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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 24

 

 

 

31/08/2007. Meu tio, de Jacques Tati, foi feito com flaubertiano e meticuloso cuidado. Não é só por isso que é obra-prima, obviamente, pois Flaubert sem substância redunda em parnasianismo; mas quando se juntam as duas coisas, inspiração e cuidado, cria-se aquilo que permanece.

 

 

29/08/2007. Foi privilégio ter acordado do pesado sono da matéria — obrigado, papai; obrigado, mamãe — e poder espiar, por algumas décadas, o fantástico show da vida, de preferência pela Globo.

A vida é rápida vigília, inesperadamente erguida daquele sono pesado e posta pra rodar. “Planta sois, e caminheira”, segundo o poeta. Para adiar ao máximo a retomada do sono, agora provavelmente eterno, sem direito a sonhos e roncos, recomenda-se comer e beber com moderação, namorar regularmente, conhecer lugares bonitos. Aproveitar bem o momento que passa, diria o Cristo, mas sem desprezar o principal mandamento de Epicuro: amar o próximo como a si mesmo.

 

 

28/08/2007. Pesadelo hipocondríaco: sonhei que o vizinho do lado tinha uma banda de rock que se chamava Ultra-som.

 

 

27/08/2007. Para a maioria das pessoas, vale a regra. Exceção, para o bem ou para o mal, é para poucos, embora devamos sempre contar com a possibilidade de figurar no grupinho dos poucos. O diabo é que para as más exceções — doença fatal, telha caindo na cabeça, assalto com morte, vizinho que gosta de rock ou música sertaneja — sempre temos mais chance que para as boas.

Isso não ajuda a definir a vida?

 

 

26/08/2007. Filho da classe média alta de Viena, Otto Maria Carpeaux foi secretário de Dolfuss, primeiro-ministro da Áustria, que era fã do seu primeiro livro, A missão européia da Áustria. Como intelectual atuando no centro do poder político, tinha um futuro brilhante pela frente.

Mas a vida não quis que fosse assim. Em 2008, fará trinta anos que ele morreu: pobre, mas não na miséria, como parecia temer o exilado que fugiu do nazismo e encontrou no Brasil condições de viver, com relativa decência, a segunda metade de sua vida, sobretudo depois que virou editor da enciclopédia Mirador, cujos verbetes sobre arte, música e literatura têm, de algum modo, a sua chancela. Pátria é onde a gente está bem, diria Horácio. Mais de uma vez tentou voltar a Viena, mas não conseguiu ficar longe do Rio. Seu destino era viver aqui, e aqui morrer; nem precisava ser no carnaval, como aconteceu quase trinta anos, em fevereiro de 1978.

O que era admirável, em Carpeaux, não é só a erudição, mas o que ele conseguiu fazer daquela montanha de conhecimentos, impedindo-a de soterrar o escritor. Memória é mais seleção do que acúmulo: quem o conheceu, diz coisas espantosas sobre sua capacidade de guardar as coisas que lia. Embora gago, e falando só duas línguas, o alemão e o português, lia em grego, latim, francês, inglês, italiano (e dialetos, sobretudo o siciliano), espanhol (incluindo galego e catalão), provençal, flamengo (belga e holandês), russo, polonês, tcheco, servo-croata. Sua biblioteca brasileira era pequena; a maior parte dos livros perdeu-se enquanto fugia da guerra. Sobraram as fichas, onde tinha anotado o essencial daquelas viagens entre livros.

 

 

25/08/2007. Carpeaux escreveu algumas histórias da literatura — e uma história da música sem igual em língua portuguesa, com algumas particularidades de método: só considerou a música ocidental, a partir do final da Idade Média; usou a periodização estilística comum às outras artes; e, antes da exposição da Obra de cada compositor, esboços biográficos com o mais relevante de cada mestre. É nesses perfis que aparece uma obsessão do ensaísta, que fazia questão de destacar o final trágico de homens bem sucedidos artisticamente. Alguns exemplos tirados de Uma nova história da música, sobre o fim “miserável” dos mestres:

Boccherini: “Viveu e morreu na miséria em Madrid.”

Mozart: “Foi a miséria permanente, a extrema pobreza, a morte dolorosa; e o enterro na vala comum.”

Beethoven: “Morreu quase na miséria.”

Berlioz: “A vida de Hector Berlioz foi um romance tempestuoso com desfecho melancólico. Morreu na miséria de sempre, abandonado.”

Mussorgsky: “Foi oficial na Guarda Imperial. Morreu em miséria completa.”

Puccini: “É uma história de começos modestos, de triunfos fabulosos e lucros dignos de um grande industrial; e um triste fim, na solidão, em companhia da doença terrível.”

Discípulos de César Franck: “Em torno de Franck, reuniram-se os melhores talentos da nova geração. Morreram cedo ou foram desgraçadamente eliminados da vida”, exceto Henri Duparc que “chegou à casa dos oitenta anos; mas foi uma vida desgraçada.”

Pfitzner: Foi “diretor geral de música em Munique. Morreu em 1949 na extrema miséria e no exílio.”

Richard Strauss: “Uma vida cheia de sucessos e glória, exerceu influência imensa, tornou-se rico... Morreu na miséria.”

Bartok: “Morreu em 1945 na miséria.”

Schönberg: “Morreu desolado em 1951, sem ter chegado a rever sua terra.”

Exemplos dos que acabaram com problemas mentais:

Donizetti: “Depois de uma vida cheia de sucessos retumbantes, submergiu na noite da loucura.”

Schumann: “Obteve posição dominante na vida musical alemã. O fim foi uma tentativa de suicídio; e a morte no manicômo.”

Smetana: “Acidentes desgraçados destruíram-lhe a família. Ficou surdo; e morreu no manicômio.”

Hugo Wolf: “Morreu no manicômio.”

Rachmaninov: “Vida de sucessos internacionais, interrompida por graves crises mentais e terminada pelo suicídio.”

Ravel: “...a amnésia que lhe escureceu dolorosamente os últimos anos de vida.”

 

 

24/08/2007. Para Borges, o escritor cego que amava os livros, a imagem do paraíso era uma biblioteca. Escreveu grandes livros, porém orgulhava-se mais dos que tinha lido. É a maior declaração de amor à literatura que já vi.

Também gosto muito de bibliotecas. A única profissão que exerceria com prazer é a de bibliotecário, que aliás já pratiquei por quase um ano, graças à generosidade de outro Borges, o prof. Eduardo Borges, de Lins.

Quanto a imagens do paraíso, fico numa cruel e fáustica indecisão entre uma bela mulher e um sebo bem sortido.

 

 

23/08/2007. O rico é diferente, dizia Scott Fitzgerald, que não nasceu pobre. Na loja de vinhos, enquanto meu supremo desafio é conseguir um bom tinto na faixa dos vinte reais, o rico não ficaria indeciso entre vários brunello di montalcino: levaria todos. Aparentemente, eu o invejo. Mas quando penso na pesada mão de obra que é ser rico hoje em dia — paranóia com assalto, seqüestro, bolsa de valores —, até sinto um negócio parecido com piedade.

 

 

22/08/2007. O advogado P. é uma gorda e antipática criatura que mora no meu condomínio. Passou por mim de carro hoje à tarde, enquanto eu caminhava: sempre empacotado num paletó-e-gravata, cabeça de trapézio com a base maior diretamente sobre os ombros, sem a supérflua mediação do pescoço. Pescoço é luxo de magros.

 

 

21/08/2007. Precisava estrear o recém comprado Spect 87, o velho toca-discos da Gradiente que há muito procurava e, num dia desses, misteriosamente estourou e soltou fumaça pelas ventas. Tio Paulinho tinha um ótimo, no qual ouvia seus Beethoven e me deixava com muita inveja. 

Pra completar a brincadeira proustiana, achei no sebo do Celso os long-plays da infância, de selo preto e orquestras aveludadas tocando clássicos da canção mundial. Meu pai assinava as Seleções do Reader’s Digest, e, através dela, comprou algumas daquelas coleções de discos. Foi no começo dos anos sessenta. A primeira foi Festival de música popular, com dez discos, já quase todos perdidos ou muito riscados, de tanto que os botei no prato do velho toca-discos argentino Winco, de armário, que era automático, podia tocar sozinho uma seqüência de vários discos — tinha um eixo comprido no meio do prato que segurava as “bolachas”, ajudado por um segundo braço — e tinha rotações de 16, 33, 45 e 78 (um monstro tecnológico pra época).

Diabo! Emoção tem limite. Baratos e em bom estado, comprei-os depressa e depressa os levei pra casa. Tinha uma estranha sensação de estar fazendo uma coisa ilegal, como se o medo do passado sumir outra vez fosse uma espécie de crime. “Qualquer tempo passado foi melhor”, disse o poeta Manrique. Por que não doença, sintoma de radical inadaptação ao presente? Hem, Marilu? Que tal sociofobia?  

Em primeiro lugar, a música. “Laura”, “La estrada”, “Over the rainbow”, “Arrivederci Roma”, “Stardust”, “Folhas mortas”, “La  vie em rose”, “La mer”, “Coimbra”, “Nel blu dipinto di blu”, “Sob o céu de Paris”, “Besame mucho”, “I’ve got you under my skin”, “Tenderly”, “Torna a Sorriento”, “As time goes by”, “Cheek to cheek” — os pássaros-canções voavam de novo das caixas de som, naipes da orquestra claríssimos, baixos bem pontuados, cordas suaves.

Na época, não ligava pros compositores. Só a música tinha interesse, e os títulos que as identificavam. Dela me nutria. Não eram bolachas servidas em prato?  Não adivinhava que, por trás delas, havia nomes que depois ficariam familiares, como Charles Trenet, Richard Rodgers, Irving Berlin, Cole Porter.

Mal pude ter notícia do rock, que começava sua ditadura planetária, tão envolvido estava com as coleções da Seleções (distribuídos no Brasil por certo Fernando Chinaglia, como constava das contracapas). Depois do Festival de música popular, vieram Música para ouvir e sonhar e a de valsas, cujos pacotes eram sempre entregues pelo mesmo funcionário do Correio, um senhor magro com cara de James Joyce, mas que eu jurava ser o próprio Fernando Chinaglia.

 

 

20/08/2007. O pôr-do-sol continua

Fabricante de poesia.

E eu, em minha companhia,

Vou andando pela rua,

Entre a mal nascida Lua

E os restos mortais do dia.

 

 

19/08/2007. Tarde de domingo. Eram marido e mulher de melhores épocas, quando as tropas de choque do Sílvio Santos e do Faustão ainda não tinham invadido as tardes dominicais.

Não tinham filhos, e nem eram constrangidos pelo ditador Zeitgeist a adotar filhos alheios. Por isso, podiam ler tranqüilamente no sofá desbotado.

Ele cochilava primeiro, ela logo em seguida. Quando o livro do marido caía no assoalho, ela acordava com o barulho e retomava a leitura. Ele só despertava quando caía o livro da mulher.

E, assim, um acordando o outro, a tarde do domingo e da existência chegavam placidamente ao fim.

 

 

18/08/2007. O Jornal da Band é a verdadeira Voz do Brasil: consegue a proeza de ser mais situacionista que os noticiários oficiais. Não foi à toa que o jornalista Franklin Martins saiu dali para um ministério, e com a nobre incumbência — sem nenhum sentido figurado — de criar a BBC brasileira. Mais dinheiro nosso pra essa rapaziada folgadíssima pular e nadar, como já se faz com a TV Senado, TV Câmara, TV Assembléia, TV Cultura, Rede Brasil, e dezenas de outras pelos estados.

 

 

17/08/2007. Pena de morte só assanharia mais os bandidos. Para esses artistas, quanto mais perigoso melhor.

 

 

16/08/2007. Num dia desses, no pátio do condomínio, a turminha estava se divertindo com dois monstrinhos vermelhos e luminosos, por controle remoto, réplicas mirins de um automóvel ferrari.

Os moleques atuais não prestam mais atenção nos brinquedos da natureza. Hoje, raspando no asfalto, a folha seca de agosto passou por mim, inesperada, veloz, absolutamente sem controle. Era uma bela e enorme folha de pau-formiga, amarelo-sépia, nas vésperas de decompor-se e virar pó.

Eu prefiro brincar de folha seca.

 

 

15/08/2007. A roupa da música melhorou, com os efeitos harmônicos de Wagner e Debussy. Mas o corpo continua o mesmo: sem melodia e ritmo, perde a graça. Algum retorcimento, aqui e ali, pode dar bom resultado, quando em dosagem limitada. Ouvi ontem um concerto para piano, de Francis Poulenc; é irresistível, sobretudo o primeiro movimento, essencialmente romântico, porém com os truques de orquestração pós-Ravel. É uma fórmula que funciona: emoção sob controle, ligeiramente distorcida.

 

 

14/08/2007. Cena pra novela de televisão.

— Jura que você vai morrer depois de mim? — ela perguntou com os olhos úmidos. — Não consigo imaginar um único segundo sem você, meu amor!

E ele, verdadeiramente enternecido:

— Vamos morrer juntinhos, querida.

Ela pareceu gostar da idéia.

— No mesmo minuto — continuou ele. — No mesmo avião da Tam ou da Gol.

 

 

13/08/2007. Sermão da indiferença.

Que mão-de-obra dá o rancor!

É uma acidez tão nefasta

Que principalmente gasta

O bucho do próprio autor.

Ódio é mato sorrateiro.

E, se a gente não arranca,

Depressa a raiva e a carranca

Tomam conta do canteiro.

Vencido o joguinho sujo,

Que adianta subir no pódio,

Enrodilhado sobre o ódio

Com curvas de caramujo?

Dos pecados, é o Pecado.

E, para evitá-lo, evite

O amor-próprio apaixonado,

Que amor também tem limite.

Pro ferro-velho co’a espada!

E cultiva a indiferença

Dos que não morrem por nada:

Já basta morrer de doença.

 

 

12/08/2007. Sempre gostei de rádio, mas atualmente só era possível ouvir — sem fantasias assassinas — o Diário da manhã, da Cultura FM, com Salomão Schwartzman, sintonizável aqui no interior pela AM, com mais chiados e grunhidos do que ondas sonoras.

Pois bem. Decidi assinar a internet banda larga, entre outros motivos, para ouvir melhor o Salomão e suas espetadas politicamente incorretas na incorretíssima política nacional.

Não deu certo. Mal pisei no novo ambiente virtual e o Salomão era expulso da rádio pelo atual diretor da RTC, o coveiro Paulo Markum, aquela mente iluminada que ajudou a enterrar o programa Roda Viva e agora promete enterrar o resto.

  TV Cultura: muito mais tevê do que cultura.

 

 

11/08/2007. Como era idiota aquele D. H. Lawrence, sacralizando o ato sexual! O amante de Lady Chatterley seria o evangelho da nova seita, que o século XX laicizou e transformou em igreja do diabo, com diabinhas gostosas e perigosas espalhadas por todas as décadas. Foi mais esperto o cristianismo, quando viu que a coisa — boa demais na aparência — era no fundo uma potranca pedindo rédea, freio e espora. Sexo, hoje sabemos bem, combina mais com tragédia ou comédia do que com apologética.

 

 

10/08/2007. Nota para uma aula sobre leitura.

Você quer que seu filhinho pegue gosto por livros? Proíba-o de se aproximar deles. Não é só com sexo que o método funciona.

 

 

0908/2007. Meus parentes do quintal

Não perdem tempo a dizer

Deus, morte, ser ou não ser.

Sábios, só dizem au-au.

 

 

0808/2007. Há pessoas cultivadas e inteligentes que não escrevem (poderiam fazê-lo, se quisessem), mas pensam com argúcia, lêem com sutileza, sabem conversar. São aforistas e ensaístas do ar, como o fazendeiro de Itabira. Conhecem a natureza volátil do pensamento e têm um padroeiro ilustre: Sócrates. Agem sobre um público pequeno, o que couber de ouvidos numa varanda, num bar, numa sala de aula. Jamais serão mencionados numa história das idéias ou da crítica literária, e, no entanto, quanta sacada genial não tiveram!

Não importa. Eles vivem bem, pois desfrutam em vida dos seus “direitos divinos”, como garantiu Hölderlin no seu poemas às Parcas; vivem, de vez em quando, como deuses; não é preciso mais nada.

 

 

07/08/2007. De brisas e Anarinas.

Seria bom ficar

Onde o corpo enraíza,

Onde sopra uma brisa

Muito antiga, além do ar.

É sempre bom ficar.

Mas partir não precisa,

Doce Anarina,

Intimidar.

Longe do doce lar,

Numa faixa imprecisa

Entre montanha e mar,

Posso abrir a camisa

E deixar outra brisa

— Lá também tem brisa! —

Me alimentar,

Nutrir...

Seria bom partir.

 

 

06/08/2007. Os antepassados italianos vieram pra cá há mais de cem anos. Já os mineiros estavam aqui há pelo menos uns duzentos. Os dois cemitérios guardam nosso pó e nossos ossos. Quando bate o vento, sinto na poeira um pouco da presença deles. É aqui meu ponto de ligação com o passado sem fim — esse passado infinito que talvez tenha muito mais futuro que o próprio futuro.

 

 

05/08/2007. De Antonioni não tenho nada pra falar. Foi decepcionante, ao contrário de Bergman, de quem vi Gritos e sussurros e Sonata de outono no Cine Madalena, em Batatais, que tinha sessão simples toda noite, dupla aos sábados e matinê nos domingos. Gritos e sussurros passou no horário nobre, domingo à noite, com sala lotada. No dia seguinte, acordei com a certeza de que era mortal.

Não gostei do filme, naturalista demais. Mas fiquei fã de Sonata de outono, profundo sem morbidez explícita. Alguns anos depois, de passagem por São Paulo, vi A flauta mágica no Cine Gazeta. Era outro Bergman, capaz de humor, que reveria com prazer em Fanny e Alexander. Vi outros filmes dele, há muitos por ver, afinal são quase meia centena e a Suécia não fica logo ali.

 

 

04/08/2007. Canção do vizinho.

Ah! Os meus vizinhos fatais...

Comigo sempre estarão

Em rota de colisão,

Mas que abraços tão cordiais!

Não tem nada mais fatal.

E há sempre um filho da puta

Permanentemente em luta

Com meu gosto musical.

Não ficaremos sozinhos

Nem mesmo quando defuntos:

Ainda teremos vizinhos

E visitas... Sempre juntos!

Vizinhança é condição.

Já perdi toda a esperança

De viver sem vizinhança,

Em saudável solidão.

Condenado à convivência,

Fico imaginando um Dia

Internacional da Ausência.

Solidão — minha utopia!

 

 

01/08/2007.Canção do divórcio.

Quando minha mãe Vontade

Separou-se do marido

Pensamento (que, em verdade,

É só meu pai adotivo),

 

Sumiu-se a tranqüilidade.

De qual dos dois sou mais filho?

Da despótica Vontade

Ou do seu casto marido?

 

Fico uns dias na cidade

Do Pensamento — tranqüilo

Como se voltasse à idade

Anterior ao labirinto.

 

Mas logo mamãe Vontade

Me convoca pro seu ninho,

Completamente promíscuo,

De total carnalidade.

 

E, de metade em metade,

Rigorosamente ambíguo,

Não sei se vivo à vontade

Ou só nas nuvens do espírito.

 

Se me matasse a saudade

Daquele tempo perdido,

Antes de viver no exílio

De Pensamento e Vontade!

 

 

 

 

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