8 de
outubro de 2005. O
Deus cristão não tem mais o controle do mundo ocidental, do mesmo modo como Alá
faz com o Islã. Voltará a ter um dia? Se é verdade, como disse Heidegger, que só
um Deus pode nos salvar, o que poderia fazê-Lo reaparecer no mundo? O
boca-a-boca convicto dos crentes? Uma catástrofe de dimensão
mundial?
Sejamos
serenamente apocalípticos. Só uma catástrofe, talvez, possa salvar a humanidade.
Uma catástrofe hollywoodiana, de dimensão planetária. Uma espécie de cruel
sabedoria da história, mas necessária para um novo recomeço. Só assim para o
homem aprender a lidar com a Técnica. O diabo é torcer para uma hecatombe,
sabendo que ela vai colher nas suas garras monstruosas a nossa própria
descendência...
A
Técnica, astuta como é, pode impedir que tudo isso aconteça, mantendo o mundo no
ritmo atual: um mergulho cada vez mais fundo no mar das máquinas, com o
desaparecimento da alma na cinzenta realidade produzida pela inteligência
científica.
Se
fosse o preço a pagar e pudéssemos escolher — o terrível final ou ficar como
está —, como decidiríamos?
9 de
outubro de 2005.
AVE-MARIA
Vendo
os erros, vendo os danos
Da
inumana humanidade,
Tende
do mundo piedade,
Ó
Senhora dos humanos.
(Se
já não creio em Jesus,
Nela
inda busco conforto:
Dolorosa
Mãe do morto
Compassiva
aos pés da cruz.)
Ó
Senhora das senhoras,
Rezai
por nós, terna e forte,
Na
mais humana das horas,
O
instante da humana morte.
Que,
depois de só pecar,
Nada
mais além de prece
A
humanidade merece.
Ninguém
pode nos salvar.
10 de
outubro de 2005.
Os
mortos, que nos olham de cima e não tem o que fazer senão olhar as pessoas,
ficam zonzos com tanto vaivém no mundo. As pessoas não se cansam de ir e vir. As
coisas são fabricadas cada vez mais longe, e o mundo está cada menor. O destino
do mundo é desaparecer de tanto mundo. Enquanto isso, os mortos se divertem
tristemente. Eles não querem mais voltar ao mundo: a morte deixou sábios os
mortos. O mundo ficou muito cheio de coisas: estamos mergulhados até o pescoço
nas coisas do mundo. Só temos tempo para pensar nas coisas. Ou são as coisas que
pensam em nós e por nós? Os mortos olham as coisas, as pessoas e o infinito. Os
mortos sorriem com triste ironia. Em geral os mortos vivem tristes, pois não
podem desviar os vivos do mau caminho. Os mortos sabem muito mais que os vivos,
porque eles existem nos três tempos do Tempo. Quem está mais perto do infinito,
sempre tem algo importante a dizer.
14 de outubro de
2005. Nove
horas. Manhãs de sábado foram feitas para viajar a Minas. Quando entro na
Mantiqueira, já me sinto outro. Ao chegar a Pocinhos, não sou mais o
mesmo, já sou efetivamente outro (deixei o mesmo
esperando-me
14 de
outubro de 2005. Três
da tarde. Quarto dezenove do Grande Hotel, em Pocinhos do Rio Verde. Leio com a
janela aberta para a montanha.
Confesso que
gostaria de ler mais do que escrever. Acho que acertou na mosca J. L. Borges
quando disse que a leitura é mais civil que a escrita, sempre com mais guerra
que paz.
Presumo que
logo será, mas ainda não é possível. Para indivíduos como eu, que não afinam
muito com o mundo-como-ele-é e descobriram na literatura uma via para o outro
mundo, sem maiúsculas sobrenaturais, a escrita virou vício — vício impune? — e é
quase mais importante que a própria vida, que só tem sentido quando iluminada
pela literatura. A literatura ainda é a melhor garantia de que, além da
“agitação feroz e sem finalidade” do mundo prático, há uma outra faixa de
realidade por onde a mente pode circular mais tranqüila.
Unamuno dizia
que a falta de imaginação é a grande responsável pela pobreza moral e material
do mundo. O mundo insiste em enjeitar a imaginação? Dou as costas ao mundo e vou
viver com a enjeitada
14 de
outubro de 2005. Seis
da tarde. Cai uma chuvinha rala no crepúsculo. De meu quarto, no hotel, avisto
um pedaço verde-negro da Mantiqueira. O povoado é o mais tranqüilo do mundo. Vir
a Minas, para ouvir um sabiá num pé de serra, não é só passeio: é destino. E
vejo, pela primeira vez na vida, num galho da paineira aqui ao lado, uma casa de
joão-de-barro com varanda.
14 de
outubro de 2005. Dez
da noite. Volto de um giro sem medo pelas ruas desertas de gente. Mas há as
cigarras. Os grilos. Os sapos. Ouço um pássaro noturno. Pocinhos tem quinhentos
habitantes: em linguagem demográfica, é o número do
sossego.
15 de
outubro de 2005. Sete
da manhã. Olhar para estas montanhas e aspirar com força a certeza de
isolamento, isolamento feliz de quem não está sozinho, mas cercado de bons
espíritos invisíveis, sabendo que o mundo chato ficou do lado de lá da
Mantiqueira — na bagunça das máquinas e da superpopulação promíscua. É uma
viagem no tempo, à época em que o interior ainda era diferente da
capital.
Gosto
do Grande Hotel. É a terceira vez que volto. O prédio é grande, como diz o nome,
lembrando um colégio de padres do começo do século XX, e é mesmo daí que data
sua construção.
15 de
outubro de 2005. Antes
do almoço. Um balneário agradavelmente decadente, de uma época em que as pessoas
ainda procuravam certas águas (alcalinas, sulfurosas, radiotivas, diz o folheto
do hotel) para cuidar da pele e do intestino.
Venho
cuidar da alma. Hoje, os principais atrativos do lugar são a comida, a paisagem
e o sossego mineiro (não há rodovia importante por perto). Estamos isolados no
meio das montanhas.
15 de
outubro de 2005. Antes
de entregar a chave do quarto dezenove. Pocinhos é calmo demais para satisfazer
o gosto contemporâneo pelo só-meio-tranqüilo. Voltarei
logo.
24 de outubro de
2005.
Segunda-feira, dez e meia da noite. Começa o programa Roda-Viva, que vai
entrevistar o deputado José Dirceu. Desligo a tevê. Há duas categorias de coisas
nocivas: as que não posso evitar, e as que sim. A imagem e a voz do Maquiavel
caipira do PT está entre estas últimas. É possível evitá-las com um simples
toque de controle remoto. A alma agradece com reverência japonesa.
26 de outubro de
2005. Não há nada
mais inocente que a poesia. E nada mais perigoso. Heidegger, baseado em
Hölderlin.
27 de outubro de
2005. Se, numa
hipótese absurda, tivesse de sair da Suíça e viver no Brasil, quais o livro que
para lá levaria, se só pudesse levar um livro? O manual do meu carro, para
cuidar melhor da única coisa que me permitirá sair de casa naquelas ruas
abomináveis? Uma enciclopédia médica familiar, já que no Brasil a gente deve
ficar doente a toda hora? Um dicionário de inglês, que é a língua mais falada no
país? Talvez levasse o livro de receitas da Carolina Nabuco, filha do seu
Joaquim, que tem o melhor da cozinha nacional: bem alimentado é mais fácil
suportar as doenças, as ruas abomináveis, o inglês.
28 de outubro de
2005. Depois de
aula sobre gêneros literários, um aluno pergunta do qual mais gosto. O escritor
Luiz Vilela, perguntado em entrevista sobre suas preferências em narrativa —
conto, novela, romance —, disse ficar com os três: a loira, a ruiva e a
morena... Além de conto, novela, romance, gosto também de poesia, ensaio,
teatro, memórias, carta, diário. São as fases da lua, mas a lua é uma coisa
só.
29 de outubro de
2005. Desci ao
quintal e passei o resto da tarde arrancando da grama os brotos de capim
braquiária. Na próxima semana terá mais. Quando a gente pensa que está livre
deles, apontam de novo na superfície verde do gramado. É uma tarefa para a vida
inteira: arrancar brotos de braquiária do quintal, da alma, da vida política,
etc.
31 de outubro de 2005. O homem quer poder. A mulher — ser podida.