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NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 33 30/04/2008.
Melhor que o melhor doce, é poder devolvê-lo intacto à geladeira quando você
quiser. Não por mesquinhas razões
dietéticas, mas só pelo insubstituível gostinho de exercitar o poder. Pra que
mandar nos outros? Em si mesmo é mais divertido. 29/04/2008.
Considerações
celestes. Nosso
mano, o Sol, maçarico em punho, trabalha das seis às seis, sem proteção de lei
trabalhista. Faz todo o mundo enxergar e quase não pode ser visto, exceto de
manhãzinha, quando chega, ou à tarde, quando sai do serviço. Um operário sempre
pontual, modelar, que alguns povos preferiram transformar em
deus. Já
nossa mana, a Lua, pelada e de peito à mostra, prefere rodar a bolsinha branca
na sempre congestionada Via Láctea. Sua glória, porém, é de empréstimo, com o
que ela jamais concordou: —
Fui eu quem contratei o Sol pra esses bicos noturnos. Faz qualquer coisa por mim
— diz às estrelas. — Não ousaria apontar o refletor pra mais ninguém
. Quem
costuma perder a cabeça por ela é outro nosso mano, o Mar, que nunca se
conformou com esse amor obrigatoriamente platônico.
28/04/2008.
Mora em frente um senhor gordo e aposentado, que não é gordamente aposentado,
mas sabe dividir com sabedoria o tempo que lhe resta de vida: entre heróico e
burguês. À
noite, o burguês estica-se no sofá e assiste tevê até duas ou três da madrugada,
com ocasionais visitas à sacada pro cigarro. É a última sala acesa dos
predinhos. Dorme
de manhã. Mas, durante a tarde, herói armado de um coador plástico que roubou da
mulher, transforma-se no mais ativo caçador de vampiros do condomínio. Busca-os
pela casa toda, infatigavelmente. Com o condomínio cercado de brejos e chácaras,
pra cada vampiro morto entram pelas janelas dois ou três novos, habilmente
treinados no quartel dos vampiros. Tenho
a impressão que ele morreria antes da hora, se os brejos e as chácaras passassem
por um processo rigoroso de saneamento.
27/04/2008. Definição definitiva do tempo.
O
futuro é um presente de grego, O
presente é um bife mal passado.
26/04/2008. Anti-Horácio. Por
teres bem gozado A
vida — o que te pôs Tão
mal acostumado! —, Tu
vais pagar depois, Quando
bem velho fores, E,
em rugas embrulhado, Visitado
por dores De
tudo quanto é lado, Gozar
já não puderes Dos
vinhos, das mulheres... É
o preço do passado.
25/04/2008.
O grande problema, talvez o maior de todos, é que cada filho de Deus se julga o
queridinho do Papai.
20/04/2008.
Quem leva a vida muito a sério, não deve ser levado a sério. Não é uma pessoa
séria. 19/04/2008.
Comédia
americana. Depois
do que fez Osama, Vai
ser bastante engraçado Se
virar chefe de Estado Barach
Hussein Obama. 18/04/2008. Soy
loco — e a culpa é tua, América. 17/04/2008.
É preciso mais coragem pra matar uma criança que um adulto. Que privilégio
pertencer à espécie que produz gente tão corajosa, que mata criancinhas e as
joga do sexto andar! Admirável progresso: do basquet-ball ao
basquet-baby.
16/04/2008.
Quanto mais cético, mais curto o texto.
15/04/2008.
E então Laio, nas outras voltas do eterno retorno, tratou de ser mais esperto
que daquela vez: sempre matava Édipo recém-nascido. Com filho desse não se
brinca!
14/04/2008. Judeus na Jecolândia. —
Pai, por que você não foi igual um pai judeu? Hoje eu estaria craque no piano,
com chance até de tocar na Royal Albert Hall, no Palácio Lichtenstein, na
Konzerthaus, quem sabe até na Sala São Paulo. —
Pensa que um pai judeu está sozinho na parada? Junto dele tem a comunidade
judaica, a sinagoga, o rabino, o Talmude, essas coisas todas. É pressão de todo
lado. Assim, até eu... Uma andorinha judaica sozinha não faz verão, meu filho.
—
Podia ao menos ter tentado, uai. —
Aqui na Jecolândia? O mínino que podia ter acontecido comigo era
linchamento. 13/04/2008.
Historiadores da música não ligam muito pro fato de alguns compositores terem
escrito seus próprios textos; e são justamente aqueles que, além da música,
foram premiados com talento literário e teatral. Penso em Guillaume Machaut,
Juan del Encina, E. T. A Hoffmann, Berlioz, Wagner, Arrigo Boito, Mahler, Hans
Pfitzner, Janacek, Schoenberg, Alban Berg, Ernst Krenek, Hindemith, Gian Carlo
Menotti. Gente do primeiro time e da reserva, hierarquia que é definida por
valores musicais e não verbais. Isso
explica a indiferença dos musicólogos em relação a eles. Quanto aos críticos
literários, fiéis à dona Literariedade, não teriam nenhum motivo pra pular a
cerca e invadir território no qual as palavras se oferecem por tão pouco, meras
serviçais e não donas da casa. Certa
vez ouvi, do Mané Semiólogo, que letra de música não é poesia, mas tem “níveis
de poeticidade”. Fiquei pasmo com a revelação. E tirou, da maletinha acadêmica,
uma régua da marca Greimas. —
Vamos começar a medir? — propôs. — Basta a gente criar um grupo acadêmico, que o
CNPq e a CAPES mandam logo uma graninha esperta. Falei
que ia pensar. Quem sabe um grupo acadêmico pra medir os níveis de poeticidade
do libreto da Parsifal?
12/04/2008.
As
criaturas de Deus. Criou
terra e mar; E
criou a vida; E,
logo em seguida, O
verbo passar.
11/04/2008.
Nota
pra uma aula de estética. A
mágica do artista é confundir O
aqui e agora com depois e além. Como
é que a gente pode viver sem A
magia de ler, de ver, de ouvir? 10/04/2008.
O passado silenciaria pra sempre, não fosse o que está dito nas obras de arte e
nos livros. O fato é que artistas, poetas e filósofos, alheios a tudo o mais,
viviam escrevendo cartas pro futuro; as que chegaram até nós, continuam
prolongando a vida desses missivistas do tempo. É sua voz que ainda fala na
“Ronda noturna”, nas “Variações Goldberg”, na “Divina Comédia”, nos fragmentos
dos pré-socráticos. É
uma brava luta contra a morte, com as armas preferidas da morte: aqueles grandes
egoístas sacrificaram a própria vida no que ela tinha de mais imediato, em nome
dessa sobrevida póstuma cujos únicos beneficiários somos nós, que recebemos de
mão beijada essas “cartinhas” preciosas do passado que não emudeceu.
Evidente
que o passado também nos lega muita porcaria, boa parte dela por transmissão
direta, genética. Não
há nada mais velho que o futuro: é tudo o que sobra de bom ou de ruim do
passado. 09/04/2008. Acho
que descobri, finalmente, a razão da obscenidade boccacciana: o autor do
Decamerão
é filho de mãe francesa.
08/04/2008. Viva voz. Finado
Mahler, co’a voz
Das
sinfonias de Mahler, Insistentemente
fala Que
ainda está vivo entre nós.
07/04/2008.
No começo dos anos setenta fui conhecer Brasília, mas fiquei decepcionado porque
não tinha livrarias de cidade grande, fato que, somado à falta de árvores e à
glacial onipresença do Niemeyer, compunha um cenário ideal pra deserto.
Já
desanimado, alguém me indicou um livreiro que funcionava no terceiro ou quarto
andar de um daqueles prédios achatados; pelo jeito, sem necessidade de leitores
pedestres, jovens de carteira vazia, completamente ao rés do
chão. Mas
fui conferir e subi até o andar do livreiro. Era um prédio de escritórios. A
porta estava aberta e entrei, timidamente, com medo de provocar excessiva
dissonância no ambiente. Era uma dessas livrarias especializadas, com livros de
direito e economia por todos os cômodos. Foi então que, milagrosamente, vi numa
das salas, numa estante qualquer, em vários volumes encadernados, as
Obras
completas
do Ortega y Gasset. Conhecia
trechos de A
rebelião das massas
e de outros livros do autor. Tinha ficado surpreso com o estilo literário do
filósofo, bem humorado, e sobretudo aquela clareza (“A clareza é a cortesia do
filósofo”), advertindo que profundidade também pode vestir roupas
simples. Abri
os livros, folheei. Cheiravam bem, edição caprichada da Revista
do Ocidente.
Passei um bom pedaço da tarde gangorrando entre o índice de nomes e o
miolo. Preferi
não saber o preço. Por que dissipar com coisa tão prosaica aquela única voz que
clamava no deserto de Brasília? Sintomaticamente,
acabei voltando daquela “capital federal” com um Macunaíma,
edição da velha Martins, comprado sem folhear, cegamente. Era época de
comemoração dos cinqüenta anos da “semana de arte moderna”, pra qual os
militares deram toda a força, com as editoras começando a tirar do baú de
guardados aquelas obras dos anos vinte, que nada acrescentaram de fundamental à
literatura brasileira. Até
hoje não li o Macunaíma.
E por razão bem prática: boa parte das páginas do livro comprado em Brasília
estava em branco, o que, pra minha felicidade, só descobri a setecentos
quilômetros do planalto central. Lesado de bolso, mas poupado no espírito.
Será
que foi arte do Ortega, que então já morava no primeiro círculo do Inferno? Ou
coisa do próprio Deus, que pune sempre em nosso benefício? 06/04/2008. Dístico que Alencar não assinaria.
Bastam
Cinco
minutos
com A
viuvinha, Na
eternidade de uma rapidinha. 03/04/2008.
Um bom pedaço da história do mundo foi gasto em levantar paredes e aumentar
cidades. Ou em destruí-las, o que também fazia parte do jogo ou do ritmo. Muitas
vezes, o bota-abaixo era só uma substituição do antigo pelo moderno. Entre povos
que mudavam menos e povos que mudavam mais, o tempo ia passando e a superfície
do planeta se enchia de paredes e de cidades. Minha
pequena cidade não tem mais de duzentos anos; é muito pouco, se comparado a Roma
ou a Bombaim, mas, pra um país de quinhentos, pode ser razoável. No século
passado, a partir dos anos cinqüenta, as velhas casas da velha cidade davam
lugar, lentamente, às novas caras sem cara da arquitetura funcional. Muito
lentamente, pois o ritmo do interior ainda era o da carroça ou do trem a vapor,
em plena década do obreirismo jucelínico. Cresci
numa cidade anfíbia, metade século dezenove, metade coisa nenhuma. Por uma razão
que ainda não sei, sempre preferi a primeira metade. Era uma espécie de amor,
porque a gente também consegue amar paredes e cidades. Enquanto a segunda ia
devorando a primeira, alguma parte de mim também era arrastada ao bucho do tempo
— tempos modernos, seria melhor dizer. Não
sabia que a cidade destruída estava sendo guardada, peça a peça, na minha
memória secreta. Não sabia, mas agora sei bem; e não era outra a razão daqueles
sonhos recorrentes, sem ritmo certo pro retorno, mas infalivelmente voltando.
Nesses sonhos, caminhava por uma cidade dividida em duas, a velha e a nova; era
como se aquela não passasse de um bairro distante dessa, onde se iam acumulando
as casas desprezadas pelo novos tempos. Continuo
sonhando. Desconfio que vou sonhar esse sonho até o fim, como que preparando
minha futura cidade — até o velho bairro ficar completamente restaurado na alma,
com todas as paredes, janelões e telhas de canal. E é lá que vou morar, naquele
bairro antigo, suspenso no ar, como queria o poeta, depois que não puder sonhar
mais.
01/04/2008.
Quando freqüentava bibliotecas, havia sempre uma senhora por lá: era o
bibliotecária. Nem todas gostavam de ler ou primavam pela simpatia, mas em geral
respeitavam livro, que àquela altura ainda era uma coisa meio sagrada. Depois,
inventaram o curso de biblioteconomia, recomendado de preferência a quem não
gosta de ler, mas adora dificultar a leitura dos
outros. |