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NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 35 30/06/2008. Baudelaireanos
ou não, somos todos decadentes. Sou tentado a dizer que começamos a decair
quando o esperma do papai agarrou-se ao óvulo da mamãe. De lá pra cá, viajamos
numa vertiginosa queda livre cujo final rigorosamente desconhecemos.
Fico
pensando em algumas quedas famosas: da Babilônia, do Império Romano, de
Constantinopla, do Muro de Berlim. Queda da Bolsa. Queda dos preços — a única
que balança, balança, mas não cai, como aqueles falsos suicidas que só ameaçam
pular. Queda por ela, no mais das vezes sem pára-quedas... E, mais devastadora
de todas, de conseqüências mais catastróficas que a própria queda do Paraíso: a
queda dos cabelos.
29/06/2008.
Os ascetas conseguem transformar
silêncio em música, sem mexer um milímetro na substância do
silêncio.
28/06/2008.
Saio na sacada da minha gaiola e olho pra gaiola vizinha, em cuja sacada um
canarinho belga, preso no seu pequeno apartamento de meio metro quadrado, trina
um longo e resignado poema do exílio.
27/06/2008. Com
o concretismo, a poesia, ou melhor, o poema, entra de cabeça erguida na era
industrial, assumidamente uma atividade humana como qualquer outra, sem a
neurose da transcendência, transformadora objetiva de matérias-primas
presumivelmente humanas em produtos finais presumivelmente estéticos, de acordo
com a mais recente tecnologia verbo-visual. Com recursos humanos de esquerda,
estava no entanto tão afinado com a mentalidade capitalista, que até já começou
pretensiosamente multinacional, apesar de não passar de micro-empresa.
Sempre
foi uma atividade do setor secundário que não podia visar, jamais, o terciário,
pois quem iria comprar um poema concreto sobre a coca-cola, se o refrigerante,
por pior que seja, é infinitamente melhor que o poema de Augusto de
Campos? Incapazes,
como a maioria dos literatos, de produzir bens de consumo e gerar dividendos,
contentaram-se em fabricar bens intermediários, ditos também de capital, transformando matéria-prima bruta
(presumivelmente humana...) em outro tipo de matéria-prima, não-durável, de
duvidosa poeticidade, para servir sobretudo a indústria da publicidade e a
mass
midia
em geral: a produção de outdoors,
que embelezam nossas ruas e rodovias, começou a ficar mais atraente a partir da
colaboração da micro-empresa
concretista.
26/06/2008.
Parece cada vez mais longe o tempo em que o ensaio era uma espécie de
continuação das obras literárias, desenvolvimento de idéias nelas contidas ou
mal entrevistas pelos criadores. Ler um ensaio era permanecer um pouco mais, de
certo modo, no clima das histórias, retardando o seu final. O ensaísta ainda
acreditava na realidade
da ficção e gostava de dialogar com ela. Depois,
perdeu a fé. Na verdade, substituiu-a por outra crença: o poder científico da
leitura teórica. As obras começaram a ser vistas como sintomas, os autores
enquadrados — neuróticos, alienados, inautênticos —, e, no melhor dos casos,
meros fornecedores de matéria-prima para a investigação lingüística e semiótica.
Os departamentos de literatura, nas universidades, se transformaram em
laboratórios de análise, o que foi muito bem visto pelas agências estatais de financiamento
de pesquisa, que se sentiriam lesadas se continuassem mandando dinheiro para a
crítica impressionista.
25/06/2008.
Acústica. ...ai
do silêncio que nunca foi atravessado
pela canção...
24/06/2008.
Só mato o tempo em legítima defesa.
23/06/2008.
O amigo Hildo Rielli comprou um terreninho no cemitério e já mandou fazer o
próprio túmulo: uma réplica da cama de solteiro. Na cabeceira de granito, um
saco de cimento empedrado serve de travesseiro-lápide, onde gravou um verso de
Bandeira adaptado à sua futura condição: “Aqui dormirá profundamente H. Rielli.”
Embaixo, a data de nascimento; ao lado, uma pequena foice interrogativa,
substituindo o dia em que o deitarão pra sempre naquele lugar (mais
precisamente, debaixo da cama, como fazia durante temporais o tio Rubinho, que
sofria do mal de pânico).
22/06/2008.
A nudez feminina é mais interessante que qualquer grife. Só perde para a
semi-nudez. 21/06/2008.
Na novelas de televisão, audiência conta mais que coerência; por isso, quanto
mais fatos novos por capítulo, melhor. Para produzi-los em série, no entanto, é
preciso esquecer as leis mais elementares da verossimilhança, e, sem querer,
acaba se transformando em literatura fantástica, mesmo sem abrir mão da
mentalidade mais estreitamente realista. 20/06/2008. Conto policial. Era
obcecado por pé-de-moleque. Foi indiciado como pedófilo, pederasta, fetichista e
inimigo número um da dieta saudável. Foi condenado à pena máxima: arroz e pão
integral, acompanhados de leite de soja. 19/06/2008.
Animal doméstico paga com a própria liberdade o conforto e a segurança — que o
pássaro livre e preocupado jamais vai ter. Será por isso que canto de pássaro é
mais belo que miado de gato e latido de cachorro? 18/06/2008.
Do
contra. O
sujeito, sempre que olhava a lua cheia, dizia: —
Que sol! Quando
o sol estava muito forte no céu, preferia dizer: —
Que lua!
17/06/2008.
Que pode um velho poema de Camões ao lado dos filmes de Hollywood, ou dos
últimos modelos de roupas, celulares, notebooks, automóveis? Curiosamente,
comprar faz mais bem aos nervos modernos que a experiência estética.
Decadência
da arte ou da espécie humana? Os vanguardistas garantem que da arte, que não
consegue acompanhar a evolução de tão dinâmica espécie. Pobre
poesia! Uma jovem aluna de letras dá bem mais atenção a versos quando lidos, de
preferência, por algum ator da Globo. Não pelo poema, obviamente, mas pela voz
do ator, que ela consegue identificar entre bilhões de outras; já faz parte de
sua corrente sangüínea. O
que o ator disser, vai penetrar mais fundo que um pênis, sejam anúncios das
casas Bahia ou versos de Camões. No primeiro caso, haverá transição da forma ao
conteúdo, pois interessa-lhe saber quais produtos estão à venda e por quanto. No
segundo, basta-lhe o timbre e a entonação que lê; as metáforas do poema, para
ela sem nenhum sentido prático, até atrapalhariam. A
jovem aluna de letras prefere letras de canções; e, entre estas, as que falam
diretamente das coisas, sem muita “linguagem poética” prendendo a bola no meio
de campo. O
escritor Saul Bellow escreveu, no fim do século XX, um bonito ensaio sobre a
distração, provocada pelo “barulho contemporâneo” emitido por fábricas, carros,
mídia, templos e pela própria universidade. A jovem aluna de letras está
desatenta às coisas ditas essenciais, uma espécie de bela adormecida que não
quer saber do beijo da verdade.
16/06/2008. Não
há maior sadismo que manter índios em estado selvagem, pois ficam privados do
delicioso prazer de redescobrir a natureza. 15/06/2008. Lamentando
que nossos antepassados tenham sido expulsos do Paraíso, morremos de saudades de
um Éden só presumido pela imaginação. Mas, cá entre nós, que graça teria o mundo
sem a lábia da serpente, o arrepio da tentação e, sobretudo, o doce pecado
carnal de vovó Eva, no qual vovô Adão embarcou de boníssimo grado? Sem a
possibilidade de escolher entre bem e mal, ou espírito e matéria, a vida não
teria o menor sentido: já fazia parte dos planos do Criador exigir que o bilhete
de volta ao Paraíso apresentasse o carimbo do pecado, com discreta rubrica de
Satã. 14/06/2008.
Tudo bem. A vida civilizada é, de certo modo, uma cadeia. E nada é mais
desejável que a liberdade; mas, desgraçadamente, só pode conhecê-la quem já
esteve preso. Soa pouco convincente afirmar que a vida
é muito importante — alimentação, sexo, disputa, prazeres de toda espécie —, se
a gente ainda não conhece as privações ditadas pelo espírito. O caminho da
civilização tem forma serpentina, circular, um vaivém entre a mente e a
natureza. 13/06/2008.
Era um bom sujeito e gostava de bichos. Pra se casar, achou mulher que pensava
como ele. Tudo ia muito bem entre os dois, e entre eles e os bichos, quando o
homem dócil e humano mudou da água pro vinagre, transformando-se num alcoólatra
herege, violento, a caminho do crime. Entre maus tratos na mulher e nos bichos,
arrancou um olho do seu querido gato preto e mais tarde o enforcou. Com remorso,
substituiu-o por outro gato preto, que já veio com um olho a menos. A
substituição do animal, em vez de melhorar, piorou as coisas. Termina
por
cravar o machado na cabeça da mulher e, ao emparedá-la pra esconder o corpo,
prende junto o gato vivo com suas sete vidas, que logo o denunciaria à
justiça.
12/06/2008.
Bilhete
de suicida. Passei
a vida inteira com a barba de molho, A
mão na consciência, O
peso nas costas... Não
agüentei mais e tirei o corpo fora.
11/06/2008.
O professor de geometria chegou atrasado pra aula da tarde, mas encontrou um
jeito convincente de explicar-se: —
Linha é uma porção de pontinhos brasileiros numa fila indiana do Bradesco.
Ângulo é a linha reta da fila virando algumas esquinas de paciência.
10/06/2008.
A narrativa em primeira pessoa veio pra tornar mais “verdadeira” a história
contada: era um truque pra reforçar a ilusão. O que faz o leitor contemporâneo,
que já não acredita mais em ficções? Desconfia de qualquer personagem narrador
com cujas idéias não concorde, enquadrando-o imediatamente em categorias pouco
confortáveis — alienado, inautêntico, psicótico —, fornecidas pelas doutrinas
que mais freqüentam os jornais, a internet, a televisão e a universidade de
massa. Exemplo
muito citado é o de dona Capitu, que não seria adúltera, mas uma valente senhora
à frente de sua época, descontente com a moral patriarcalista do Segundo Reinado
e desfigurada pela mente machista de Bentinho. É
proibido acreditar no que está escrito: há um “subtexto” que o próprio autor
ignorava e a crítica acadêmica (desconstruindo, depois reconstruindo) se
encarrega de desenterrar do belo jardim da prosa
machadiana. Machado
só será plenamente Machado quando desconstruído e reconstruído pela “imaginação”
crítica. Que saudade do verdadeiro impressionismo!
09/06/2008.
Aprendemos com nossos pais que convém educar nossos filhos, pra que eles, com o
que aprendem ou desaprendem de nós, continuem a tarefa interrompida dos avós, ou
seja, educar os eternamente educáveis pais. 08/06/2008. Professor
Brahminha, lulista, se cansou da mulher antropóloga: —
Separamos — disse-me por entre os novecentos fios da barba. — Ficou insuportável
depois que trocou o PT pelo PSOL. Agora vivo com uma “basicona”, dessas que
cozinham, lavam, trepam todo dia e gastam sem remorso. Uma autêntica
representante do povão, com quem não sou obrigado a discutir Rosa de
Luxemburgo. —
E como é a sensação de foder todo dia o povão? —
Rapaz, o fodido sou eu! Quer ver o boleto do cartão de crédito? 07/06/2008.
Quando jovens, podemos com tudo; até ler Guimarães Rosa e sair ilesos. Mas nem
tudo é chato no escritor mineiro. Sua frase Viver
é perigoso
ainda é o melhor comentário do Ser
e tempo,
de Heidegger, outro que vivia implicando com a clareza.
06/06/2008.
O cão policial fez sinal e parei. Aproximou-se, fez continência com a pata e
latiu: —
Documentos! Passei-lhe
os documentos. Ele começou a farejar tudo por fora do carro. Por fim, anotou
meus dados num papel, me devolveu os documentos e rosnou: —
Boa viagem. 05/06/2008.
As futuras histórias da música clássica abrirão um bom capítulo para trilhas
sonoras de filmes. A maioria acabará no lixo, junto com os filmes a que
serviram, mas algumas vão sobreviver como autênticas peças de concerto, feitas
por gente do ramo, compositores de verdade, bem ao contrário de certo
charlatanismo vanguardista. 04/06/2008.
Além de não escrever bem, o grande romancista Octávio de Faria teve como
adversário, em suas últimas obras, o serviço porco da editora Pallas. O que não
acontecia com os romances da Tragédia
burguesa
que saíram pela José Olympio. 03/06/2008. Bandeira
não foi, sobretudo, um poeta modernista. O modernismo foi mais um ingrediente de
sua poesia muito pessoal, que começa meio parnasiana e meio simbolista, sem
esconder aspectos claramente românticos, e até surrealistas. Foi, antes de tudo,
um neoclássico, conhecedor profundo de todas as formas poéticas e utilizando-as
como verdadeiro virtuose da língua. É pena que mostrem, nas escolas, só um dos
“heterônimos” do grande poeta, justamente o mais fraco. 02/06/2008.
A teoria da literatura, de um lado, é cria do desenvolvimento da lingüística; de
outro, da mania contemporânea de supervalorização da técnica. Haveria uma
tecnologia literária, um presumível aperfeiçoamento das formas na escalada da
história, e seu conhecimento só poderia ser benéfico à evolução dos
gêneros... Apareceu,
então, na universidade um novo tipo de intelectual, que vai atrás de toda a
bibliografia teórica e passa a vida estudando-a. Perde de vista as grandes obras
literárias, pois não tem tempo de lê-las. Algumas, muito poucas, ele deve ler
com o melancólico propósito de aplicar as teorias que aprendeu. Defende-se com o
“ler pouco, mas bem”; mas o diabo é que boa leitura, para ele, é revelar
sobretudo os segredos da construção literária, uma viagem mais pela forma
exterior — a tão querida linguagem —, que pelas idéias ou sensações que a
obra possa evocar. Quando supera o reducionismo formal, é para cair no
historicismo ou no freudismo. Os mais ambiciosos sonham até com a tríplice
aliança Saussurre-Marx-Freud, valentes caçadores de
homologias. Ninguém
lhes avisa mais que, para entender as grandes obras, devem em primeiro lugar
cuidar com carinho da intuição, que sem ela é inútil qualquer metodologia
sofisticada de análise. Como
se educa a intuição e a sensibilidade? Lendo as boas obras literárias, ouvindo
as boas músicas, vendo os bons quadros, munido daquela conceituação mínima que
lhe abra a porta de cada arte, sem obstruir o caminho com o maquinário teórico.
Depois, conhecer o que puder de história, filosofia, ciências humanas e, se
tiver fôlego mental, as outras ciências, dizendo um “não” redondo e definitivo à
sereia da especialização. Essa
é a utopia pela qual vale a pena... viver.
01/06/2008.
Octávio de Faria não acredita na História. Diz um dos personagens de
O pássaro oculto,
exprimindo seu próprio pensamento e explicando por que chamou de tragédia
o conjunto de romances que escreveu: “Não há idades, períodos, séculos. Tudo se
renova, mas tudo é sempre o mesmo, coisa idêntica e sangrenta. O triste pedaço
de carne ultrajada que a Serpente deixou nas mãos de Eva”.
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