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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 4

 

 

12 de dezembro de 2005.

— Tudo passa — disse Heráclito, vinte e cinco séculos antes, sentado à beira do mesmo rio da véspera.

— Em nenhum lugar há permanência — apoiou-o o poeta Rilke, vinte e cinco séculos depois, sentado na ponte do castelo de Duíno.

— Não se assustem com a mudança, rapazes. O tempo é só a imagem móvel da eternidade — disse Platão sorrindo, muito antes e muito depois, abrindo uma janelinha do Topos Uranos.

 

13 de dezembro de 2005. Que falta faríamos no insípido espetáculo? A vida humana é um minúsculo e invisível pedrisco que não faz cócegas no calcanhar do cosmos. Um rio que desliza, um pássaro que chispa, uma fruta que brilha: são coisas necessárias. Sobrar, sofrer, ferir, condenado a rir de si mesmo e do estranho mundo que Deus criou, o caniço atulhado de fezes — e algumas vezes de idéias — admira e inveja essa Necessidade que, adeus! adeus!, jamais lhe pertencerá.

O homem é a grande desafinação da natureza.

 

14 de dezembro de 2005.

O mundo já acabou?

Juram por Deus que não,

Que mal levantou vôo

No avião.

 

15 de dezembro de 2005. Época do cada um para si e Deus por ninguém. Deus foi assassinado por Nietzsche & Cia. como represália tardia por ter expulso o homem do paraíso, nos bons tempos de Adão e Eva. Deus não devia ter feito aquilo, é verdade. Mas que direito tinha Nietzsche de fazer justiça com as próprias mãos?

Numa ordenação ideal da história da filosofia, não cronológica, eu deixaria o filósofo da vontade galopante antes de Schopenhauer, que viu bem a necessidade de botar um cabresto no pescoço da égua.

 

16 de dezembro de 2005. Qualquer tempo passado é melhor que o presente, ensinou Jorge Manrique. É certo que havia dias nublados e frios no passado, sem sol nem azul, mas a memória depurou-se completamente deles. Só ficou o tempo essencial, feito de tardes imaculadamente azuis que nunca passavam, povoadas de minutos imóveis como as flechas paradas no ar do filósofo eleático, recusando-se a atingir o alvo. O alvo era a morte — e morrer era impensável naquelas tardes da rua Germano Moreira, com tantas mulheres solícitas cuidando das casas e dos homens mimados.

 

17 de dezembro de 2005. Separando, ontem, jornais velhos para recortar e guardar, reli algumas matérias do “Mais”, na Folha, sobre os cem anos de nascimento do Carpeaux. Boa crônica do Cony, com Carpeaux molhando a própria camisa, no regato mais próximo de uma estrada — estavam a caminho de Ouro Preto —, para umedecer a bomba d’água do Simca estragado do cronista.

 

18 de dezembro de 2005. Dos jornais velhos, passei aos Ensaios reunidos de Carpeaux, livraço organizado por Olavo de Carvalho. Levei-o ao quintal. Estiquei a rede entre o jambolão e a aroeira. Esses ensaios nunca ficam velhos, mesmo quando não podemos concordar com o autor. É o melhor lançamento editorial brasileiro, prata da casa, dessa virada de século. Virada de milênio, no caso de Carpeaux.

Num dos seus primeiros ensaios publicados no Brasil, "Última canção, vasto mundo", Otto Maria Carpeaux refere-se a um "ilustre amigo" seu, o barão de Andrian, que "vive aqui entre nós", no Brasil.

Era o barão austríaco Leopold Andrian (1875-1951), neto do compositor Meyerbeer, que de fato morou por algum tempo aqui. Foi amigo de Hofmannsthal e contemporâneo de Franz Kafka, Karl Kraus, Musil, Wittgenstein, Rilke, Hofmannsthal, Mahler, Freud, Schönberg, Klimt. Pertenceu ao grupo Jovem Viena, junto com Arthur Schnitzler, o próprio Hofmannsthal e outros. Fez uma incursão rápida pela literatura, em 1895, com um pequeno romance: O jardim do conhecimento. Título bem daquela época, hedonisticamente parnasiano, mas ainda sugestivo. Pensando em seus companheiros de viagem, Arthur Schnitzler e Hofmannsthal, é mais provável achar vínculos do Barão com o simbolismo que com o parnasianismo.

É mais um nome europeu perdido nos trópicos. Quanto tempo teria ficado por aqui?

 

20 de dezembro de 2005. Quem primeiro tentou compreender o fenômeno Carpeaux, no Brasil, foi Franklin de Oliveira, morto há alguns anos.

Franklin sacrificou o poeta que havia nele pelo jornalismo. Deu de presente ao Brasil alguns belos livros, dos quais meu preferido é o Morte da memória nacional. Já anda merecendo relançamento. Mesmo marxista, não professava essa doutrina com sectarismo, o que pode parecer impossível, dado o caráter excludente desse pensamento, religiosamente teleológico. Franklin era um homem inteligente, mas mesmo pessoas inteligentes escolhem caminhos errados.

 

21 de dezembro de 2005. Com freqüência, porém, os marxistas são vaidosos e convencidos.

Lembro-me de certa vez em que Marques Rebelo virou pretexto para uma patética discussão, entre dois professores de uma banca examinadora, em defesa de tese, sobre a relação entre “estrutura do texto” (velhas palavrinhas) e a onipresente “sociedade”. Rebelo, com seu sarcasmo, seu pessimismo, sua visão desencantada da República das Letras, foi para ao espaço.

Um dos professores, aliás professora (uma passável meia-sola), localizou nos escritos do autor carioca todas as virtudes imagináveis: racista, machista, direitista, passadista. E, o que era pior, tudo "a nível de" estilo, tudo bem demonstrado no plano da composição, conforme lição do mestre Antonio Candido que, mais que professor, é verdadeiro santo de altar na universidade paulista

 

22 de dezembro de 2005. Professor Candido não quis, anos atrás, sustentar uma polêmica na Folha com Miguel Reale. Teria sido um duelo memorável. Foi uma memorável pena.

Franklin de Oliveira, Antônio Cândido, Otto Maria Carpeaux... Quanta gente boa não se deixou encantar pelo historicismo marxista!

Antônio Cândido, alma boa, incapaz de matar um inseto, chegou a defender uma suspensão temporária da liberdade, com restrição dos direitos humanos, em nome da revolução cubana — e isso significa, muitas e muitas vezes, indesculpável tortura e assassinato de homens. Como compreender isso? Seria, no fundo, uma misantropia mal disfarçada?

Jorge Luiz Borges também defendeu uma suspensão temporária da liberdade e dos direitos humanos em nome da contra-revolução chilena do Pinochet, que também fez o que todo mundo sabe — indesculpável tortura e assassinato de homens. Por ironia da história, há hoje mais justiça social no Chile capitalista que na Cuba comunista.

Quem teve mais razão, ao apoiar ditadores? Borges ou Antônio Cândido?

 

23 de dezembro de 2005. Apesar de não saber alemão, sempre fiquei curioso a respeito dos cinco livros que Carpeaux publicou na Áustria e depois renegou, exceto um, que acredito ser A missão européia da Áustria, escrito em holandês e mostrando o fim da Áustria pela invasão nazista, conforme entrevista a Renard Perez.

Na entrevista que deu à revista José, em julho de 1976, quando perguntado sobre sua formação européia, cortou enfático: "Já começa com a biografia! Eu não lhe dizia que não quero dar entrevistas biográficas?" Depois acabou revelando que o que "fazia era igual à atividade que desenvolvi aqui. No fundo, uma atividade jornalística. E o resto, mais ou menos enciclopédico, no mau sentido da palavra: um pouco disso e um pouco daquilo."

Temos o direito de duvidar dessa autocrítica. Se tantos bons artigos seus ficaram de fora das coletâneas por ele próprio organizadas, por que o mesmo não aconteceria com sua obra européia?

 

26 de dezembro de 2005. Inevitável voltar, sempre, a um dos temas mais freqüentes dessas notas. A teoria da literatura servirá mesmo para alguma coisa? Os professores de letras juram que sim, pois ela "instrumentalizaria" os alunos para o efetivo embate com os "textos" ("texto", no dialeto acadêmico, significa meia dúzia de clássicos luso-brasileiros ou meia dúzia de ensaios sobre eles).

O que é, aqui, instrumentalizar? Começar com uma bela definição de literatura, aliás "discurso literário", auxiliada pela terminologia lingüístico-saussureana, em que entrassem palavras como signo, significante, referente, enunciado, estrutura transfrásica, organização sintagmática e outras bobagens do gênero.

Não é recomendável insinuar ao aluno que literatura é uma atividade artística (artista soa elitista demais em época de massificação), nem que se destina a exprimir as paixões e descaminhos humanos (soa pessimista demais para uma época que só acredita nos estereótipos da mídia).

 

27 de dezembro de 2005. Entre Natal e Ano Novo, há uma semana perfeitamente neutra, suspensa no ar do tempo. Como, no teatro, o intervalo entre dois atos.

 

28 de dezembro de 2005.

— Ô filho de uma puta! — disse o pedreiro, saindo na calçada da casa que reformava e olhando para o pintor que passava o rolete na parede de uma casa recém construída, um pouco acima. — Teve coragem de voltar a Canaviais?

Um casal de velhos, que caminhava placidamente pela tranqüila rua do bairro, olhou assustado para o pedreiro. No fio de força, o pardal retardou um pouco o vôo.

O pintor, que passava o rolete na parede de uma casa recém construída, não deixou de fazer o que estava fazendo. Disse ao outro com indiferença:

— Que-que foi, filhote de cruz-credo? Vê se paga o que me deve.

O casal de velhos apressou o passo aflito. O pardal retesou as asas. Então o pedreiro se aproximou, o pintor pendurou o rolete na escada de abrir e os dois se abraçaram efusivamente.

Eram velhos amigos, estrategicamente disfarçados de inimigos.

 

30 de dezembro de 2005. “Nesta altura da vida”, me disse um amigo grisalho, “ando urgentemente à procura de uma filosofia otimista que não seja idiota.” Haverá otimismo inteligente?

 

 

 

 

 

 

 

 

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