a literatura infanto-juvenil, também com público certo, para alegria dos escritores e maior, incomparavelmente maior, dos editores. Como conseqüência desse desenvolvimento meramente horizontal da educação, a literatura brasileira ganhou uma certa sobrevida, permitindo a alguns escritores que continuem brincando de vida literária. 26/11/2008. Nada é mais comprometedor, no currículo de Deus, do que dizer que o homem foi feito à Sua imagem e semelhança. 25/11/2008. Gostar de mulher ainda vai ser coisa subversiva: nossos netos ou bisnetos poderão ser fichados por isso. Mas — ai de nós — talvez seja a única forma encontrada por Deus para diminuir a superpopulação, sem recorrer a velhos expedientes, como grandes guerras ou pestes bubônicas que, embora eficazes, deixam traumas ainda maiores que o totalitarismo gay. 24/11/2008. Cada época tem suas utopias e fabrica, para o gasto, os seus próprios quixotes. Uma das utopias de hoje é a atitude de certos teóricos da literatura na busca de uma solução para o atual recesso de leitores. Uma das explicações mais simplórias — uma espécie de eco distante de maio de 1968 —, é a que joga toda a culpa do mal na leitura obrigatória, que teria transformado o livro em fonte de suplício, num momento em que surgiam outros meios bem mais prazerosos de espalhar boatos. Sancho, campeão do bom senso, diria aos teóricos que o livro é só um meio entre tantos, um veículo alternativo para uma minoria de esquisitos. Se o objetivo da escola é civilizar o pessoal, seria bem menos cansativo para as duas partes, professor e aluno, compartilhar uma tecnologia de informação mais adequada à época. Não se justifica tanto empenho na formação de leitores literários, que sempre foram poucos e não precisam de estímulos exteriores. É uma máfia, como disse o Paulo Francis; vai existir sempre. 23/11/2008. Dalton Trevisan é um escritor daltônico: só vê as piores cores. 22/11/2008. A verdadeira fórmula química do pranto: H2Olhos. 21/11/2008. Minha aluna está melhorando: já conhece música clássica através dos caminhões de gás. 20/11/2008. Toda vez que abro a porta para uma Testemunha de Jeová, sinto uma vontade incontrolável de pecar. Não com ela, evidentemente. 19/11/2008. Antigamente, os casais de cachorros namorando na rua faziam corar as mocinhas do quarteirão. Hoje, as mocinhas que namoram em público fariam corar o vira-lata mais inconveniente. 18/11/2008. A Rede Globo está lutando como pode, nas novelas, pela transformação da idéia de casal, que de dois componentes passaria a três. Um casal dialético, mais afinado com a matemática da época. 17/11/2008. Diálogo no espelho. — Alô! — Olá! 16/11/2008. Subsídios para uma teoria transcendental da crônica. Crônica é bichinho anfíbio Que não anda em linha reta: Tem cara de jornalista, Mas coração de poeta. 15/11/2008. A história do Ocidente, desde a Renascença, está cheia de espasmos revolucionários, mas nenhum que se compare em intensidade e extensão à crise convulsiva dos anos sessenta, no século XX. Convulsão ou crise epilética? O certo é que a vítima está tremendo e se debatendo até hoje. 14/11/2008. Uma forma de fazer justiça é escrever certos nomes próprios sempre com minúscula: nero, hitler, stalin, etc. 13/11/2008. Esse animal biodegradável, que a gente chama de homem, nunca vai se livrar da natureza, mesmo depois que inventar a técnica de transmigração de almas para robôs, ou robôs com suas próprias almas: no princípio será sempre a mãe. Mãe sui generis, é bom não esquecer, pois Mater Natura, hidra esfomeada, tem produção própria: cria para depois devorar. É o que, no jargão gastronômico, chamamos de “um bom garfo”. A vida dessa mamãe é um churrasco eterno. Hoje, os papéis sofreram ligeira mudança: o filho, esquecido de que, no fim, a vitória será sempre da grande gulosa, rebela-se cada vez mais contra a coleira da mãe, que aliás possui um estranhíssimo paladar: prefere a carne seca da terceira idade, embora não recuse outras faixas etárias, sobretudo as provenientes do hemisfério sul. 12/11/2008. Disse o contista Luiz Vilela, em entrevista, que não via no escritor um papel messiânico, mas um papel higiênico. Faz sentido, sobretudo como complemento da função purgativa da literatura. 11/11/2008. Se nunca foi fácil viver de literatura, as dificuldades aumentaram a partir dos anos sessenta, no século passado (e eu, que nunca tinha pensado na respeitável hipótese de vir a ser, um dia, uma pessoa do século passado!). Não somente cessou o que a antiga musa cantava; outras musas, de tuba mais canora, mais alto levantaram a voz, e surgiu seriamente a possibilidade do público literário debandar para outras praias. Não deu outra. Os cursos de letras viraram cursos de letras... de música; e os romancistas já estão de malas prontas para a sétima arte, que depois de algumas curvas já é a primeira do ranking. 10/11/2008. Bem mal. O Bem, de vez em quando, baixa a guarda. Mais competente é o Mal: jamais cochila. Pra melhor se infiltrar, não usa farda. Pra chegar mais depressa, fura a fila. 09/11/2008. Os escritores de hoje têm dois inimigos poderosos: o passado, com sua galeria de antecessores geniais, e o futuro cada vez mais indiferente à literatura. Criar o quê? Pra quem? Uma saída, pra quem não consegue reprimir o vício, é a velha imitação, que antes do narcisismo romântico não era vista com desprezo. Pelo contrário. 07/11/2008. Tinha uma verdadeira cara de ressaca o Jornal Nacional, depois dos diários e sucessivos porres dessa cachaça globalizada e suspeita chamada Barach Obama, que agradou igualmente a pobres carentes e a ricos culpados. De repente, eis o vazio, uma súbita e total falta de assunto na telinha. Agora que o Papa negro já foi escolhido — habemus Obama!, gritavam triunfantes os dois hemisférios —, restava à imprensa voltar à rotina doméstica e ao mundo nosso de cada dia, cheio daquelas coisas abjetas que explicam por si mesmas a necessidade que o público tem, periodicamente, de temperar o prato-feito da vida real com o molho picante do messianismo. 05/11/2008. Literatura é coisa séria. Ou seja, deve ser lida da forma mais anárquica possível. 04/11/2008. Notas pra um epitalâmio. Dádiva é marca de maçã. Se pôde ser nome de fruta, pode ser de mulher, de qualquer mulher, de todas as mulheres: Maria Dádiva, Dádiva de Oliveira, Dona Dádiva dos Anjos. Funciona. Também não precisam exagerar nos donativos. Antigamente, havia mulheres dadas: eram as prestimosas, que gostavam de ajudar o próximo. Era um conceito moral. Hoje, teria outro sentido. Vivemos na época das mulheres dadíssimas, de dons cada vez mais expostos e abertos. “Cualquiera tiempo pasado fue mejor.” Felizes foram nossos avôs, que não precisavam de presentes de casamento: já lhes bastava uma esposinha virgem, que era a maior dádiva desta vida, toda embrulhada de branco e de pudor; presente que ele abria sozinho, depois da festa, na branca planície da cama — logo transformada em mesa farta para o mais inesquecível dos banquetes. Nossas avós eram o prato preferido dos nossos avôs, absolutamente sem contra-indicação. 03/11/2008. Fumar, entre outras coisas, é uma forma de evitar o bocejo, que, para Chesterton, não passa de um grito abafado. O fumante prefere uma forma mais silenciosa de desespero, o suspiro, já que o cigarro, segundo Mário Quintana, é um jeito disfarçado de suspirar. 02/11/2008. Quando você perde o respeito por um esquerdista, você o chama de comunista. Comunista, nesse caso, não é só sinônimo de stalinista, mas também de mau caráter. Se no entanto você o respeita, uma vez que tanto esquerdistas como direitistas podem ser pessoas respeitáveis e decentes, então convém chamá-lo preferencialmente de socialista. O professor Antonio Candido seria um socialista, por mais condenavelmente marxista que seja. 01/11/2008. Por que alguns animais gostam tanto de escrever? |