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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 21

 

 

 

31/05/2007. Vi, no TCM, um filme ambientalista do início dos anos setenta, com Edward G. Robinson, Joseph Cotten e Charlton Heston (meus velhos conhecidos do Cine Castelo), ambientado na Nova York do futuro: No mundo de 2020 (Soylent Green). Segundo o autor da ficção científica do qual saiu o roteiro, segundo o roteirista que o adaptou para a tela e segundo o diretor que fez tudo isso virar uma “fita”, como dizíamos então, daqui a quinze anos Nova York estaria superaquecida e os ricos seriam minoria absoluta; em vez de esposas, alugariam belas e passivas jovens, que fariam parte do mobiliário da casa. O resto seriam quarenta milhões de indigentes, vivendo famintos pelas ruas decadentes e sujas da mega-cidade, alimentando-se de uma estranha bolacha verde feita de corpo humano reciclado. O policial Robert Thorn (Heston) descobre a indigesta verdade e decide contar ao mundo.

O melhor momento do filme é uma rápida fala de Robinson, que vive o velho policial Roth:

— O homem nunca prestou. Mas o mundo já foi mais bonito.

Sob medida para a mentalidade catastrofista de hoje, que acredita estar o bom selvagem de Rousseau soterrado vivo sob camadas de capitalismo, efeito estufa, machismo etc.

 

 

30/05/2007. Aprendi a ouvir rádio com meu avô: toda noite, ligava seu velho aparelho ABC e sintonizava as estações preferidas: Nacional, Bandeirantes, Tupi, Nove de Julho e, last but not least, a da nossa cidade. Dificilmente o barco ancorava noutros portos.

Assim que aprendi a sintonizá-lo — lá por volta de 1970, de preferência quando o velho Condo não estava em casa, pois era ciumento do seu navio —, passei por uma fase inicial de embarcação livre no oceano, passando e parando por todo lugar, até definir minha própria rota: as rádios cariocas Jornal do Brasil, com programação mista, do clássico ao bom popular, e a Rádio MEC, só com clássicos; em São Paulo havia a Cultura, que também só tocava música de concerto e tinha como vinheta sonora a introdução da Sinfonia Clássica, de Prokofiev.

Era época dos militares. General Médici criou um programa radiofônico semanal só para a velha canção brasileira — já que a nova gostava de contrariá-lo... —, apresentado por Paulo Tapajós. Não perdi uma única transmissão (como também não perdia os televisivos Concertos para a juventude, levado ao ar nos domingos pela manhã, em rede nacional, apresentado pelo compositor Marlos Nobre).

O problema era a mentalidade nacionalista da ditadura. Se os militares tentavam me prender a sete chaves na aldeola brasileira, o rádio não tinha fronteiras: eu levava o barco para as ondas curtas e ia remando, com o ponteiro, daqui pra ali, passando por Londres, Washington, Paris, Moscou. A rádio de Moscou era a mais emocionante de todas, pois eu era discretamente de esquerda, como a maioria dos adolescentes daquela época. Os locutores eram russos que falavam um curioso português todo torto. Por algum tempo, cheguei a acreditar nas lorotas vermelhas da rádio de Moscou. Passou depressa, como resfriado.

Mais que o rádio, a literatura também falava de um outro mundo lá fora, ao mesmo tempo que iniciava o leitor numa viagem menos espacial, para dentro da alma. No Brasil do “ame-o ou deixe-o”, os ensaios do Carpeaux eram antídotos seguros contra o nacionalismo tupiniquim. Lembro de Jorge Luiz Borges, numa entrevista de jornal, dizendo ser cidadão do mundo, mais que da Argentina: “Minha pátria é o planeta Terra.” Se o austríaco defendeu a vida toda a “literatura universal”, Borges foi ainda mais longe, incluindo nesse conceito autores e obras do Oriente — que Carpeaux lamentava conhecer muito pouco, pois desconhecia as línguas orientais, e para ele uma literatura era inseparável da língua usada por seus escritores.

Borges está morto, Carpeaux está morto. “Essa puta da Bovary vai viver e eu vou morrer como um cão”, disse Flaubert enquanto agonizava. Pior para o homem Flaubert, e o lamento profundamente; melhor contudo para os herdeiros, que somos todos nós: seus livros são passaportes para o país do espírito, que, se tem fronteira, é só a fronteira da língua.

Não há viagem como a leitura. Ninguém a defendeu tanto como nosso Carpeaux e nosso vizinho portenho, que escreveu um dia a mais bela frase sobre o assunto: “Que outros se gabem dos livros que escreveram; eu me orgulho dos que li”.

 

 

29/05/2007. Caducar iremos nós

Como trêmulas vovós?

 

Precisando de bengala

Pra ir do quarto até a sala?

 

O tímpano aparelhado

Pra ouvir o mais forte brado?

 

A mais poderosa lente

Pra só ver um palmo à frente?

 

A cara toda enrugada

Dificultando a risada?

 

Ou será melhor partir

Enquanto é possível rir?

 

 

28/05/2007. Manhã gelada de maio. Quem não tem torneira térmica, lava o rosto naquela agüinha de acordar defunto, o qual, se não tem sono profundo, acorda mesmo.

Defunto — palavra com roupa de fantasma, que a gente usava, na infância, para brincar de horror, principalmente alongando a vogal nasalizada. Vou atrás da etimologia: defunctus é particípio passado de defungor, satisfazer, desempenhar-se ou cumprir inteiramente uma coisa. Daí o sentido figurado de pagar dívida, estar quites com alguém e, finalmente, acabar, morrer. Portanto, morto é o que já pagou o débito da vida, o pecado original.

É preciso dizer mais? A etimologia é muito mais sabida que os sábios sabões que andam por aí se chamando de filósofos.

O fim dessa dívida, porém, não desobriga o defunctus do crediário eterno. É só o começo da dívida da morte, que continua pelo Hades grego, pelo Orco latino, pelo Inferno cristão e, no melhor dos casos, pelo Purgatório, plataforma de embarque para o país sem dívidas: o Paraíso.  

Cristo teria vindo ao mundo para ajudar o homem a saldar a dívida do pecado original, que o ressentido Marx acreditava poder ser paga aqui mesmo, na sociedade sem classes. Entre a fantasia cristã e a marxista, acho muito mais criativa a primeira: obra-prima do desespero humano.

 

 

27/05/2007. Epigrama à moda latina

Abriu livros pra vencer

Na vida a brava Luzia;

Já sua irmã Rosidete

Outras coisinhas abria.

 

 

26/05/2007. Tantos canais de tevê a cabo e nenhum que preste. Como dizia um velho escritor, televisão é a maravilha da ciência a serviço da estupidez humana. Parei num canal qualquer: duas belas moças passeavam num parque e conversavam animadamente, e logo fiquei sabendo que uma delas era professora universitária, a outra era a repórter e o parque era parte do campus de um desses supermercados universitários, que vendem diplomas em suaves parcelas mensais.

Estavam fantasiadas de putas. A repórter mostrava pelo menos a metade dos grandes seios e boa parte da enxuta barriguinha. Tinha uma bunda respeitável, respeitabilidade que só aumentava com as calças justíssimas. A professora também exibia o que tinha, e não tinha pouca coisa: seios bonitos, bunda empinada, andar de potranca.

Falavam umas coisas técnicas, entremeadas com a gíria do momento, tudo muito mal regido e concordado. Coitada da língua portuguesa do Paulo Coelho! Nem é preciso falar em Bandeira, Machado, Vieira, Camões. Se seguissem pelo menos o modelo vernáculo do mago-escritor, estaríamos muito bem servidos. O diabo é que nosso padrão de fala vem do pessoal da tevê, que vai bebê-la em Ipanema e Copacabana, depois de produzida em larga escala na favela da Rocinha.

Nada tenho contra putas — pelo contrário. Prestaram e continuam prestando inestimável serviço à espécie dos bípedes solteiros ou mal casados. Mas sou da época pré-histórica em que professoras ainda se vestiam com simplicidade, com pudor e, nalguns casos, até com discreta elegância, pois nem todas eram pobres. Falavam como vestiam; ainda trago nos ouvidos aquele “dialeto” de normalistas, fluindo como límpido regato, nem sempre manso, é verdade, pois havia as neurastênicas, que praticavam beliscões e outras picadas. Mas antes, mil vezes antes, a fria distância das mestras d’antanho do que essa amizade artificial das nossas “tias” moderninhas e emputecidas.

 

 

25/05/2007. Nunca o mundo esteve tão efeminado. Prova disto é o desprezo cada vez maior por aquelas coisinhas ditas espirituais, mais elevadas.

 

 

24/05/2007. Pátria pode ser muitas coisas: um bom clima, a língua que o cidadão usa, um passado histórico, científico ou artístico que ele respeita, um presente que lhe oferece boas oportunidades, concidadãos que cumprem as regras do jogo civil.

Patriotismo é o sentimento de tudo isso, elevado à máxima potência por efeito de marketing nacionalista.

Também faz parte da idéia de pátria a sedução do exílio, e confesso que só não deixo o país por comodismo profissional. Meu verdadeiro país é São Paulo, cada vez mais inabitável. O que é o Brasil? É um continente e, como todos os continentes, abstratos demais. Não vejo diferença significativa entre a Paraíba e a Bolívia, tanto no que possuem de estranho como de familiar. A guarânia e o tango me soam tão próximos como o choro ou a modinha. Como próximos estão de mim o fox e a tarantela, pois freqüento salas de cinema desde moleque.

Em São Paulo, me sinto mais à vontade na Mogiana, fronteira com o país da Minas Gerais. Certa vez, já faz um bom tempo, fui ver uma palestra do crítico Antonio Candido em Ribeirão Preto. Cochilei boa parte da palestra, mas fui despertado de súbito quando ouvi o simpático professor dizer:

— Estamos, aqui, no estado da Mogiana, que compreende a parte paulista e a parte mineira servidas pela antiga Estrada de Ferro da Mogiana.

Antonio Candido, que foi criado em Santa Rita de Cássia e Poços de Caldas, cidades da Mogiana mineira, estava certo: as linhas do trem costuraram na região uma história comum, baseada na economia do café e na imigração dos italianos, que se misturaram aos caipiras dos dois lados da fronteira.

O melhor clima do continente brasileiro, e talvez do mundo, está ali. No fundo, do que mais precisa uma pátria?

 

 

23/05/2007. Deus disse a Adão e Eva, lá no começo de tudo:

— Multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a.

Como bons filhos, eles obedeceram: multiplicaram-se, a terra ficou cheia e devidamente submetida. Deu no que deu: ônibus superlotado, com vazamento de gás e efeito estufa, dirigido por bêbados. O Senhor, que conhecia o futuro, sabia que daria no que deu e, mesmo assim, deixou acontecer. É a melhor prova de que Deus queria mesmo brincar com a espécie dos bípedes calçados.

Se Ele estivesse bem intencionado, teria dado outra ordem aos recém banidos do Éden:

— Fazei, no máximo, dois filhos. Não é preciso encher toda a terra, nem dominá-la.

Bastavam Caim e Abel, suficientes para dar ritmo ao mundo. E, aí sim, castigo feio se não obedecessem: pestes, dilúvios, furacões. Não faltaria oportunidade para usar a divina palmatória.

 

 

22/05/2007. Acredito, cada vez mais, que a poesia concreta perdeu a oportunidade de ser um dos mais divertidos movimentos da nossa história literária: se tivesse havido humor, no lugar de toda aquela soberba pregação revolucionária. O que podia ser uma brincadeira saudável, acabou em religião vanguardista, com direito até a decálogo e inquisição.

 

 

21/05/2007. Por que Deus tomou a divina providência de criar o universo exatamente naquele momento, e não oitocentos quatrilhões de milênios antes, ou oitocentos quatrilhões de milênios depois? Se tivéssemos mesmo de existir, faria alguma diferença? O que fez Ele na eternidade anterior? Vinha de outras experiências de criação, bem ou mal sucedidas? Estava cansado do absoluto e quis brincar com o relativo? Ou Deus simplesmente quis, e estamos conversados?

Nunca estaremos conversados. Tudo ainda está por ser dito. Gostaria muito de ouvir Dele uma explicação pessoal, não de teólogos, filósofos ou astrofísicos. Mas acho que seria pedir demais, coisa de protestante, que queria linha direta com o Criador: o primeiro fonema da resposta de Deus já me arrebentaria os tímpanos.

Ganho mais se me recolher, humildemente, à minha insignificância, e me contentar com perguntas. Já não é um privilégio nascer na espécie dos bípedes curiosos? Mais vale uma pergunta inteligente que uma resposta idiota, diria mestre Acácio.

Então, pra terminar, mais algumas perguntinhas inteligentes: Deus já pensou em suicídio? O badalado Nietzsche será o último profeta de Deus? Em vista do que anda acontecendo com uma de suas presumíveis obras-primas, a Terra, será que Deus, imitando Santos Dumont, não anda seriamente pensando em meter um balaço de canhão na testa?

 

 

20/05/2007. Fala-se muito no fim do mundo. Será que já não acabou e só esqueceram de avisar?

Quando o telejornal faz uma tomada de sala de aula, pra mostrar trinta alunos de fone no ouvido e escutando rock no último volume, sou obrigado a concluir, serenamente, sem nenhum impulso apocalíptico, que o mundo já acabou: o meu mundo, pelo menos.

Meu mundo tinha muitos, inumeráveis defeitos. Não importa se era melhor ou pior do que este que está começando (no fundo, acho mesmo que todos os mundos se equivalem e estão, mais cedo ou mais tarde, condenados a acabar).

Lembro de um engraçado professor estrangeiro, vindo de outro mundo, que morava em São Paulo e viajava toda semana para ensinar em Assis. Certa vez, eu vinha no mesmo horário que ele — ele sentado na frente, eu bem atrás. Quando o ônibus, antes de amanhecer, entrou na cidade e mudou de ritmo para se adaptar às ruas, às lombadas, aos semáforos, começamos a acordar. Como se estivesse à frente de sua classe, o professor estrangeiro, que também acordou, disse em alto e bom som macarrônico para quem quisesse ouvir:

— Assis, fim de mondo! 

Fim de mundo parece mais um conceito subjetivo, muitas vezes tingido de cores religiosas, militares ou ecológicas. Não é isso mesmo que acontece, quando digo que meu mundo caiu, como dizia uma canção do outro mundo? Só sei que sou obrigado a me adaptar ao atual, pois o mundo pode acabar antes da vida.

 

 

19/05/2007. Houve época em que era conveniente, ao político de esquerda que quisesse se eleger, acomodar-se ao discurso da direita. Hoje, é o político de direita que precisa adotar os chavões da esquerda, se não quiser naufragar.

 

 

18/05/2007. É tempo dos invasores.

Buliçosos e brilhantes,

Vêm de planetas distantes

Com seus discos voadores.

É tempo dos invasores.

Bem falantes, bem vestidos,

Vêm em bandos coloridos

Na luz dos televisores.

É tempo dos invasores.

Mandam do lado de lá,

Disfarçada, a bomba H

Dentro de um maço de flores.

É tempo dos invasores.

Para os narizes e ouvidos,

Os mais nocivos odores,

Os mais perversos ruídos.

É tempo dos invasores.

Vêm chegando aos borbotões,

Carros, navios, aviões,

Com todos os seus motores.

É tempo dos invasores.

Atacam por telefones,

Microsistems, microfones

E liquidificadores.

É tempo dos invasores.

 

 

17/05/2007. Tempos atrás, o tio Paulinho, que também era meu primo e também ele descendente de mineiros, me contou uma boa piada contra Minas. O sujeito chegou na banca de revistas e pediu um “Estadão atrasado” (o jornal O Estado de São Paulo). O dono da banca trouxe-lhe um mapa de Minas.

É uma pena que Minas esteja se desenvolvendo da pior maneira, como parece ser destino da espécie. A poesia mais autêntica é incompatível com esse progresso tecnológico, que é um fim em si mesmo e, provavelmente, o fim de si mesmo e de todos nós; um moderno que não respeita o “eterno”, eterno no sentido daquelas coisas mais duráveis do mundo, que existiram na época das cavernas e vão continuar existindo na época dos robôs. Uma dessas verdades “eternas”, que os homens mais sábios nunca contestaram, é a que bota o homem no seu devido lugar: “bicho da terra tão pequeno”, na fórmula perfeita de Camões.

 

 

16/05/2007. Nossa futura moradia não será nada confortável: abafada, escura, chão de terra. Que importa? Seremos pessoas muito simples, muito humildes...

 

 

15/05/2007. Minas, com tanta história para contar, sempre atraiu forasteiros. Dos estrangeiros, é preciso mencionar o francês Georges Bernanos, o romancista cristão do Diário de um pároco de aldeia e Sob o sol de Satã, que durante a segunda guerra morou em Barbacena, na fazenda Santa Cruz das Almas. De volta à França, morreria alguns anos depois, em 1948.

Otto Maria Carpeaux, que veio e não saiu mais do Brasil, também foi fisgado por Minas, sobretudo Ouro Preto, que lembrava-lhe outras de seu país, nos Alpes austríacos, com passado idêntico na economia e nas artes. Escreveu vários ensaios sobre Ouro Preto em particular e os mineiros em geral.

Emeric Marcier, pintor romeno também fugido da guerra, também veio parar em Minas. “Veder Minas e poi morire”, deve ter pensado Marcier, pois ali permaneceu para sempre, com ocasionais viagens à Europa.

Dos brasileiros que gostaram de Minas, é preciso começar com Manuel Bandeira, que escreveu vários poemas e crônicas de assunto mineiro, mas sobretudo um belo Guia de Ouro Preto, ilustrado com bonitos bicos-de-penas de Luís Jardim. Anda esgotado há muito tempo; merece reedição de luxo.

Marques Rebelo publicou um livro sobre Minas, no início dos anos quarenta: Cenas da vida brasileira. São pequenas notas de viagem — bem humoradas ou líricas — sobre as cidades que visitava pelo interior mineiro, em férias ou como inspetor do ensino público. Tem contos de ambientação mineira. O protagonista de seu romance-diário, à clef, O espelho partido, faz todo ano uma viagem de férias a pequena cidade da Zona da Mata, presumivelmente Cataguases, hospedado pelo amigo Francisco Amaro (pseudônimo de Francisco Inácio Peixoto, poeta e contista do Grupo Verde).

Cornélio Pena, embora fluminense, ambientou boa parte de sua ficção — Fronteira, Dois romances de Nico Horta e Repouso — nas cidades mortas de Minas e pode ser considerado meio mineiro. Outro grande amigo de Minas foi Alceu de Amoroso Lima, que publicou dois livros sobre a condição mineira: Voz de Minas e Manhãs de São Lourenço. Mário de Andrade escreveu ensaio pioneiro sobre Aleijadinho, em 1928. De Cecília Meirelles é o poema Romanceiro da Inconfidência. Ribeiro Couto, que foi promotor no interior de Minas, tem romances e vários contos com ambientação mineira (O largo da matriz, Cabocla, Prima Belinha). Antônio Callado ambientou em Congonhas do Campo o romance A madona de cedro, que seria depois filmado.

Em 1944, o então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, convidou um pintor carioca para criar a Escola Municipal de Belas Artes, mais conhecida por Escola do Parque. O carioca era por Alberto da Veiga Guignard, carioca de tal modo radicado em Minas, e com Minas identificado, que acabou passando por mineiro. O mesmo Juscelino traria dois forasteiros modernosos para cuidar da cenografia do parque da Pampulha: Oscar Niemeyer, especialista em discos voadores, e Cândido Portinari, que em boa parte de sua obra sacrificou-se ao cubismo.

Minas, boa de bola na canção popular — Joubert de Carvalho, Ari Barroso, Ataulfo Alves, Hervê Cordovil, Geraldo Pereira, Lúcio Alves, Renato Andrade, Luís Cláudio —, não tem um compositor erudito de projeção nacional, embora o mais famoso pianista brasileiro da atualidade seja um mineiro, Nelson Freire, famoso no mundo todo. Mas um compositor paulista, Camargo Guarnieri, compôs uma bela peça orquestral para e sobre Minas: Suíte Vila Rica, baseada em boa parte no som folclórico mineiro, originalmente escrita para um filme e depois desenvolvida com autonomia. Foi dedicada a um mineiro, o médico Clóvis Salgado, que foi ministro da educação de Juscelino Kubitschek e empregou Guarnieri como assessor cultural.

Boas frases sobre Minas e mineiros foram cunhadas por forasteiros. Millor Fernandes, sobre a famosa reserva dos mineiros: “Mineiro nunca é o que parece, sobretudo quando parece o que é.” E Nelson Rodrigues, sobre o individualismo do montanhês: “Mineiro só é solidário no câncer”.

 

 

14/05/2007. Falar do século XX literário, em Minas, é quase falar da literatura brasileira contemporânea. É preciso iniciar com dois pré-modernistas mineiros, de tendências diferentes, mas ambos valorizando o ambiente provinciano: Afonso Arinos, autor dos contos regionalistas de Pelo sertão, e Godofredo Rangel, cuja Vida ociosa tem algo de Machado no estilo e na visão de mundo. Rangel, juiz enfiado numa pequena cidade mineira, se correspondeu a vida toda com o amigo Monteiro Lobato, que publicou sua parte da correspondência no volume A barca de Gleyre, um dos livros preferidos de Guimarães Roas. Por outro lado, infelizmente, os herdeiros do juiz não autorizam a publicação de suas cartas.

O modernismo mineiro surge em torno de A revista (1925), com o puxador de fila Drummond: Pedro Nava que, depois de velho, abafaria com suas memórias; o bom poeta intimista Emílio Moura, que ainda espera por uma merecida veiculação nacional; Abgar Renault, cujas poesias completas, no fim da vida, surpreenderiam os leitores já céticos da poesia brasileira; os belos contos de Aníbal Machado, e de Rodrigo Melo Franco de Andrade, que publicaria um único livros de contos em toda a vida, Velórios, e depois iria cuidar do patrimônio histórico mineiro; João Alphonsus, filho do “pobre Alphonsus”, que tanto no romance, Totônio Pacheco, Rola-moça, como no conto, Eis a noite, Pesca da baleia, não envergonha sua ascendência; e Henriqueta Lisboa, outra boa poeta que não é lida como merece.

Ainda na mesma época, aparece um grupo em torno da revista Verde, de Cataguases, com o curioso Rosário Fusco, que começa a ser redescoberto; Guilhermino César, que depois se mudaria para o sul, ajudaria na divulgação de Qorpo Santo e escreveria uma história da literatura riograndense; Ascânio Lopes, morto prematuramente; e Francisco Inácio Peixoto, homem de letras que também era rico e contratou serviços de Oscar Niemeyer e Portinari, publicando algumas obras, entre as quais um relato de viagem à antiga URSS e um volume de contos no fim da vida, Chamada geral, pela Civilização Brasileira.

Outros nomes, a partir dos anos Trinta: Lúcio Cardoso e Ciro dos Anjos, na prosa de ficção; o ferino Eduardo Frieiro que, na verdade, começaria antes, se destacando sobretudo no ensaio, apesar de ter praticado romances; os dois Murilos da poesia, o Murilo Araújo, meio modernista, meio simbolista, e o Murilo Mendes; Cristiano Martins no ensaio e na tradução (traduziu toda a Divina comédia; seus decassílabos e terzas rimas abrasileiraram definitivamente Dante), depois de um livro de poemas na juventude bastante elogiado por Mário de Andrade.

Depois de Trinta, Minas ainda não estava contente e deu Guimarães Rosa, Murilo Rubião, Mário Palmério e Campos de Carvalho na prosa; Alphonsus de Guimarães Filho, Bueno de Rivera e Dantas Mota, na poesia. E, de lambujem, o famoso “quarteto mineiro”: Fernando Sabino e Otto Lara Resende na ficção e na crônica; Paulo Mendes Campos na poesia e na crônica, e Hélio Pellegrino na poesia. Autran Dourado também é contemporâneo deles e não é de se jogar fora.

Poetas e prosadores mineiros se afirmariam nacionalmente depois de 60: Rubem Fonseca, Luiz Vilela, Sérgio Santana, Afonso de Romano Santana, Afonso Ávila, Roberto Drummond, Oswaldo França Junior, Adélia Prado e, na literatura infantil, Lúcia Machado de Almeida, Ziraldo. Isso, sem esquecer os críticos mineiros: o também filólogo Aires da Mata Machado, o já mencionado Eduardo Frieiro, Fábio Lucas, Sabato Magaldi, Leo Gilson Ribeiro, Antonio Candido (que por acidente nasceu no Rio, mas é de família mineira, cresceu em Minas e mineiro é), Valtensir Dutra (que em 1956 publicou com o pernambucano Fausto Cunha uma Biografia crítica das letras mineiras) e Lúcia Miguel Pereira, que fez romances, mas é lembrada sobretudo pela biografia de Machado, a história literária do período realista e pelo acidente aéreo que a matou, em 1959, junto com o marido Octávio Tarquínio de Souza.

 

 

13/05/2007. A ciência fez depressa

O homem mudar de senhor:

De escravo da Natureza

A serviçal do Motor.

 

 

12/05/2007. Minha visão de Minas não é a do mineiro, nem do especialista em literatura ou arte mineira. É de alguém que nasceu e viveu boa parte da vida na beiradinha daquele estado, no lado paulista da Mogiana.

Do ponto mais alto da minha cidade, a 50 km da divisa, avistava os morros mineiros da parte norte do Sudoeste de Minas. Olhar para os morros era uma boa experiência de distância, e foi fator decisivo na atração que sempre senti por Minas, que só aumentou depois que soube, na adolescência, que minha família materna provinha de uma daquelas cidades mortas de Minas Gerais — Aiuruoca, cidade do poeta Dantas Mota, que ali nasceu, viveu e morreu; região de muita montanha e famoso misticismo turístico.

Em nada influiu nessa atração uma certa birra dos meus conterrâneos contra os mineiros, pois ainda era muito viva na memória local a guerra civil com os mineiros, em 1932, os quais, quando entraram em Batatais, deixou todo mundo assustado. A fazenda do bisavô, que tinha uma casa grande, construída pelo antepassado mineiro que ali chegou por volta de 1850, recebeu todos os parentes da cidade, espavoridos com os inimigos que estavam chegando de fuzil na mão.

Tenho uma cópia do inventário desse tetravô mineiro, onde estão relacionados, com a mesma indiferença, enxadas e escravos. Quando era criança, a fazenda já estava divida em vários sítios que pertenciam ao bisavô e aos tios-bisavôs empobrecidos. Por sorte, meu bisavô era o primogênito e herdou o pedaço da fazenda com a casa e a senzala, que todo mês eu visitava.

Eu não sabia que estava tendo aulas de uma parte importante da história do Brasil, ao vivo e em cores. A senzala — que chamavam de sanzala — era uma casinha baixa e comprida, do outro lado do monjolo. A casa, feita pelo tetravô mineiro, era dessas de pé direito alto, telhas de canal, ditas hoje coloniais, amplo porão, piso de madeira larga e rústica, que uma velha e pobre tia solteirona — então já sem a família do negro Adão para essas tarefas ingratas — lavava ela mesma com sabão de cinza.

Havia um misterioso cômodo, sempre trancado, o único em que não consegui entrar; e que depois, bem mais tarde, fiquei sabendo o que era: era a sala dos livros e da papelada da antiga fazenda. Que livros e que papéis eram esses, jamais vou saber, pois o tio que ficou com a casa e o sítio, mais preocupado com os pés de café ao redor, um belo dia recebeu o espírito do barbeiro ou do vigário do Dom Quixote e botou fogo em tudo.

Minha Minas sempre foi mais mítica que real.

 

 

11/05/2007. Minas, o maior estado do Sudeste, 7% do país, tem hoje dezoito milhões de habitantes, mais ou menos a população da Grande São Paulo. Depois dos quatro milhões que Belo Horizonte retém em si e à sua volta, o resto está esparsamente distribuído por mais de oitocentas cidades. É o estado que mais cidades tem, algumas olhando para picos ambiciosos e cheias de cavernas profundas. Escondem-se entre montanhas, nos vales dos rios, ou se exibem tranqüilas nos campos ondulados, cortadas por rios de águas límpidas, com milhares de cachoeiras. Há muito mato e represas imensas, como a de Furnas, que são o mar de Minas, com praias que enganam bem os praiano-maníacos.

Quatorze milhões de pessoas espalhadas por 7% do Brasil: ainda há muitos milhares de quilômetros quadrados de vazio separando os mineiros, uma boa parte deles com montanhas. Viria daí o caráter arredio e desconfiado do mineiro?

Minas está mais ou menos o centro do país: é uma espécie de resumo do Brasil. Pelo oeste, faz fronteira com Mato-Grosso e com este se parece. A norte, com Goiás e Bahia — a Minas nordestina. Ao sul, encosta no país do progresso: é a Minas desenvolvida, ligando Belo Horizonte a São Paulo e ao Rio que, junto com o Espírito Santo, a impedem de ver o Atlântico e ter sua própria orla marítima. Contentou-se por muito tempo com Mar de Espanha, cidadezinha da Zona da Mata, antes da construção das grandes represas de Furnas e Três Marias.

Caminhoneiros que vão de norte a sul e de leste a oeste passam obrigatoriamente por Minas. Mas longe das grandes estradas que ligam Belo Horizonte ao Rio, a São Paulo, a Vitória e ao Centro-Oeste — e longe dos vários aeroportos espalhados pelo interior e capital —, ainda há muitas cidades mineiras solitárias, de algum modo longe do “barulho contemporâneo”, pra roubar uma expressão de Saul Bellow. A Minas que mais aprecio é a das montanhas, sobretudo das pequenas cidades perdidas nas montanhas, de algum modo ainda defendidas daquele Barulho Contemporâneo.

Minas será mesmo um estado? Ou está mais pra país, reunindo regiões tão diferentes como o Triângulo Mineiro e o Vale do Jequitinhonha, o sul apaulistado e o norte bem baiano? Eu até arriscaria a falar em cidades-estados, orgulhosas de sua solidão, defendidas pela muralha das montanhas ou pelas distâncias inabitadas. Talvez viesse daí o espírito municipalista do mineiro, quase sempre muito apegado à sua região.

 

 

10/05/2007. Botei na vitrola Lobo de Mesquita, Antífona de Nossa Senhora (Salve Rainha), com coro e orquestra barroca Armonico Tributo (instrumentos de época), com direção de Edmundo Hora. Prefiro uma gravação dos anos 60 com a maestra Cléophe Person de Matos, com coro e orquestra sinfônica convencional.

Faz tempo que não volto a Ouro Preto. Não esqueço a primeira viagem, em 1974: sobretudo os sinos que vi e ouvi do adro da São Francisco de Assis, no fim da tarde, numa outra igreja mais abaixo e da qual só via o telhado. O sineiro ia de uma torre a outra, pelo próprio telhado. Um som impressionante, que me deixou numa profunda desolação, com uma puta vontade de dar o fora dali: o rapazinho paulista de dezoito anos ainda não estava preparado para os fantasmas de Ouro Preto.

Tiro da estante o Guia de Ouro Preto, do poeta Bandeira. Folheio aqui e ali. A prosa de Bandeira é uma delícia, os bicos-de-pena de Luís Jardim revelam a cidade melhor que qualquer fotografia digital. Paro no capítulo sobre os viajantes estrangeiros. “Só mesmo o amor do ouro poderia ter levantado uma cidade em tal lugar”, notou John Luccock, viajante inglês, quando por ali passou no começo do século XIX e se espantou com aquelas casas, edifícios públicos, pontes, chafarizes, pinturas, esculturas e igrejas. Otto Maria Carpeaux, fã incondicional da cidade, jura que nunca viu integração maior de arquitetura e natureza.

A inauguração de Belo Horizonte, em 1897, substituindo Ouro Preto, foi até providencial: de algum modo preservou a velha Vila Rica que, mesmo saqueada por gerações sucessivas em seus tesouros artísticos, continuou sendo a cidade simpática de sempre, milagrosamente encravada nas montanhas.

Ouro Preto está no começo da literatura brasileira, a primeira vez em que apareceram, ao mesmo tempo, no mesmo lugar, escritores e leitores para as suas obras. É o início da nossa civilização urbana, se é que temos isso. José Basílio da Gama, Frei Santa Rita Durão, Tomás A. Gonzaga e Cláudio M. da Costa vêm das minas ouropretenses e cercanias, das quais também saem as artes plásticas barrocas e rococós do  Aleijadinho e do Mestre Athaíde, a música de Lobo de Mesquita. O maior de todos eles, sem dúvida, é o Aleijadinho.

A exploração do ouro superficial, sem tecnologia para buscar o mais profundo (Portugal queria só o enriquecimento rápido), fez o ciclo da mineração não passar de um século. E Ouro Preto, na decadência, não deu mais que um Bernardo Guimarães (que no romance O seminarista, de 1972, fala dos profetas de Aleijadinho com mais incompreensão que interesse). Alguns intelectuais que fugiram da ditadura de Floriano Peixoto, em 1893, e se esconderam em Ouro Preto, entre eles Olavo Bilac, encontraram morando ali o contista Afonso Arinos e o poeta parnasiano Raimundo Correia. Em Diamantina nasceu Aureliano Lessa, poeta menor da segunda fase romântica.

O realista Júlio Ribeiro, autor do romance A carne, nasceu ali perto, em Sabará, mas mudou-se para São Paulo. Por falar em realismo, tenho uma tese muito particular: defendo que Machado de Assis, apesar de nascido no Rio, é muito mais mineiro que carioca. Não foram poucas as vezes em que ambientou histórias ou cenas nalgum lugar de Minas. Como exemplo, o pungente final do Quincas Borba em Barbacena.

O poeta parnasiano Augusto de Lima e o cronista Antonio Torres são mineiros do mesmo período, mas o fato mais importante da decadência mineira foi Alphonsus de Guimarães, “Pobre Alphonsus, pobre Alphonsus!”, um dos maiores poetas do Brasil, aquela da Ismália que, quando enlouqueceu, pôs-se na torre a sonhar: “Viu uma lua no céu/, Viu outra lua no mar.” Era sobrinho-neto de Bernardo Guimarães, por cuja filha, Constanza, se apaixonou.

Quando os modernistas paulistas estiveram em Ouro Preto, por volta de 1925, estava completamente abandonada. Oswald escreveu poema que ficou famoso sobre os profetas de Congonhas e Mário de Andrade um ensaio não menos famoso sobre Aleijadinho, marco na redescoberta do escultor. Da mesma época, 1928, é o livro-denúncia Cidade do sonho e da melancolia, de Gilberto de Alencar, que aliás tem um romance de título engraçado: Memórias sem malícia de Gudesteu Rodovalho.

 

 

09/05/2007. Tradução literária, na reta final, pode ser traição. Mas antes de tudo é um jogo, uma modalidade do joguinho folclórico “o que é, o que é?”, uma brincadeira com as charadas da outra língua. Um jogo em que pelo menos duas cartas são necessárias: inteligência e criatividade.

 

 

08/05/2007. Pra construir seus modelinhos analíticos, a teoria literária vive correndo atrás da literatura, que sempre escapa — ilesa! — por uma porta que ela mesma inventa. No fundo, essa perseguição da teoria é que é uma forma disfarçada de escape — fuga do misterioso fascínio da literatura.

 

 

07/05/2007. Os verdadeiros artistas do trânsito

 

Mas apesar dos motoristas,

O dia todo, todo dia,

Procurarem me assassinar

Quando atravesso as nossas pistas

(Moisés, isso é que é travessia!),

Até agora pude escapar...

Nós é que somos os artistas.

 

 

06/05/2007. Sei o que é o tempo, meu caro santo Agostinho. Mas quando vou botá-lo em prática, sempre perco a hora.

 

 

05/05/2007. Bebês são filósofos hedonistas: reagem no mesmo diapasão — em latim vulgar, com o mesmo berro desgraçado — a qualquer medida de sofrimento, desde a inevitabilidade de sair da banheira gostosa à mais pungente dor de barriga.

 

 

04/05/2007. Vivia deprimido com a felicidade alheia. Hoje, curado, vive feliz com a depressão dos outros.

 

 

03/05/2007. Quando boto o olho nalguma coisa escrita pela universidade, setor das letrinhas, me sinto ilegalmente no estrangeiro, migrante sem passaporte sujeito a sumária deportação.

Presunção à parte, bom mesmo é ficar na terra da gente — no país dos Sainte-Beuve, dos Francesco De Sanctis, dos Miguel de Unamuno, dos Edmund Wilson, dos Ernst R. Curtius, dos Otto M. Carpeaux. A “terra da gente”, embora aparentemente falando alemão, inglês, italiano, francês, espanhol, no fundo fala uma língua só, uma língua inteligível e civil, anterior à torre de Babel da crítica acadêmica.

 

 

02/05/2007. Nunca fui com as idéias políticas de Noam Chomsky, nem perdi muito tempo com sua gramática gerativo-transformacional, mas não há como discordar do que ele disse em entrevista recente, sobre ciência e literatura:

“...pouco se sabe sobre o ser humano, sob qualquer ponto de vista, como o científico. Os assuntos humanos são complexos demais para que a ciência seja capaz de dizer muito sobre eles. As ciências sociais são úteis, mas não podem penetrar muito fundo.

O outro lado da questão é que a literatura e as artes freqüentemente oferecem insights penetrantes sobre como é o ser humano, como ele se comporta, como são suas inter-relações, que tipo de problemas ele enfrenta e assim por diante.

Mas esses insights não provam nada, só nos revelam coisas que podemos entender intuitivamente tão logo as percebamos. É por isso que eles são freqüentemente tão pungentes e têm tanto efeito sobre nós.”

 

 

01/05/2007. Dos diálogos da sogra e da nora.

Sogra: — O trabalho não merece um dia de festa, mas de pranto. Não só pelo trabalho injusto, muitas vezes escravo, mas pelo trabalho em si: a condição do trabalho.

Nora (guardando o seio e fechando a blusa): — Todas as espécies trabalham. Sem trabalho não há vida. Por falar em condição, o trabalho rotineiro é uma boa forma de distrair a gente da condição humana. Quando não é sub-humano, chega ser divertissement, como diria Pascal.

Sogra: — Eu preferia comemorar a preguiça. Ou melhor, a “boa preguiça” de que fala o Suassuna, que no fundo vem a ser o velho ócio criativo.

Nora (falando baixinho pra não acordar o bebê): — Quanta gente dando duro pro ócio criativo de tão poucos!

Sogra: — Que raciocínio mais pequeno-burguês! O deus da história sempre dividiu a humanidade em duas metades desiguais: uma bem grandona, com as pessoas que nasceram pro trabalho, e outra, minoria, com os “privilegiados” do ócio criativo. Sem este, não teria havido as religiões, os filósofos, as obras de arte, o conhecimento científico.

Nora (falando baixinho pra não acordar o bebê): — Que enfoque mais elitista!

Sogra: — Na minha utópica divisão da atividades humanas, a maioria se ocuparia do “bom trabalho”, completamente expurgado da exploração; e, sem a menor culpa, a minoria criativa se entregaria à “boa preguiça”, que sempre esteve, paradoxalmente, a serviço da primeira. Numa perspectiva histórica, a “boa preguiça” tem mourejado bem mais que o trabalho, justo ou injusto.

 

 

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