NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 21
31/05/2007. Vi, no TCM, um filme ambientalista
do início dos anos setenta, com Edward G. Robinson, Joseph Cotten e Charlton Heston (meus velhos conhecidos do Cine Castelo), ambientado
na Nova York do futuro: No mundo de
2020 (Soylent Green). Segundo
o autor da ficção científica do qual saiu o roteiro, segundo o roteirista que o
adaptou para a tela e segundo o diretor que fez tudo isso virar uma “fita”, como
dizíamos então, daqui a quinze anos Nova York estaria
superaquecida e os ricos seriam minoria absoluta; em vez de esposas, alugariam
belas e passivas jovens, que fariam parte do mobiliário da casa. O resto seriam
quarenta milhões de indigentes, vivendo famintos pelas ruas decadentes e sujas
da mega-cidade, alimentando-se de uma estranha bolacha verde feita de corpo
humano reciclado. O policial Robert Thorn (Heston) descobre a indigesta verdade e decide contar ao
mundo.
O melhor
momento do filme é uma rápida fala de Robinson, que vive o velho policial Roth:
— O homem nunca
prestou. Mas o mundo já foi mais bonito.
Sob medida
para a mentalidade catastrofista de hoje, que acredita
estar o bom selvagem de Rousseau soterrado vivo sob camadas de capitalismo,
efeito estufa, machismo etc.
30/05/2007. Aprendi a ouvir rádio com meu avô:
toda noite, ligava seu velho aparelho ABC e sintonizava as estações preferidas:
Nacional, Bandeirantes, Tupi, Nove de Julho e, last but not least, a da nossa cidade.
Dificilmente o barco ancorava noutros portos.
Assim que
aprendi a sintonizá-lo — lá por volta de 1970, de preferência quando o velho
Condo não estava em casa, pois era ciumento do seu
navio —, passei por uma fase inicial de embarcação livre no oceano, passando e
parando por todo lugar, até definir minha própria rota: as rádios cariocas
Jornal do Brasil, com programação mista, do clássico ao bom popular, e a Rádio
MEC, só com clássicos;
Era época dos
militares. General Médici criou um programa radiofônico semanal só para a velha
canção brasileira — já que a nova gostava de contrariá-lo... —, apresentado por
Paulo Tapajós. Não perdi uma única transmissão (como também não perdia os
televisivos Concertos para a
juventude, levado ao ar nos domingos pela manhã, em rede nacional,
apresentado pelo compositor Marlos Nobre).
O problema era
a mentalidade nacionalista da ditadura. Se os militares tentavam me prender a
sete chaves na aldeola brasileira, o rádio não tinha
fronteiras: eu levava o barco para as ondas curtas e ia remando, com o ponteiro,
daqui pra ali, passando por Londres, Washington, Paris, Moscou. A rádio de
Moscou era a mais emocionante de todas, pois eu era discretamente de esquerda,
como a maioria dos adolescentes daquela época. Os locutores eram russos que
falavam um curioso português todo torto. Por algum tempo, cheguei a acreditar
nas lorotas vermelhas da rádio de Moscou. Passou depressa, como
resfriado.
Mais que o
rádio, a literatura também falava de um outro mundo lá fora, ao mesmo tempo que iniciava o leitor numa viagem menos
espacial, para dentro da alma. No Brasil do “ame-o ou deixe-o”, os ensaios do
Carpeaux eram antídotos seguros contra o nacionalismo
tupiniquim. Lembro de Jorge Luiz Borges, numa entrevista de jornal, dizendo ser
cidadão do mundo, mais que da Argentina: “Minha pátria é o planeta Terra.” Se o
austríaco defendeu a vida toda a “literatura universal”, Borges foi ainda mais
longe, incluindo nesse conceito autores e obras do Oriente — que Carpeaux lamentava conhecer muito pouco, pois desconhecia as
línguas orientais, e para ele uma literatura era inseparável da língua usada por
seus escritores.
Borges está
morto, Carpeaux está morto. “Essa puta da Bovary vai viver e eu vou morrer como um cão”, disse
Flaubert enquanto agonizava. Pior para o homem Flaubert, e o lamento
profundamente; melhor contudo para os herdeiros, que
somos todos nós: seus livros são passaportes para o país do espírito, que, se
tem fronteira, é só a fronteira da língua.
Não há viagem
como a leitura. Ninguém a defendeu tanto como nosso Carpeaux e nosso vizinho portenho, que escreveu um dia a
mais bela frase sobre o assunto: “Que outros se gabem dos livros que escreveram;
eu me orgulho dos que li”.
29/05/2007. Caducar iremos nós
Como trêmulas
vovós?
Precisando de
bengala
Pra ir do
quarto até a sala?
O tímpano
aparelhado
Pra ouvir o
mais forte brado?
A mais
poderosa lente
Pra só ver um
palmo à frente?
A
cara toda enrugada
Dificultando
a risada?
Ou
será melhor partir
Enquanto
é possível rir?
28/05/2007. Manhã gelada de maio. Quem não tem
torneira térmica, lava o rosto naquela agüinha de acordar defunto, o qual, se
não tem sono profundo, acorda mesmo.
Defunto —
palavra com roupa de fantasma, que a gente usava, na infância, para brincar de
horror, principalmente alongando a vogal nasalizada. Vou atrás da etimologia:
defunctus é
particípio passado de defungor, satisfazer,
desempenhar-se ou cumprir inteiramente uma coisa. Daí o sentido figurado de
pagar dívida, estar quites com alguém e, finalmente, acabar, morrer. Portanto,
morto é o que já pagou o débito da vida, o pecado original.
É preciso
dizer mais? A etimologia é muito mais sabida que os sábios sabões que andam por
aí se chamando de filósofos.
O fim dessa
dívida, porém, não desobriga o defunctus do crediário eterno. É
só o começo da dívida da morte, que continua pelo Hades grego, pelo Orco latino,
pelo Inferno cristão e, no melhor dos casos, pelo Purgatório, plataforma de
embarque para o país sem dívidas: o Paraíso.
Cristo teria
vindo ao mundo para ajudar o homem a saldar a dívida do pecado original, que o
ressentido Marx acreditava poder ser paga aqui mesmo, na sociedade sem classes.
Entre a fantasia cristã e a marxista, acho muito mais criativa a primeira:
obra-prima do desespero humano.
27/05/2007. Epigrama à moda
latina
Abriu livros
pra vencer
Na vida a
brava Luzia;
Já sua irmã
Rosidete
Outras coisinhas
abria.
26/05/2007. Tantos canais de tevê a cabo e
nenhum que preste. Como dizia um velho escritor, televisão é a maravilha da
ciência a serviço da estupidez humana. Parei num canal qualquer: duas belas
moças passeavam num parque e conversavam animadamente, e logo fiquei sabendo que
uma delas era professora universitária, a outra era a repórter e o parque era
parte do campus de um desses supermercados universitários, que vendem diplomas
em suaves parcelas mensais.
Estavam
fantasiadas de putas. A repórter mostrava pelo menos a
metade dos grandes seios e boa parte da enxuta barriguinha. Tinha uma bunda
respeitável, respeitabilidade que só aumentava com as calças justíssimas. A
professora também exibia o que tinha, e não tinha pouca coisa: seios bonitos,
bunda empinada, andar de
potranca.
Falavam umas coisas técnicas, entremeadas
com a gíria do momento, tudo muito mal regido e concordado. Coitada da língua
portuguesa do Paulo Coelho! Nem é preciso falar em Bandeira, Machado, Vieira,
Camões. Se seguissem pelo menos o modelo vernáculo do mago-escritor, estaríamos
muito bem servidos. O diabo é que nosso padrão de fala vem do pessoal da tevê,
que vai bebê-la em Ipanema e Copacabana, depois de produzida em larga escala na
favela da Rocinha.
Nada tenho
contra putas — pelo contrário. Prestaram e continuam
prestando inestimável serviço à espécie dos bípedes solteiros ou mal casados.
Mas sou da época pré-histórica em que professoras ainda se vestiam com
simplicidade, com pudor e, nalguns casos, até com discreta elegância, pois nem
todas eram pobres. Falavam como vestiam; ainda trago nos ouvidos aquele
“dialeto” de normalistas, fluindo como límpido regato, nem sempre manso, é
verdade, pois havia as neurastênicas, que praticavam beliscões e outras picadas.
Mas antes, mil vezes antes, a fria distância das mestras d’antanho do que essa amizade
artificial das nossas “tias” moderninhas e emputecidas.
25/05/2007. Nunca o mundo esteve tão efeminado.
Prova disto é o desprezo cada vez maior por aquelas coisinhas ditas espirituais,
mais elevadas.
24/05/2007. Pátria pode ser muitas coisas: um
bom clima, a língua que o cidadão usa, um passado
histórico, científico ou artístico que ele respeita, um presente que lhe oferece
boas oportunidades, concidadãos que cumprem as regras do jogo
civil.
Patriotismo é
o sentimento de tudo isso, elevado à máxima potência por efeito de marketing
nacionalista.
Também faz
parte da idéia de pátria a sedução do exílio, e
confesso que só não deixo o país por comodismo profissional. Meu verdadeiro país
é São Paulo, cada vez mais inabitável. O que é o Brasil? É um continente e, como
todos os continentes, abstratos demais. Não vejo diferença significativa entre a
Paraíba e a Bolívia, tanto no que possuem de estranho como de familiar. A guarânia e o tango me soam tão próximos como o choro ou a
modinha. Como próximos estão de mim o fox e a
tarantela, pois freqüento salas de cinema desde moleque.
— Estamos,
aqui, no estado da Mogiana, que compreende a parte
paulista e a parte mineira servidas pela antiga Estrada de Ferro da Mogiana.
Antonio
Candido, que foi criado
O melhor clima
do continente brasileiro, e talvez do mundo, está ali. No fundo, do que mais
precisa uma pátria?
23/05/2007. Deus
disse a Adão e Eva, lá no começo de tudo:
—
Multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a.
Como
bons filhos, eles obedeceram: multiplicaram-se, a terra ficou cheia e
devidamente submetida. Deu no que deu: ônibus superlotado, com vazamento de gás
e efeito estufa, dirigido por bêbados. O Senhor, que conhecia o futuro, sabia
que daria no que deu e, mesmo assim, deixou acontecer. É a melhor prova de que
Deus queria mesmo brincar com a espécie dos bípedes
calçados.
Se
Ele estivesse bem intencionado, teria dado outra ordem aos recém banidos do
Éden:
—
Fazei, no máximo, dois filhos. Não é preciso encher toda a terra, nem
dominá-la.
Bastavam
Caim e Abel, suficientes para dar ritmo ao mundo. E,
aí sim, castigo feio se não obedecessem: pestes, dilúvios, furacões. Não
faltaria oportunidade para usar a divina palmatória.
22/05/2007. Acredito, cada vez mais, que a
poesia concreta perdeu a oportunidade de ser um dos mais divertidos movimentos
da nossa história literária: se tivesse havido humor, no lugar de toda aquela
soberba pregação revolucionária. O que podia ser uma brincadeira saudável, acabou em religião vanguardista, com direito até a decálogo
e inquisição.
21/05/2007. Por que Deus tomou a divina
providência de criar o universo exatamente naquele momento, e não oitocentos
quatrilhões de milênios antes, ou oitocentos quatrilhões de milênios depois? Se tivéssemos mesmo de
existir, faria alguma diferença? O que fez Ele na eternidade anterior? Vinha de
outras experiências de criação, bem ou mal sucedidas? Estava cansado do absoluto
e quis brincar com o relativo? Ou Deus simplesmente quis, e estamos
conversados?
Nunca
estaremos conversados. Tudo ainda está por ser dito. Gostaria muito de ouvir
Dele uma explicação pessoal, não de teólogos, filósofos ou astrofísicos. Mas
acho que seria pedir demais, coisa de protestante, que queria linha direta com o
Criador: o primeiro fonema da resposta de Deus já me arrebentaria os tímpanos.
Ganho mais se
me recolher, humildemente, à minha insignificância, e me contentar com
perguntas. Já não é um privilégio nascer na espécie dos bípedes curiosos? Mais
vale uma pergunta inteligente que uma resposta idiota, diria mestre
Acácio.
Então, pra
terminar, mais algumas perguntinhas inteligentes: Deus já pensou em suicídio? O
badalado Nietzsche será o último profeta de Deus? Em vista do que anda acontecendo com uma de suas presumíveis obras-primas, a
Terra, será que Deus, imitando Santos Dumont, não anda seriamente pensando em
meter um balaço de canhão na testa?
20/05/2007. Fala-se muito no fim do mundo. Será
que já não acabou e só esqueceram de avisar?
Quando o
telejornal faz uma tomada de sala de aula, pra mostrar trinta alunos de fone no
ouvido e escutando rock no último volume, sou obrigado a concluir, serenamente,
sem nenhum impulso apocalíptico, que o mundo já acabou: o meu mundo, pelo
menos.
Meu mundo
tinha muitos, inumeráveis defeitos. Não importa se era melhor ou pior do que
este que está começando (no fundo, acho mesmo que todos os mundos se equivalem e
estão, mais cedo ou mais tarde, condenados a acabar).
Lembro de um
engraçado professor estrangeiro, vindo de outro mundo, que morava
— Assis, fim
de mondo!
Fim de mundo
parece mais um conceito subjetivo, muitas vezes tingido de cores religiosas,
militares ou ecológicas. Não é isso mesmo que acontece, quando digo que meu
mundo caiu, como dizia uma canção do outro mundo? Só sei que sou obrigado a me
adaptar ao atual, pois o mundo pode acabar antes da vida.
19/05/2007. Houve época em que era conveniente,
ao político de esquerda que quisesse se eleger, acomodar-se ao discurso da
direita. Hoje, é o político de direita que precisa adotar os chavões da
esquerda, se não quiser naufragar.
18/05/2007. É
tempo dos invasores.
Buliçosos
e brilhantes,
Vêm
de planetas distantes
Com
seus discos voadores.
É
tempo dos invasores.
Bem
falantes, bem vestidos,
Vêm
em bandos coloridos
Na
luz dos televisores.
É
tempo dos invasores.
Mandam
do lado de lá,
Disfarçada,
a bomba H
Dentro
de um maço de flores.
É
tempo dos invasores.
Para
os narizes e ouvidos,
Os
mais nocivos odores,
Os
mais perversos ruídos.
É
tempo dos invasores.
Vêm
chegando aos borbotões,
Carros,
navios, aviões,
Com
todos os seus motores.
É
tempo dos invasores.
Atacam
por telefones,
Microsistems,
microfones
E
liquidificadores.
É
tempo dos invasores.
17/05/2007. Tempos atrás, o tio Paulinho, que
também era meu primo e também ele descendente de mineiros, me contou uma boa
piada contra Minas. O sujeito chegou
na banca de revistas e pediu um “Estadão atrasado” (o jornal O Estado de São Paulo). O dono da banca
trouxe-lhe um mapa de Minas.
É uma pena que
Minas esteja se desenvolvendo da pior maneira, como
parece ser destino da espécie. A poesia mais autêntica é incompatível com esse
progresso tecnológico, que é um fim em si mesmo e, provavelmente, o fim de si
mesmo e de todos nós; um moderno que não respeita o “eterno”, eterno no sentido
daquelas coisas mais duráveis do mundo, que existiram na época das cavernas e
vão continuar existindo na época dos robôs. Uma dessas verdades “eternas”, que
os homens mais sábios nunca contestaram, é a que bota o homem no seu devido
lugar: “bicho da terra tão pequeno”, na fórmula perfeita de Camões.
16/05/2007. Nossa futura moradia não será nada
confortável: abafada, escura, chão de terra. Que importa? Seremos pessoas muito
simples, muito humildes...
15/05/2007. Minas, com tanta
história para contar, sempre atraiu forasteiros. Dos estrangeiros, é
preciso mencionar o francês Georges Bernanos, o romancista cristão do Diário de um pároco de aldeia e Sob o sol de Satã, que durante a segunda
guerra morou em Barbacena, na fazenda Santa Cruz das Almas. De volta à França,
morreria alguns anos depois, em 1948.
Otto Maria
Carpeaux, que veio e não saiu mais do Brasil, também
foi fisgado por Minas, sobretudo Ouro Preto, que lembrava-lhe outras de seu país, nos Alpes austríacos, com
passado idêntico na economia e nas artes. Escreveu vários ensaios sobre Ouro
Preto em particular e os mineiros em geral.
Emeric Marcier,
pintor romeno também fugido da guerra, também veio parar em Minas. “Veder Minas e poi morire”, deve ter pensado Marcier,
pois ali permaneceu para sempre, com ocasionais viagens à
Europa.
Dos
brasileiros que gostaram de Minas, é preciso começar com Manuel Bandeira, que
escreveu vários poemas e crônicas de assunto mineiro, mas
sobretudo um belo Guia de Ouro
Preto, ilustrado com bonitos bicos-de-penas de
Luís Jardim. Anda esgotado há muito tempo; merece reedição de luxo.
Marques Rebelo
publicou um livro sobre Minas, no início dos anos quarenta: Cenas da vida brasileira. São pequenas
notas de viagem — bem humoradas ou líricas — sobre as cidades que visitava pelo
interior mineiro, em férias ou como inspetor do ensino público. Tem contos de
ambientação mineira. O protagonista de seu romance-diário, à clef, O espelho partido, faz todo ano uma
viagem de férias a pequena cidade da Zona da Mata,
presumivelmente Cataguases, hospedado pelo amigo
Francisco Amaro (pseudônimo de Francisco Inácio Peixoto, poeta e contista do
Grupo Verde).
Cornélio Pena,
embora fluminense, ambientou boa parte de sua ficção —
Fronteira, Dois romances de Nico Horta e Repouso — nas cidades mortas de Minas e
pode ser considerado meio mineiro. Outro grande amigo de Minas foi Alceu de
Amoroso Lima, que publicou dois livros sobre a condição mineira: Voz de Minas e Manhãs de São Lourenço. Mário de Andrade
escreveu ensaio pioneiro sobre Aleijadinho, em 1928. De Cecília Meirelles é o
poema Romanceiro da Inconfidência.
Ribeiro Couto, que foi promotor no interior de Minas, tem romances e vários
contos com ambientação mineira (O largo
da matriz, Cabocla, Prima Belinha). Antônio Callado
ambientou em Congonhas do Campo o romance A madona de cedro, que seria depois
filmado.
Em 1944, o
então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, convidou um pintor
carioca para criar a Escola Municipal de Belas Artes, mais conhecida por Escola
do Parque. O carioca era por Alberto da Veiga Guignard, carioca de tal modo
radicado em Minas, e com Minas identificado, que acabou
passando por mineiro. O mesmo Juscelino traria dois forasteiros modernosos para cuidar da cenografia do parque da Pampulha:
Oscar Niemeyer, especialista em discos voadores, e Cândido Portinari, que em boa
parte de sua obra sacrificou-se ao cubismo.
Minas, boa de
bola na canção popular — Joubert de Carvalho, Ari
Barroso, Ataulfo Alves, Hervê Cordovil, Geraldo Pereira, Lúcio Alves, Renato Andrade, Luís
Cláudio —, não tem um compositor erudito de projeção nacional, embora o mais
famoso pianista brasileiro da atualidade seja um mineiro, Nelson Freire, famoso
no mundo todo. Mas um compositor paulista, Camargo Guarnieri, compôs uma bela
peça orquestral para e sobre Minas: Suíte
Vila Rica, baseada em boa parte no som folclórico mineiro,
originalmente escrita para um filme e depois desenvolvida com autonomia.
Foi dedicada a um mineiro, o médico Clóvis Salgado, que
foi ministro da educação de Juscelino Kubitschek e empregou Guarnieri como
assessor cultural.
Boas frases
sobre Minas e mineiros foram cunhadas por forasteiros. Millor Fernandes, sobre a famosa reserva dos mineiros:
“Mineiro nunca é o que parece, sobretudo quando parece o que é.” E Nelson
Rodrigues, sobre o individualismo do montanhês: “Mineiro só é solidário no
câncer”.
14/05/2007. Falar do século XX literário, em
Minas, é quase falar da literatura brasileira contemporânea. É preciso iniciar
com dois pré-modernistas mineiros, de tendências diferentes, mas ambos
valorizando o ambiente provinciano: Afonso Arinos, autor dos contos
regionalistas de Pelo sertão, e
Godofredo Rangel, cuja Vida ociosa
tem algo de Machado no estilo e na visão de mundo. Rangel, juiz enfiado numa
pequena cidade mineira, se correspondeu a vida toda com
o amigo Monteiro Lobato, que publicou sua parte da correspondência no volume A barca de Gleyre, um dos livros preferidos de Guimarães Roas. Por
outro lado, infelizmente, os herdeiros do juiz não autorizam a publicação de
suas cartas.
O modernismo
mineiro surge em torno de A revista
(1925), com o puxador de fila Drummond: Pedro Nava
que, depois de velho, abafaria com suas memórias; o bom poeta intimista Emílio
Moura, que ainda espera por uma merecida veiculação nacional; Abgar Renault, cujas poesias completas, no fim da vida,
surpreenderiam os leitores já céticos da poesia brasileira; os belos contos de
Aníbal Machado, e de Rodrigo Melo Franco de Andrade, que publicaria um único livros de contos em toda a vida, Velórios, e depois iria cuidar do
patrimônio histórico mineiro; João Alphonsus, filho do “pobre Alphonsus”, que
tanto no romance, Totônio Pacheco, Rola-moça, como no conto, Eis a noite, Pesca da baleia, não envergonha sua
ascendência; e Henriqueta Lisboa, outra boa poeta que
não é lida como merece.
Ainda na mesma
época, aparece um grupo em torno da revista Verde, de Cataguases, com o curioso Rosário Fusco, que começa a ser
redescoberto; Guilhermino César, que depois se mudaria
para o sul, ajudaria na divulgação de Qorpo Santo e
escreveria uma história da literatura riograndense;
Ascânio Lopes, morto prematuramente; e Francisco
Inácio Peixoto, homem de letras que também era rico e contratou serviços de
Oscar Niemeyer e Portinari, publicando algumas obras, entre as quais um relato
de viagem à antiga URSS e um volume de contos no fim da vida, Chamada geral, pela Civilização
Brasileira.
Outros nomes,
a partir dos anos Trinta: Lúcio Cardoso e Ciro dos Anjos, na prosa de ficção; o
ferino Eduardo Frieiro que, na verdade, começaria
antes, se destacando sobretudo no ensaio, apesar de ter
praticado romances; os dois Murilos da poesia, o
Murilo Araújo, meio modernista, meio simbolista, e o Murilo Mendes; Cristiano
Martins no ensaio e na tradução (traduziu toda a Divina comédia; seus decassílabos e
terzas rimas abrasileiraram definitivamente Dante),
depois de um livro de poemas na juventude bastante elogiado por Mário de
Andrade.
Depois de
Trinta, Minas ainda não estava contente e deu Guimarães
Rosa, Murilo Rubião, Mário Palmério e Campos de
Carvalho na prosa; Alphonsus de Guimarães Filho, Bueno de Rivera e Dantas Mota, na poesia. E, de lambujem, o famoso
“quarteto mineiro”: Fernando Sabino e Otto Lara Resende na ficção e na crônica;
Paulo Mendes Campos na poesia e na crônica, e Hélio Pellegrino na poesia. Autran Dourado também é contemporâneo deles e não é de se
jogar fora.
Poetas e
prosadores mineiros se afirmariam nacionalmente depois de 60: Rubem Fonseca,
Luiz Vilela, Sérgio Santana, Afonso de Romano Santana, Afonso Ávila, Roberto
Drummond, Oswaldo França Junior, Adélia Prado e, na literatura infantil, Lúcia
Machado de Almeida, Ziraldo. Isso, sem esquecer os críticos mineiros: o também
filólogo Aires da Mata Machado, o já mencionado Eduardo Frieiro, Fábio Lucas, Sabato Magaldi, Leo Gilson Ribeiro,
Antonio Candido (que por acidente nasceu no Rio, mas é de família mineira,
cresceu em Minas e mineiro é), Valtensir Dutra (que em
1956 publicou com o pernambucano Fausto Cunha uma Biografia crítica das letras mineiras) e
Lúcia Miguel Pereira, que fez romances, mas é lembrada
sobretudo pela biografia de Machado, a história literária do período realista e
pelo acidente aéreo que a matou, em 1959, junto com o marido Octávio Tarquínio
de Souza.
13/05/2007. A ciência fez depressa
O homem mudar
de senhor:
De escravo da
Natureza
A serviçal do
Motor.
12/05/2007. Minha visão de Minas não é a do
mineiro, nem do especialista em literatura ou arte mineira. É de alguém que
nasceu e viveu boa parte da vida na beiradinha daquele
estado, no lado paulista da Mogiana.
Do ponto mais
alto da minha cidade, a
Em nada
influiu nessa atração uma certa birra dos meus
conterrâneos contra os mineiros, pois ainda era muito viva na memória local a
guerra civil com os mineiros, em 1932, os quais, quando entraram em Batatais,
deixou todo mundo assustado. A fazenda do bisavô, que tinha uma casa grande,
construída pelo antepassado mineiro que ali chegou por volta de 1850, recebeu
todos os parentes da cidade, espavoridos com os
inimigos que estavam chegando de fuzil na mão.
Tenho uma
cópia do inventário desse tetravô mineiro, onde estão relacionados, com a mesma
indiferença, enxadas e escravos. Quando era criança, a fazenda já estava divida
em vários sítios que pertenciam ao bisavô e aos tios-bisavôs empobrecidos. Por
sorte, meu bisavô era o primogênito e herdou o pedaço da fazenda com a casa e a
senzala, que todo mês eu visitava.
Eu não sabia
que estava tendo aulas de uma parte importante da história do Brasil, ao vivo e
Havia um
misterioso cômodo, sempre trancado, o único em que não consegui entrar; e que
depois, bem mais tarde, fiquei sabendo o que era: era a sala dos livros e da
papelada da antiga fazenda. Que livros e que papéis eram esses, jamais vou
saber, pois o tio que ficou com a casa e o sítio, mais preocupado com os pés de
café ao redor, um belo dia recebeu o espírito do barbeiro ou do vigário do Dom
Quixote e botou fogo em tudo.
Minha Minas sempre foi mais mítica que
real.
11/05/2007. Minas, o maior estado do Sudeste,
7% do país, tem hoje dezoito milhões de habitantes, mais ou menos a população da
Grande São Paulo. Depois dos quatro milhões que Belo Horizonte retém em si e à
sua volta, o resto está esparsamente distribuído por mais de oitocentas cidades.
É o estado que mais cidades tem, algumas olhando para
picos ambiciosos e cheias de cavernas profundas. Escondem-se entre montanhas,
nos vales dos rios, ou se exibem tranqüilas nos campos ondulados, cortadas por
rios de águas límpidas, com milhares de cachoeiras. Há muito mato e represas
imensas, como a de Furnas, que são o mar de Minas, com praias que enganam bem os
praiano-maníacos.
Quatorze
milhões de pessoas espalhadas por 7% do Brasil: ainda há muitos milhares de
quilômetros quadrados de vazio separando os mineiros, uma boa parte deles com
montanhas. Viria daí o caráter arredio e desconfiado do
mineiro?
Minas está mais ou menos o centro do país: é
uma espécie de resumo do Brasil. Pelo oeste, faz fronteira com Mato-Grosso e com
este se parece. A norte, com Goiás e Bahia — a Minas
nordestina. Ao sul, encosta no país do progresso: é a Minas desenvolvida,
ligando Belo Horizonte a São Paulo e ao Rio que, junto com o Espírito Santo, a
impedem de ver o Atlântico e ter sua própria orla
marítima. Contentou-se por muito tempo com Mar de Espanha, cidadezinha da Zona
da Mata, antes da construção das grandes represas de Furnas e Três Marias.
Caminhoneiros
que vão de norte a sul e de leste a oeste passam obrigatoriamente por Minas. Mas
longe das grandes estradas que ligam Belo Horizonte ao Rio, a São Paulo, a
Vitória e ao Centro-Oeste — e longe dos vários aeroportos espalhados pelo
interior e capital —, ainda há muitas cidades mineiras solitárias, de algum modo
longe do “barulho contemporâneo”, pra roubar uma expressão de Saul Bellow. A Minas que mais aprecio é
a das montanhas, sobretudo das pequenas cidades perdidas nas montanhas, de algum
modo ainda defendidas daquele Barulho Contemporâneo.
Minas será
mesmo um estado? Ou está mais pra país, reunindo regiões tão diferentes como o
Triângulo Mineiro e o Vale do Jequitinhonha, o sul apaulistado e o norte bem baiano? Eu até arriscaria a falar
em cidades-estados, orgulhosas de sua solidão, defendidas pela muralha das
montanhas ou pelas distâncias inabitadas. Talvez viesse daí o espírito municipalista do mineiro, quase sempre muito apegado à sua
região.
10/05/2007. Botei na vitrola Lobo de Mesquita,
Antífona de Nossa Senhora (Salve
Rainha), com coro e orquestra barroca Armonico Tributo (instrumentos de época), com
direção de Edmundo Hora. Prefiro uma gravação dos anos 60 com a maestra Cléophe Person de Matos, com coro e orquestra sinfônica
convencional.
Faz tempo que
não volto a Ouro Preto. Não esqueço a primeira viagem, em 1974: sobretudo os
sinos que vi e ouvi do adro da São Francisco de Assis, no fim da tarde, numa
outra igreja mais abaixo e da qual só via o telhado. O sineiro ia de uma torre a
outra, pelo próprio telhado. Um som impressionante, que me deixou numa profunda
desolação, com uma puta vontade de dar o fora dali: o
rapazinho paulista de dezoito anos ainda não estava preparado para os fantasmas
de Ouro Preto.
Tiro da
estante o Guia de Ouro Preto, do
poeta Bandeira. Folheio aqui e ali. A prosa de Bandeira é uma delícia, os bicos-de-pena de Luís Jardim revelam a cidade melhor que
qualquer fotografia digital. Paro no capítulo sobre os viajantes estrangeiros.
“Só mesmo o amor do ouro poderia ter levantado uma cidade em tal lugar”, notou
John Luccock, viajante inglês, quando por ali passou
no começo do século XIX e se espantou com aquelas casas, edifícios públicos,
pontes, chafarizes, pinturas, esculturas e igrejas. Otto Maria Carpeaux, fã incondicional da cidade, jura que nunca viu
integração maior de arquitetura e natureza.
A inauguração
de Belo Horizonte, em 1897, substituindo Ouro Preto,
foi até providencial: de algum modo preservou a velha Vila Rica que,
mesmo saqueada por gerações sucessivas em seus tesouros artísticos, continuou
sendo a cidade simpática de sempre, milagrosamente encravada nas
montanhas.
Ouro Preto
está no começo da literatura brasileira, a primeira vez em que apareceram, ao
mesmo tempo, no mesmo lugar, escritores e leitores para as suas obras. É o
início da nossa civilização urbana, se é que temos isso. José Basílio da Gama,
Frei Santa Rita Durão, Tomás A. Gonzaga e Cláudio M. da Costa vêm das minas
ouropretenses e cercanias, das quais também saem as
artes plásticas barrocas e rococós do Aleijadinho e do Mestre Athaíde, a música de Lobo de Mesquita. O maior de todos
eles, sem dúvida, é o Aleijadinho.
A exploração
do ouro superficial, sem tecnologia para buscar o mais profundo (Portugal queria
só o enriquecimento rápido), fez o ciclo da mineração não passar de um século. E
Ouro Preto, na decadência, não deu mais que um Bernardo Guimarães (que no
romance O seminarista, de 1972, fala
dos profetas de Aleijadinho com mais incompreensão que interesse). Alguns
intelectuais que fugiram da ditadura de Floriano Peixoto, em 1893, e se
esconderam
O realista
Júlio Ribeiro, autor do romance A
carne, nasceu ali perto, em Sabará, mas mudou-se para São Paulo. Por falar
em realismo, tenho uma tese muito particular: defendo que Machado de Assis,
apesar de nascido no Rio, é muito mais mineiro que carioca. Não foram poucas
as vezes em que ambientou histórias ou cenas nalgum
lugar de Minas. Como exemplo, o pungente final do Quincas Borba em
Barbacena.
O poeta
parnasiano Augusto de Lima e o cronista Antonio Torres são mineiros do mesmo
período, mas o fato mais importante da decadência mineira foi Alphonsus de
Guimarães, “Pobre Alphonsus, pobre Alphonsus!”, um dos maiores poetas do Brasil,
aquela da Ismália que, quando enlouqueceu, pôs-se na
torre a sonhar: “Viu uma lua no céu/, Viu outra lua no mar.” Era sobrinho-neto
de Bernardo Guimarães, por cuja filha, Constanza, se
apaixonou.
Quando os
modernistas paulistas estiveram
09/05/2007. Tradução literária, na reta final,
pode ser traição. Mas antes de tudo é um jogo, uma modalidade do joguinho
folclórico “o que é, o que é?”, uma brincadeira com as
charadas da outra língua. Um jogo em que pelo menos duas cartas são necessárias:
inteligência e criatividade.
08/05/2007. Pra construir seus modelinhos
analíticos, a teoria literária vive correndo atrás da literatura, que sempre
escapa — ilesa! — por uma porta que ela mesma inventa. No fundo, essa
perseguição da teoria é que é uma forma disfarçada de escape — fuga do
misterioso fascínio da literatura.
07/05/2007. Os verdadeiros artistas do
trânsito
Mas apesar dos
motoristas,
O dia todo,
todo dia,
Procurarem me
assassinar
Quando
atravesso as nossas pistas
(Moisés, isso
é que é travessia!),
Até agora pude
escapar...
Nós é que
somos os artistas.
06/05/2007. Sei o que é o tempo, meu caro santo
Agostinho. Mas quando vou botá-lo em prática, sempre perco a
hora.
05/05/2007. Bebês são filósofos hedonistas:
reagem no mesmo diapasão — em latim vulgar, com o mesmo berro desgraçado — a
qualquer medida de sofrimento, desde a inevitabilidade de sair da banheira
gostosa à mais pungente dor de
barriga.
04/05/2007. Vivia
deprimido com a felicidade alheia. Hoje, curado, vive feliz com a depressão dos
outros.
03/05/2007. Quando boto o olho nalguma coisa
escrita pela universidade, setor das letrinhas, me
sinto ilegalmente no estrangeiro, migrante sem passaporte sujeito a
sumária deportação.
Presunção à
parte, bom mesmo é ficar na terra da gente — no país dos Sainte-Beuve, dos Francesco De
Sanctis, dos Miguel de Unamuno, dos Edmund Wilson, dos Ernst R. Curtius, dos Otto M.
Carpeaux. A “terra da gente”, embora aparentemente
falando alemão, inglês, italiano, francês, espanhol, no fundo fala uma língua
só, uma língua inteligível e civil, anterior à torre de Babel da crítica
acadêmica.
02/05/2007. Nunca fui com as idéias políticas
de Noam Chomsky, nem perdi muito tempo com sua gramática
gerativo-transformacional, mas não há como discordar do que ele disse em
entrevista recente, sobre ciência e literatura:
“...pouco se sabe sobre o ser humano,
sob qualquer ponto de vista, como o científico. Os assuntos humanos são
complexos demais para que a ciência seja capaz de dizer muito sobre eles. As
ciências sociais são úteis, mas não podem penetrar muito
fundo.
O outro lado
da questão é que a literatura e as artes freqüentemente oferecem insights
penetrantes sobre como é o ser humano, como ele se comporta, como são suas
inter-relações, que tipo de problemas ele enfrenta e assim por diante.
Mas esses
insights
não provam nada, só nos revelam coisas que podemos entender intuitivamente tão
logo as percebamos. É por isso que eles são freqüentemente tão
pungentes e têm tanto efeito sobre nós.”
01/05/2007. Dos diálogos da sogra e da
nora.
Sogra: — O trabalho não merece um dia de
festa, mas de pranto. Não só pelo trabalho injusto, muitas vezes escravo, mas
pelo trabalho em si: a condição do trabalho.
Nora (guardando o seio e fechando a
blusa): — Todas as
espécies trabalham. Sem trabalho não há vida. Por falar em condição, o trabalho
rotineiro é uma boa forma de distrair a gente da condição humana. Quando não é
sub-humano, chega ser divertissement, como diria
Pascal.
Sogra: — Eu preferia comemorar a preguiça.
Ou melhor, a “boa preguiça” de que fala o Suassuna,
que no fundo vem a ser o velho ócio criativo.
Nora (falando baixinho pra não
acordar o bebê): —
Quanta gente dando duro pro ócio criativo de tão poucos!
Sogra: — Que raciocínio mais
pequeno-burguês! O deus da história sempre dividiu a humanidade em duas metades
desiguais: uma bem grandona, com as pessoas que
nasceram pro trabalho, e outra, minoria, com os “privilegiados” do ócio
criativo. Sem este, não teria havido as religiões, os filósofos, as obras de
arte, o conhecimento científico.
Nora (falando baixinho pra não
acordar o bebê): —
Que enfoque mais elitista!
Sogra: — Na minha utópica divisão da atividades humanas, a maioria se ocuparia do “bom
trabalho”, completamente expurgado da exploração; e, sem a menor culpa, a
minoria criativa se entregaria à “boa preguiça”, que sempre esteve,
paradoxalmente, a serviço da primeira. Numa perspectiva histórica, a “boa
preguiça” tem mourejado bem mais que o trabalho, justo ou
injusto.